Há uma certa percentagem de Dom Quixote em Akio Toyoda, o neto do fundador da Toyota que entre 2009 e 2023 desempenhou as funções de presidente e CEO do grupo japonês, para depois passar a chairman daquele que é o maior construtor de veículos do mundo. Enquanto CEO, bateu-se ferozmente contra os veículos eléctricos, que nenhum outro construtor de volume duvidava ser o futuro, restando apenas decidir a velocidade a que a mudança de tecnologia iria acontecer. Agora, Toyoda veio a público admitir que está “sozinho na sua paixão por carros com motores a combustão”, lamentando que “todos os construtores estejam a aderir aos veículos eléctricos”.

As posições de Toyoda contra os veículos eléctricos mereceram-lhe alguns dissabores, em parte vindos dos activistas em favor do ambiente, contudo sem grande reflexo nas decisões do conselho de administração do grupo. Mas já o facto de os accionistas não concordarem com a estratégia imposta por Akio Toyoda colocou o CEO em apuros, que só não resultaram em despedimento por ser neto de Kiichiro Toyoda, que fundou a Toyota em 1937, pelo que em vez de ser conduzido à porta da rua, Akio foi lateralizado para a posição de chairman.

Eléctricos. Toyota dá uma no cravo e outra na ferradura

Numa conversa com a britânica Carwow, Toyoda admitiu que se sente muito sozinho na defesa dos carros tradicionais com motores a combustão, desfasado da realidade um pouco à semelhança de Dom Quixote que, na obra de Cervantes, lutava contra moinhos a pensar que eram gigantes para salvar a donzela Dulcinea del Toboso, com a mesma dedicação que Akio tenta defender os carros com motores de combustão da ameaça eléctrica.

Toyota despreza eléctricos em folheto para escolas

Akio Toyoda acusou, em diversas ocasiões, os veículos eléctricos de serem mais poluentes do que os rivais a gasolina, sem qualquer base científica. E, no seu tempo aos comandos da marca, chegou mesmo a produzir um panfleto para as crianças da escola com uma abordagem às diferentes tecnologias disponíveis em linha com as suas posições, onde os veículos eléctricos nem chegavam a figurar.

CEO da Toyota (que não gosta de eléctricos) abandona o cargo

Talvez por isso, quando o ex-CEO abandonou o posto em 2023, a Toyota oferecia somente um modelo eléctrico a bateria, o SUV bZ4X, enquanto hoje, passados apenas três anos, a gama eléctrica da marca — descontando os veículos eléctricos alimentados por fuel cells a hidrogénio, como o Mirai — inclui já, além do bZ4X, o bZ4X Touring, o C-HR+, o Urban Cruiser e o Highlander.

Aumento dos combustíveis faz disparar as vendas dos eléctricos da Toyota

Mas, por outro lado, é forçoso reconhecer que Akio Toyoda desempenhou um papel fundamental na produção de bons desportivos com emblema Toyota, do Supra ao Yaris GR, passando pelo GR 86, Corolla GR e pelo GR GT, modelo que vai chegar ao mercado em breve. Estes desportivos trouxeram emoção à gama e permitiram à marca japonesa conquistar mais clientes jovens, contrariando a tendência revelada nas últimas décadas.