É entre fruta e legumes no Mercado de Portalegre que André Ventura escolhe o objeto do próximo número político: compra tangerinas para “mostrar como as laranjas vão ficar pequenas no dia 18”. Convicto de que vai “esmagar as laranjas e as rosas”, o candidato apoiado pelo Chega antecipa um cenário, que as sondagens apontam como possível, para lançar o repto ao primeiro-ministro: entre Seguro e Ventura, quem escolhe Montenegro?
“Seria interessante saber o que é que o primeiro-ministro e líder do PSD fará perante um socialista e alguém com quem fez acordos na área da imigração, na área da nacionalidade, na área da descida de impostos, ainda ontem todas as medidas da habitação que o Governo queria aprovar, aprovou por causa do Chega”, explicou Ventura.
O candidato presidencial recordou as negociações entre PS e Chega na área da imigração e argumentou que houve um trajeto em “causas comuns“. “Não era o que nós queríamos, não era o que o PSD queria, mas foi feito em prol do país. E afastando-se deliberadamente do Partido Socialista.”
E, perante isso, Ventura considera que “se chegar à segunda volta e [Montenegro] apoiar o candidato do Partido Socialista, está a dizer aos eleitores que, na verdade, prefere como cargo máximo da nação e como condutor da nação um socialista”, frisando que isso seria “completamente contrário ao trabalho que tem sido feito no Parlamento e ao caminho que temos [PSD e Chega] feito, que é de neutralizar o Partido Socialista”.
Já na Guarda, depois de ter desafiado Luís Montenegro sobre o que faria num cenário em que António José Seguro e André Ventura se encontrassem numa segunda volta, o repto inverteu-se e garantiu que tudo fará para que um socialista não seja Presidente da República.
Começou por dizer que esse “cenário não vai acontecer” e que “nenhuma sondagem o prevê”, mas não fugiu: “Há uma coisa que tenho de dizer: acho que temos de ser coerentes com aquilo em que acreditamos e nesta matéria é dizer isto: eu tudo farei para evitar que um socialista, um comunista, um extremista, alguém que queira destruir a nossa economia ou destruir a nossa liberdade ganhe as eleições. E com isto já lhe estou a responder a tudo. Acho que tudo temos que fazer para isso.”
Após a declaração de interesses, Ventura voltou a focar-se em dizer que pretende “vencer a primeira volta das eleições” e que na segunda volta ambiciona ser “o rosto da mudança que o país precisa”. “Isto significa que temos que ter um espaço de centro-direita e de direita fortes, capazes de derrotar o socialismo e não voltarmos para trás”, argumentando que “muitos dos problemas que estamos a falar agora na saúde, na imigração, na segurança, nas pensões foram obra que o Partido Socialista deixou”.
E ainda acrescentou: “E por isso não podemos permitir que um candidato do PS volte a ter assento no Palácio do Belém. Por isso é que estou a dizer que tudo farei, e acho que assim devia ser, e gostava de ouvir os outros candidatos dizer isso, que se passar um candidato socialista tudo farão para o derrotar. Eu tudo farei para o derrotar.”
Ainda em Portalegre tinha admitido que não passar à segunda volta é “negativo” para si, ainda que não esteja a “colocar esse cenário como possível”. “Mas num cenário completamente abstrato, pode existir, em democracia todos estamos sujeitos a perder, não há vencedores antecipados e mesmo quem está a frente das vantagens consistentemente não está garantido que vai passar à segunda volta.”
E disse mais, afastando a possibilidade de recontagens de votos: “O resultado que terei é a minha responsabilidade, é a responsabilidade do trabalho que fiz, que eu espero conseguir concretizar, sem desculpas. Não foi culpa das urnas, nem foi culpa dos boletins. Se não correu bem, fui eu que falhei.”
André Ventura não quer misturar as eleições legislativas e as presidenciais, não estabeleceu metas numéricas, porém admitiu que “há pessoas que votaram noutros partidos e agora vão votar André Ventura” e também “quem votou no Chega agora não vote André Ventura”.
No dia em que uma eleitora assumiu que o via como primeiro-ministro e não como Presidente da República, Ventura constatou que o eleitorado do Chega sabe que é “executivo”. “Ninguém vai votar em mim para Presidente da República para ser uma figura simbólica ou uma figura de enfeitar. As pessoas sabem que é este o perfil. O que significa mudar o perfil habitual da Presidência da República. Mas isso é assumido por mim, pelo partido e pelos eleitores do Chega”, explica.O candidato apoiado pelo Chega considera que um Presidente ao seu estilo seria “mais interventivo, mais fiscalizador, mais forte” — “Se as pessoas quiserem continuar com o mesmo perfil do Presidente da República não vou ganhar. Se quiserem um perfil mais de intervenção na condução do estado do país posso vencer e aí é que essa mudança pode acontecer.”
Num estilo mais informal e acompanhado pela mulher, André Ventura começou o dia em Portalegre e reagiu ao facto de Pedro Santana Lopes ter dito que a Presidência estava “bem entregue” nas mãos de António José Seguro, dizendo que o presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz mantém “equidistância”.
“Tive uma entrevista com o Pedro Santana Lopes em que ele até disse, em direto, que se houvesse outro tipo de candidato me apoiaria”, referiu o presidente do Chega. Confrontando com o facto de o ex-líder do PSD ter dito que a Presidência ficaria “bem entregue” a Seguro, Ventura acredita que Santana Lopes diria que “se calhar diria que ficaria ainda melhor entregue” nas suas mãos.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR