Fotografias que mostram uma série de celebridades, de Michael Jackson a Mick Jagger, ao lado do criminoso sexual Jeffrey Epstein; fotografias que desapareceram — e entretanto foram republicadas — incluindo uma de Donald Trump; e uma imagem polémica que tem por cenário uma das propriedades da realeza britânica. São algumas das revelações que a nova série de documentos dos chamados ficheiros Epstein, divulgados na passada sexta-feira, incluem — e que já levaram a uma multiplicação de acusações, dirigidas à Casa Branca, sobre falta de transparência.
Afinal, o que consta das cerca de 300 mil páginas e quatro mil imagens e criou fraturas até no movimento Make America Great Again, de Donald Trump? E o que escondem as páginas que não foram divulgadas ou que entretanto desapareceram?
A fotografia do Presidente que foi retirada e reposta
Uma das maiores polémicas geradas pela tão antecipada revelação dos documentos tem a ver com o ficheiro 468 que contém uma fotografia de Donald Trump. Isto porque o ficheiro faz parte dos 16 que desapareceram do portal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, menos de um dia depois da publicação. Esses ficheiros incluem pinturas que retratavam mulheres nuas e uma fotografia que mostrava uma série de molduras pousadas num aparador, e nas quais estavam emolduradas fotografias de Epstein com várias personalidades, incluindo o Papa João Paulo II.
Ora, se olhando com atenção para a imagem é possível constatar que numa das gavetas do aparador está guardada uma fotografia em que aparece o atual Presidente dos Estados Unidos ao lado da mulher, Melania Trump, de Jeffrey Epstein e da sua namorada e cúmplice (a cumprir pena de prisão) Ghislaine Maxwell; noutra aparece Trump rodeado por quatro mulheres de biquíni.
Essa foi uma das imagens que desapareceram dos ficheiros divulgados ao público através de um site ligado ao do Departamento de Justiça dos EUA. O vice-procurador dos EUA, Todd Blanche, confirmou este domingo o desaparecimento desses ficheiros, mas considera que é “ridículo” pensar que uma fotografia foi apagada “só porque Trump aparecia”.
“Qualquer pessoa, qualquer vítima, qualquer advogado, qualquer grupo de defesa dos direitos das vítimas, pode contactar-nos e pedir para eliminarmos qualquer documento. Nós fá-lo-emos e investigaremos”, explicou numa entrevista à NBC, embora na mesma entrevista não tenha confirmado que aparecia alguma vítima de Epstein naquela imagem. Já no domingo, o Departamento de Justiça voltou a publicar o ficheiro 468 no site acessível ao público como consequência da Lei de Transparência dos Ficheiros Epstein (aprovada no congresso norte-americano).
O Departamento de Justiça disse, em comunicado, que esteve a analisar a fotografia e só depois concluiu que não há provas de que apareça ali nenhuma vítima de Epstein. Por isso, a imagem foi republicada “sem alterações”.
A mesma dúvida surgiu em relação a Bill Clinton, que aparece nos ficheiros em várias ocasiões, incluindo, por exemplo, num jacuzzi rodeado de mulheres cuja cara foi tapada para não revelar as suas identidades — o que levantou a questão sobre se serão também elas vítimas de Epstein. O antigo Presidente dos EUA já veio, de resto, defender-se e sugerir que a administração estará a usar a sua presença nessas fotografias como uma cortina de fumo para proteger Trump, assegurando que cortou relações com o magnata assim que soube dos seus crimes.
Afinal, quem é que aparece nas novas imagens dos ficheiros Epstein?
Há muitas celebridades que aparecem nas fotografias, o que não significa necessariamente que tenham estado envolvidas nas atividades ilegais de Epstein, tendo as imagens sido apreendidas principalmente pelo FBI enquanto conduzia buscas nas várias casas do milionário que se suicidou na prisão.
Alguns dos principais rostos são os de Mick Jagger, Michael Jackson, Diana Ross ou Bill Clinton, várias vezes em grupo — mas Clinton também aparece numa piscina com uma pessoa cuja cara foi tapada, assim como num jacuzzi, também com uma companhia não identificada. Também surgem imagens do ator Kevin Spacey, o magnata Richard Branson ou o príncipe André, do Reino Unido, e a sua ex-mulher, Sarah Ferguson.
Donald Trump aparece pouco nestas páginas, sendo que as fotografias em que surge já eram maioritariamente conhecidas do público. Mas os documentos da investigação descrevem o momento em que Epstein terá apresentado a Trump uma rapariga de 14 anos no seu resort em Mar-a-Lago, algures nos anos 1990, como escreve a BBC.
Alegadamente, Epstein perguntou “em tom de brincadeira” a Trump se aquela era “uma das boas”, tendo o empresário e atual Presidente dos EUA sorrido e assentido, acenando com a cabeça. Ambos se terão rido e deixado a rapariga desconfortável, contou a própria. Na altura seria demasiado jovem para perceber a conversa, mas foi vítima de Epstein durante anos — sem fazer acusações específicas contra Trump.
E o que é que não foi revelado?
Cerca de 500 páginas encontram-se rasuradas e com informação escondida, o que tem levado a muitas críticas dirigidas à Casa Branca. A Lei da Transparência dos Ficheiros Epstein estabelecia que o governo divulgasse toda a informação não classificada sobre o caso, depois de meses em que a administração pareceu desvalorizar o assunto, enfurecendo mesmo parte do eleitorado MAGA.
Para os defensores da nova lei, a ocultação de informação nos novos documentos — que a Casa Branca diz existir para proteger as vítimas e a informação classificada — foi longe demais, tendo o Departamento de Justiça assegurado que vai publicar mais informação nas próximas semanas (sendo que em 2024 já tinha divulgado 950 páginas).
O líder democrata do senado, Chuck Schumer, acusou o governo de “violar a lei” ao divulgar os documentos nestes termos, tendo garantido em comunicado que os democratas estão a trabalhar com os advogados das vítimas e outros juristas para perceberem exatamente que documentos é que não estão a ser revelados.
Já a Casa Branca defendeu, pela voz da porta-voz Abigail Jackson, que esta é a “administração mais transparente de sempre”. “A administração Trump fez mais pelas vítimas do que os democratas alguma vez fizeram, divulgando milhares de páginas, colaborando com o requerimento do congresso e com Trump a pedir mais investigações aos amigos democratas de Epstein”, argumentou, citada aqui pela NBC.
No entanto, esta segunda-feira, o próprio porta-voz de Bill Clinton, Angel Ureña, também criticou a forma de divulgação do governo norte-americano, afirmando que “deixa uma coisa clara: alguém ou algo está a ser protegido“.
“Não precisamos dessa proteção“, declarou o representante, apelando a Trump para que “instrua a Procuradora-Geral Bondi a divulgar imediatamente todos os materiais restantes que refiram, mencionem ou contenham uma fotografia de Bill Clinton“.
“A recusa em fazê-lo confirmará a suspeita generalizada de que as ações do Departamento de Justiça até o momento não têm a ver com transparência, mas com insinuação — usando divulgações seletivas para sugerir irregularidades sobre indivíduos que já foram repetidamente inocentados pelo próprio Departamento de Justiça, ao longo de muitos anos, sob presidentes e procuradores-gerais de ambos os partidos”, lê-se ainda.
— Angel Ureña (@angelurena) December 22, 2025
Porque é que a casa real britânica é envolvida no assunto?
O cenário de uma das fotografias em que o príncipe André — antigo duque de Iorque, que renunciou aos títulos reais na sequência destas acusações, apesar de as negar — aparece é a casa de Sandrigham. Esta é a propriedade rural em que a realeza britânica costuma reunir-se para passar o Natal. É de resto para esta propriedade que André vai mudar-se em janeiro, graças à pressão pública para que deixasse o Royal Lodge, alojamento que era pago pelos contribuintes.
Numa das fotografias André aparece deitado nos colos de cinco pessoas, sentadas num sofá e cujas caras foram apagadas. A única outra pessoa reconhecível é Ghislaine Maxwell.
Uma das mulheres que acusaram Epstein publicamente, Virginia Giuffre, acusou também o príncipe inglês de ter cometido abusos contra ela quando tinha 17 anos. Os dois chegaram a acordo em 2022, tendo a alegada vítima acabado por se suicidar em abril deste ano.
A fotografia em que André aparece em Sandrigham terá sido tirada em dezembro de 2000, no fim de semana do 39º aniversário de Maxwell, como conta aqui o Telegraph, que acrescenta que os funcionários ficaram “chocados” com o que encontraram depois nas casas de banho da propriedade: objetos como brinquedos sexuais, drogas e lubrificantes, distribuídos aos convidados à chegada. “Tinha transformado a casa”, um dos símbolos máximos da casa real britânica, na sua versão da Mansão Playboy, de Hugh Hefner”.
Atualizado à 20h24 com comunicado do porta-voz de Bill Clinton