Por volta das 10h30 da manhã deste domingo, um grupo de palestinianos — que Israel alega pertencerem ao Hamas — atacou as forças israelitas em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, provocando a morte de dois soldados israelitas e deixando três outros feridos (um dos quais em estado grave), num incidente que Telavive considerou ser uma “flagrante” violação do cessar-fogo. Em resposta, as forças israelitas lançaram uma série de ataques aéreos na Faixa de Gaza que, segundo as autoridades de Gaza, terão provocado a morte a mais de 40 pessoas. Apesar do recomeço das hostilidades no enclave, o cessar-fogo entre Israel e Hamas, em vigor há nove dias, não está em risco.
Tudo começou pela manhã, quando membros de um grupo armado palestiniano emboscaram uma unidade de engenharia militar israelita em Rafah. Vindos de um túnel — onde aparentemente estavam presos —, os palestinianos dispararam um míssil antitanque contra um veículo das Forças de Defesa de Israel (IDF), matando Yaniv Kula, de 26 anos, comandante da companhia do 932.º Batalhão da Brigada Nahal e o sargento Itay Yavetz, de 21 anos. A equipa de engenharia estava no local a realizar uma operação de busca e demolição de túneis quando o míssil atingiu o veículo, ferindo também um engenheiro na reserva, que não foi identificado.
As Forças de Defesa de Israel responsabilizaram o Hamas pelo ataque e por outro incidente, que também teve lugar na manhã deste domingo, e no qual dois outros soldados sofreram ferimentos considerados moderados, na sequência de um tiroteio. De acordo com as IDF, três tiroteios separados foram registados em simultâneo na área de Rafah.
Ataques das forças israelitas terão provocado 44 mortos
A resposta de Israel não se fez esperar, com as IDF a lançarem, de seguida, uma série de ataques aéreos contra Rafah, provocando a morte a nove pessoas e ferimentos noutras três, segundo informação que seria divulgada mais tarde pelo Ministério da Saúde de Gaza.
Logo depois, os dois ministros mais extremistas do governo israelita pediram o recomeço da guerra em Gaza. Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, escreveu na rede social X que “as falsas ilusões de que o Hamas irá mudar de atitude, ou sequer cumprir o acordo que assinou, estão a revelar-se, como seria de esperar, perigosas para a segurança” de Israel, defendendo que “a organização terrorista nazi deve ser completamente destruída — e quanto mais cedo, melhor”. O ministro das Finanças israelita, Bezalel Smotrich, utilizou a mesma rede social para escrever apenas “Guerra!”.
אני קורא לראש הממשלה להורות לצה"ל על חידוש מלא של הלחימה ברצועה במלוא העוצמה. דמיונות השווא שחמאס יהפוך את עורו, או שאפילו יעמוד בהסכם שעליו הוא חתם, מתבררים כצפוי כמסוכנים לביטחוננו. את ארגון הטרור הנאצי יש להשמיד עד תום – ויפה שעה אחת קודם.
— איתמר בן גביר (@itamarbengvir) October 19, 2025
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, acabou por ordenou “ações vigorosas contra alvos terroristas” em Gaza.“Após a violação do cessar-fogo por parte do [grupo islamita palestiniano] Hamas, o primeiro-ministro, [Benjamin] Netanyahu, consultou o ministro da Defesa e os chefes do setor de segurança e ordenou ações vigorosas contra alvos terroristas na Faixa de Gaza”, avançou o gabinete de Netanyahu, em comunicado.
Numa reação às acusações israelitas de violação do cessar-fogo, o grupo terrorista palestiniano Hamas negou a autoria dos ataques em Rafah, culpando Israel por ter armado e financiado outras milícias, que, disse, realizaram “assassínios, raptos, roubos de camiões de ajuda humanitária e furtos contra civis”. “Não temos conhecimento de quaisquer eventos ou confrontos na área de Rafah, pois são zonas vermelhas sob o controlo da ocupação [a forma como o Hamas se refere a Israel]”, alegou o grupo, em comunicado, reafirmando um “total compromisso em implementar” o cessar-fogo “em todas as áreas da Faixa de Gaza”.
As forças israelitas não limitaram a resposta militar a Rafah e atingiram também outras zonas da Faixa de Gaza, nomeadamente a cidade de Gaza, Khan Younis e o campo de refugiados de Nuseirat. Um ataque com drone no centro de Gaza e dois bombardeamentos em Nuseirat causaram pelo menos seis mortos e nove feridos, avançou a agência de notícias EFE com base em fontes da morgue do Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, em Deir al-Balah, que recebeu os corpos.
Ao todo, os ataques israelitas deste domingo terão provocado 44 mortes, segundo informação dada por uma fonte hospitalar à BBC. O número é também avançado pelo jornal do Qatar Al Araby. Israel afirmou estar a verificar as alegações sobre as mortes.
Israel suspendeu entrada de ajuda em Gaza e passagem de Rafah não abriu
Uma das consequências imediatas do reatar das hostilidades na Faixa de Gaza foi a suspensão da entrada de ajuda humanitária no enclave “até novo aviso”, isto é, de forma aparentemente temporária. O primeiro-ministro israelita aceitou a recomendação do chefe do Estado-Maior das IDF, Eyal Zamir, para que a entrada de ajuda fosse suspensa. Já antes o Crescente Vermelho Egípcio tinha avançado que cerca de 200 camiões com alimentos, material médico e de higiene tinha regressado ao lado egípcio da fronteira depois de Israel ter bombardeado a zona de Rafah.
A passagem vai continuar encerrada “até nova ordem”, anunciou o gabinete de Netanyahu, acrescentando que a abertura da passagem fronteiriça, tal como previsto no acordo de cessar-fogo, “será considerada em função da forma como o Hamas cumprir a sua parte, devolvendo os reféns e implementando a estrutura acordada”, numa referência sobretudo ao que considera ser o atraso do Hamas na entrega dos corpos dos reféns israelitas.
As hostilidades militares deste domingo não deverão colocar em causa o cessar-fogo — proposto pelos Estados Unidos e acordado entre Israel e o Hamas — e que foi iniciado a 10 de outubro, prevendo três fases: a libertação dos reféns, o desarmamento do Hamas e a reconstrução gradual do território, sob supervisão internacional.
A meio da tarde, o Governo israelita garantiu que o cessar-fogo em Gaza se mantém em vigor. “Estamos atualmente num cessar-fogo, mas os soldados têm permissão para se protegerem“, disse a porta-voz do governo Shosh Bedrosian numa conferência de imprensa. Já esta noite, as IDF anunciaram a reposição do cessar-fogo na Faixa de Gaza, avisando, no entanto, que responderão a qualquer violação da trégua sempre que necessário.
“De acordo com as diretrizes do poder político, e após uma série de ataques significativos, as IDF começaram a aplicar novamente o cessar-fogo após sua violação pela organização terrorista Hamas”, sublinharam as IDF em comunicado, acrescentando que “continuarão a defender o acordo de cessar-fogo e responderão firmemente a qualquer violação” do mesmo.