Foram 30 minutos da tradicional descida do Chiado, em Lisboa, 10 deles a dar declarações aos jornalistas. A enchente que se viu em alguns locais do país não se repetiu na capital, sendo que a comitiva estava bem composta, mas sem a agitação de muitos dias. E, ao contrário do que tem sido habitual noutras campanhas, André Ventura não fez comício no final, na Praça do Município, e marcou o encerramento de campanha para Pavilhão de Exposições da Tapada da Ajuda, no Instituto Superior de Agronomia.
Em frente aos Armazéns do Chiado, acompanhado pela mulher e muitos deputados e dirigentes do Chega, recusou quantificar um número para estas eleições presidenciais e assegurou que procura alcançar aquilo a que chamou o “conforto [para o] país que quer a mudança”. Porém, deixou recados aos líderes dos restantes partidos da direita.
Questionado sobre se numa segunda volta deseja o apoio do PSD — depois de ter desafiado o líder do PSD e de, mais tarde, ter dito “que se lixe Montenegro” — , Ventura garantiu que apenas deseja o “apoio do povo português” e que “fique claro que não queremos mais socialismo”. “Isso deve ser uma questão de consciência para os líderes do PSD e da Iniciativa Liberal”, sublinhou, reiterando que se trata mesmo dessa “questão de consciência” e da luta contra o socialismo.
“O que eu espero do líder do PSD e da Iniciativa Liberal e de outros movimentos e de apoios mais conservadores e da direita, é que não sejam, pelo menos, um obstáculo à vitória que impeça que o socialismo regresse ao Palácio de Belém”, salientou, explicando que “se não querem ou se acham que não devem apoiar o único candidato de direita na segunda volta então pelo menos não obstaculizem”.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
André Ventura falou no plural para dizer que estes partidos passaram “anos a lutar contra o regresso do socialismo ao poder em Portugal”. E para logo questionar: “Passámos anos a dizer que o PS, pela corrupção que tinha transportado, mas também pelo caos na saúde, na imigração, estava nos antípodas do que nós queríamos. Ora, como é que devemos achar que um primeiro-ministro não pode ser socialista, mas o Presidente da República já pode?”
Ainda que considere a “eleição é muito mais importante do que o PSD e outros partidos vão fazer”, assumiu que “haverá importância no dia seguinte”. “Se o primeiro-ministro ficar em silêncio, e a tomar por bem as notícias que hoje vi no Expresso e na SIC em relação ao facto que o primeiro-ministro preferia António José Seguro do que a mim, então isso diz muito do primeiro-ministro de Portugal”, insistiu.
“Foi com este homem [André Ventura] que está aqui, com este partido, com este movimento que negociou as leis da imigração, da nacionalidade, a descida do IRC, foi com este partido que tentou alterar leis em matéria de Saúde, de organização de saúde, leis laborais, etc, como é que prefere um candidato socialista?”, voltou a perguntar.
Questionado sobre se o facto de o PSD não se decidir entre um apoio a Chega e PS normaliza o partido que lidera, Ventura desvalorizou, frisando que “isso normaliza 50 anos de corrupção entre os dois partidos” e concluindo que a partir de segunda-feira a escolha é entre o candidato que quer “romper o socialismo e um que, provavelmente, vai ser a continuidade do socialismo”.
“Não precisamos de três Salazares, um André Ventura vai pôr este país na ordem”
No comício de encerramento de campanha, também em Lisboa, André Ventura recuperou as palavras polémicas já como candidato presidencial, quando disse que Portugal precisava de “três Salazares” para reiterar que “um André Ventura vai pôr este país na ordem”.
Durante longos segundos, o presidente do Chega enumerou cenários em que dispensa os votos dos portugueses, para que “não vão ao engano”, frisando que não o deve fazer “quem quer mais imigração descontrolada, mais mesquitas em Portugal, quem acha que crucifixos devem sair das escolas, quem está a gostar de ver este espetáculo do José Sócrates, quem acha bem que estado social tem de ser bar aberto de distribuição de subsídios”.
“Nunca me peçam para ser o candidato das generalidades redondas. Não quero estar do lado dos que ganham eleições, quero estar do lado dos que transformaram o país.” E, neste sentido, voltou a avisar que “não vai haver nem mais um cêntimo” para “todas as associações, institutos, organizações que andarem nas escolas, universidades e instituições civis a promover ideologia de género e que ser humano não é o ser humano”.
E avisou: “Sou daqueles que não vergam facilmente. Comecei campanha a dizer que país precisava de três Salazares e tinha razão. (…) Não precisamos de três Salazares, um André Ventura vai pôr este país na ordem.”
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Para Ventura é necessário um “ajuste de contas com histórias“, que o país tem de ser posto no “divã”, por considerar que após o 25 de Abril o país “nunca se encontrou bem com a sua história” e deixou que a “extrema-esquerda tomasse conta de instituições, das universidades, da forma de fazer política”, mas também afirmou que se “interiorizou” que havia “culpa” do passado. “Passaram 51 anos, não queremos andar para trás, mas há um momento de renascimento nacional que queria que estas eleições provocassem.”
Para isso, não só entende que o país tem de “perder o medo de dizer ao país que errou em muita coisa no fim do 25 de Abril” e considera necessário uma “rutura com a história”. “Podemos triunfar ou não no próximo domingo, mas vamos continuar a lutar, mesmo que encontremos toda a resistência do mundo”, concluiu Ventura, novamente dando o exemplo de D. Afonso Henriques e concluindo: “Quero ser o símbolo da nação que se levanta e nunca mais será derrotada.”
André Ventura deixou várias promessas ao longo do discurso, uma delas com uma referência a Marcelo Rebelo de Sousa, dizendo que Portugal não voltará a “ser humilhado por nenhum país do mundo ou chefe de Estado estrangeiro”; outra quando assegurou que deixará de ser possível “comprar um passaporte português”.
No mesmo sentido, ainda aproveitou para criticar Luís Montenegro e o atual Presidente da República, frisando que “é impossível termos um primeiro-ministro que diz que está tudo bem, que não há caos, que há só perceção do caos” e “um Presidente da República dizer que os sem-abrigo são a sua grande bandeira e aumentaram mais 25% ou 30% o número de sem-abrigo em Portugal”. “É sinal que falhámos e eu não estou a dizer que eles falharam.
Todos falhámos”, concluiu.
No último discurso da campanha eleitoral, André Ventura voltou a dramatizar no apelo ao voto. “Queria apelar ao país todos para que saísse de casa e votasse. Não basta estar em primeiro em sondagens”, pediu o candidato a Presidente, crente de que “nunca [se esteve] tão perto de conseguir”.
“Não somos políticos pela imagem, pelo ego, pelo nosso futuro, somos políticos para resolver os problemas das pessoas”, sublinhou. “Nenhuma eleição me tocou tanto como esta”, disse, frisando que voltou a sentir a “missão”. “Ao fim do dia o que interessa disputas e despiques pessoais entre candidatos?”, questionou, lembrando alguns dos casos que foi reportando ao longo da campanha eleitoral e frisando que “há dois tipos de candidatos: os que dizem sempre as coisas redondas para agradar a toda a gente ou os que confrontam o país olhos nos olhos com aquilo que se passa.”
André Ventura argumentou que escolheu “não falar do António José Seguro, não falar do Marcos Mendes, não falar do Gouveia e Melo, não falar de João Cotrim de Figueiredo” para explicar que escolheu falar da mulher “deitada no chão do hospital” em Coimbra porque é isso que é preciso “resolver neste país que fracassou”.
Neste sentido, o presidente do Chega reconheceu que houve “alguma transformação” em si nas eleições, contou que um amigo descreveu a campanha como “estranha”, mas concluiu: “[Percebi que não [são os ataques] que interessam às pessoas. Às vezes mobilizam-nos e às vezes fazem-nos gritar mais alto, mas não resolve grande parte dos problemas. E eu decidi que me quero tornar o político que vai resolver os problemas deste país.”
Por isso, concluiu, a comissão de honra da sua candidatura não existe e é o “povo português”.
[Texto atualizado às 23h43 do dia 16 de janeiro]