Quem investe em criptoativos, incluindo “criptomoedas” como a bitcoin (e até as chamadas “stablecoins” que, alertou, podem ser tudo menos “estáveis”), está exposto a “riscos significativos“. O aviso foi feito pela presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, numa audição no Parlamento Europeu nesta segunda-feira. A francesa alerta que os investidores estão em “risco de fortes correções de preço” nesses investimentos – algo que, a acontecer, pode ter impactos para todo o sistema financeiro.

Além deste alerta, Christine Lagarde aproveitou a presença no Parlamento Europeu para pedir aos eurodeputados que, o quanto antes, aprovem a legislação necessária para fazer avançar o projeto do euro digital – que a líder do BCE considerou ser um “projeto crítico” para a zona euro. “Uma estrutura legislativa para abrir caminho para a possível introdução de um euro digital deve ser implementada o mais rapidamente possível, por favor“, disse a líder da autoridade monetária da zona euro.

A importância desse projeto enquadra-se no facto de que, de acordo com estudos feitos em alguns países da zona euro, cerca de 10% das famílias detêm criptoativos – entre os quais estão a bitcoin. E, de acordo com esses mesmos estudos, cerca de 14% das famílias admitem vir a investir nesses ativos digitais.

À medida que a participação e as cotações dos criptoativos aumentam, o risco para os investidores – de correções bruscas de preços – aumenta e pode ter repercussões em todo o sistema financeiro”, avisa Christine Lagarde.

A francesa salientou, perante os eurodeputados, que os criptoativos – por vezes também chamados “criptomoedas” – viram a sua capitalização de mercado disparar de menos de 200 mil milhões no início de 2020 para cerca de 2,7 biliões. “Esse crescimento notável foi marcado por uma grande especulação dos investidores e por uma extrema volatilidade”, afirmou Lagarde, o que “torna esses ativos inadequados como meio de troca confiável e expõem os investidores a riscos significativos“.

Vem aí o euro digital. O vírus vai matar as moedas e notas (e ameaçar os bancos)?

Controlar esse avanço dos criptoativos sem regulação nem supervisão passa, em parte, pelo lançamento do euro digital. Há vários anos que o BCE está a trabalhar nessa versão digital da moeda única que seria, basicamente, uma “carteira” on-line acessível a todos os cidadãos. Essa carteira poderia ter um valor até 3.000 euros (ou um valor próximo disso) que poderiam fluir de forma mais rápida e gratuita entre contas bancárias na zona euro.

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Em junho de 2023, a Comissão Europeia propôs legislação para o euro digital mas desde então o projeto tem perdido ímpeto, sobretudo porque não tem sido fácil reunir consensos no Parlamento Europeu. O apagão energético que ocorreu em alguns países, sobretudo Espanha e Portugal, aumentou ainda mais a apreensão de alguns eurodeputados em relação ao projeto.

O euro digital não teria risco, da mesma forma que as notas e moedas não têm risco”, afirmou Lagarde.

O plano é que o Conselho do BCE discuta e vote o lançamento de um euro digital no próximo outono. A pressão aumentou depois da reeleição de Donald Trump para a Casa Branca: Trump tem promovido o uso das chamadas stablecoins, um tipo de criptomoeda cujo valor é indexado a um ativo “oficial”, normalmente o dólar americano.

Apesar dessa “indexação” do valor, Lagarde sublinhou que nem sempre essas “moedas” conseguem manter essa convertibilidade. Um exemplo foi o colapso da stablecoin TerraUSD, em maio de 2022, a par do token Luna, que causou uma onda de falências na indústria de criptomoedas.

A presidente do BCE lembrou que, por muito que afirmem ser indexados ao dólar ou outro ativo sólido, estes criptoativos são “emitidos de forma privada” – ou seja, por empresas e não por estados. Além disso, acrescentou, não há regulamentação nem supervisão global para este segmento do mercado. Por exemplo, o emitente da maior stablecoin que existe, a Tether, está sediado em El Salvador, “que carece de qualquer estrutura prudencial” para supervisionar estes produtos.

“Essa abordagem fragmentada impede uma igualdade de condições global e pode abrir caminho para novos riscos e vulnerabilidades sistémicas”, concluiu Lagarde, pedindo que as autoridades se mantenham “atentas aos desenvolvimentos em outras jurisdições” e que “defendam regulamentações globalmente alinhadas para as stablecoins“.