Os europeus mudam menos frequentemente de trabalho – e os portugueses são, regra geral, disso um exemplo – e isso ajuda a explicar porque é que a economia norte-americana cresceu muito mais do que a europeia nas últimas décadas. Apenas um em cada 10 empregos nos EUA são considerados empregos de longa duração, ao passo que em países como Portugal, Grécia e Itália chega a ser maior do que 30% a proporção de empregos onde as pessoas passam uma grande parte da sua carreira (ou, mesmo, toda) no mesmo local.

As conclusões estão num estudo feito por Benjamin Schoefer, académico da universidade da Califórnia (Berkeley, EUA), que vai ser apresentado nesta terça-feira no Fórum BCE, em Sintra. O académico salienta que a Europa conseguiu colocar para trás das costas as elevadas taxas de desemprego que existiam nos anos 80 e 90 – mas essa redução foi obtida através de legislação que acabou por criar um mercado de trabalho com “baixo dinamismo” – e “estudos económicos recentes indicam que o dinamismo no mercado laboral e empresarial é um fator crucial para o crescimento (…), com ligações naturais à inovação disruptiva e a investimentos, com maior risco, em pesquisa e desenvolvimento”.

Com exceção dos ajustamentos que foram feitos para atenuar o problema do desemprego, a Europa, em geral, preservou as suas instituições de mercado de trabalho: criando regras robustas de proteção do emprego para contratos sem termo, envolvimento dos trabalhadores na tomada de decisões empresariais, instituições sólidas de negociação coletiva, subsídios de desemprego generosos e elevados níveis de impostos sobre o trabalho”, salienta Benjamin Schoefer.

Na prática, o académico salienta que na generalidade dos países europeus se criaram “instituições do mercado laboral”, incluindo legislação, que originaram uma “rigidez excessiva” e um cenário em que “os europeus mudam de emprego com muito menor frequência”, um “imobilismo que trava o crescimento dos salários e da produtividade“.

O resultado foi um enquadramento de “proteção legislativa do emprego [que] pode aumentar o desemprego ao restringir, logo à partida, as contratações” e, por outro lado, “ao proteger os trabalhadores nos seus empregos atuais, muitas vezes com benefícios conquistados pela antiguidade”. Assim, torna-se “plausível que isso contribua para ‘prender’ os empregados no mesmo local, reduzindo a sua vontade de sair para novas e melhores oportunidades de emprego”.

Do lado dos empregadores, esta “rigidez da proteção do emprego pode limitar a margem que eles têm para se adaptar a desafios e oportunidades em constante mudança, como as novas tecnologias”. Ao mesmo tempo, o autor reconhece que a Europa conseguiu resolver o seu problema de desemprego mas salienta que ainda existem alguns focos de escassez de trabalho e, além disso, tornaram-se mais frequentes as relações laborais marcadas pela precariedade – o que é o reverso da moeda da proteção “excessiva” que é dada a quem já está dentro do mercado, salienta o autor.

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Regra geral, “quando um trabalhador em França ou Itália perde o emprego e fica desempregado, vai ficar nessa situação por algum tempo porque escapar ao desemprego é um acontecimento relativamente raro”. Isso faz com que, num caso em que uma pessoa desempregada demora a encontrar novo emprego, quando finalmente o encontra tende a querer mantê-lo por muito mais tempo”.

A facilidade com que um português encontra um novo posto de trabalho é cerca de metade daquela sentida por um dinamarquês ou um norueguês, por exemplo, segundo a análise deste académico. É por estas razões que, na opinião de Benjamin Schoefer, uma das principais explicações para a divergência transatlântica no desempenho macroeconómico está relacionada com a “fluidez e o dinamismo do mercado de trabalho — que se mantêm baixos na Europa em comparação com os EUA”.

Este é um tema que ganhou atualidade depois de Mario Draghi, no importante retrato que fez da economia europeia no ano passado. Se a Europa não conseguir tornar-se mais produtiva, seremos forçados a escolher. Não seremos capazes de nos tornar, ao mesmo tempo, líderes nas novas tecnologias, um exemplo de responsabilidade climática e um ator importante no panorama mundial. Não seremos capazes de financiar o nosso modelo social. Teremos de reduzir algumas, se não todas, as nossas ambições. Este é um desafio existencial”, escreveu Mario Draghi, no relatório onde recupera a expressão “Euroesclerose“, cunhada pelo economista alemão Herbert Giersch há cerca de quatro décadas.