Uma prova de degustação de um alegado novo sabor de pastilha elástica foi a estratégia final que permitiu à polícia norte-americana resolver dois crimes com quase 40 anos. Mitchell Gaff, o homem de 68 anos que acabou por ser preso e levado a julgamento por crimes de violação e homicídio, irá conhecer a sua sentença esta quarta-feira e arrisca-se a ser condenado a prisão perpétua.

A operação policial que permitiu descobrir Gaff aconteceu em Everett, em Washington, nos Estados Unidos, em janeiro de 2024, segundo a CNN, quando a agente Susan Logothetti e dois colegas bateram à porta de casa do homem disfarçados de vendedores de pastilhas elásticas e lhe deram a provar aquele que seria um novo produto. Após a degustação, Gaff cuspiu a pastilha anterior para um recipiente e esta acabaria a servir como prova de um crime cometido em 1984.

“Lembro-me de vê-lo cuspir o primeiro pedaço de chiclete e de ver a saliva e foi muito difícil para mim conter a minha empolgação”, revelou à emissora norte-americana Susan Logothetti, que investigava o caso desde 2022.

A polícia procurava solucionar o homicídio de Judy Weaver, uma mulher de 42 anos, que foi atacada no seu quarto por um homem que “incendiou [a divisão] numa aparente tentativa de destruir provas”, segundo a CNN. Apesar se não ser prática à época, as autoridades contactaram o laboratório “para obter amostras vaginais, o que permitiu que enviassem as evidências poucas horas após a sua morte”, mas o principal suspeito acabou por ser o então namorado de Weaver, que morreu em 1994.

32 anos depois, a 16 de abril deste ano, Gaff declarou-se culpado do crime em tribunal, detalhando o assassinato de Weaver. “Antes de sair, enrolei cordas à volta do pescoço dela e ateei fogo na ponta da colcha, numa tentativa de encobrir o meu crime e com a intenção de matá-la”, admitiu Gaff,.

No entanto, um outro crime foi confessado: em 1980, Gaff aproveitou uma porta de casa destrancada para assassinar Susan Vesey, mãe de dois filhos com 22 anos. Segundo o The New York Times, a mulher foi “violada, espancada, amarrada com cordões e cabos elétricos e estrangulada no seu apartamento em Everett”.

Os crimes não apareciam como oficialmente relacionados mas, após o marido de Vesey ter ligado para a polícia de Everett, em 2024, a anunciar que um dos suspeitos do crime — o cunhado de Susan — tinha morrido, a agente Susan Logothetti devolveu a chamada, pedindo a descrição do crime.

“A única coisa que podia pensar era na Judy Weaver”, afirmou a agente, por ter notado “semelhanças surpreendentes” entre os dois casos, tendo chegado a Gaff quando a amostra de ADN numa corta usada para amarra Vesey continha vestígios do culpado.

“O que me parece relevante é o quão sofisticados os cientistas forenses se tornaram, e o quão sofisticada é a tecnologia de ADN que permite que eles façam o que fazem, admitiu Craig Matheson, procurador do caso à CNN.

Esta não é a primeira vez que Mitchell Gaff enfrenta uma condenação por crimes sexuais. Em 1979, tentou violar Jackie O’Brien, uma mulher de 29 anos, tendo cumprido uma pena de cinco anos de prisão, mais um em liberdade condicional. Também em 1984, violou duas raparigas adolescentes, crimes que o levaram a ser condenado a dez anos de prisão. Quando saiu da prisão, em 1995, foi declarado “sádico sexual“, segundo o The New York Times, citando uma declaração juramentada.

Jackie O’Brien, hoje com 76 anos, afirmou, em declarações ao jornal norte-americano, a 21 de abril, que as penas de prisão que Gaff recebeu “não foram severas o suficiente”, tendo depois à CNN demonstrado arrependimento por não ter acompanhado a primeira sessão de julgamento presencialmente. “A razão pela qual eu não fui ao tribunal é porque me recuso a deixar aquele idiota a ver-me chorar… e foi há quase 50 anos”, lamentou O’Brien, assumindo: “Lamento muito não ter conseguido matá-lo no dia em que ele me atacou”.