O Presidente dos EUA, Donald Trump, terá voado pelo menos oito vezes no avião privado do criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, incluindo uma viagem apenas com Epstein e uma jovem de 20 anos, segundo documentos da Justiça norte-americana.
Esta informação consta de um novo lote de milhares de ficheiros inéditos sobre o caso Epstein, que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou esta terça-feira na rede social X. Na publicação, o departamento fez questão de afirmar que “alguns destes documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o Presidente Trump que foram apresentadas ao FBI mesmo antes da eleição [presidencial] de 2020”.
“Para ser claro: as alegações são infundadas e falsas e, se tivessem um pingo de credibilidade, certamente já teriam sido usadas como arma contra o Presidente Trump”, acrescentam.
The Department of Justice has officially released nearly 30,000 more pages of documents related to Jeffrey Epstein.
Some of these documents contain untrue and sensationalist claims made against President Trump that were submitted to the FBI right before the 2020 election. To be…
— U.S. Department of Justice (@TheJusticeDept) December 23, 2025
Ao contrário dos ficheiros divulgados no sábado passado, estes novos incluem várias menções a Trump, que tem tentado distanciar-se o mais possível de Epstein e dos seus crimes.
“Quero que saibam que os registos de voo que recebemos ontem [segunda-feira] refletem que Donald Trump viajou no jato privado de Epstein muito mais vezes do que o anteriormente relatado (ou do que tínhamos conhecimento)”, escreveu um procurador da Justiça do Distrito Sul de Nova Iorque num e-mail de janeiro de 2020, que está incluído nos autos do processo.
Trump voou nesse avião pelo menos oito vezes entre 1993 e 1996, escreveu o procurador, referindo que este período coincide com a investigação à cúmplice e ex-companheira de Epstein, Ghislaine Maxwell, que esteve em pelo menos quatro desses voos com o agora Presidente.
Nos registo de um dos voos citado no e-mail, datado de 1993, Trump e Epstein terão viajado com uma mulher de 20 anos. Em alguns casos, acrescentou o procurador, aqueles que viajaram no avião poderiam servir de testemunhas no caso contra Maxwell, que foi condenada em 2021 a 20 anos de prisão por tráfico sexual de menores.
Os documentos revelam ainda que o FBI reuniu várias pistas sobre a relação entre Trump e Epstein durante festas realizadas nas respetivas propriedades no início dos anos 2000, embora não confirmem se houve investigações subsequentes. Além disso, os ficheiros mostram que os investigadores do caso Maxwell enviaram uma intimação a Mar-a-Lago, a mansão e clube privado de Trump em West Palm Beach, Florida, em 2021, adianta o The Washington Post.
O motivo desta intimação não é totalmente claro, mas os documentos indicam que um procurador federal estava à procura de documentos sobre pessoas que trabalharam no clube de Trump e que poderiam ser relevantes para o caso contra Maxwell.
“Não consegui localizar ninguém que se lembre de [informação omitida] a trabalhar em Mar-a-Lago em 2000”, escreveu o procurador num e-mail incluído entre os novos documentos.
Carta de Epstein alega que Trump “partilha do amor por raparigas jovens e atraentes”
O conjunto de ficheiros inclui também uma carta enviada desde a prisão por Epstein a Larry Nassar, treinador da equipa de ginástica dos EUA condenado por abusos sexuais a menores. A correspondência foi carimbada pelos correios a 13 de agosto de 2019, três dias após Jeffrey Epstein ser encontrado morto na prisão e mencionava algo que ele, Nassar e Donald Trump tinham em comum.
“Nós temos uma coisa em comum… o nosso amor e carinho pelas jovens, na esperança de que elas alcancem todo o seu potencial. O nosso Presidente também partilha do nosso amor por raparigas jovens e núbeis. Quando uma jovem bonita passava por ele, ele adorava ‘apanhar e agarrá-la’, enquanto nós acabávamos por agarrar comida nas cantinas do sistema. A vida é injusta. Atenciosamente, J. Epstein”, lê-se na carta.
Departamento de Justiça
Imagens de um passaporte falso austríaco com a cara de Epstein
Em 2019, o FBI realizou buscas na casa de Epstein em Manhattan, pouco depois do financiador norte-americano ser detido por acusações de tráfico sexual. As fotografias de um passaporte falso austríaco retirado de um cacifo nessa operação foram agora divulgadas na nova leva de ficheiros.
Junto a uma foto de Jeffrey Epstein, lê-se o nome de Marius Robert Fortelni, com residência na Arábia Saudita e profissão de “gestor”. Emitido em 1982, veêm-se carimbos de voos de entre 1982 e 1983, de viagens para França, Londres, Reino Unido e Arábia Saudita.
Num documento do advogado Marc Fernich, divulgado nesta tranche de ficheiros, os representantes justificam o passaporte para garantir que Epstein, descrito como um “membro afluente da fé judaica“, viajasse para o Médio Oriente numa altura em que “os sequestros eram comuns“.
“O passaporte era para proteção pessoal em caso de viagem a áreas perigosas, devendo ser apresentado apenas a potenciais sequestradores, sequestradores ou terroristas, caso ocorressem episódios violentos”, lê-se.
E-mail de “A” do palácio de Balmoral a pedir “novos amigos inapropriados” a Maxwell
O novo lote de ficheiros inclui também uma carta de 22 páginas enviada pela divisão criminal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos às autoridades do Reino Unido a pedir uma entrevista voluntária com a “Testemunha PA”, referindo-se ao então príncipe britânico André Mountbatten-Windsor.
Em 2001, um remetente de um e-mail identificado como “Homem Invisível” escreveu a Ghislaine Maxell a contar que estava “no campo de verão de Balmoral para a Família Real”.
“As meninas estão completamente exaustas e vou ter que mandá-las dormir mais cedo hoje, pois está a ficar cansativo separá-las o tempo todo! Como está Los Angeles? Encontraste novos amigos inapropriados para mim? Avisa-me quando vieres, pois estou livre de 25 de agosto a 2 de setembro e quero ir a algum lugar quente e ensolarado com pessoas divertidas antes de ter que me dedicar totalmente ao trabalho no outono”, lê-se na correspondência assinada por “A”.
Segundo a BBC, o e-mail do remetente está identificado na lista de contactos como o Duque de Iorque, o antigo título de André Mountbatten-Windsor. Noutro e-mail desse ano, “A” queixa-se que abandonou a “RN” e André abandonou a Marinha Britânica (Royal Navy) também em 2001.
O Rei Carlos III do Reino Unido retirou o título de príncipe e outras honras ao seu irmão André em novembro, depois deste ter caído em desgraça devido aos seus laços passados com Epstein e a negócios questionáveis.
O Departamento de Justiça lançou um site na passada sexta-feira para acesso aos documentos da investigação sobre Epstein, se suicidou na prisão em 2019, após a aprovação de uma lei no Congresso que exige que o Governo divulgue todas as informações não classificadas do caso.
Atualizado às 17h48 com novas informações sobre ficheiros divulgados