Os hipercarros custam habitualmente os olhos da cara e obrigam a manutenções igualmente astronómicas, sobretudo devido às mecânicas complexas e sofisticadas, para se manterem prontas para entregar potências de cortar a respiração e evitarem danos mesmo quando são submetidas a rotações tradicionalmente apenas ao alcance de carros de competição. É este o caso do Mercedes-AMG One, provavelmente o hiperdesportivo moderno mais sofisticado do mercado, que levou até o CEO da marca a admitir que “os membros do conselho de administração deviam estar bêbados quando o aprovaram”, tal a sua complexidade e o arrojo, ao montar num carro de estrada a mecânica de um F1 actual — precisamente uma unidade 1.6 V6-híbrido Turbo que deu o título à marca alemã em 2015, similar à que ainda hoje é utilizada.
Os 275 Mercedes-AMG One fabricados foram rapidamente vendidos, ainda antes de qualquer um dos clientes ter a ocasião de o ver, de o conduzir ou até de se sentar a bordo, e cada um por 2,75 milhões de euros, antes de impostos. Uma destas unidades, produzida em 2023, vai ser leiloada este mês pela RM Sotheby’s, com a particularidade de registar somente 185 km no odómetro e ter a carroçaria pintada num verde que o distingue dos restantes exemplares construídos.
“Devíamos estar bêbados quando aprovámos o AMG One”, disse o CEO da Mercedes
Um automóvel com tão pouco uso e apenas três anos não necessitaria, em princípio, de grandes retoques ou manutenções. Mas, para alargar a garantia mais dois anos, até Fevereiro de 2028, a Mercedes procedeu a uma revisão que custou “só” 37.610€, tudo para actualizar o AMG One e deixá-lo pronto para que o futuro proprietário lhe dê o uso que merece o exuberante desportivo. O grosso da despesa teve a ver com o facto de terem sido cobradas 80 horas de trabalho (incluiu a recuperação da pintura) a 395€ à hora.
O preço elevado da visita à oficina levou a que se voltasse a falar do dispendioso que são os motores de F1, bem como da sua curta longevidade, pois em 2015 estes motores eram concebidos para aguentar apenas cinco fins-de-semana completos de corrida, o que equivale a aproximadamente 2000 km. Em 2026, a unidade 1.6 V6 deve resistir a seis corridas, já que cada F1 só pode utilizar quatro motores nas 24 provas da época.
Mas feitas as contas, a revisão até saiu barata, uma vez que há uns anos um cliente, escandalizado com o preço das diversas intervenções, divulgou o preçário geral, o que incluía o preço do filtro de ar (1.872€), do filtro do óleo da caixa (2.696€) e do motor (555€). Contudo o que mais pode chocar os potenciais clientes é o facto deste hipercarro exigir uma revisão a cada 5000 km e depois necessitar de uma reconstrução total da unidade motriz ao fim de 50.000 km, que custa “apenas” 850.000€. De recordar que o Mercedes-AMG One, que deverá ser arrematado por um valor similar ao que custou em novo – a leiloeira estima um preço entre 2,65 e 3,0 milhões de euros -, possui 1063 cv que extrai do motor 1.6 V6 com apenas um turbocompressor, associado a quatro motores eléctricos, dois dos quais acoplados à sua roda dianteira para garantir tracção integral, anunciando uma velocidade máxima de 352 km/h e 0-100 km/h em 2,9 segundos.