Fechados num bunker de alta segurança, com uma camada de 5 centímetros de cimento controlada por uma máquina cronometrada. Lá dentro, cofres com garrafas de “Dom Perignon” que serviam para festejar a morte de cada inimigo. Entre chantagem, droga, corrupção e homicídios, o chefe da ‘Ndrangheta, a máfia mais rica de Itália, foi encontrado assim e depois detido esta terça-feira, com mais 25 envolvidos na organização, avança a agência de notícias italiana Ansa.
A unidade de operações especiais da polícia italiana apanhou os 26 suspeitos neste bunker, localizado numa quinta no sul de Itália, equipado com sistemas eletrónicos sofisticados, segundo o jornal Corriere della Serra. A entrada estava bloqueada por tábuas pregadas à tal camada de cimento de 5 centímetros que se mexia de forma cronometrada.
“Facciazza”, o chefe da máfia mais rica (e mais perigosa) de Itália
Entre os 26 detidos, que estão agora em prisão preventiva por ordem do juiz, um destacava-se. O chefe da máfia original da Calábria, Giuseppe Pino-Piromalli, conhecido como “Facciazza” — que após quatro anos de liberdade, voltou a ser preso aos 80 anos.
A família do chefe deste poderoso ramo da máfia italiana tem um histórico criminal de mais de 100 anos. Giuseppe é o sucessor do tio, Peppino Piromalli, que foi condenado a 11 sentenças de prisão perpétua pelo assassinato de um rival, que depois foram reduzidas para duas. Morreu em 2003.
Pino-Piromalli está desde a detenção do tio à frente do grupo. Na década de 1990, o porto de Gioia Tauro, detido pela família, tornou-se o maior porto comercial do Mediterrâneo. Quatro anos depois, a Countship Containerlines e a Medcenter Container (empresas internacionais de transporte de contentores) alugaram o porto para iniciar a sua atividade, com financiamento estatal.
No entanto, os Piromalli, que viam no porto uma oportunidade para os seus negócios, obrigaram-nos a pagar um dólar e meio por cada transporte — metade do lucro obtido pelas duas empresas —, forçavam-nos a prestar serviços a firmas ligadas à máfia e pressionavam-nos para empregarem os seus familiares.
A organização familiar está desde sempre envolvida em inúmeros crimes, que vão desde tráfico de droga, a lavagem de dinheiro, corrupção e infiltração no Governo, incluindo homicídios.
“Facciazza” não escapou ao mundo do crime. Foi acusado, em 1998, pelo homicídio em primeiro grau do médico Luigi Ioculano, e chegou mesmo a ser condenado m primeira instância, acabando por ser absolvido após recurso por falta de provas. Também está envolvido em várias operações de suborno e investigações por danos e ataques à bomba às redes Fininvest (empresa italiana com investimentos em media e comunicação).
Pino-Piromalli foi detido em 1999, também num bunker, onde controlava uma rota de fuga secreta. Foi condenado a 22 anos de pena, numa prisão de alta segurança, tendo sido libertado em 2021.
Mas mesmo detido, “Facciazza” não deixou de comandar os negócios do grupo que vão desde o Canadá até à Austrália.
Os investigadores italianos conseguiram, através de escutas, confirmar que o “Facciazza” intimidou os filhos, Antonio e Gioacchinno, a aproximarem-se de políticos através do seu poder económico e militar, para que estes o conseguissem tirar da prisão de alta segurança. Desta forma, foi também possível chegar a Aldo Miccichè, considerado o “homem” dos Piromalli, e que era o seu contacto dentro do Governo. Aldo morreu em 2018, depois de ter sido detido na Venezuela.
Após a sua libertação, Pino-Piromalli não fazia questão de esconder as ligações políticas “privilegiadas” que tinha com os vários partidos. “Votamos em todos, à direita e no centro-esquerda. Apoiamos todos. Não os fizemos ganhar, apenas os apoiamos e fomos penalizados. Não é bom”, disse.
No comunicado publicado no site oficial dos Carabinieri, é referido que Piromalli recuperou as rédeas do gangue “por meio de constante pressão extorsiva contra empresários e operadores comerciais, bem como adulterando leilões judiciais e interferindo nos procedimentos de venda relevantes”.
“Facciazza tinha compreendido que devia iniciar uma obra de restauro do gangue, que ele próprio definia como ‘o tigre de Gioia Tauro'”, confirmaram os investigadores, citados pelo jornal La Stampa.
No mesmo comunicado, os Carabinieri explicam que a investigação “Res Tauro” atuava no sul de Itália para deter a máfia ‘Ndrangheta, a mais rica de Itália, que controla grande parte do comércio europeu de cocaína. A operação teve início em 2020.
O Corpo dos Carabinieri publicou na rede social X a detenção dos 26 membros da organização, além da apreensão de 3 milhões de euros em propriedades e empresas e a aplicação da medida preventiva patrimonial, no total de 4 milhões de euros.
Operazione antimafia del #ROS #Carabinieri: colpo alla cosca di ‘ndrangheta Piromalli con 26 arrestati per associazione di tipo mafioso, estorsione, riciclaggio e altri reati. Sequestri per 3 mln euro, misure di prevenzione patrimoniali per 4 mln
????➡️ https://t.co/qeJKOB4dr9 pic.twitter.com/aS3ZTk3m2x— Arma dei Carabinieri (@_Carabinieri_) September 23, 2025
Os detidos são acusados de conspiração, extorsão, lavagem de dinheiro, posse ilegal de armas e munições e transferência fraudulenta de dinheiro. Todos os crimes são agravados pelo método mafioso dos arguidos.
No entanto, as autoridades italianas relembram que as medidas foram tomadas durante a fase de investigação preliminar e estão sujeitas a recurso — ou seja, até prova em contrário, os suspeitos são considerados inocentes.
Texto editado por Filomena Martins