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O relógio já estava a contar. O Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, tinha estabelecido o prazo de “duas semanas” para decidir se o país se juntava a Israel nos ataques aéreos em território iraniano. A possibilidade de Washington participar na ofensiva estava ainda em cima de mesa, mas a controvérsia era muita, nos EUA e entre os próprios MAGA. “Talvez o faça, talvez não”, deixou no ar Trump. Depois voltou a admitir fazê-lo. A seguir insistiu na via diplomática. Mas o que seriam duas semanas, passaram a dois dias. O que acontece agora que os EUA se juntaram mesmo a Israel e atacaram o Irão?
Existem várias questões sobre o ataque dos Estados Unidos ao Irão e se ficará por aqui. Num assunto em que o Partido Republicano não está unido, há dúvidas sobre se os alvos da presidência norte-americana serão apenas nucleares, se haverá também militares, ou até se os ataques terão ainda como como objetivo terminar com o regime dos ayatollahs. Donald Trump já afirmou que sabe onde ele está mas que os EUA não o querem matar. Para já. Outro grande ponto de interrogação é perceber como será a retaliação de Teerão, que já deixou vários avisos sobre o que poderia acontecer caso um “país terceiro” se juntasse a Israel.
Dos Emirados Árabes Unidos ao Iraque, os Estados Unidos têm várias bases militares espalhadas no Médio Oriente, que podem ser alvo de retaliação iraniana. Após a intervenção norte-americana, Teerão pode também provocar o encerramento do Estreito de Ormuz, o que gerará a disrupção das redes de comércio global, nomeadamente no transporte de petróleo.
▲ A presença militar norte-americana no Médio Oriente
Anadolu via Getty Images
A luz verde aos planos, mas o prazo de duas semanas. Quando Trump decidiu atacar o Irão?
Israel sempre contou com a participação norte-americana no conflito. Segundo avançou fonte israelita ao Times of Israel, Telavive aguardava que o seu maior aliado ajudasse a bombardear alvos militares e nucleares em território iraniano. No entanto, o Estado judaico evitou pressionar Washington, ainda que, para destruir certos alvos no Irão, necessitasse da sua ajuda. Agora, Israel disse que esteve sempre a par dos planos dos EUA.
Donald Trump disse que queria uma “vitória total” e não um cessar-fogo, mas nunca esclareceu de que forma é que isso iria acontecer — mencionando apenas que Teerão nunca deveria ter uma bomba nuclear. O Partido Republicano estava dividido entre o desejo de derrotar um regime que sempre foi inimigo dos Estados Unidos e o isolacionismo America First defendido pela vertente MAGA .
O Wall Street Journal avançou que Donald Trump deu luz verde aos planos para atacar o Irão logo na sexta-feira, embora os tenha colocado em stand by até este domingo de madrugada. Por sua vez, a CBS News adiantou que o chefe de Estado se mostrou desde logo inclinado para se juntar a Israel, mas ainda não sabia quando.
▲ Donald Trump deu luz verde aos planos dois dias antes de dar ordem para avançar com os mesmos
LUDOVIC MARIN / POOL/EPA
Esta quinta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, lendo uma “mensagem direta” do Presidente norte-americano, justificou que o prazo estabelecido por Donald Trump se devia ao facto de haver hipótese “de haver negociações substanciais” diplomáticas, entre os Estados Unidos e o Irão, no que concerne ao programa nuclear iraniano. Mas, em simultâneo, a porta-voz também denunciou que Teerão poderia “completar a produção” de uma bomba nuclear em apenas quinze dias.
Dois dias depois desta “mensagem direta”, os Estados Unidos bombardearam alvos nucleares no Irão. Há agora várias dúvidas sobre se o prazo de duas semanas se tratou de uma jogada para apanhar o Irão desprevenido, uma teoria que parece provável à luz dos acontecimentos: o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi informado na sexta-feira de que os EUA se juntariam à operação militar.
Como nota a BBC, a retórica de uma “vitória total” fez com que o Presidente norte-americano tivesse de agir de forma assertiva, não dando margem para recuar. E terá sido também influenciado por Israel e por alguns conselheiros.
A instalação nuclear de Fordow foi o principal alvo?
A CBS referiu também que os ataques dos EUA teriam como principal alvo a central de enriquecimento de urânio a sul de Teerão, Fordow, localizada no interior de uma montanha e enterrada a 90 metros abaixo do solo, algo que acabou por se confirmar. Israel não possui atualmente capacidades militares para a atacar — e precisava da ajuda norte-americana, em concreto as bombas “destruidoras de bunkers” e os bombardeiros B-2, os únicos que conseguem transportar aquele equipamento.
O Presidente norte-americano já tinha abordado diretamente a questão. Aos jornalistas, indicou que os Estados Unidos são os “únicos que têm capacidade” para atacar a central de enriquecimento de urânio Fordow. “Mas isso não significa que o vá fazer. Toda a gente me tem perguntado isso, mas eu ainda não tomei uma decisão”, enfatizou na quarta-feira passada.
▲ Fordow, no Irão
AFP via Getty Images
Em todo o caso, segundo noticiou o jornal Axios, Donald Trump terá perguntado aos seus conselheiros se realmente os Estados Unidos teriam êxito em destruir Fordow. Os dirigentes do Pentágono terão respondido que sim — e o Presidente norte-americano terá ficado convencido. “A bomba destruidora de bunkers vai funcionar. Não é uma questão de capacidade. Temos as capacidades. Mas há um plano maior. Não é apenas largar a bomba e declarar vitória”, clarificou um dirigente norte-americano à Axios.
Este sábado, na primeira mensagem, Donald Trump disse de imediato que o alvo principal, das três centrais bombardeadas, tinha sido Fordow. Depois voltaria a escrever sobre o maior e mais secreto local de enriquecimento de urânio iraniano, que fica no subsolo de uma zona montanhosa. “Fordow desapareceu”, escreveu.
Independentemente de Fordow, Donald Trump nunca manifestou publicamente o desejo de derrubar o regime liderado pelo Líder Supremo. Alguns dirigentes israelitas, como o ministro da Defesa Israel Katz, consideram que o ayatollah “não pode continuar vivo”. Contudo, o Presidente norte-americano terá vetado, de acordo com a Reuters, um plano israelita para matar Ali Khamenei, o que sugere que Washington não equaciona esse cenário.
E o que vale o ataque dos EUA a Fordow e outras infraestruturas nucleares?
O antigo conselheiro de Hillary Clinton, Dennis Ross, colocou a questão da seguinte forma. “Se o Presidente disser que o ataque será apenas para limitar as capacidades nucleares iranianas e os EUA não atacarem outros locais, a guerra ficará contida”, disse ao Politico, acrescentando, não obstante, que se “os Estados Unidos decidirem bombardear áreas mais amplas, talvez com o objetivo de mudar o regime em mente, os líderes do Irão podem sentir que não têm nada a perder e a melhor aposta é fazer os EUA pagarem um preço elevado”.
Jonathan Panikoff, membro do think tank Atlantic Council e que trabalhou nas secretas norte-americanas, frisa ao Politico que depois de os Estados Unidos “bombardearem o Irão, a retaliação é quase certa”. “Mas a intensidade da resposta vai depender dos alvos norte-americanos”, ressalva. “Se for um alvo confinado, como Fordow ou o que resta da infraestrutura nuclear, a resposta do Irão pode ser restrita.” Este cenário é o que parece estar a confirmar-se.
Se os alvos forem limitados, Jonathan Panikoff antecipa que a resposta será idêntica à de 2020, quando os Estados Unidos assassinaram em Bagdade o comandante da força de elite Quds da Guarda Revolucionária, Qasem Soleimani. “Na altura, pensava-se que, se Soleimani fosse assassinado, isso levaria a uma guerra mais ampla [no Médio Oriente]. Isso não aconteceu. O Irão retaliou cinco dias mais tarde”, atacando as bases militares norte-americanas no Iraque — não tendo havido registo de quaisquer baixas.
De qualquer forma, o Líder Supremo nunca precisou como seria a retaliação iraniana; apenas detalhou que será “imediata”. “Os norte-americanos devem saber que qualquer intervenção militar dos EUA vai ser indiscutivelmente acompanhada por danos irresponsáveis”, ameaçou Ali Khamenei, salientando que os danos que os Estados Unidos vão sofrer “serão muito maiores do que qualquer dano que o Irão poderá sofrer”.
Na mensagem ao país, Trump foi muito claro. Ou o Irão “aceita acordos de paz, ou os ataques vão intensificar-se”. Só não disse de que forma ou contra que alvos.
A retaliação iraniana. Pode o Irão atacar bases militares dos EUA?
As ameaças do Líder Supremo são vagas, mas já há uns vislumbres de como pode ser a retaliação iraniana. Segundo o New York Times, baseando-se em relatórios dos serviços de informações norte-americanos, o Irão reposicionou mísseis e outros equipamentos militares para atacar bases norte-americanas no Médio Oriente. Este domingo de manhã, a Guarda Revolucionária Iraniana já veio mandar um recado: as bases são “um ponto de vulnerabilidade”.
Os Estados Unidos têm várias bases militares no Médio Oriente, em países como os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Bahrein, o Kuwait e o Iraque. Washington tem igualmente tropas estacionadas em vários pontos da região.
O Iraque poderia ser o palco da retaliação do Irão, tal como aconteceu em 2020. Cerca de 2.500 militares norte-americanos permanecem principalmente na capital, Bagdade. Neste país, o Irão tem ainda o apoio das milícias xiitas iraquianas, um elemento discreto mas que integra o Eixo de Resistência montado por Teerão no Médio Oriente — e que poderiam criar problemas às tropas dos EUA.
▲ Base militar norte-americana no Qatar
U.S. Air Force photo by Airman 1st Class Kylie Barrow HANDOUT/EPA
Mesmo que não seja no Iraque, a distância é algo que joga a favor do Irão, no caso de se querer vingar contra os Estados Unidos. Como estima o analista militar Abdel Ghafar ao New York Times, levaria apenas entre três a quatro minutos desde o momento em que um míssil é disparado até atingir as bases militares nos países do Golfo Pérsico e em território iraquiano. “Isso dá muito pouco tempo para os sistemas de defesa aéreos. Seria desastroso.”
É certo que os Estados Unidos já se precaveram. Como apurou a BBC, os Estados Unidos retiraram do Médio Oriente cerca de 30 aeronaves e navios, transferindo-os para a Europa.
Quais podem ser outras formas de o Irão retaliar?
A retaliação iraniana pode acontecer de outras maneiras. Como antecipa Dennis Ross, o Irão pode atacar “as instalações petrolíferas” dos aliados dos EUA na região. Ou seja, Teerão podia atacar alvos petrolíferos em países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos ou o Kuwait, países que mantêm boas relações com Washington — e olham com muito desconfiança para o regime dos ayatollahs.
▲ Irão pode atacar infraestrutura petrolífera nos países do Golfo aliados dos Estados Unidos
FAYEZ NURELDINE/AFP/Getty Images
Dennis Ross aponta também para um cenário possível, ainda que seja radical: o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passam 20 milhões de barris de petróleo diariamente. Isso perturbaria a principal rota marítima mundial no transporte de petróleo e gás natural — e geraria não só aumentos nos preços, como também impactos económicos globais.
Estes cenários são os mais radicais e deveriam, com elevado grau de probabilidade, a um contra-ataque ataque norte-americano. Ainda assim, já enfraquecido por causa da operação militar contra Israel, o Irão pode também não ter interesse em escalar drasticamente a situação. “O instinto de Khamenei não é agir dessa forma, porque desencadearia uma guerra com os Estados Unidos e isso ameaçaria a sobrevivência do regime”, explica Dennis Ross.
Bush vs. Trump. Quais são comparações com o Iraque?
Em Washington, o que se passa atualmente no Irão faz lembrar a operação militar que o antigo Presidente norte-americano, George W. Bush, lançou contra o Iraque de Saddam Hussein. Durante a campanha eleitoral de 2016, Donald Trump criticou-a, considerando ter-se tratado de um “grande erro”. “Eles disseram que havia armas de destruição maciça. Não havia nenhumas. E eles sabiam que não havia nenhumas.”
Apesar das críticas de Donald Trump ao seu antecessor, existem paralelismos entre o que se passou em 2003 e o que se passa agora em 2025. A diretora dos serviços de informações norte-americanos, Tulsi Gabbard, afirmou em março que o Irão não estava a construir uma bomba nuclear — o que deitaria por terra a necessidade de os Estados Unidos ajudarem Israel na operação militar contra território iraniano. O Presidente dos EUA foi confrontado com estas declarações e afirmou que “não queria saber” do que a responsável pelas secretas tinha dito.
Tal como no Iraque, em que a questão das armas de destruição era discutível, também no Irão é questionável se o país está mesmo a quinze dias de construir uma bomba nuclear. Os serviços de informações norte-americanos não são claros sobre esta questão — e há várias teorias dentro da administração Trump, tal como existia na altura de George W. Bush.
Em declarações ao Financial Times, Rosemary Kelanic, analista do think tank Defense Priorities, faz, no entanto, uma distinção. George W. Bush teve “18 meses” — desde o 11 de setembro de 2001 — para preparar a opinião pública para uma guerra no Iraque e até pediu autorização ao Congresso, enquanto Donald Trump age mais rapidamente e fá-lo em iniciativa própria. “A grande diferença agora é a rapidez com que tudo se está a desenrolar” — e este domingo de madrugada o Presidente dos EUA agiu.