O ministro dos Transportes e Mobilidade Sustentável de Espanha, Óscar Puente, apresentou este domingo vários certificados para garantir que a via da Arcelor Mittal, onde ocorreu o descarrilamento do comboio Iryo em Adamuz, Córdoba, foi inspecionada.
De acordo com a agência espanhola de notícias, a EFE, o ministro publicou duas mensagens na rede social X, assegurando primeiro que o carril partido onde ocorreu o descarrilamento do comboio Iryo é uma via nova e, uma hora mais tarde, publicou outra mensagem com fotografias dos certificados.
As mensagens do ministro surgem em resposta à notícia do jornal El Mundo deste domingo, na qual se afirma que a zona onde o comboio Iryo descarrilou é um ponto de junção entre material novo e vias não renovadas desde 1989.
“Informo-vos, antes que perguntem, que o carril em questão tem o seu certificado de inspeção, tendo passado em todas as verificações químicas, mecânicas, metalográficas, de equação preditiva, de dureza e de choque e impacto”, escreve o ministro, segundo a Efe, considerando que o artigo é “um boato descarado”.
Y les informo, antes de que lo pregunten, que el carril de Arcelor Mittal de 2023 312592Y101 tiene su certificado de inspección de haber pasado todas las comprobaciones químicas, mecánicas, metalográficas, de ecuación predictiva, de dureza y de choque e impacto, que son… https://t.co/p3cJMZXT1Q pic.twitter.com/T4BS8sLHck
— Óscar Puente (@oscar_puente_) January 25, 2026
Puente explicou ainda que todas estas verificações são obrigatórias para estes materiais antes da sua entrada em funcionamento, como comprovam os certificados do fabricante que inclui na sua mensagem.
O artigo do El Mundo e a resposta do governante surgem no mesmo dia em que os últimos destroços das carruagens do comboio de alta velocidade Alvia, envolvido no acidente de há uma semana em Adamuz, Córdova, que causou 45 mortos, foram retirados das vias.
O jornal El Mundo noticiou este domingo que o troço da linha que colapsou em Adamuz apresentava uma junção de materiais novos com elementos de 1989, o que levou o Partido Popular (PP) a exigir a demissão imediata de Puente.
O secretário-geral do principal partido da oposição, Miguel Tellado, acusou o ministro dos Transportes de ter mentido sobre as causas do acidente.
“Óscar Puente passou toda a semana a repetir incessantemente que a via Madrid-Andaluzia tinha sido completamente renovada com um investimento de 700 milhões de euros”, disse Tellado.
A linha de atendimento da Refer já respondeu a 1.100 pedidos de informação e ajuda, noticia ainda a Efe, que dá conta também do apelo da multinacional siderúrgica Arcelor Mittal, construtora dos carris, para uma investigação sem especulações.
“Dadas as inúmeras causas possíveis do acidente ferroviário de Adamuz, é fundamental que se permita que a investigação independente seja realizada à margem de especulações, que não ajudariam as pessoas afetadas nem a integridade do processo”, lê-se no comunicado citado pela agência espanhola de notícias.
Num comunicado, a empresa, que afirma compreender o desejo de obter respostas imediatas, sublinha que todo o aço fornecido para vias férreas é submetido a rigorosos testes de qualidade e defende a necessidade de examinar “todas e cada uma das possíveis causas”.
O descarrilamento do comboio de alta velocidade Iryo terá sido provocado por uma “fratura do carril”, segundo o relatório preliminar da comissão independente de investigação do acidente.
A outra composição, que passou em sentido contrário 20 segundos depois, chocou com carruagens do primeiro comboio que se tinham atravessado na linha.
O acidente causou 45 mortos e perto de 150 feridos.
Após a divulgação do relatório, o ministro dos Transportes, Óscar Puente, disse que todas as inspeções tinham sido respeitadas na linha e que as fissuras nos carris eram habituais. Mas houve “muito má sorte” no caso de Adamuz, considerou.
Criada plataforma de afetados pelo acidente
Os afetados pelo acidente decidiram criar uma plataforma em busca de justiça, baseada na cidade de Huelva.
De acordo com um comunicado divulgado este domingo e citado pela agência Efe, a Plataforma de Huelva de Vítimas e Familiares do Acidente Ferroviário de Adamuz foi criada com o objetivo de coordenar todos os processos judiciais decorrentes do acidente e garantir que as famílias dos falecidos e os numerosos feridos — tanto os que têm traumas físicos como psicológicos — falam a uma só voz para garantir que todas as responsabilidades civis e criminais são apuradas.
A plataforma é liderada por José Luis Orta Prieto, advogado de Huelva com mais de 30 anos de experiência em casos de elevada complexidade e é reconhecido pelo seu trabalho em casos de grande impacto, como a representação da Associação de Bebés Roubados de Huelva (2012-2024) e a acusação no caso do atropelamento com múltiplas vítimas mortais em Gibraleón, que resultou no maior acordo judicial da história da justiça espanhola (18 anos de prisão).
A estratégia jurídica da plataforma irá focar-se em comparecer diretamente nos Tribunais de Montoro (Córdoba), o tribunal responsável pelo caso.
Segundo o grupo, o objetivo é “seguir o caminho mais eficaz e correto” para esclarecer as causas da tragédia e garantir a devida indemnização e as penas aplicáveis, e a união dos afetados numa plataforma visa evitar a dispersão de recursos e reforçar a posição das vítimas contra as empresas ferroviárias e seguradoras envolvidas.
Já a Direção da Ordem dos Advogados de Huelva, após ter tido conhecimento da informação, declarou em comunicado de imprensa que a angariação de clientes por parte dos advogados em casos de tragédia como esta “é expressamente proibida pelo Código Deontológico da Advocacia e constitui um gravíssimo atentado à ética profissional”.
A Ordem recorda ao público que conta com mais de mil profissionais à disposição das vítimas e da comunidade, todos “perfeitamente qualificados para defender os interesses que lhes são confiados”.
Por fim, desejou uma rápida recuperação aos feridos no acidente e recomendou que as famílias das vítimas tomem qualquer medida legal com calma e sem se deixarem levar por emoções intensas, de forma a evitar decisões precipitadas.