Mais de mil manifestantes em Lisboa e outros mil no Porto juntaram-se para exigir a libertação dos quatro cidadãos portugueses detidos na quarta-feira por Israel, em embarcações com ajuda humanitária da Flotilha Global Sumud. A norte, os manifestantes bloquearam ruas em torno da Praça D. João I. e na Avenida dos Aliados. Em Lisboa, os protestos começaram pelas 18h00 junto à embaixada de Israel mas acabaram junto ao museu MUDE, na Rua Augusta, enquanto decorria o debate dos candidatos à câmara da capital.

Ao fim de vários minutos marcados por gritos que chegavam das ruas, o jornalista Carlos Daniel, moderador do debate emitido na RTP e RTP3, informou que o barulho que se ouvia provinha de protestos de apoio à Palestina em que os manifestantes pediam a libertação dos quatro portugueses que seguiam a caminho de Gaza na flotilha humanitária.

À saída do MUDE, Alexandra Leitão ainda foi travada antes de entrar no carro por dezenas de manifestantes. “Não é assim que se resolve”, disse a candidata à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, depois de se tentar dirigir aos manifestantes. Entretanto, chegaram vários elementos da PSP que encaminharam a socialista de volta ao interior do edifício. No local, já depois da meia noite, continuaram dezenas de jovens.

Antes disso a Rua Augusta tinha cortada por volta das 23h00. Os manifestantes gritavam mensagens como “Palestina Livre” e gritaram palavras de ordem contra o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas. No local, estavam mais de uma dezena de agentes da polícia.

Ao Observador, fonte oficial da organização do protesto convocado para junto da embaixada afirmou que esta segunda mobilização já não era da sua responsabilidade.

Neste protesto organizado pelo movimento de solidariedade com a Palestina na capital, que começou às 18h00 junto à embaixada israelita, estiveram presentes adultos, jovens e crianças que exibiam a bandeira da Palestina e o lenço simbólico palestiniano Keffiyeh. Muitos deles seguravam cartazes com frases de ordem a exigir a “Liberdade para a flotilha”, ” Sanções para Israel” e o ” Fim do Cerco na Palestina”.

À Lusa, a porta-voz do movimento de solidariedade com a Palestina, Sandra Machado, disse que os protestos são importantes para “exigir ao Governo que coloque sanções a Israel”, para pressionar o “Estado genocida [Israel]” e o executivo português a demonstrar solidariedade para com o povo palestiniano.

“(Os protestos servem) para chamar à responsabilidade o nosso Governo, o português agora em particular, claro porque é uma vergonha o que está a acontecer, é inconcebível como é que chegámos a este ponto sem nunca terem sido tomadas medidas que de facto pressionassem Israel a cumprir o direito internacional e a terminar este genocídio”, afirmou Sandra Machado.

Também em declarações à Lusa, os manifestantes Leonor Wicke e Rafael Lupson falaram dos motivos da sua participação nesta ação de protesto. Para Leonor Wicke, estar na manifestação representa “um misto de solidariedade, mas também muita tristeza e muita frustração”, defendendo que a guerra na Faixa de Gaza já devia ter terminado.

“Estamos a lutar por uma coisa assim tão básica”, indicou Leonor, referindo-se aos diretos do povo palestiniano. Já Rafael Lupson disse que o foco da manifestação é o genocídio que está acontecer na Faixa de Gaza, destacando que a libertação dos detidos na flotilha também é importante. E acrescentou que o Governo português deveria boicotar o Estado israelita.

“Naturalmente, (Portugal deve boicotar) tudo o que é de Israel, quer produtos, quer vendas para Israel, quer também compras, naturalmente, e depois, naturalmente, também apoiar as pessoas que estão detidas”, defendeu. Durante o protesto ouviram-se discursos, tambores e muitos gritos como “Palestina vencerá”.

Na manifestação estiveram também presentes representantes do Bloco de Esquerda e do PCP. Ações similares decorreram, no Porto, em Aveiro, Braga, Castelo Branco, Coimbra, Faro, Porto, Setúbal e Viseu.

Trânsito foi bloqueado pelos manifestantes nas ruas adjacentes à Praça D. João I, no Porto

Mais de mil pessoas manifestaram-se também no Porto, tendo pelas 20h00 muitos manifestantes bloqueado o trânsito automóvel, subindo depois para o final da Rua Passos Manuel, ali ficando a entoar cânticos a favor da causa palestiniana e exigindo o fim do “genocídio em Gaza”.

Pelas 22h30, os manifestantes pró-Palestina bloquearam parcialmente a Avenida dos Aliados, no Porto, prosseguindo o protesto.

Cânticos com frases como “Viva a luta do povo palestino, Israel é um Estado assassino” e palavras de ordem como “Palestina Livre” foram entoados permanentemente ao longo de várias horas na concentração, marcada para as 19h00 no Porto, a par de cerca de duas dezenas de outras cidades portuguesas.

Por entre os cerca de mil manifestantes presentes na Praça D. João I podiam ver-se dezenas de bandeiras da Palestina e cartazes que reivindicam liberdade para os integrantes dos barcos intercetados.

“O Porto e mais 20 cidades deste país dizem presente à chamada de solidariedade pela Palestina, à denúncia da incompetência e não presença do Governo português em toda a situação. Se o Governo não responde, respondemos nós”, disse aos jornalistas Andrea Peniche.

Peniche falava por parte da organização da concentração e exigiu também “a libertação dos quatro detidos” por Israel aquando da interceção da flotilha, entre eles a coordenadora do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua.

“Estas vozes vão romper o bloqueio, não apenas do Governo e da inação, mas também do bloqueio a Gaza. A sociedade civil, em todos os países, tem sido capaz de mover as montanhas que competia aos Governos mover”, afirmou. À Lusa, Carlos Martins destacou a sua adesão a uma “luta que é de todos, de todos mesmo”, coberto por uma bandeira da Palestina pelos ombros, mostrando-se solidário com “um povo que há décadas luta pela existência”.

“Era inevitável uma pessoa estar aqui. Somos humanos, eles são humanos, e a empatia é extremamente forte”, atirou. Vários manifestantes descreveram o mesmo sentimento de solidariedade à Lusa, exigindo ainda o fim do bloqueio de ajuda humanitária em Gaza e o fim do “genocídio”, uma das palavras mais ouvidas na manifestação.

Com as ruas bloqueadas, tendo a polícia redirecionado, numa primeira fase, o trânsito para outras artérias da cidade, muitos manifestantes continuaram a entoar cânticos pró-Palestina enquanto abanavam uma bandeira palestiniana de grandes dimensões, que antes havia estado estendida frente ao Rivoli, com uma flotilha simbólica, de barcos de papel, colocada sobre o símbolo nacional daquele estado.