A circulação de dinheiro entre o ex-primeiro-ministro José Sócrates e a sua mãe, Maria Adelaide Monteiro, esteve em foco na manhã da 29.ª sessão do julgamento do processo Operação Marquês, com o depoimento de Teresa Veríssimo, antiga gestora de conta de Sócrates na Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Segundo a testemunha, que esteve responsável pela gestão da conta do antigo governante no período entre 2009 e janeiro de 2014, a mãe de José Sócrates transferiu “dezenas de milhares de euros” para o filho e era frequente este desconhecer quanto dinheiro tinha na conta bancária.
“Eram transferências normais, no sentido em que a senhora falava comigo, pedia-me a execução da transferência e nós fazíamos”, relatou, precisando que os valores movimentados foram na ordem das “dezenas de milhares de euros”, sem adiantar quando tal aconteceu.
Questionada pelo Ministério Público sobre a origem dos fundos, Teresa Veríssimo sublinhou que estes nunca foram depositados em dinheiro e associou-os à “venda de um ou dois imóveis”.
A bancária disse ainda que o ex-governante “normalmente não tinha” consciência do dinheiro que tinha na conta, tendo existido momentos em que os limites de saldo e ‘plafond’ dos cartões de crédito foram atingidos ou ultrapassados.
“Recordo-me de ele me ligar a queixar-se que o cartão não estava a funcionar […] e termos chegado à conclusão que não havia engano nenhum, que o ‘plafond’ estava esgotado”, contou.
Teresa Veríssimo salientou que “houve uma alteração imediata” no comportamento de José Sócrates após deixar o cargo de primeiro-ministro, em 2011, ao indicar que depois desse ano a comunicação passou a ser feita pelo próprio e por telefone, deixando de existir intermediação pelas suas secretárias. Por outro lado, revelou que Sócrates lhe pediu logo em 2014 para ser sua testemunha, no sentido de confirmar que não tinha outras contas bancária.
Numa escuta de 9 de janeiro de 2014 reproduzida na sala de audiência — num período em que já existiam notícias sobre a compra de três casas da mãe de Sócrates por Carlos Santos Silva —, ouviu-se o ex-primeiro-ministro a falar com Teresa Veríssimo e que ia falar com o advogado de então, Daniel Proença de Carvalho, para saber o que era necessário, a fim de “testemunhar as misérias” da sua conta bancária.
José Sócrates (JS) — “Qual é o meu saldo médio desde 2005?”
Teresa Veríssimo (TS) — “Pode ser difícil [fazer esse cálculo].”
JS — “Não consegue calcular?”
TS — “Na conta, tem o seu salário, créditos que foram pagos, ações…”
JS — “Ações do Benfica…Quem pode informar o tribunal que eu nunca tive outra conta bancária nem conta offshore… e quero provar… que instituição pode provar isto?”
TS — “Ui! Ninguém.”
JS — “E o Banco de Portugal?”
TS — “Eu acho que o Banco de Portugal não controla as offshore…”
A gestora bancária foi ainda questionada pelo Ministério Público sobre os empréstimos contraídos pelo ex-primeiro-ministro na CGD ao longo do tempo e se José Sócrates alguma vez lhe manifestou preocupação pelos valores das prestações, tendo Teresa Veríssimo sido taxativa: “Não era uma preocupação para ele“.
Filho de Vítor Constâncio testemunhou sobre casa de Paris — onde esteve hospedado
Esta manhã foram ainda ouvidos como testemunhas João Constâncio — filho do antigo governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio —, que chegou a pernoitar na casa de Paris que era ocupada por José Sócrates e de quem foi politicamente próximo.
Segundo o Correio da Manhã, o Ministério Público questionou a testemunha se existiam “obras em curso” no apartamento na capital francesa, tendo João Constâncio declarado que a casa lhe parecia acabada de remodelar e que passou duas noites naquela habitação. “Fiquei com a perceção que era um apartamento grande, numa zona muito boa. Haverá ali certamente apartamentos mais luxuosos”, completou.
“Achava que era alugada por Sócrates“, frisou ainda a testemunha, acrescentando que posteriormente veio a perceber que seria, afinal, do empresário Carlos Santos Silva, amigo do ex-governante e descrito pela acusação como ‘testa de ferro’ de Sócrates.
João Constâncio está igualmente referenciado na Operação Marquês pelas suas ligações António Costa Peixoto, o blogger que escrevia sob pseudnónimo “Miguel Abrantes” no blogue “Câmara Corporativa” — que, segundo o MP, era pago por Carlos Santos Silva para escrever textos a atacar os críticos de José Sócrates. Constâncio fez ainda parte do “Simplex” — um blogue criado com o propósito exclusivo de apoiar o PS e José Sócrates durante a pré-campanha e campanha para as legislativas de 2009. Nesse blogue, coordenado por João Galamba, escreviam socialistas conhecidos como Pedro Adão e Silva, João Constâncio, Tiago Barbosa Ribeiro, Porfírio Silva. Todos eles grandes apoiantes de José Sócrates naquela altura.
Paralelamente, passou também esta quinta-feira como testemunha no julgamento o gestor de empresas Tiago Águas, que declarou ter conhecido o arguido Gonçalo Trindade Ferreira no âmbito de uma abordagem para a constituição de um fundo imobiliário cujo cliente seria Carlos Santos Silva.
Sócrates. O que o blogger e o ghostwriter disseram à Justiça
O projeto de criação deste fundo imobiliário fechado já foi abordado durante o julgamento. O fundo, que não chegou a ser concretizado, visaria integrar as casas que Carlos Santos Silva tinha adquirido à mãe de José Sócrates — os dois apartamentos no Cacém e o imóvel na Rua Castilho —, além do apartamento de Paris que foi ocupado por José Sócrates. A questão da escolha de apenas estes imóveis entre o vasto património do empresário foi um dos aspetos que chamou a atenção da investigação.
Ex-empregada da mãe de Sócrates não se lembra de entregas de dinheiro ‘vivo’
Durante a parte da tarde, a ex-empregada doméstica da mãe de José Sócrates foi igualmente ouvida no Juízo Central Criminal de Lisboa e alegou não se recordar de, há mais de dez anos, ter entregado à patroa dinheiro em numerário a pedido do antigo primeiro-ministro. Na acusação, o Ministério Público refere a existência destas entregas para sustentar que o dinheiro do empresário Carlos Santos Silva pertencia na realidade a José Sócrates, dispondo este de fundos que distribuía por pessoas próximas, entre outras despesas pessoais.
Questionada no julgamento sobre se alguma vez recebeu dinheiro do ex-governante para entregar à mãe ou ao irmão deste, Maria Rita Gomes, empregada de Maria Adelaide Monteiro entre 1998 e o final de 2014, respondeu não se lembrar de tal ter acontecido.
A resposta manteve-se mesmo depois de ter sido confrontada com escutas nas quais, em agosto de 2014, José Sócrates e a mãe falam em “papéis”, alegadamente um código, no entender da acusação, para a entrega de quatro mil euros à idosa através da empregada doméstica.
Maria Rita Gomes afirmou também não se lembrar de ter ido depositar dinheiro ao banco por Maria Adelaide Monteiro, apesar de ter sido confrontada pelo Ministério Público com um documento que indicava que tinha sido a empregada doméstica a fazer o depósito de dinheiro pela mãe de José Sócrates. “Não me lembro de nada disto, já passou tanto tempo. Cheguei a depositar pelo irmão do Sócrates [António Pinto de Sousa, falecido em 2011]. Era a mãe que me dava o dinheiro, mas eram pequenas quantias”, disse.
No depoimento, Maria Rita Gomes, que limpava igualmente as casas de José Sócrates e daquele irmão, assegurou também nunca ter visto envelopes com dinheiro no apartamento do antigo primeiro-ministro. Por outro lado, mencionou que havia um cofre na casa da mãe de Sócrates e que este era grande e continha dinheiro e joias. Apenas o ex-primeiro-ministro, o seu irmão (que morreu em 2011) e a mãe tinham acesso ao mesmo, segundo a testemunha.
Quadros de Sócrates na casa da empregada da mãe devido a “obras”
Outro dos temas com os quais o MP confrontou a testemunha foi a descoberta de quadros que pertenciam a José Sócrates nas buscas realizadas à casa de Maria Rita Gomes.
A empregada reconheceu que os quadros “eram do senhor engenheiro” e que tinha “alguns pendurados na parede e outros guardados”, explicando ainda, segundo o CM, que os levou pouco antes de serem efetuadas as buscas e as razões para os ter levado para sua casa.
Ministério Público (MP) — Mas porque levou os quadros e eles não estavam na casa de Sócrates e na da mãe?
Maria Rita Gomes (MRG) — A casa estava em obras.
MP — Mas as duas casas estavam em obras?
MRG — Não, a casa dele. A casa da mãe não tinha espaço.
Juíza — Quanto tempo antes da busca a senhora levou os quadros para casa?
MRG — Não muito tempo antes da busca.
Juíza: Que orientação lhe deram quando lhe pediram para levar os quadros? Disseram que eram valiosos?
MRG — Não me lembro.
Juíza — Quando os levou para lá?
MRG — Não me lembro.
José Sócrates, de 68 anos, está pronunciado (acusado após instrução) de 22 crimes, incluindo três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar em dossiês distintos o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o ‘resort’ algarvio de Vale do Lobo.
No total, o processo conta com 21 arguidos, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que lhes são imputados.
O julgamento da Operação Marquês prossegue na próxima terça-feira com a audição de mais testemunhas.
(Notícia atualizada às 20h10)
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