Os serviços secretos russos desligaram as câmaras de videovigilância usadas para proteger Vladimir Putin e os seus aliados mais próximos após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, a 28 de fevereiro. A informação é avançada pelo Financial Times (FT) esta segunda-feira, citando duas fontes próximas do Kremlin, sendo a causa para esta mudança o método usado para a morte do Líder Supremo do Irão.

Israel usou milhares de horas de imagens de videovigilância de câmaras de trânsito do Irão para encontrar padrões de comportamento e “ajudar a localizar com precisão o local exato e a hora de uma reunião, a 28 de fevereiro, entre Khamenei e os seus conselheiros mais próximos”, explica o jornal. O método é uma “demonstração dramática de um salto tecnológico emergente” que permite que grandes quantidades de vídeo de múltiplas fontes possam ser analisadas minuciosamente pela Inteligência Artificial. Khamenei e outros altos oficiais iranianos acabaram mortos nessa reunião, após um ataque preciso do exército israelita.

O novo avanço tecnológico permite que informações contidas em grandes volumes de informação audiovisual possam ser pesquisáveis através de termos simples como “dois homens a passar um saco um ao outro; uma pessoa que mudou de aparência ou que mudou de roupa várias vezes num dia; ou um veículo que foi pintado recentemente ou que passou pelo mesmo local várias vezes num curto período de tempo”, esclarece o FT. Estes sistemas permitem também recolher informações de redes sociais, áudios de telemóveis, histórico de viagens, e criar padrões de comportamento sobre indivíduos durante meses.

Se, em 2023, quando a Inteligência Artificial começou a ser comercializada, só era possível gerar vídeos através de indicações em texto, atualmente, é possível o inverso, ou seja, usar texto para pesquisar fotogramas de videovigilância.

“Para dizer de forma simples, esta é a primeira vez na história que podemos comunicar através de linguagem com computadores sobre aquilo que eles veem“, explicou Matan Goldner, presidente executivo da startup israelita Conntour, que tem como cliente os serviços secretos de Israel. “A capacidade de simplesmente observar as fontes dos inimigos não é única nem nova, mas ser capaz de obter o momento exato que se procura no tempo ao longo de milhares de horas, ao longo de milhares de transmissões, é algo mesmo, mesmo novo no nosso mundo“, afirmou Goldner.

“Há sempre uma maneira” de hackear sistemas de videovigilância

O sistema de segurança do Kremlin “só foi novamente ligado depois de os engenheiros o terem analisado minuciosamente, numa tentativa de o isolar hermeticamente da internet”, afirmou uma das fontes ao FT.

No entanto, segundo um hacker ucraniano independente, que falou ao Financial Times sob anonimato, o sistema “ainda está a trabalhar e é hackeado regularmente”. No entanto, não esclareceu se a Ucrânia tem capacidade para empreender um ataque igual ao que Israel inflingiu a Khamenei.

Um oficial da aliança de serviços secretos Five Eyes — composta pela Austrália, Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia e Reino Unido — explica ao FT que tudo o que é preciso fazer é “encontrar uma forma de entrar” nos sistemas de videovigilância e garantiu que “há sempre uma maneira“.

Apesar do porta-voz do Kremlin não ter comentado a investigação, o diretor do Serviço Federal de Segurança russo, Alexander Bortnikov, afirmou a 26 de maio que o assassinato de Khamenei era “um claro sinal de alerta” e avisou para a probabilidade de hackeamento destes sistemas por parte de potências estrangeiras.

“As coordenadas da localização das vítimas foram obtidas, entre outras vias, através de ‘backdoors’ informáticas nos sistemas de videomonitorização em Teerão”, disse Bortnikov, citado pelo jornal russo Kommersant, durante uma reunião do Conselho de Chefes dos Órgãos de Segurança e Serviços Especiais dos Estados-membros da Comunidade de Estados Independentes.

O Reino Unido e os Estados Unidos dispõem de tecnologias semelhantes, como drones que obtêm imagens de alta-resolução, e têm-nas exportado para a Ucrânia, de acordo com o jornal. Já a Rússia tem testado sistemas de videovigilância baseados em Inteligência Artificial em várias regiões do país, segundo uma notícia do The Moscow Times, publicada a 7 de maio. Esta tecnologia permite o reconhecimento facial e tem sido usado, para além de nas ruas, nas universidades e escolas “inclusivamente para controlar o acesso às instituições de ensino”.

O jornal Financial Times esclarece que esta mudança, que permite virar um sistema de videovigilância contra o país que o opera “alarmou os oficiais de contraespionagem em todo o mundo“, que tentaram combater as vulnerabilidades ao fechar os sistemas, algo “notoriamente difícil dada a quantidade de gerações de câmaras que compõem a intricada manta de retalhos da maioria das redes de vigilância”.

Esta investigação reflete uma crescente preocupação com o aparato de segurança do Presidente russo, Vladimir Putin. A 4 de maio, a CNN noticiou que os serviços secretos russos reforçaram o dispositivo de segurança do Kremlin e dos aliados do Presidente, após a morte de um general russo, a 22 de dezembro de 2025, por parte dos serviços de informações ucranianos. O reforço incluía o uso de telemóveis sem acesso à internet e instalação de câmaras de videovigilância nas casas de aliados de Putin.