O julgamento tinha acabado de começar, depois da apresentação do arguido, quando foi chamado à sala de audiências uma testemunha. O homem, que escapou aos tiros no dia da morte de três pessoas numa barbearia na Penha de França, em outubro do ano passado, disse que não queria prestar o seu testemunho com a família do arguido presente na sala.

Enquanto o coletivo de juízes, liderado por Sandra Carneiro, deliberava sobre a retirada de duas familiares da sala, a testemunha exaltou-se e levantou-se da cadeira depois de ver Fernando Silva atrás de si. “Não me sinto bem aqui. Não me sinto bem com ele aqui atrás de mim”, disse, apontando para o arguido.

Antes, os familiares do arguido comentaram que não tinha “lógica” saírem e foram mandados calar por um dos sete polícias presentes na sala — dois deles têm acompanhado sempre o homem acusado do triplo homicídio.

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“Calma”, “senta-te”, pediram algumas pessoas na sala. “Ninguém me agarre”, respondeu a testemunha, enquanto saía da sala. Atendendo aos ânimos, a juíza ordenou a retirada de todas as pessoas que estavam na sala, incluindo o arguido, à exceção dos jornalistas. Poucos minutos depois, com a sala mais vazia, a testemunha voltou a entrar e, enquanto se sentava, pediu desculpa à juíza pelo momento de exaltação anterior. Já sentado, falou, entre alguns soluços, sobre o que aconteceu a 2 de outubro de 2024.

O resto do julgamento decorreu sem a presença do arguido na sala e só com jornalistas a assistir.

O “dia como os outros” em que o barbeiro se desviou da morte

Era “mais um dia como os outros”, em que a testemunha apoiava Carlos Pina, dono da barbearia, no trabalho. Pela hora de almoço, tinham apenas um “miúdo à porta”, que foi atendido pela testemunha. Enquanto cortava o cabelo a esse cliente, entrou o arguido e dirigiu-se ao dono da barbearia, que estava sentado. “Ele vinha de vez em quando [ao estabelecimento]. Ele era bem atendido. Nunca houve discussão”.

Acompanhado do pai e do “irmão” — tratava-o como tal, apesar de não haver essa relação biológica —, Fernando disse: “Vais cortar-me o cabelo, vais cortar-me o cabelo”.  “Vi que ele não estava fixe”. No mesmo dia, ouviu dizer, o arguido teria batido na mulher e nos filhos.

A testemunha explicou que os atrasos são normais e que também é habitual “a malta ficar impaciente”, porque “tem coisas para fazer”. O arguido não terá reagido bem quando Carlos Pina lhe disse que até poderia cortar o cabelo, mas só depois de esperar um pouco.

De repente, prosseguiu o relato, o arguido tirou uma arma — “não sei de onde, nem vi a arma” — e disparou contra o dono da barbearia. A testemunha ainda ouviu a segunda vítima a dizer “era preciso isso tudo”, antes de também ser baleada. “Só agarrei [o jovem cliente que estava a ser atendido] e disse para estar quieto”.

Esse jovem queria esconder-se dentro da barbearia, mas a testemunha entendeu que o melhor seria fugirem os dois. Enquanto Fernando estava de costas para a porta — quando se dirigia para o carro na companhia de mais duas pessoas — o cliente fugiu “para a esquerda”. Ao aperceber-se dos passos, assume a testemunha, o arguido voltou a virar-se e disparou contra o barbeiro que tentava fugir para o outro lado. “Eu baixei-me e o tiro foi para a montra”.

“Não me sinto seguro”. Testemunha recorda morte de um “pilar” e diz que ainda vive com medo

Num discurso longo, a mesma testemunha (funcionário na barbearia de Carlos Pina), lembrou o colega como uma pessoa muito importante na sua vida. “Era mais que um amigo, era o meu pai, era o meu pilar”. “Comecei a trabalhar há mais de oito anos” na barbearia. Chegou a ausentar-se alguns anos da zona, mas já estava “há meses” no estabelecimento quando aconteceu o triplo homicídio.

Não recorda confusões com outros clientes — “nunca vi pessoa a falar mal do trabalho dele. Tinha a porta sempre aberta” —, tampouco com Fernando Silva. Tem a certeza que se houvesse algum problema, Carlos não teria problema em dizer: “Éramos irmãos, falávamos de tudo”.

Fernando e os familiares também não eram desconhecidos. “Moram todos no mesmo prédio”, bem perto do barbeiro. “Não venham dizer que ele é maluco”, disse, apesar de admitir que notou o arguido “com um bocado de raiva”, daí ter sentido necessidade de perguntar se “estava tudo bem”. “Somos todos amigos ali. Quem entra no salão faz parte do salão, eu sinto-me à vontade de perguntar”. No dia do triplo homicídio viu mais duas pessoas — pai e “irmão” — com o arguido.

Quando a testemunha regressou à Penha de França após uma ausência prolongada, recorda-se de ter sido bem recebida por Fernando. Questionado por Fábio Neves Palha, advogado do arguido, assumiu que ouviu falar de um episódio em que o acusado de homicídio se atirou de uma varanda. “Mas eu não vi nada”, completou.

Atualmente, o episódio ainda afeta a sua vida. “Afastei toda a gente da minha vida, afastei o meu filho, afastei a minha mulher. Até no trabalho… entra um cigano e se for preciso eu saio”. Assumiu que continua com medo e teme retaliações. “Há certos estabelecimentos que eu não entro mais. Tenho rotina — casa, trabalho, ginásio. Deixei de fazer muitas coisas. Deixei de passear com a família e com o meu filho. Há sítios que não posso ir, não me sinto seguro”. Desde a tarde de 2 de outubro que passou a andar mais vezes sozinho, por temer pela segurança da família.

Acrescentou que já foi ao médico para tentar ultrapassar um evento traumático que lhe tirou várias noites de sono. Hoje, é através da música que tenta ultrapassar a dor. “Aprendi a desabafar com a música”.

“Vocês são os próximos”, gritou mãe do arguido. Testemunha já viu Fernando disparar antes

Depois do testemunho comovido do colega de Carlos, a juíza mandou entrar uma nova testemunha. O jovem, que era vizinho do arguido, viu tudo a partir da janela de casa e para contá-lo prefere que a sala continue como está, vazia.

“Estava em casa. Ia sair para a faculdade. Ouvi os tiros e fui à janela. Vi um rapaz a correr com a bata do barbeiro. Olho e vejo o Fernando a correr no meio da estrada”. Reconheceu a pessoa que ia na rua com uma arma na mão muito facilmente, uma vez que se trata de um vizinho de longa data.

Além do arguido, seguiam em direção a um carro estacionado do outro lado da rua mais duas pessoas — o pai e o “irmão” de Fernando. Enquanto se afastavam da barbearia, aproximavam-se da casa da testemunha, que foi percebendo o que estava a acontecer. “Vi os três a atravessar a estrada. Em frente ao carro vi o Fernando a guardar a arma. Foi com a arma na mão até ao carro. Arrumou-a antes de entrar”.

Lembra-se de ver o arguido “agitado e alterado”, mas não propriamente “desorientado”, como questionou Fábio Neves Palha. Disse que ouviu o pai gritar “despacha-te” várias vezes e de achar que, pelos gestos, este estaria a pedir a arma utilizada pelo filho, que não a deu.

“Quando o carro partiu, a mãe [do arguido] virou-se [para as várias pessoas que assistiam da varanda] e disse: ‘vocês são os próximos’”. Esta, recordou a testemunha, não foi a primeira vez que viu Fernando com uma arma. Segundo ele, a “família costuma” ter posse de arma e disparar para o ar na passagem de ano. “Vi o Fernando a disparar da janela no Ano Novo”.

‘Irmão’ temia que arguido pudesse matar alguém e família seguia-o com medo — mas não sabe como arranjou pistola

A última testemunha a falar foi o auto-intitulado “irmão” do arguido — assim eram conhecidos e o próprio admite que também chamava pai ao progenitor do arguido, mesmo não havendo relação biológica. Por esse motivo, ao contrário do que fez o pai de Fernando, esta testemunha viu-se obrigada a prestar declarações.

Antes de destacar os problemas mentais do “irmão”, recordou os pormenores daquela tarde de outubro do ano passado. Disse que estava com o “pai” — “chamo-lhe pai porque me criou” — quando recebeu um telefonema da mulher de Fernando a pedir ajuda uma vez que o companheiro estaria “descompensado”. “Ligou a dizer para irmos [a um café perto da] Maternidade Alfredo da Costa buscar o Fernando, que ele estava um bocadinho alterado e nós já sabemos os problemas que o Fernando tem”.

Sentado a falar a poucos metros de Fernando (que durante o dia todo só assistiu ao depoimento do “irmão”), a testemunha disse que depois de recolherem o casal, seguiram de carro em direção a casa. No caminho, o arguido terá dito ao pai para “parar ao pé do Pina”, que ele queria cortar o cabelo.

Assim o fizeram. Quando pararam, seguiram os dois “irmãos” para a barbearia. “Entrei, cumprimentei e saí para a rua. Ouço um tiro, olho para o lado e vejo o Pina no chão. Comecei a fugir, entrei em pânico, não vi mais nada, nem quis saber do Fernando”.

Ao contrário do que disseram algumas testemunhas, esta garantiu que não fugiu de carro com o “irmão” nem o pai seguiu com eles para a barbearia. “Ele seguiu para estacionar o carro”, perto da casa onde vivem. “A única pessoa que estava à porta era eu. Isso é tudo mentira”.

A testemunha foi para casa e levou a mulher e os filhos para longe da Penha de França — vivia noutra casa, mas na mesma rua que o arguido. “As pessoas ali sabem que temos uma relação de irmãos, fugi com medo de represálias”.

Feita a descrição da sua versão dos acontecimentos, a testemunha centrou-se em todo o contexto de Fernando como “uma pessoa doente” com esquizofrenia detetada aos 28 anos. “Há outras pessoas [com culpa], não é só o Fernando. Nós pedimos ajuda às autoridades competentes. Pedimos ajuda e ninguém nos deu apoio, o Fernando não teve apoio”.

Desde há alguns anos que a família viveria com medo que o arguido “fizesse algum disparate”. Depois de irem buscar o casal ao café, não falaram sobre o que tinha acontecido antes. “Às vezes tínhamos medo de falar à frente dele sobre certas coisas. Ele não era agressivo, ele tornou-se agressivo”. “Ele dizia que ouvia vozes”, acrescentou.

Tentaram acalmá-lo, mas perceberam que a solução era procurar apoio clínico. Levaram-no à PSP, que disse não ter competências para ajudar. Após alguma insistência, e outras recusas, conseguiram ajuda da polícia para algemar Fernando e interná-lo. O primeiro internamento não correu bem e o arguido chegou a fugir. Quando teve alta, foi medicado, mas o prognóstico não melhorou. “Tinha delírios, ouvia vozes, via homens. Nós sempre alertámos: ‘O meu irmão vai matar alguém’”.

O ‘irmão’ recordou outros episódios: atirou-se da janela; conduziu o próprio carro contra uma parede e chegou a atirar um cutelo contra a testemunha. “Ele começou a enganar-nos melhor, porque não queria ser internado. Ele tornava-se agressivo e desconfiado quando era contrariado. Tínhamos que ignorar e não contrariar”.

Antes destes momentos, Fernando chegou a ser internado novamente no Hospital Curry Cabral, onde o “irmão” viu a sua melhor fase, por estar a ser acompanhado e medicado. Mas, fora da vigilância médica, tudo piorava.

A família viu-se obrigada a controlá-lo com maior proximidade. “Estava sempre acompanhado”, contou em tribunal, que acreditava que a sua presença e a do pai funcionava como um calmante.

Depois de ter admitido que a vigilância da família a Fernando era apertada, a juíza questionou se, tendo em conta esse controlo, imaginava como é que o arguido teria tido acesso a uma arma. O “irmão” abanou várias vezes a cabeça enquanto sussurrava que não sabia — e também desconhecia se alguma vez Fernando tinha disparado armas na passagem de ano.

Uma vez que visita constantemente Fernando na prisão, explicou que o arguido, agora, estava mais calmo por estar medicado. “Conversa um bocadinho, parece uma pessoa normal”. Apesar de admitir alguns lapsos de memória do “irmão”, admitiu à juíza que ele saberia o nome do pai — horas antes, no arranque da sessão, o arguido disse que não sabia o nome do progenitor.

“Armado” e com atitude de “provocação”: arguido gerou desacatos em restaurante antes do homicídio

A primeira testemunha da parte da tarde do julgamento não conhecia Fernando Silva até ao dia dos factos. Não estava na barbearia, mas cruzou-se com o arguido antes do triplo homicídio: estavam os dois a almoçar num restaurante na zona do Saldanha, em Lisboa.

A mesa em que o empreiteiro de profissão estava a almoçar com dois colegas estava “muito próxima” da mesa onde Fernando estava a comer com a mulher. A testemunha e o arguido cumprimentaram-se quando chegaram à mesa, mas passado pouco tempo começaram a notar uma atitude de “provocação”.

“De repente começou a imitar o que o meu colega estava a falar. Ele estava completamente desequilibrado. No momento em que começa a repetir as palavras do meu colega, a mulher do arguido levanta-se e vai até à porta e começa a gritar: ‘Fernando pára, Fernando pára. Pára, pára, pára, pára”.

Os três colegas estavam a falar sobre comida e ninguém respondeu às provocações de Fernando. Entre as palavras dirigidas pelo arguido, ouviram referências a “favelas”, uma vez que as duas pessoas que acompanhavam a testemunha eram brasileiras. “Isto aqui é pior que uma favela. Isto não é o Brasil”, recordou.

Quando a mulher do arguido gritou estas indicações a partir da porta do restaurante, a testemunha olhou para trás e viu-o a “guardar a pistola — 6.35 — na bolsa”. “Fiz sinal aos meus colegas para terem cama que ele estava armado. (…) O silêncio salvou-nos naquele momento”.

Fernando levantou-se e as pessoas do restaurante olharam-no atentamente e em silêncio. Antes de sair, ainda disse à testemunha: “Anda cá! Queres lutar comigo mano a mano”.

Questionado pelo advogado do arguido, a testemunha disse que viu os funcionários do restaurante a servir álcool — cerveja e whisky — à mesa de Fernando. A defesa tentou perceber se ele estaria “embriagado” ou “desorientado”, mas a juíza alertou para a dificuldade de definir os efeitos da bebida em excesso. “Já vi muita coisa”.

A testemunha garantiu que ficou com a ideia que o arguido estaria alcoolizado, mas com noção espacial e temporal.

Trabalhador de oficina achou que eram “crianças a brincar”. Quando ouviu segundo disparo, pensou: “isto não é brincadeira”

Dois trabalhadores de uma oficina de limpeza de carros — que fica a poucos metros da barbearia — também relataram os acontecimentos daquela tarde. Estavam a limpar os carros de Bruno e da mulher, o casal que morreu baleado.

“Eles deixaram lá os carros. Quando [o homem] ia lavar o carro aproveitava para cortar o cabelo”, conta um dos funcionários da oficina. Quando estavam a trabalhar, ouviram o primeiro tiro. “Achei que eram crianças a brincar com petardos”. Mas quando ouviu o segundo estrondo já não manteve a calma. “Ouvi o segundo ‘pum’ e vi o corpo a cair. “Pensei ‘isto não é brincadeira’”. Depois disso começou a fugir e não reparou em mais nada.

O outro trabalhador também fugiu, entrou numa churrasqueira na rua, fechou a porta para se proteger e ligou à polícia. Nenhum dos dois conhecia conflitos anteriores entre homicida e o barbeiro.

Arguido não presta declarações e diz que não se recorda do nome completo

No início do seu julgamento Fernando Silva, acusado de matar três pessoas numa barbearia na Penha de França, em Lisboa, apresentou-se mas não conseguiu responder a várias questões sobre a sua identidade. O arguido manifestou a intenção de não prestar declarações no julgamento.

O arguido, que admitiu não saber o seu nome completo ou o nome do pai, assumiu que apesar de ter recebido o “papel” da acusação, não se recordava dos factos. Lido o relato do dia que culminou na morte de três pessoas, a juíza Sandra Carneiro perguntou ao arguido se queria falar. “Não presta declarações”, precipitou-se um dos advogados. A juíza lembrou que tinha de ser o arguido a responder.

O arguido é acusado de “três crimes de homicídio qualificado agravado com recurso a arma de fogo, um crime de homicídio qualificado agravado com recurso a arma de fogo, na forma tentada, e um crime de detenção de arma proibida”.

Os factos em julgamento ocorreram há mais de um ano, quando a 2 de outubro de 2024 o arguido entrou numa barbearia na freguesia da Penha de França “com o propósito de cortar o cabelo”. “Munido de uma arma de fogo”, o homem “disparou sobre o barbeiro” por “não ter sido atendido de imediato”, lê-se na acusação citada pela agência Lusa.

Lisboa. Discussão por um corte de cabelo ou tráfico de droga? A história que acabou com três mortos numa barbearia

Além de atingir Carlos Pina, dono da barbearia, também disparou “sobre um outro cliente que se encontrava à espera e sobre a companheira deste”, provocando a morte das três pessoas. O arguido ainda terá tentado atingir outro empregado da barbearia.

Depois de ter matado o proprietário do estabelecimento (um homem de 43 anos com cinco filhos) e um casal (de 34 e 36 anos), o suspeito fugiu do local com a ajuda do pai e do irmão e esteve refugiado num bairro do Pinhal Novo, em Setúbal, até ser localizado pela polícia. Sem hipótese de fuga, acabou por entregar-se às autoridades uma semana depois do triplo homicídio.

Fernando Silva foi considerado imputável pelos peritos do Instituto de Medicina Legal, embora tenha sido diagnosticado com problemas mentais e internado e tratado no Hospital Júlio de Matos. Na acusação da procuradora Felismina Carvalho Franco, citada pelo Expresso, o arguido é descrito como “calculista, astucioso” e como apresentando “desconfiança, um estilo evasivo de respostas e cautela excessiva”.

Triplo homicídio em barbearia em Lisboa. Ministério Público diz que houve exagero de sintomas de doença mental

A acusação menciona também “uma preocupação em dar uma imagem patológica de si, ainda que de modo vago, com exagero de sintomas, cujos fatores a literatura científica aponta como comportamento de sobrevivência para evitar uma sanção penal e reclusão prisional”.