Engolido por dois banhos de multidão, primeiro no Mercado de Caxinas e depois na Rua de Santa Catarina, no Porto, André Ventura não teve mãos a medir. Em Caxinas, a enchente foi de tal forma que a multidão que o seguia ficou fora do mercado, sendo que estava previsto entrar, e a visita foi encurtada. No Porto, a bolha era de tal forma intensa que poucas pessoas conseguiram chegar ao presidente do Chega.
Antes de arrancar a ação de campanha da manhã, André Ventura começou no tiro a Montenegro, percecionando “desespero” no regresso do primeiro-ministro a terreno. É “uma entrada desesperada” e que até pode prejudicar Mendes, antecipou o candidato apoiado pelo Chega.
“O primeiro-ministro deve evitar, como primeiro-ministro, fazer esta entrada. Mas também lhe vou dizer uma coisa. Tem direito a fazê-lo. Eu pergunto-me se isto é sequer bom para Luís Marques Mendes nesta altura”, analisou Ventura, frisando que a Saúde está um “caos” e que da “indústria até à hotelaria e turismo, à agricultura, [as pessoas] queixam-se de um Governo que não está a fazer nada por eles”.
“Eu não sei se é bom para Luís Marques Mendes que Montenegro venha em seu auxílio”, vincou, repetindo também que o social-democrata “não é o candidato do povo” e sim o “candidato do montenegrismo”. E resume, referindo Montenegro é uma “salva-bóia”: “Lá tem que vir o nadador de Espinho salvar a campanha do Dr. Marques Mendes”.
No discurso da noite, num pequeno palco montado na Praça da Batalha, após a arruada, Ventura fez mais uma referência a Montenegro para dizer que, na sua campanha, se dispensava esse apoio: “Nós não queremos o primeiro-ministro, queremos o povo comum. Não queremos uma campanha para ganhar corredores, queremos uma campanha para mudar Portugal.”
Questionado sobre o apelo de Cotrim de Figueiredo, Ventura acreditava que “as cartas que ia haver de amor e de todos contra [si] ia acontecer só na segunda volta”. “Isso é mesmo de alguém que está um pouco de cabeça perdida, francamente”, atirou o candidato apoiado pelo Chega.
Com base na grande sondagem da Católica para a RTP e Público, Ventura considerou que “ficou claro” que “provavelmente [haverá] uma segunda volta entre um espaço socialista e um espaço não socialista” e colocou-se como a “alternativa a António José Seguro”.
“O povo de direita, o povo de centro-direita, o povo que é antissocialista, que não quer socialismo, só tem uma opção nestas eleições: concentrar os votos para que eu consiga ter a maior margem de diferença possível face a António José Seguro.”
Depois de o socialista ter dito que queria vencer a primeira volta, Ventura reiterou que é um objetivo seu e que vão “lutar os dois para vencer”. “É provavelmente a luta mais simbólica do nosso tempo, porque é a luta entre tudo o que o socialismo representa, ainda por cima um socialismo derrotado, que nem no seu partido conseguiu vencer, contra o antissocialismo que quer cortar com o espírito do socialismo”, explicou Ventura, frisando que Seguro será um “retrocesso”.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
André Ventura, no final da tradicional arruada no Porto, disse que na campanha houve “a coragem de dizer a verdade aos portugueses”, considerando que a “recompensa” é o primeiro lugar nas sondagens. “Comigo a conversa de chacha vai acabar. Vão juntar-se todos contra nós… os que andaram a roubar o país, os mamões de 50 anos de Abril, os partidos de esquerda e extrema-esquerda”, prometeu.
E, ainda que as sondagens criem um ambiente positivo, Ventura começou a dramatizar a todos que “não se deixem embalar pelas sondagens” – “Não basta ficarmos a olhar, temos mesmo que ir lá.”
“Tivemos [Presidentes] que nunca foram capazes de pôr os portugueses em primeiro”
Após cruzamento com lesados do BES — como é habitual na descida de Santa Catarina, no Porto — Ventura deparou-se com uma atualização dos cartazes, onde passou a ler-se “Ventura solidário” e prometeu soluções para as pessoas.
Disse que tem a ver com “responsabilidade” e que o “Estado português não [a] teve nos últimos anos”. “Nós gastamos milhares de milhões de euros a salvar a banca mas não salvámos os que perderam tudo com a banca”, atirou, sublinhando que está “errado”.
“O país deve olhar em primeiro para os seus e não sempre para as mesmas elites que nos governaram e que lideraram o país nos últimos anos. não há ninguém que vai votar no André ventura no domingo que queira manter a mesma coisa que tem sido até agora nós. A Cavaco sucedeu Marcelo antes tivemos Jorge Sampaio, Mário Soares… tivemos tivemos um conjunto de pessoas que nunca foram capazes de pôr os portugueses em primeiro lugar”, acusou o candidato apoiado pelo Chega.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Foi sublinhando que quer mesmo “mesmo romper com o sistema” e assegurou que, na causa do BES como “noutras”, haver “a garantia da confiança” de que, se vencer, não deixará “pedra sobre sobre deste sistema corrupto que temos em Portugal”.
Pelo caminho, diz ainda se diferenciou do candidato social-democrata: “Nas imagens televisivas, Marques Mendes passava por estes homens e mulheres a fugir, a empurrá-los e a tirá-los de cena. Nós fazemos o contrário, sabemos que eles têm razão e vamos recuperar a justiça que tem que ser dada.” Na ação de campanha de Marques Mendes, o candidato cumprimentou os lesados e tiraram até uma selfie. O presidente do Chega defendeu também que estas pessoas “perderam tudo e estão sem nada” enquanto “Ricardo Salgado roubou tudo e está em liberdade”.
Questionado sobre a Constituição, André Ventura disse que lei fundamental “não é a Bíblia” e assumiu que a quer alterar. “Eu quero mesmo mudar a Constituição. Eu não ando a esconder-vos nada. Eu quero mesmo mudar a Constituição e quero incentivar o país” a essa mudança, afirmou André Ventura. Para isso, considera que o Presidente da República “tem uma magistratura de influência única” que deve ser aproveitada.
“Não é preciso os meus adversários andarem a dizer: ‘Ele vai mudar a Constituição’. Ouçam, leiam os meus lábios: Vou, vou”, assegurou Ventura. “A Constituição é dos anos 1970, tem de mudar e tem de se adaptar ao país de hoje”, disse, acusando os seus adversários de quererem “mandar o país para trás”.