Mesmo perto do limite de entrega das listas autárquicas, Lina Lopes desistiu de ser a candidata do Chega à presidência da câmara de Setúbal, revelando ser vítima de “tentativas de chantagem” e de uma “campanha difamatória”. A decisão veio na sequência de denúncias feitas por um empresário de Setúbal que terá emprestado à candidata 20 mil euros e ainda lhe terá comprado um carro no valor de 38.400 euros. Lina Lopes vai, no entanto, sabe o Observador, continuar a trabalhar no gabinete do vice-presidente da AR e ideólogo do Chega, Diogo Pacheco Amorim.

Tudo começou quando foram partilhados — por alguns militantes e apoiantes do Chega — prints do telemóvel de um tal “Vítor Pilas” a exigir que Lina Lopes lhe devolvesse o dinheiro “até domingo”. As mesmas mensagens mostravam uma alegada mensagem da candidata a dizer que iria em breve ter com o “caro Vítor” para conversarem. Terá sido tarde demais. Na segunda-feira, Lina Lopes desistia da corrida, mas deixava claro que a “decisão de retirar a candidatura à câmara municipal de Setúbal” não significava “qualquer reconhecimento das falsas acusações” que lhe eram imputadas.

Vítor Pilas (nome que o próprio teria gravado no telemóvel aquando da divulgação das conversas) é, afinal, Vítor Marrafa Correia, que é co-proprietário, em conjunto com a mulher, de um restaurante em Setúbal. Em páginas afetas ao Chega chegou a ser publicada uma imagem de Vítor Correia com a indicação de que era mandatário da candidatura de Lina Lopes. Mas também isso é um mistério.

A estrutura local e distrital do Chega desconhece e nega que o empresário alguma vez tenha sido mandatário, embora fontes locais do partido admitam que a candidata possa ter prometido isso a Vítor Correia e até que esse conteúdo tenha sido divulgado por responsáveis afetos à candidatura. A imagem foi partilhada a 23 de julho (antes de as coisas azedarem com Lina Lopes) numa página Facebook, entretanto apagada, que pertencia a Vítor Correia.

Apoiantes da candidata que continuam próximos de Lina Lopes dizem ao Observador que a própria foi “vítima de uma guerra interna” e desconfiam que foram os próprios “dirigentes da distrital” a “instigar” Vítor Correia a atacar publicamente a candidata. Sobre o dinheiro, essas mesmas fontes são esquivas: “Disso não sabemos nada”. Uma delas chega a dizer: “Eu creio até que ela na segunda-feira tentou devolver o carro em causa, mas o senhor Vítor não aceitou”. As mesmas fontes defendem Lina Lopes: “Os tipos da distrital queriam meter os nomes deles, a Lina resistiu e arranjaram isto para a afastar”.

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PS exige que seja seguido “rasto do dinheiro”, Vítor Correia nega empréstimos

A origem do dinheiro está a ser contestada por adversários políticos. O presidente da distrital do PS de Setúbal disse na terça-feira que “é imperativo que se investiguem os empréstimos e financiamentos que o Mandatário lhe conferiu, que tipo de chantagem está em causa e porque lhes cedeu uma política tão experimentada, abandonando a corrida à capital do 4.° maior distrito do País, onde tinha a eleição como vereadora virtualmente garantida.”

Para Pinotes Batista, “a notícia que importa não é a desistência. A notícia que realmente falta dar, só é possível seguindo o rasto do dinheiro. Que papel teve André Ventura neste processo? O Chega não tem credibilidade, nem estrutura para comandar os destinos de uma autarquia. São bons no grito, mas não sabem dialogar. São eficazes a denunciar, mas não conseguem formular uma solução.”

Contactado pelo Observador, Vítor Correia começou por dizer que os “jornalistas são todos merda”, mas — numa conversa interrompida por ter desligado algumas vezes, e de forma inopinada, as chamadas — foi negando quer as denúncias públicas que fez, quer ter tido algum cargo na campanha. O anteriormente auto-anunciado mandatário diz agora que nunca o foi. “Isso foram eles do Chega que meteram lá. Eu nunca fui mandatário. Eu sou Chega. Sou só militante”.

Quanto ao dinheiro alegadamente emprestado a Lina Lopes, a versão era diferente da que veiculou nas redes sociais quando ainda tinha a página: “Eu não emprestei dinheiro nenhum. Viu-me a emprestar? Se não viu, não emprestei. Isso é tudo mentiras. Tudo merda que vocês inventam”. E quanto ao carro? “Mano, não me dás a volta. Isso é tudo mentira.” E, após estas lacónicas respostas, a chamada voltou a ser interrompida unilateralmente por Vítor Correia.

As denúncias que o empresário agora nega são, no entanto, sugeridas pela própria Lina Lopes. A candidata, que mantém um dever de lealdade para com o Chega (já que se mantém no gabinete do vice-presidente) não atendeu as chamadas nem respondeu às mensagens do Observador desde que anunciou o afastamento da corrida autárquica. O que sobra é o comunicado emitido na segunda-feira, quando reiterou que o seu compromisso com o projeto político do Chega se mantém “inalterado”.

Desde então, a única manifestação pública foi a partilha da cascata interior que existe no Aeroporto Internacional de Hamad, no Qatar, com a seguinte legenda: “Tão belo”. Há, nessa ocasião, novas manifestações de apoio de setubalenses: “Setúbal perdeu uma grande presidente”.