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Torre Pacheco. A povoação espanhola que virou um campo de batalha com a extrema-direita a "caçar" magrebinos

O suposto ataque por imigrantes a um idoso fez deste município o palco de batalhas campais entre magrebinos, a polícia e grupos de militantes de extrema-direita que vieram de fora. Há já oito detidos.

Desde quinta-feira, 10 de julho, que Torre Pacheco, povoação de cerca de 40 mil habitantes na região de Múrcia, no sul de Espanha, tem sido o cenário para violentos confrontos com motivações raciais e identitárias e que já resultaram em, pelo menos, oito detenções e causaram cinco feridos.

De um lado, os habitantes de origem magrebina, que representam um terço da população deste município. Do outro, grupos de militantes da extrema-direita que vieram de fora assumidamente com o objetivo de “caçar” imigrantes e os seus descendentes. No meio, a polícia, a tentar serenar os ânimos, mas obrigada a recorrer à força, inclusive com recurso a balas de borracha.

Segundo adianta a agência Reuters, citando o Ministério da Administração Interna espanhol, as autoridades detiveram pelo menos oito pessoas no decurso dos incidentes violentos. Destas, cinco são espanholas e uma é de origem norte-africana, tendo sido detidas por agressão, desordem pública, crimes de ódio ou danos à propriedade.

No entanto, o próprio ministro, Fernando Grande-Marlaska, avançou em entrevista ao canal TVE — citado pelo El País — que são nove as detenções, e duas delas foram a cidadãos de origem estrangeira, suspeitos de estarem envolvidos na agressão que espoletou toda esta onda de violência, apesar de o principal autor ainda não ter sido capturado.

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▲ Manifestantes envolveram-se em confrontos com a polícia nas primeiras horas da manhã de domingo

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Tudo terá começado com a agressão a um homem de 68 anos, alegadamente perpetrada por jovens de origem marroquina e gravada com o propósito de viralizar nas redes sociais. No entanto, os detalhes revelados nos últimos dias dão conta de que esse episódio foi manipulado por figuras ligadas ao partido Vox e a outros grupos de extrema-direita com o pretexto de acicatar os ânimos contra a comunidade magrebina, procurando ligar a imigração à criminalidade e à violência e acusando o governo de não manter a segurança nas ruas.

O vídeo com informação falsa que acendeu o rastilho

Que Domingo Tomás, homem reformado de 68 anos, terá sido alvo de uma agressão, não há dúvidas. Nos vários testemunhos que prestou, diz que estava a passear no jardim de um cemitério quando foi atacado de surpresa. O próprio assume que não viu quem atacou, mas que se tinha cruzado com cidadãos marroquinos segundos antes do ataque e que quem o agrediu estava a falar uma língua que não compreendia.

"Estão a mostrar-me o mesmo que fizeram ao Domingo. Não é assim que se resolvem as coisas: com violência"
Encarnación, mulher de Domingo

No entanto, como recorda o El Confidencial num artigo onde explica a sucessão de acontecimentos até aos confrontos deste fim de semana, não foram as queixas de Domingo que motivaram a ida de militantes ultrarradicais a Torre Pacheco à procura de vingança contra os suspeitos magrebinos, naquilo que os próprios definiram como uma “caça ao homem”. Foi um vídeo promovido por um dirigente do Vox, partido de extrema-direita e terceira maior força política da região.

Pablo González Gasca, responsável de marketing digital do Vox, partilhou um vídeo a 10 de julho onde se via um idoso a ser espancado por alguém a gravar essa mesma agressão com a seguinte legenda: “O vídeo do brutal ataque ao morador de Torre Pacheco às mãos de marroquinos foi revelado. Os criminosos devem pagar, as vidas do nosso povo estão em jogo”. A partir daí, começou a ser repartilhado por outras contas associadas à extrema-direita, com o vídeo surgindo lado a lado com uma fotografia do estado em que terá ficado Domingo Tomás, de rosto macerado e um olho completamente raiado de sangue.

Essa informação, no entanto, é falsa, com vários órgãos de comunicação a descobrir que o homem alvo de ataques naquele vídeo não só não é Domingo, como nem sequer foi gravado em Torre Pacheco. Trata-se antes de José Moya, um sem-abrigo de Almería que foi atacado a 20 de maio por ser homossexual e viver na rua.

“Dois miúdos vieram pedir-me cigarros e começaram a gritar ‘maricas’ e a dar-me pontapés”, explica na sua conta de Instagram, onde realça ainda que os agressores eram espanhóis e já estão em prisão preventiva. O caso, inclusive, foi noticiado pelo Diario de Almería.

Não obstante tratar-se de outra pessoa, e de outro local, o El Confidencial escreve que uma série de contas começaram a difundir um suposto comunicado dos moradores de Torre Pacheco a apelar à mobilização dos habitantes desta povoação face a um alegado aumento da criminalidade. Este texto, no entanto, já foi desmentido pelas associações de moradores, que responderam com uma declaração onde afirmam que “união e convivência sempre caracterizaram Torre Pacheco” e que “devemos evitar cair na armadilha da vingança, de fazer justiça pelas próprias mãos ou de incentivar a agressividade dos grupos ultras que se deslocaram a Torre Pacheco com o objetivo de gerar mais violência”.

"Estou a tremer de medo. Muitos de nós decidimos não visitar os nossos familiares por medo. E os agentes não impedem ninguém. 'Viva Espanha', gritam eles, sentem-se à vontade para ir à caça"
Faíza, médica de 28 anos

De resto, a própria esposa de Domingo, Encarnación, pede para que cessem os conflitos, rejeitando o pretexto da agressão ao seu marido para o que os militantes de extrema-direita estão a fazer em Torre Pacheco. “Estão a mostrar-me o mesmo que fizeram ao Domingo. Não é assim que se resolvem as coisas: com violência”, afirmou ao El Español.

Espanha. Agressão a idoso leva a escalada de violência contra imigrantes, grupos extremistas convocam “caça” a magrebinos

Os três dias de violência

Segundo as reportagens do El País, a violência começou em pleno na sexta-feira, dia 11 de julho, no decurso de uma manifestação pacífica para condenar a agressão a Domingo. A presença de jovens de origem imigrante de um lado e de membros de grupos da extrema-direita do outro foram a fagulha que faltava, com os segundos a perseguir os primeiros e a tentar linchá-los perante um efetivo de autoridade incapaz de os parar.

"É uma consequência daquilo a que temos assistido ultimamente, dos discursos da extrema-direita e, infelizmente, apoiados pela direita, que não questiona suficientemente esta extrema-direita”
Fernando. Grande-Marlaska, ministro da Administração Interna

A situação prometia piorar no sábado, 12 de julho, com a chegada de ainda mais membros de grupos da ultradireita a Torre Pacheco, além da presença do presidente do Vox em Múrcia, José Ángel Antelo, numa manifestação na localidade sob o lema “Defende-te da insegurança”. No entanto, encontraram também a presença mais musculada da Guardia Civil, — que destacou 75 agentes —, o que não impediu que se repetissem confrontos, atos de vandalismo e perseguições. Foi devido a estes choques que foram registados cinco feridos.

“São estrangeiros na sua casa e mouros na rua”
Paulino Ros, jornalista e professor de sociologia da Universidade de Cartagena

No domingo, o reforço do efetivo levou ao corte de várias ruas o que fez com que os militantes, impedidos de aceder ao bairro de San Antonio — coração da povoação e onde se concentra a maior parte da população de origem imigrante —, tivessem optado por deslocar-se para as periferias, tentando visar estabelecimentos detidos por pessoas magrebinas. Um desses casos ocorreu num restaurante de kebabs, vandalizado por um grupo de 40 a 50 homens cujos atos de violência foram captados por imagens de videovigilância.

Da parte da população magrebina, o tom tem sido entre o desespero e a resiliência. “Se eles quiserem ir à caça, como dizem nas redes sociais, sabem onde estamos. Não queremos confrontar ninguém, mas se eles vierem às nossas casas, defender-nos-emos. Defenderemos o sítio onde nascemos e crescemos, as nossas mães, os nossos vizinhos. Qualquer pessoa que venha aqui com boas maneiras é bem-vinda. Mas não os deixem procurar-nos… Se andam à nossa procura, não vamos deixar que nos batam“, afirmou Mehdi, um jovem de 20 anos, ao El Mundo.

“Estou a tremer de medo. Muitos de nós decidimos não visitar os nossos familiares por medo. E os agentes não impedem ninguém. ‘Viva Espanha’, gritam eles, sentem-se à vontade para ir à caça. Deixam-nos andar impunemente, sentem-se à vontade para apontar o dedo a qualquer marroquino, graças em parte ao discurso do presidente da câmara, que aponta o dedo a todos nós. É normal que os jovens se levantem, se são discriminados desde o liceu, não nos deixam ser espanhóis”, salientou, por outro lado Faiza, uma médica de 28 anos, ao El País.

"Não é verdade que as pessoas tenham medo de sair na cidade. Estou aqui há 30 anos e nunca ouvi ninguém dizer que não sairia à noite com medo de ser assaltada ou algo do género"
Auri Gil, uma mediadora imobiliária de 53 anos e residente do bairro de San Antonio

Estas duas reações ajudam a explicar a situação complexa presente em Torre Pacheco, localidade que vive em grande parte da agricultura intensiva e conta com uma mão de obra maioritariamente composta por imigrantes, sendo que os 30% de população imigrante da localidade são o dobro da média de 15% no país.

No entanto, o real problema não parece centrar-se tanto na população que imigrou originalmente para Espanha, mas os seus filhos, que são espanhóis mas foram desde sempre marginalizados. “São estrangeiros na sua casa e mouros na rua”, afirmou o jornalista e professor de sociologia da UNED de Cartagena, Paulino Ros, ao El País, caracterizando-os como um grupo “absolutamente abandonado”.

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▲ Confusão nas ruas de Torre Pacheco no dia 12 de julho

Europa Press via Getty Images

Em alguns testemunhos recolhidos pela imprensa espanhola, estes jovens são tidos como delinquentes que formam gangues e causam problemas nas ruas. Ao mesmo jornal, uma família caracteriza estes jovens como s “donos das ruas” e envolvidos “no tráfico de droga”. Admitindo que há um sentimento generalizado de raiva contra a delinquência, frisam, contudo, que não foram os habitantes de Torre Pacheco a querer perseguir estes jovens, mas sim pessoas de fora. “E agora somos nós que ficamos para trás, que vamos pagar as consequências do que acontecer”, afirma um dos entrevistados.

O presidente da Câmara de Torre Pacheco, Pedro Ángel Roca, do PP, segue a mesma bitola. “É claro que os moradores estão cansados de atos criminosos, mas a violência não se combate com mais violência. Pedimos um efetivo suficiente da Guarda Civil na região, mais presença policial nas nossas ruas, mas lembro aos moradores que o crime se combate com a lei, não nas ruas”, publicou nas redes sociais.

Entrevistada pelo El Confidencial, Auri Gil, uma mediadora imobiliária de 53 anos e residente do bairro de San Antonio, dá uma perspetiva mais moderada neste período de ânimos inflamados. “Não é verdade que as pessoas tenham medo de sair na cidade. Estou aqui há 30 anos e nunca ouvi ninguém dizer que não sairia à noite com medo de ser assaltada ou algo do género”. No entanto, a mesma reconhece que Torre Pacheco sofre o mesmo “problema de todos os sítios que recebem muita migração, a segunda geração”.

“Os que chegaram no início não tinham nada e tinham de trabalhar o dia todo para sobreviver. Tiveram filhos, agora espanhóis, que cresceram entre outros espanhóis que têm mais coisas e vivem melhor”, ressalva, explicando que “têm a rebeldia contra a autoridade de qualquer jovem, misturada com um certo ressentimento em relação às crianças locais”.

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▲ Manisfestante cobre parte do rosto na terceira noite de confrontos

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Governo aponta o dedo ao Vox, que nega responsabilidade

No balanço que fez dos incidentes até agora, o ministro da Administração Interna afirma que o que aconteceu este fim de semana foi obra de “grupos organizados” formados através das redes sociais. “Ontem, no trabalho de prevenção efetuado pela Guardia Civil, foram identificados mais de 20 veículos a tentar entrar no centro da cidade. E podiam ser feitas diferentes denúncias, porque alguns deles transportavam objetos perigosos, como paus ou bastões extensíveis“, detalhou Grande-Marlaska.

Na sequência destas informações, o ministro não só revelou que o dispositivo de segurança vai continuar ativo nos próximos dias porque a ameaça permanece, como apontou o dedo diretamente ao partido Vox. “É uma consequência daquilo a que temos assistido ultimamente, dos discursos da extrema-direita e, infelizmente, apoiados pela direita, que não questiona suficientemente esta extrema-direita”, afirmou, responsabilizando assim não só o partido de extrema-direita como o próprio PP por não se distanciar mais.

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▲ Membros do partido Vox que se juntaram em Torre Pacheco para protestar

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Da parte do Vox, o seu líder, Santiago Abascal, rejeitou esta segunda-feira responsabilidade por alimentar atos como os promovidos por estes grupos de extrema-direita, considerando-os uma consequência da governação espanhola e recusando-se a condenar diretamente os militantes envolvidos.

“Condenamos a violência importada pelas políticas bipartidárias e todas as consequências violentas que são da exclusiva responsabilidade do Partido Popular e do Partido Socialista, que há décadas introduzem a imigração clandestina que traz um aumento das violações, um aumento da criminalidade e também provoca o desespero do nosso povo. A nossa condenação das políticas bipartidárias e da manipulação dos meios de comunicação social é total e inequívoca”, atirou, sem apelar à calma nem referir que os ataques visaram desproporcionalmente cidadãos de origem marroquina.

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