As imposições em matéria de segurança rodoviária, determinadas por Bruxelas, obrigam os construtores de automóveis a investir fortemente na protecção dos ocupantes dos seus veículos, o que tem provocado um contínuo agravamento do preço e do peso dos carros modernos. Para diminuir a sinistralidade rodoviária, a União Europeia (UE) alargou as suas exigências a sistemas electrónicos destinados a detectar e até a actuar em caso de sono ou fadiga, distracção ou até mesmo alguma inépcia por parte dos condutores, o que tem vindo a elevar o preço final dos automóveis. Mas até que ponto todo este investimento tem tornado mais seguros os veículos modernos, por comparação com os antigos, com mais de três décadas? Uma empresa alemã especializada em testes e na inspecção de veículos, a Dekra, levou a cabo um trabalho precisamente para apurar o incremento da segurança, tanto passiva quanto activa.

Os automóveis têm vindo continuamente a ser reforçados com dispositivos para proteger os seus ocupantes, tendência que começou em 1959 com a introdução do cinto de segurança de três apoios, pela mão da Volvo. Cerca de 20 anos depois, a generalidade dos automóveis passou a ser equipada de série com airbags, além de cintos com pré-tensores e limitadores de esforço, visando não só salvar vidas, mas também reduzir os ferimentos graves. Se a isto somarmos os chassis mais robustos e dotados com zonas deformáveis mais eficientes para proteger o habitáculo, temos a explicação para a redução operada nas últimas décadas no número de fatalidades decorrentes de acidentes rodoviários.

Frente-a-frente, a Dekra colocou dois Volkswagen Golf, um da 2.ª geração do modelo, fabricado em 1989, e outro da 8.ª geração, produzido em 2024. Separados por 35 anos (na realidade 36 anos, em termos das tecnologias utilizadas, pois o Golf II começou a ser construído em 1983 e o Golf VIII em 2019), ambos os veículos foram lançados a 64 km/h contra uma parede de betão, protegida por uma estrutura metálica deformável destinada a reproduzir a capacidade de absorver a energia de uma viatura similar. Para dificultar ainda mais a tarefa destes dois Golf, o embate incidia apenas sobre 40% da zona frontal — o que obriga a que só cerca de metade da estrutura tenha de absorver a totalidade da energia —, precisamente as exigências que o EuroNCAP impunha a todos os veículos comercializados na UE até 2020. Estas condições visavam simular um embate frontal entre dois veículos, com estas dimensões e peso, ambos a circular entre 50 e 55 km/h.

As imagens não deixam margem para dúvidas quanto à deformação do Golf II, o que reduziu consideravelmente o espaço no habitáculo, isto enquanto o volante e os pedais invadiram a zona do condutor, um pouco à semelhança do pilar A, que também recuou excessivamente. A conclusão dos técnicos da Dekra aponta para uma enorme dificuldade dos ocupantes do Golf de 1989 em sobreviver ao embate, na medida em que a desaceleração a que foram submetidos é demasiado elevada, daí resultando graves danos no esterno, pescoço e cérebro, com os consequentes derrames.

Automóveis modernos protegem mesmo a vida dos ocupantes?

Comparativamente e de acordo com os dados determinados com recurso aos sensores que equipam os dummies utilizados nos crash-tests, os ocupantes a bordo do Golf de 2024 sobreviveriam ao embate. Quando muito, poderiam sofrer ligeiros ferimentos. O habitáculo mantém intacto o espaço interior e os cintos de segurança com pré-tensores impedem os ocupantes de saírem dos seus lugares, enquanto os airbags (frontais e laterais) e os limitadores de esforço dos cintos reduzem a desaceleração e minimizam os danos.

Além da melhor protecção dos ocupantes, em caso de embate, o Golf VIII oferece mais possibilidades de evitar o acidente. Começa por precisar de uma distância 30% inferior para parar, o que significa que enquanto o modelo mais recente pode percorrer 98 metros se circular a 100 km/h, o Golf II só pararia após quase 130 metros. Também foram realizadas manobras que simulam um guinar para a esquerda e depois para a direita, como que a evitar um obstáculo na via, situação que os ensaiadores profissionais da empresa alemã apenas conseguiram realizar a 65 km/h no modelo de 1989, enquanto o carro de 2024 realizou a mesma manobra a 75 km/h. A Dekra destaca ainda o sistema de iluminação mais eficiente do carro mais moderno, o que facilita a detecção nocturna de peões e ciclistas, bem como a maior intensidade das luzes de stop para chamar a atenção de quem vem atrás. A possibilidade de conectar o smartphone ao sistema do carro contribui igualmente para a segurança, já que facilita na hora de atender ou responder a mensagens, sem que o condutor tenha de tirar os olhos da estrada ou as mãos do volante.