Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a situação na Venezuela
Cerca de 1.500 pessoas manifestaram-se nesta segunda-feira diante da estátua de Simón Bolívar em Lisboa para protestar contra a ilegalidade do ataque dos Estados Unidos à Venezuela no sábado.
Numa concentração organizada pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), os manifestantes condenaram com veemência a “agressão militar norte-americana” com palavras de ordem como “Pela paz! Não à agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela” e “América Latina não é o quintal dos Estados Unidos”.
O Presidente norte-americano foi especialmente visado, ressaltando a palavra de ordem: “Donald Trump, sua besta assassina, tira as tuas mãos da América Latina”.
Presentes na manifestação entre uma vasta comunidade sul-americana, sobretudo composta por brasileiros, estiveram representantes de partidos políticos como o PCP e Bloco de Esquerda, bem como o candidato presidencial André Pestana.
Numa intervenção, a presidente do CPPC, Isabel Camarinha, antiga líder da central sindical CGTP, considerou a agressão “totalmente ilegal à luz do direito internacional”, sublinhando que “não cabe aos Estados Unidos determinar as opções políticas e económicas de nenhum Estado”.
Com críticas à incapacidade de atuação da UE e sobretudo à “fraca reação do Governo português“, Isabel Camarinha sublinhou que os EUA “pretendem apoderar-se dos imensos recursos naturais da Venezuela, país que tem as maiores reservas petrolíferas do mundo”.
Ainda sobre o Governo português, a líder do CPPC reclamou do executivo: “Uma clara condenação da agressão militar dos Estados Unidos à Venezuela, em consonância com os princípios da Constituição portuguesa, que preconiza o respeito pela soberania e os direitos dos povos e a eliminação de todas as formas de dominação nas relações entre Estados”.
Rodeada por algum aparato policial, a manifestação na avenida da Liberdade decorreu pacificamente a partir das 18h00 e começou a desmobilizar pelas 19h20.
No sábado, os EUA lançaram “um ataque em grande escala” para capturar e julgar o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher, Cilia Flores. Trump anunciou que os EUA vão governar o país até se concluir uma transição de poder.
Maduro e Flores prestaram já breves declarações num tribunal de Nova Iorque para responder às acusações de tráfico de droga, corrupção e branqueamento de capitais e ambos declararam-se inocentes. Vão continuar detidos até à próxima audiência marcada para 17 de março.
A comunidade internacional dividiu-se entre a condenação ao ataque dos Estados Unidos a Caracas e saudações pela queda de Maduro.
A UE defendeu que a transição política na Venezuela deve incluir os líderes da oposição Maria Corina Machado e Edmundo González e o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que a ação militar dos EUA poderá ter “implicações preocupantes” para a região, mostrando-se receoso com a possível “intensificação da instabilidade interna” na Venezuela.
Protesto no Porto contra “invasão” pelos EUA e resposta do Governo português
Já no Porto foram cerca de 150 as pessoas que protestaram contra a intervenção dos EUA, ao mesmo tempo que criticaram a reação do Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) de Portugal.
Em declarações à Lusa, a dirigente do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), que promoveu o protesto, Manuela Branco, apontou a “invasão pelos Estados Unidos da Venezuela” com o propósito do “rapto do seu presidente Nicolás Maduro e da sua esposa”, para logo depois, criticar o Governo português que “não condenou rigorosamente nada”.
“É um perigo para todos os países democráticos que haja um país que diz: eu quero os vossos recursos, quero o petróleo, quero o ouro, quero as vossas terras raras, quero mandar no vosso povo. E a União Europeia, Portugal, a maior parte dos países europeus dizem, sim senhora, nós aceitamos tudo isso. Não pode acontecer”, continuou a porta-voz na manifestação que decorreu no Porto.
Neste contexto, Manuela Branco entende que a atitude dos Estados Unidos pode causar “um grande retrocesso ao mundo”, assinalando que “hoje já se começou a falar da Gronelândia, da Colômbia e de Cuba [como próximos alvos da administração [Trump]”.
“O Trump arma-se em dono do mundo e os outros países estão a ser complacentes. O povo português está a fazer estas manifestações em Lisboa, aqui no Porto e em Braga e iremos continuar com todas as formas de luta possíveis para chamar a atenção dos nossos governantes para tomarem uma posição. Até as Nações Unidas têm de olhar para esta situação com olhos de ver e não a dizer que sim senhora, aceitar estas questões”, prosseguiu a responsável.
Nos poucos cartazes, liam-se as frases como “tirem as mãos da Venezuela” e “a América Latina não é o quintal dos EUA”, mas havia quem segurasse bandeiras onde apenas se lia a palavra “paz”. Um dos manifestantes, Vítor Januário, falou à Lusa para dizer ser a paz “aquilo que parece estar mais ameaçado na civilização”.
O facto de Portugal não ter condenado a intervenção e detenção de Nicolás Maduro constituiu, para o manifestante, “uma enorme hipocrisia do Estado português (…) perante esta invasão que houve do território venezuelano, pondo em causa as decisões do próprio povo e com uma declaração absoluta dos interesses que estão por trás de tudo isto”.
“Há declarações da parte do nosso Governo (…) que são absolutamente miseráveis”, sintetizou.
Questionado se a intervenção dos EUA naquele país é mais negócio ou política, respondeu: “Eu não acho que haja interpretação, acho que há uma declaração da parte da força que foi sequestrar o presidente da Venezuela, fez uma declaração absoluta, claríssima, de que o que pretendia era a riqueza que saía do solo”.
A manifestação reuniu pessoas de vários escalões etários, apesar do muito frio que se fez sentir no final de tarde no Porto, e José Neves pertence ao dos mais jovens que decidiram juntar a sua voz ao protesto.
“Estou contra uma violação do direito internacional e da captura ilegítima de qualquer cidadão de um país da América Latina ou de qualquer outro país por um Governo imperialista como é os Estados Unidos”, explicou-se sobre o que estava ali a fazer.
Já quanto ao segundo tema do protesto, a não condenação pelo Governo português do sucedido, alertou para o facto de que a posição assumida “não dá garantias nenhumas à comunidade portuguesa existente na Venezuela”.