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O deslize de Ventura ao cair do pano: postura de Seguro "mostra bem o tipo de Presidente que vamos ter"

Este artigo tem mais de 6 meses

Ventura considera que, depois de a sua ideia não ir avante, a campanha termina agora e não se prolongará para a semana, mesmo que haja municípios a votar. Mesmo no fim, fala de Seguro como Presidente.

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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Acho que a campanha acaba. Infelizmente acaba nestas circunstâncias em que estamos.” André Ventura assumiu-se como derrotado na solução que propôs para o adiamento das eleições presidenciais devido às tempestades e considera que esta sexta-feira é o ponto final na campanha eleitoral, mesmo com os municípios em calamidade a votarem só daqui a uma semana. Pelo caminho ficou também um descuido ao cair do pano, quando criticou a postura de António José Seguro e concluiu que “mostra bem o tipo de Presidente que vamos ter” — deu espaço para tentar corrigir, mas fica para a história da campanha o reconhecimento de uma derrota antecipada.

No seguimento da proposta de Ventura, que colocou a campanha no centro da atualidade como não aconteceu durante as duas semanas, o candidato presidencial revelou que falou com o Presidente da República (Marcelo veio dizer que foi por WhatsApp), que considerou que “não há condições, neste momento, para um estado de emergência”. Numa conversa que descreveu como “bastante franca e leal”, Ventura explicou que deu o seu “ponto de vista” sobre o que devia ser feito “perante estas circunstâncias, com uma parte do país debaixo de água, com outra parte do país sem estradas, sem excessos, com empresas destruídas” — “Desculpem lá, se não arranjamos uma solução para adiar as eleições, estamos primeiro a pôr os votos à frente das pessoas“, disse incrédulo.

Apesar dos entendimentos sobre a lei, o presidente do Chega continuou a achar que “há momentos em que se pode adiar as eleições” e considerou que este é um deles, frisando que não houve vontade. “Estamos a ser absolutamente inúteis como políticos porque as pessoas sentem que nós não servimos para nada”, sublinhou o candidato, justificando que o Estado falhou “na prevenção, no acompanhamento a seguir à devastação” e agora ao “obrigar [as pessoas] a ir votar no meio desta devastação”.

Depois de Marcelo, o adversário. Para Ventura, a postura permitiu deixar “bem claro” a “inutilidade e também o vazio, mas sobretudo a falta de empatia” de António José Seguro. “Perante a devastação do país, o que é essencial é a eleição. Perante a dor das pessoas, o que é mesmo importante é as eleições”, ironizou Ventura, em jeito de crítica, apontando que isso “mostra bem a diferença de candidatos e a diferença de projetos para o futuro do país”.

O candidato presidencial insistiu em questionar com que “motivação” é que as pessoas vão votar depois de saberem os resultados. Ventura disse ainda que ouviu Seguro dizer que não tem o seu número e assegurou que é “falso” e “mentira“, recordando que até na noite eleitoral da primeira volta falou com o adversário. “Só mostra bem e lamento dizê-lo no último dia de campanha o tipo de Presidente que vamos ter, quando se mente descaradamente, em público, perante uma tragédia destas, só para mostrar qualquer espécie de superioridade moral, isto são aqueles momentos que definem o carácter de uma pessoa”, atirou, antecipando um cenário de derrota — a única vez em que o fez de forma tão taxativa. Questionado logo a seguir sobre o que tinha acabado de reconhecer, Ventura disse estar a assumir que um dos dois “vai ganhar”.

À noite, questionado sobre este deslize, Ventura disse que “não há vencedores à partida” e que é preciso “respeitar o voto das pessoas”. Ainda assim, atirou: “Estou muito confiante que vou vencer no domingo, estou muito confiante da vitória eleitoral. Mas, como sempre, vou respeitar o voto dos portugueses.” E repetiu que ser a “voz de descontentamento do país” e que “voltar atrás, ao tempo do socialismo”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ventura volta à recolha de bens e pediu “mão na consciência”

À tarde, André Ventura despiu a gravata e juntou-se uma comitiva do Chega para se deslocar a um grande armazém em Alcácer do Sal — um dos vários que estão a receber bens essenciais (de comida a produtos de higiene, eletrodomésticos e material para casa). Lá, descarregaram duas carrinhas num armazém atarefado, onde se organizam roupas por tamanhos, género, tipo, mas também produtos de higiene. A comida está noutro local — a que o Chega ali deixou será levada para um armazém a uns minutos de carro. O excesso de gente atrapalhou quem ali estava a trabalhar (“Ainda levo com uma câmara na cabeça, se dessem uma mãozinha…”, desabafava uma voluntária) e foi o próprio presidente do Chega a pedir para fazer as declarações aos jornalistas na rua.

Disse ter “várias [críticas] a fazer” aos mais recentes anúncios do Governo, mas atirou-se principalmente à questão das Forças Armadas, em que tem insistido durante a campanha, no seguimento da notícia do Expresso que dá conta de que “os militares só entraram em alerta vermelho uma semana depois”. “As Forças Armadas ficaram dias à espera de serem chamadas e estavam preparadas, o que mostra a ineficácia de tudo. Teremos tempo a falar sobre isso, mas agora é ajudar e mobilizar“, sublinhou.

E justificou que “as Forças Armadas estão sob tutela do Presidente da República, que é o Comandante-Geral das Forças Armadas, o caso da Proteção Civil está sob tutela do Governo. Portanto, todos estes serviços falharam”.

Mais do que isso, Ventura recuperou também o tema das mortes para dizer que “as dos últimos dias deviam fazer-nos a todos pôr a mão na consciência porque são pessoas que estão a morrer porque estão a reconstruir os seus telhados”. “Não temos umas Forças Armadas que possam fazer isso? Não temos uma administração pública que, estou certo, até se voluntaria, para em vez de estar a fazer o serviço que está a fazer noutras partes do país, fosse apoiar a reconstrução? Não temos centenas, milhares de voluntários que, se fossem organizados e coordenados estavam a fazer isso? Esta falha foi brutal. Nós falhámos todos.”

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador

Sobre a sugestão de Marcelo para “um canal de entrada de imigrantes” para reconstruir zonas afetadas, Ventura não respondeu claramente, mas disse que neste momento “as pessoas precisam de ajuda” e que não se deve “misturar isso com assuntos de imigração“. “As pessoas estão a precisar de ajuda, neste momento temos é que resolver problemas que estão a ter e não aumentar ou agravar os problemas que o país já tem. Devemos fazer isso em comunidade, juntando a nossa solidariedade e apelando a todos para ajudar. Não é o momento de criar mais problemas a um problema que já temos”, afirmou, reiterando que será preciso mão de obra e “pagar bem também aos nossos, porque não recebem miseravelmente”.

Questionado sobre se a mensagem que tem passado pode desmobilizar as pessoas para as eleições, Ventura garantiu não estar a pensar nisso e não lhe interessar. “A baixa ida às urnas será [responsabilidade] daqueles que querem manter as eleições a todo custo, com metade do país devastado pela tempestade e sob risco de novas tempestades”, explicou, recusando ser corresponsável por essa possível abstenção.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O presidente do Chega recuperou ainda as declarações da presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal (“Quem está sentado num gabinete não tem ideia. Convido a virem a Alcácer. É impossível fazer eleição”) para concordar que “é fácil de estar numa cadeira quentinha em Lisboa a dizer que não devíamos adiar eleições”.

“Que todos ouvissem este apelo desesperado de uma autarca que tem a sua cidade absolutamente inundada, que está a recolher ajuda, e gostava de fazer o suporte desse apelo. Deixem de pensar só nas cadeiras quentes em questão, pensem numa grande parte do país que está, e outra parte que vai estar, afetada por estas várias tempestades, e talvez tivéssemos tomado uma decisão diferente”, justifica, concluindo que decisão tomada foi “errada”.

Ventura “não sabe” qual será impacto da tempestade nos votos: “Segui a minha consciência”

André Ventura terminou a campanha eleitoral a visitar o quartel de Bombeiros Voluntários de Camarate, em Loures. Questionado sobre quem pode ter tirado proveito de uma campanha nestas circunstâncias, com tempestades, danos e estados de calamidade, reconheceu que “não sabe mesmo” porque “o que aconteceu é imprevisível”.

“Acho que nenhum de nós consegue, nem os jornalistas, nem os políticos, nem nenhuma instituição, perceber o que é que aconteceu estes dias e a que ponto moldou e mudou a perceção das pessoas”, explicou, reconhecendo que fez o que costuma fazer em política: “Seguir a minha consciência.”

“A minha consciência dizia-me, a um determinado momento, que este não era o momento para eleições, quando o país estava a sofrer. Isto é certo ou errado? Era a minha consciência. Eu fiz o que a minha consciência [disse] e o que acho que era o melhor para o povo português. Não estava a pensar quem é que vai beneficiar com isto no domingo, quem é que vai ser prejudicado. Haverá muito tempo, a partir de domingo à noite, para analisarmos aquilo que aconteceu”, garantiu — depois de ter passado vários dias a recusar cálculos políticos.

No mesmo sentido, Ventura reiterou ainda que o dia das eleições “é sobre o povo português, não é sobre Luís Montenegro, nem sobre André Ventura, nem sobre o António José Seguro”. E, se tiver mais votos do que Montenegro, apenas vê isso como “a conclusão que o povo português participou e [lhe] deu mais votos do que o Luís Montenegro” — “Em democracia aceitamos isso.”

Na despedida da campanha eleitoral, Ventura, que chegou a duvidar desta candidatura presidencial, garantiu que fez tudo o que era possível: “Dei o melhor de mim. Entreguei-me de alma e coração a esta campanha, que sabíamos que ia ser difícil. Entreguei-me com tudo o que tinha. Agora é com o povo português. Vai haver futuro depois de domingo. Portugal vai continuar depois de domingo. Eu fico com a consciência que dei o melhor de mim.”

[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]

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