Um é candidato à Presidência da República, outro podia ter sido — se não tivesse concluído que o avanço de ambos seria “redundante”. Foi assim que o candidato, Luís Marques Mendes, e o seu mandatário, Rui Moreira, se acabaram por se juntar esta quinta-feira num hotel em Lisboa para apresentar e explicar esta aliança. Sempre em defesa da experiência política de Marques Mendes e contra a “polarização” e as soluções “fora do quadro da democracia”, com farpas que atingiriam (sem nunca o nomear) André Ventura e, nalguns casos, Henrique Gouveia e Melo.
Tendo já admitido em público que ponderou avançar como candidato a Belém — recuou por considerar que a candidatura não geraria “entusiasmo” e facilitaria a vida a alternativas anti-sistema — desta vez Moreira quase pareceu ter aproveitado e tirado da gaveta o longo discurso que poderia ter feito enquanto candidato. Começando, desde logo, por explicar que abandonou a ideia de tentar Belém por estar convicto de que a candidatura de Marques Mendes “abrange um vasto espectro político-ideológico”, de “banda larga”, e por ter percebido que as duas candidaturas seriam “redundantes”.
A ideia de avançar nem sequer gerou “acrimónia” junto de Marques Mendes, explicou, mas os dois foram conversando e percebendo que havia o risco de as duas candidaturas “se canibalizarem e gerarem uma dispersão de votos”. E aí começou a estabelecer a ponte para o eixo principal do seu discurso: quem beneficiaria dessa divisão seriam candidatos que “abominam a política ou dela têm uma visão de sacristia”, que querem “quebrar o equilíbrio de poderes e desvirtuar a natureza do regime”, que ameaçam “destruir o sistema e sonham com uma quarta república de cariz iliberal” ou que “amesquinham a democracia portuguesa e fazem da política mero palco para a sua egomania“.
Em poucas linhas (de um discurso de 25 páginas) ficavam descritos os principais alvos do seu discurso — presumivelmente, também os maiores adversários de Marques Mendes na corrida a Belém — e os perfis de quem esta candidatura se quer distanciar. O mandatário fez, aliás, questão de comparar estas presidenciais não à emocionante corrida de 1986, mas à clivagem de 1976 entre quem defendia a Constituição e quem a pretendia “subverter, a pretexto de uma suposta legitimidade revolucionária”.
Agora, prosseguiu, reaparecem narrativas “radicais e antissistémicas”, que ganharam tração por culpa da inação de diversos governos, mas isso não justifica certas escolhas nas eleições presidenciais: “Não há hoje qualquer razão para escolhermos caudilhos ou homens que se julgam providenciais”, defendeu, num dos maiores aplausos da sala.
Regime corre “risco de perversão” nestas eleições
O discurso foi sempre feito na linha de defesa do regime, da democracia (mesmo com os seus defeitos) sem “nostalgias” e de quem, em vez de olhar para o copo meio cheio e tentar “enchê-lo”, prefere “quebrá-lo, só porque não têm o engenho para o encher quando o olham e veem meio vazio”.
Mas esse sistema, preveniu, pode estar em risco: “Com este modelo constitucional e no atual cenário de polarização política do país, corremos o risco de uma perversão do sistema semipresidencial”, avisou. “Risco, esse, que advém da possibilidade de eleição de candidatos sem noção ou respeito pela filigrana de equilíbrios institucionais do regime. De candidatos com uma visão messiânica da política e de si próprios. De candidatos dispostos a usar a Presidência da República como trampolim para a governação do país. De candidatos com o objetivo declarado de minar o regime democrático e se imiscuírem, ilegitimamente, na esfera de outros poderes”.
“A perversão do semipresidencialismo provocaria uma grave crise institucional. Com a agravante de que, como constatamos todos os dias, estes não são tempos normais”, foi alertando, preocupado com o risco de que se procurem soluções “fora do quadro da democracia ou até a reencarnação de uma “espécie de sidonismo fora de época”.
Outras referências mais diretas que pareciam aplicar-se a Gouveia e Melo registaram-se depois de ter elogiado Marques Mendes por não “cavalgar a antissistema”, valorizar a democracia e não “diabolizar a política e as políticas”. No papel de independente, que manteve durante os 12 anos à frente da Câmara do Porto, Moreira quis frisar que nunca atacou o sistema nem nunca se pôs fora dele, mas também nunca repudiou os partidos ou se arrogou “acima” da política partidária. Tem, aliás, “receio” dos que se reclamam “apolíticos ou antipartidários”.
“Ao invés, o Dr. Marques Mendes não renega a sua longa carreira como governante, dirigente partidário e comentador político”. Sabemos quem é e o que pensa, o que não é um constrangimento, assegurou, mas a prova de um projeto credível.
Quanto ao perfil ideal para um candidato presidencial, definiu-o e assegurou que corresponde exatamente ao de Marques Mendes: tem de ser um candidato que mantenha uma boa coabitação com o Governo e o Parlamento; que seja “aliado da vontade reformista” do Governo; deve estar próximo dos portugueses e não “numa torre de marfim construída à medida do seu ego”; ser “popular sem ser populista” e “afetivo sem perder a gravitas”; e ser, como Marques Mendes, um “verdadeiro patriota” e um “social democrata do século XXI”, com autoridade, competência e prestígio, sem “aventureirismos ou experimentalismos”. E que saiba que “não fazer pontes ou acordos é a pior das soluções (…) A radicalização desse dissenso e a polemização de controvérsias nada resolve per se: é um mero instrumento de conquista do poder”.
“Ora, o Dr. Marques Mendes tem o dom de saber falar para e com os portugueses. É uma voz reconhecida e respeitada (…). Sei, tenho a certeza, que o Dr. Marques Mendes é o candidato da temperança, que recusará a ritualização da discórdia e procurará consensos. É por isso o candidato indicado para contrariar a polarização da sociedade”, argumentou.
Numa sala em que se sentavam figuras do PSD como Leonor Beleza (presidente da comissão de honra do ex-líder), Manuela Ferreira Leite e Sebastião Bugalho, Marques Mendes também se desfez em elogios ao homem que, reconheceu, tinha condições “se o quisesse para ser muito mais” do que seu mandatário — “até candidato presidencial”.
Escolheu-o para representar a candidatura, explicou, porque é um “homem de causas”; porque é um “senador da República”, tem bom senso, capacidade de diálogo; porque é uma pessoa “respeitada e prestigiada” no país, pelo discurso e pelo exemplo; e é independente, sendo essa uma das suas “grandes imagens de marca”.
Depois, tocou em vários pontos em que as suas convicções se cruzam com as do Presidente cessante da Câmara do Porto: a experiência é um fator que “faz toda a diferença” numa candidatura a Belém; quanto à independência, os candidatos devem “deixar-se de arrogâncias“, porque ninguém tem esse “monopólio”, e mostrar provas de que é assim que vivem e trabalham — numa referência ao seu legado como presidente do PSD, que lhe deixou algumas inimizades no partido, nomeadamente entre os candidatos autárquicos que impediu de se candidatarem na altura por serem suspeitos de corrupção.
E frisou que não existe uma incompatibilidade entre vir de um partido e ser independente, lembrando os anteriores Presidentes. “É este o meu compromisso, orgulhoso do meu passado político, mas sempre independente, isento e imparcial”.
Um resumo possível do seu ‘programa’ presidencial: as pessoas querem “tranquilidade, não confusão, ruído ou provocação”; o país “não pode passar o tempo em eleições”, roubando tempo aos governos para apresentarem resultados; é preciso ambição nacional, “substituindo a lamúria; e é preciso “reforçar a ética na política”, tendo boa parte dos políticos “deixado de ser exemplo” nesta área, reconheceu.
[Chegou o histórico debate entre Soares e Freitas. E o socialista já conseguiu o voto dos comunistas sem “olhar para o retrato” dele. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]