Jorge Pinto trazia balas no bolso, que usou logo no início, procurando encostar António José Seguro às cordas da sua liderança do PS em 2011 e a um par de abstenções socialistas nessa altura. Mas o socialista apareceu pouco interessado em entrar nessa guerra, dizendo que na altura fez o que considerou “defender os interesses nacionais”. A sua missão ali era outra: aproveitar ter eleitorado de esquerda ligado, para apelar ao voto útil.

Não houve propriamente momentos de tensão e no final houve até uma pouco usual (num debate) declaração de paz, de parte a parte. O candidato apoiado pelo PS disse ao candidato escolhido pelo Livre que não é ele o seu adversário e ouviu o mesmo do outro lado. Aconteceu quando Seguro notava uma “convergência” entre os dois, sobre a sua tese de evitar “os ovos todos no mesmo cesto” — a fórmula soarista para defender que os cargos institucionais não estejam todos nas mãos do mesmo partido — e desafiava a esquerda.

“Não vim combater contra si, não é o meu inimigo”. “Nem eu”, disse-lhe de imediato Jorge Pinto do outro lado da mesa. De seguida Seguro aproveitou o flanco para fazer passar a mensagem que pretendia com esta investida: “Estou a lutar para que a esquerda democrática tenha uma presença na segunda volta e isso só será conseguido se houver uma concentração de votos na minha candidatura”. Desafiou mesmo o centro esquerda, muito diretamente, a “assumir as suas responsabilidades” na sua passagem à segunda volta. “Espero que nenhum eleitor de esquerda possa acordar a 19 de janeiro e dizer que por causa do seu voto Seguro não foi à segunda volta”.

Jorge Pinto ainda tentou desembaraçar-se dessa teia, disse que “ainda muita água vai correr” sobre este assunto, mas garantiu logo de seguida que uma das ondas que não está prevista é a sua desistência a favor de António José Seguro: “Eu vou até ao fim” — logo no arranque do debate explicou mesmo que nunca o admitiu.

No arranque, o candidato apoiado pelo Livre procurou as fragilidades de Seguro, recorrendo ao período da sua liderança do PS para apontar a abstenções que permitiram cortes e alterações à lei laboral. “Passividade”, acusava Jorge Pinto. Do outro lado, Seguro ainda atirou à juventude de Pinto que podia não se lembrar do que o país passava na altura, com a assistência externa, mas o adversário não gostou no “paternalismo” e lembrou-lhe que nessa altura era militante do PS e que a “abstenção violenta” do OE para 2012 foi mesmo uma das razões pelas quais se desfiliou do partido.

Nessa disputa do espaço à esquerda, Seguro foi para este debate a afirmar-se “da esquerda responsável” e a jurar nunca ter negado essa sua linha. Aproveitou o tema da reforma laboral para vincar o esquerdismo ao considerar que a proposta do Governo “desequilibra a relação entre empresários e trabalhadores” e admitindo mesmo ter, neste momento, uma “clara inclinação para não aceitar proposta que chegar a Belém”, se for Presidente. No momento antes, Jorge Pinto tinha garantido que, como Presidente, levaria a reforma laboral “tal qual como está” ao Tribunal Constitucional e que a mesma mereceria o seu veto político.

Na Saúde, ambos defendem um presidente que consiga influenciar o ambiente para reformas duradouras na saúde. Na imigração, ambos olha para a vinda de estrangeiros para o país como uma oportunidade. A discórdia maior foi sobre uma eventual revisão constitucional. E mesmo aqui concordam que ela não deve acontecer, mas Jorge Pinto tem uma proposta sobre dissolução em caso de “uma revisão drástica”. Seguro discorda da ideia e classificou mesmo de “irresponsável”. Serviu para a conclusão do adversário: “Fica claro quem iria ser o verdadeiro contrapeso democrático” caso seja Presidente.

Diálogo revelador

António José Seguro: O país está muito desequilibrado politicamente. Precisamos deste equilíbrio. Por isso, convergimos os dois sobre ser necessário nestas eleições que não se coloquem os ovos todos no mesmo cesto. Se não, transforma-se o partido que está no poder num partido hegemónico na sociedade portuguesa e isso corresponde a um poder absoluto que não é desejável. Por isso, queria perguntar ao Jorge Pinto se ele consegue visualizar um cenário de segunda volta em que estivessem só dois candidatos de direita, em que eu não estivesse presente. Quero dizer com muita clareza que não vim aqui combater contra si. 

Jorge Pinto: Nem eu.

AJS: Não é o meu inimigo.

JP: Nem [você] o meu. 

AJS: Ótimo, ótimo. Eu estou a lutar para que a esquerda, o centro-esquerda e a esquerda democrática tenha uma presença na segunda volta. Isso só será conseguido se houver uma convergência de votos na minha candidatura. 

JP: Ainda muita água vai correr. Nós vemos nas sondagens a percentagem de eleitores que ainda estão indecisos. 

Carlos Daniel [jornalista]: E vai até ao fim? À primeira volta?

JP: Eu vou até ao fim porque sei o que farei como Presidente da República e sei que farei aquilo que o país precisa em tempos de acelerada mutação nacional e internacional.

Carlos Daniel: Está convencido que chega à segunda volta mesmo sem desistências a seu favor? 

AJS: Estou convencido, mas naturalmente cada um deve assumir as suas responsabilidades. Espero que nenhum eleitor de esquerda possa acordar no dia 19 de janeiro e possa dizer ‘bem, por causa do meu voto, o Seguro não foi à segunda volta’.