Ventura chegou a Bragança, o único distrito que não tem um deputado do Chega, e foi recebido pela maior multidão da campanha eleitoral. Em frente ao mercado de Mirandela, com os apoiantes colados à estrutura onde fez um discurso em modo stand-up, Ventura admitiu ser o “mecânico de Portugal”.
Muitas vezes diz que fala para o povo e em nome do povo e, neste discurso, desceu até do palco para dar voz a uma idosa, Lúcia, que se queixava que o Presidente da República abandonou os transmontanos. Ventura, sempre pronto para capitalizar o erro, prometeu que com ele “não haverá um país de duas ou três cidades ou de duas ou três velocidades”, reiterando que é um “país para todos”.
Quando Ventura regressou ao palco, após descer para abraçar Lúcia, a claque dos jovens apoiantes preparou um novo slogan: “Presidente do povo”, gritaram durante alguns segundos. “Boa ideia”, comentava-se na comitiva.
“Há períodos políticos em que tudo pode acontecer. Não houve momentos de tanto patriotismo na nossa história. Portugal chega sempre atrasado, mas chegámos a tempo e vamos mudar as coisas”, prometeu, deixando certo que vai “conduzir o país ao patriotismo”.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
De resto, prometeu “romper com um país que tem anos a mais de vícios” e depois de receber um cartão das mãos de um mecânico, em pleno discurso, atirou: “Quero ser o mecânico de Portugal que vai arranjar.”
André Ventura, depois de referir que “a maior parte do país está convencido que [a sua candidatura irá] à segunda volta”, pediu que se acredite que é possível “vencer a primeira, a segunda e vencer Portugal”. E fê-lo com o argumento de que estas eleições são “uma luta do sistema de corrupção contra o candidato anticorrupção”. E, garantindo que “o país está a acordar”, o candidato promete que os “ladrões que nos andaram a roubar vão para a prisão e [é para] devolver o dinheiro ao povo português”.
“Deus, Pátria, Família e Trabalho” voltou
De manhã, na Adega Vila Real, ao lado do dono Jaime Borges, André Ventura recuperou o lema “Deus, Pátria, Família e Trabalho” por considerar que Portugal seria “um país muito melhor do que aquilo que andamos a ver”.
“Começaram a dizer que eu estava mais moderado, agora, afinal, já sou outra vez um salarazista convicto e radical”, ironizou, argumentando que este lema “nem tem nada a ver com o aspeto da direita ou da esquerda, [que é dito em] países que se estão a modernizar, países que estão a evolui”. Nós não podemos ter o medo das palavras”, avisou.
“Se houvesse mais Deus, Pátria, Família e Trabalho não havia vergonhas como a de ontem, mais uma vez, de pessoas à pancadaria à porta do Continente no barreiro, sem qualquer sentimento de justiça”, insistiu, crente de que país está “a virar um país de impunidade”.
Confrontando com o facto de haver falta de mão de obra, Ventura criticou uma “cultura de subsídios inacreditável”, em que se “afastaram os valores fundamentais e agora ninguém quer trabalhar ou anda metade a sustentar a outra ano da metade”. “Ora, dizer que o país quer mais trabalho é um bom lema para uma campanha”, aponta.
Questionado sobre o facto de haver quase pleno emprego e de o argumento da falta de mão de obra ter sido usado perante a discussão da imigração, Ventura diz falar “de trabalho real, dos que não tiveram que ir embora e podem ficar cá e querem trabalhar e não viver de subsídios”.
“Se nós pagássemos melhor aos nossos nós não precisávamos desta invasão de indianos, do Bangladesh, do Nepal e de todos os outros países. É porque pagamos mal aos nossos. Pergunte aos jovens portugueses que estão em Londres, em França, na Suíça, no Luxemburgo, porque é que foram embora. Não é porque não tinham cá trabalho, é porque cá pagava-se miseravelmente, não conseguiam ter casa e não conseguiam ter família”, concluiu.
Focado na agricultura, Ventura considerou que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul será “a última pedra na sepultura” da agricultura nacional, acusando o Presidente da República de nunca ter dito nada sobre o entendimento. “Agora temos os agricultores e os produtores europeus mergulhados numa concorrência absolutamente desleal com os agricultores da América do Sul, onde se produz muito mais barato, onde os salários são absolutamente esclavagistas, onde os impostos são muito menos, a competir com agricultores portugueses, espanhóis e italianos, que têm de pagar muito mais impostos, têm que pagar taxas de tudo e mais alguma coisa”, disse.
Para Ventura, este acordo “vai mandar ainda mais agricultores e produtores para a miséria” e, por isso, justifica que o Presidente da República tem “uma capacidade de influenciar única”, criticando Marcelo por não ter tido “a palavra certa” junto do Governo.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR