O atual governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, um ex-governador, Vítor Constâncio, e um dos nomes dos quais se fala para substituir Centeno, Ricardo Reis, atacaram – cada um ao seu estilo – o paper mais controverso que foi apresentado na edição deste ano do Fórum BCE. O estudo em causa sugere que a diferença no crescimento económico e na evolução da produtividade entre EUA e Europa, nas últimas décadas, se deve às “instituições” que existem no mercado de trabalho de cada um, basicamente a legislação laboral e outras práticas e tendências que existem num e noutro local.

Depois de o autor do estudo, Benjamin Schoefer, da Universidade da Califórnia (Berkeley), ter apresentado as principais conclusões do estudo, de forma sucinta, a sessão no Fórum BCE abriu-se a perguntas e respostas da audiência – uma audiência onde estavam, sobretudo, responsáveis ou ex-responsáveis de bancos centrais, além de outros convidados de reconhecida experiência académica em temas de política monetária. A sessão, embora limitada a convidados, foi transmitida publicamente através do site do BCE e do Youtube.

O primeiro a fazer perguntas ao autor do estudo foi o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, originalmente um economista cuja área de especialização é, precisamente, o mercado de trabalho. De forma respeitosa mas incisiva, Centeno criticou o facto de o estudo fazer referência a quantidades (de empregos, de despedimentos, de contratações, etc) mas nunca fazer referência ao fator-preço, isto é, a evolução dos salários.

Europeus mudam muito menos de trabalho do que norte-americanos – e isso ajuda a explicar porque é que a economia dos EUA cresce mais

“Sinto falta de algumas coisas nesta análise. Não é censurá-lo pelo trabalho que fez, porque a informação e os dados sobre o mercado laboral na Europa não são abundantes – mas penso que, ainda assim, é possível fazer um esforço um pouco maior”, atirou Mário Centeno, acrescentando que “olhando para o mercado laboral nos últimos 10 anos, houve uma enorme mudança na Europa” no que diz respeito à “mobilidade”.

Dos 10 milhões de novos empregos que foram criados [na Europa], seis milhões são empregos detidos por pessoas que trabalham num país diferente daquele em que nasceram. Isto mostra uma enorme mobilidade no mercado laboral europeu, que mostrou ser muito resiliente nas crises recentes, o que demonstra a eficiência do nosso mercado laboral”, destacou Centeno.

Vítor Constâncio foi muito mais agressivo: começou logo por dizer que o autor foi “demasiado ambicioso” quando definiu o objetivo daquele estudo e, poucos momentos depois, estava a criticar o trabalho por ter argumentos “frágeis” e não dar “provas suficientes” para as conclusões que tira.

Pelo meio, um mais diplomático Ricardo Reis preferiu desafiar o autor do estudo a pronunciar-se sobre outros fatores que, tanto ou mais do que a legislação laboral, podem ter explicado porque é que a economia norte-americana cresceu – não só em volume como em produtividade – mais do que a europeia. Entre esses possíveis fatores está o facto de os EUA terem um mercado de capitais muito mais desenvolvido, onde as empresas mais inovadoras têm mais facilmente acesso ao financiamento de que necessitam para investir no seu desenvolvimento.

No setor tecnológico, a taxa de nascimentos de startups na Europa não é assim tão mais baixa do que nos EUA”, afirmou Ricardo Reis, acrescentando que “quando as empresas europeias crescem e se tornam unicórnios, vão para os EUA buscar capital mas não dispensam os seus trabalhadores – o que demonstra que o problema poderá estar mais no financiamento do que em outra coisa”

Esse foi um argumento que também foi usado por Vítor Constâncio, que salientou que é a falta de uma verdadeira união dos mercados de capitais que impediu que as empresas pudessem inovar mais, apanhando a boleia do grande desenvolvimento das novas tecnologias que impulsionaram o crescimento dos EUA nas últimas décadas – ao passo que, na Europa, esses setores mais inovadores e de maior crescimento passaram, praticamente, ao lado desse movimento.

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