“António José Seguro fará a sua campanha e eu farei a minha“, decretou António Filipe em reação às declarações do adversário que disse que o voto “não conta” se for depositado nos candidatos que de acordo com as sondagens não têm hipótese de passar à segunda volta. Numa ação de campanha em Lisboa esta terça-feira, o candidato apoiado pela CDU, que aparece com menos de 3% na mais recente Tracking Poll da TVI/CNN Portugal, sublinhou respeitar “todos os adversários políticos” e não querer comentar o contínuo ataque ao voto útil por parte de Seguro, mas não sem lançar uma farpa ao socialista: “Quando um cidadão ouve dizer que o seu voto não conta é que deve ficar incomodado, não sou eu”.

Além de continuar a resistir ao voto útil, António Filipe também reiterou a recusa em comentar sondagens. “Eu sei que vamos ter sondagens todos os dias, e portanto o que eu disser num dia pode ser desmentido no dia seguinte”. Mantém-se a promessa de só comentar a derradeira sondagem — a do dia 18 de janeiro.

O antigo deputado comunista esclareceu que só está preocupado com a sua campanha e com aquilo que quer transmitir aos eleitores ao longo das próximas duas semanas, e hoje ganhou uma ajuda nessa luta: Manuel Carvalho da Silva, antigo secretário-geral da CGTP. Os dois tiveram um encontro à porta fechada n’A Voz do Operário, em Lisboa, que serviu para oficializar o apoio do histórico líder sindical. Aos jornalistas, Carvalho da Silva justificou o aval dado à candidatura de António Filipe com três “razões muito objetivas“.

Primeiro, descreveu o candidato como alguém “reconhecido no plano nacional”, que “tem uma identidade muito forte com a Constituição da República, com o Estado de Direito”, e que é figura com “provas dadas” e “tem sido reconhecida até em momentos sensíveis da vida política do país”.

Em segundo lugar, alertou também que é “preciso mobilizar todos os votos” da “área política em que António Filipe se situa”, frisando que “as eleições precisam da participação de todos os portugueses e a democracia precisa muito que à esquerda toda a gente vá votar, todos os votos sejam utilizados, desde logo na primeira volta”.

Por último, referiu que António Filipe tem “apego aos valores e às causas do mundo do trabalho”, lembrando que está em curso “uma institucionalização de um pensamento neoliberal perigosíssimo, que é a ideia de que em nome da produtividade ou da competitividade os direitos dos cidadãos podem ser desarmados à entrada para o local de trabalho”.

Aproveitando para defender o candidato a que declarou apoio, Carvalho da Silva lamentou ainda a insistência nos apelos ao voto útil, considerando que a primeira volta é a altura para “conquistar todos os votos para as eleições e todos os votos serem fidelizados.” “Em vez de se andar a fazer apelos a que os outros dêem apoio, comecem pela casa de cada um, de cada candidato”. O antigo líder da CGTP garantiu que se todos os candidatos conseguirem mobilizar o eleitorado a ir votar, a esquerda vai ter candidato na segunda volta, “e depois logo se resolve”.

António Filipe ouve trabalhadores que se queixam de ser “carne para canhão” e questiona necessidade social do trabalho por turnos

Antes do debate com todos os candidatos na RTP, António Filipe dedicou esta terça-feira ao tema da agenda do trabalho. Além do encontro com Carvalho da Silva, começou a manhã em Setúbal, na Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense. O candidato presidencial ouviu o testemunho das dificuldades de vários trabalhadores por turnos e lembrou que tem feito por pôr as preocupações diárias dos que trabalham no centro da campanha. Numa sessão com perto de 25 pessoas, tomaram a palavra funcionários da Autoeuropa, Coca-Cola e INEM, que lembraram as consequências “a nível social e familiar” deste tipo de trabalho, além do “desgaste físico e emocional” que provoca. No final, António Filipe concluiu que “a maximização do lucro não pode ser conseguida à custa da saúde dos trabalhadores”.

“Não podemos aceitar que de eleição para eleição as coisas assim se mantenham, e é preciso que haja candidaturas que não se conformam”, referiu. “Não podemos achar que uma coisa é normal só porque acontece todos os dias”. O candidato alerta por isso que a legislação para este tipo de trabalho está desatualizada e que é tempo de a mudar, “mas desta vez para melhor”.

Os trabalhadores pediram “medidas concretas” para amenizar estes constrangimentos como a antecipação da idade de reforma, a redução dos horários trabalhos e um sistema de vigilância médica mais apertado. “Não há pagamento de subsídio de turno que possa compensar esta situação, tudo aquilo que nos é tirado todos os dias”, lamentou um dos trabalhadores, enquanto um outro garante que o trabalho noturno provocou “distúrbios graves no sono que nenhuma medicação resolve”.

Os palestrantes ouvidos por António Filipe queixam-se de ser “carne para canhão” e questionaram a necessidade social deste tipo de organização laboral: “Quem é que precisa de ter disponível uma Coca-Cola 24 horas por dia?” O candidato voltou a este exemplo minutos depois, sublinhando que há empresas onde o trabalho por turnos não se justifica, e que a conhecida marca de refrigerantes é uma delas. “Podemos ir buscar Coca-Colas a qualquer hora ao frigorífico, mas para as termos as fábricas da Coca-Cola não precisam de estar a trabalhar 24 por 24 horas”.