Na segunda parte da entrevista ao jornalista britânico Piers Morgan, Cristiano Ronaldo assegurou que não esteve no funeral de Diogo Jota por preferir apoiar a família em privado. Disse ainda que está focado no descanso e na disciplina e assumiu que descarta qualquer crítica que receba. O craque português referiu também que mantém boas relações no futebol, mas com poucos amigos, reconhecendo que a fama é cansativa. A conversa terminou com Ronaldo a manifestar o desejo de se querer encontrar com o Presidente dos Estados Unidos — considerando que é mais conhecido do que Donald Trump.

O jogador do Al-Nassr foi confrontado pelo jornalista britânico com a morte do colega Diogo Jota, vítima de um acidente de carro ocorrido em julho deste ano. Ronaldo conta que quando soube da notícia, estava com a sua noiva, Georgina Rodríguez. “Estava com a Gio no período de descanso, estávamos no ginásio. Não queria acreditar, chorei muito. A Gio pode confirmar isso. Foi muito, muito difícil para a família, amigos. Foi devastador”, confessou.

“Temos de aproveitar os momentos e não planear muito o futuro. Não faço planos a longo prazo, porque tudo pode mudar de um momento para outro”, disse o craque português, acrescentando: “Temos de estar felizes por estarmos aqui. Foi um momento chocante. Ainda sinto a aura na Seleção Nacional, quando metes a camisola. Era um de nós“.

Diogo Jota era, nas palavras de Ronaldo, “um rapaz calmo, um grande jogador”. “Gostei de partilhar grandes momentos com ele. Foi triste. Tive a oportunidade de falar com a família para dar apoio. Temos de aproveitar a vida”.

Questionado por Morgan por que razão não foi ao funeral de Jota, Cristiano respondeu que depois da morte do pai, em 2005, nunca mais esteve num funeral. “As pessoas criticam-me muito, não quero saber. Não vou porque, se for, a atenção vai para mim. Não gosto de quando passas por um momento sensível faças entrevista. O que é isto? Mostra como a vida às vezes é um circo. Não quero fazer parte desse mundo”, disse.

“As pessoas podem continuar a criticar, senti-me bem com a minha decisão. Não preciso de estar na primeira fila. Estou a pensar na sua família, não preciso de estar nas câmaras para verem o que estou a fazer. Faço por trás. Fizeram uma grande propaganda. Se queres aproveitar um aniversário, não me convides”, afirmou.

“Achas que és melhor finalizador agora?”, questiona Piers Morgan

O jornalista, num momento mais descontraído, tocou nos abdominais de Cristiano Ronaldo e, em tom de brincadeira, atirou: “Dizem que tens a forma física de alguém com 28 anos. Sentes isso?” O português admitiu que “fisicamente” parece mais novo e explicou: “Comecei a ir ginásio com 12, 13, 14 anos. Tento manter uma consistência na minha vida. Durmo bem, faço uma boa recuperação, trabalho bem no ginásio. É apenas consistência. Se a tiveres torna-se fácil”.

Ronaldo confessou que se inspira em si mesmo, mas que vê “bons exemplos noutros desportos”. “O LeBron James, no basquetebol, também parece que tem sempre a mesma idade. Continua a jogar basquetebol e mostra o que vale. O Modric, por exemplo, tem a mesma idade que eu”, explicou.

“Acho que sempre fui um finalizador de topo. Acho que agora me foco mais nisso. Por causa da idade, tens de melhorar outras coisas. Estou focado em estar bem mentalmente, fresco. Estou a adaptar-me”, respondeu Cristiano, sublinhando que nos primeiros anos não estava no topo, mas que, “depois dos 25 anos”, pensa que “era semelhante ao que é agora”.

O craque português revelou que tudo se “aprende com o tempo e com a experiência” e criticou aqueles que pensam que já “sabem tudo”. “Acho que o grande problemas dos jogadores é acharem que sabem tudo e não aprendem mais. Os jogadores depois dos 30 anos acabam por ‘cair’ mas eu sou o oposto. Podem dizer o que quiserem porque às vezes as pessoas que falam de futebol não sabem nada“.

Sobre a provocação de Wayne Rooney a dizer que não odeia Ronaldo, mas que continua a dizer que Messi é melhor, o português afirmou que “não há problema” e confessou: “Não fico triste com isso. É ok. Podes escolher quem quiseres”.

“Quando jogávamos juntos tínhamos uma boa relação. Não era uma relação como a que tenho com os meus amigos, que vêm jantar comigo. Mas temos uma boa relação”, disse, referindo a Rooney. “No futebol, não tenho amigos que venham a casa jantar ou almoçar. Tenho boas relações. Sou uma pessoa sociável. Dou-me bem com todos. Mas a palavra amigo é mais profunda“, concluiu.

Os golos são as melhores respostas para as críticas

O português de 40 anos disse ainda que o número de golos que marca durante uma época é uma desculpa para quem quer falar mal de si. “São desculpas. Ano após ano. Até num mau ano marco 25. Se jogasse agora na Premier League marcaria o mesmo”.

“Não precisam de falar, podem dizer o que quiserem, mas os números não mentem. Nunca jogaram na Arábia Saudita, não sabem o que é correr com 40º C. A Liga saudita é muito melhor que a portuguesa, a francesa, onde só há o PSG. Os golos deveriam contar para a Bola de Ouro, porque é que não contam com a Arábia Saudita? Vejam quantos jogadores de topo há aqui. Perguntem aos outros. Para mim é mais fácil marcar em Espanha do que na Arábia Saudita”.

Nesta sequência, Piers Morgan perguntou se Ronaldo pensa marcar o golo 1000 no Mundial de 2026. “Não estou a pensar nisso”, confessou, dizendo que ganhar o campeonato do mundo não é um sonho: “Ganhar um Mundial não vai mudar o meu nome na história”. “Não vou mentir. O que tenho a certeza é que estou a aproveitar o momento, aprendi com o tempo que o momento é o mais importante”, acrescentou.

“Ainda não estamos qualificados. Joguei com a Hungria em Alvalade, talvez tenha sido o último lá. Nunca saberemos. A minha família estava lá. Venci três títulos por Portugal [Europeu de 2016 e Liga das Nações de 2019 e 2025]. Se Portugal ganhar um Mundial será o choque? Sim. Mas na minha cabeça não penso dessa forma. Claro que quero ganhar, mas não vai mudar a forma como vejo o futebol”, reforçou o capitão da seleção nacional.

Apesar de ser considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos, Cristiano reiterou a Piers Morgan que não quer “saber disso”. “Já vi tantas coisas a serem ditas. A história fala por si. Há opiniões para tudo. Não há problema para mim. Já ganhei três taças por Portugal. Antes nunca tínhamos vencido nada. O Mundial não muda. Podemos ganhar? Sim. Vamos lutar por isso. Se defini isso como objetivo? Defini que queria ser melhor“.

“Eu não sou normal. Sou perfecto“

Ronaldo mostrou novamente o seu lado bem-humorado e confiante. Quando o jornalista lhe perguntou se se considerava mais bonito do que David Beckham, o craque respondeu que, mesmo se fosse “um rapaz normal, de chinelos vermelhos em Copacabana com uma água de coco”, teria sempre hipóteses. Para ele, tudo depende da perspetiva.

Piers insistiu perguntando quem chamaria mais atenção caso ele e Beckham estivessem lado a lado. Ronaldo não hesitou e afirmou, entre risos, que seria ele. “Não sou normal. Sou perfecto“, atirou.

A conversa também se focou na relação com Alex Ferguson. Ronaldo contou que, durante o período no Manchester United, falavam frequentemente e que o treinador chegou a visitá-lo em casa. Descreveu Ferguson como “um grande homem” e confessou que o guarda sempre no coração, reconhecendo o papel importante que teve na sua carreira.

Quando questionado sobre quem teria sido o melhor treinador da sua carreira, Ronaldo preferiu não destacar apenas um, afirmando que teve a sorte de trabalhar com vários dos melhores do mundo e que não seria justo escolher apenas um nome.

A vontade de conhecer Trump e a “conversa fascinante” que um dia espera vir a ter com o líder norte-americano

Sobre o momento em que ofereceu a Donald Trump uma camisola de Portugal com a mensagem “Jogar pela paz”, Ronaldo explicou que a intenção era simples: “promover a paz global”. Figuras com grande influência, como o Presidente dos Estados Unidos, podem ter um papel determinante nisso. “Onde quer que esteja. Espero um dia conhecê-lo”, afirmou, acrescentando que acredita até que poderia vir a gostar dele.

“A jogar pela paz”. António Costa oferece a Trump uma camisola com dedicatória de Ronaldo

Cristiano deixou no ar que tem algo que gostaria de dizer pessoalmente a Trump, algo que ambos “partilham”, mas preferiu não revelar. “Será fascinante“, disse, garantindo que essa conversa, se algum dia acontecer, será especial.

Entre risos, lançou também um debate sobre a fama global, perguntando quem seria mais conhecido no mundo: ele ou Donald Trump. E logo respondeu: “Sou eu“, justificando que, até numa pequena ilha, o reconhecem mais do que ao Presidente dos Estados Unidos. Na opinião do jogador português, há poucos nomes comparáveis em termos de notoriedade: princesa Diana, Nelson Mandela e Michael Jackson.

Apesar da confiança que tem publicamente, Ronaldo admitiu que a fama se tornou cansativa. “Quem me dera não ser tão famoso, a sério. Nunca quis ser famoso. Quis ser uma estrela, mas não isto”, disse, acrescentando que há vinte anos ainda conseguia passar despercebido.

Antes de acabar a entrevista, Cristiano Ronaldo brincou com o futuro. “Espero que a próxima vez que estejamos juntos não seja apenas daqui a três anos. Imagina, podíamos estar os três: eu, tu e Trump numa mesa. Seria engraçado. Se fosse na Casa Branca ainda melhor”, atirou a Piers Morgan.

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