O Livre realiza este fim de semana o seu 17.º Congresso, em Sintra, Lisboa, que deverá marcar uma nova fase do partido em busca de novos protagonistas, após a saída de Rui Tavares do cargo de porta-voz. O congresso será também marcado pela apresentação da moção encabeçada pelos dirigentes do Livre Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto propõe que o partido se assuma como uma força de governação, com a oposição interna a pedir mais pluralismo e transparência.
A reunião magna, que arranca presencialmente no sábado, no Hockey Club de Sintra, em Lisboa, vai eleger os órgãos do partido para os próximos dois anos, nomeadamente o Grupo de Contacto (direção), ao qual se candidatam três listas: uma de continuidade da atual direção e duas divergentes da estratégia que tem sido seguida.
A lista ‘A’ é encabeçada por Isabel Mendes Lopes – atual porta-voz do partido e líder parlamentar – e tem como número dois Jorge Pinto, deputado que foi candidato às eleições presidenciais de janeiro. Ambos se propõem a ocupar o cargo de porta-voz, em dupla.
Em terceiro, surge Rui Tavares, principal figura do partido que deixa o cargo de porta-voz após quatro anos, propondo-se a ficar na direção com o “pelouro da estratégia, comunicação e formação”.
Em entrevista à Lusa, no dia em que foi anunciada a sua saída, Tavares negou que a saída do cargo signifique um afastamento, acreditando que será “mais útil” ao partido na estratégia e “formação de lideranças” e realçando a necessidade de surgirem novas “caras e vozes”.
Depois da polémica com Joacine Katar Moreira, primeira deputada eleita pelo Livre para a Assembleia da República, que passou a não inscrita em 2020, Rui Tavares foi o principal rosto da recuperação do partido, com a sua eleição como deputado único, em 2022, a marcar o regresso ao parlamento.
Desde então, o Livre passou para um grupo parlamentar de seis deputados nas legislativas de 2025, aumentou a sua representação autárquica com mais de cinquenta eleitos, e tem crescido eleitoralmente em contra ciclo com a restante esquerda. Este crescimento também se reflete no número de membros e apoiantes, cerca de 4.500 quando há dois anos eram cerca de 1.900.
Apesar de Rui Tavares não sair da direção, e sendo expectável que continue a tomar decisões no núcleo duro, esta reunião magna deverá marcar um novo ciclo no partido.
À direção candidatam-se mais duas listas, a S e a V, que convergem nas acusações de uma excessiva centralização nas figuras dos porta-vozes e do grupo parlamentar, apelando a uma maior democracia interna e ligação com as bases.
Este fim de semana, os membros e apoiantes do Livre vão também eleger a Assembleia, órgão máximo entre congressos, composta por 50 membros, e o Conselho de Jurisdição. Para este último órgão, candidatam-se duas listas, uma encabeçada pelo deputado Paulo Muacho e outra pelo advogado Ricardo Sá Fernandes.
Foram ainda submetidas 83 moções de caráter específico, com 49 sobre o funcionamento interno do partido e as restantes programáticas. Oficialmente, de acordo com o programa divulgado, o congresso arranca na sexta-feira com uma sessão ‘online’ que apenas prevê a aprovação do regimento do congresso.
Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto querem partido pronto para governar
Estas posições constam das três moções estratégicas apresentadas ao 17.º Congresso do Livre. Neste texto, os dirigentes realçam que o Livre é hoje “a quinta força política no parlamento e o maior partido à esquerda do PS”.
“Até agora, o Livre foi sobretudo visto como um partido de influência, mas o crescimento eleitoral dos últimos anos mostra que as propostas que apresentamos têm eco junto das pessoas. O desafio dos próximos anos é transformar o crescimento do Livre numa capacidade ainda maior: a de governar“, lê-se no texto, no qual estes candidatos se propõem a “consolidar e alargar” a base eleitoral.
No texto, que traça a estratégia política para os próximos dois anos, o Livre elege como um dos principais alvos a extrema-direita e critica o Governo por ter transformado o “não é não” ao Chega num “`veremos caso a caso´ que se assemelha a um `sim é sim´” cada vez que precisa de aprovar um diploma no parlamento.
A isto se acrescenta a não clarificação do PS e um alinhamento cada vez maior da IL e do Chega com as opções estratégicas do Governo. Tudo isto faz com que a responsabilidade do Livre como força de oposição seja ainda maior do que o recente crescimento do partido”, lê-se.
A moção propõe que o partido aproveite os próximos anos, nos quais não estão previstas eleições, para consolidar as bases do partido, nomeadamente a nível local, criando mais núcleos, preparando o ciclo eleitoral de 2029.
Internamente, a moção da lista A propõe-se a “preparar quadros e desenvolver competências” através de “um plano de formação e capacitação”, em articulação com o Instituto José Tengarrinha (estrutura composta por vários dirigentes do partido), e os Verdes Europeus, família europeia da qual o Livre faz parte.
Estes dirigentes defendem igualmente uma “reflexão mais aprofundada” sobre o atual modelo de primárias “e a sua adequação a cada tipo de ato eleitoral”.
A lista S é encabeçada por Rodrigo Brito, que já integra a direção de forma minoritária, uma vez que a eleição é feita através do método de d’Hondt, contando com membros de todas as listas candidatas.
Esta moção alerta que o resultado bastante positivo para o partido nas últimas legislativas “não é uma garantia”.
“O dececionante falhanço em eleger nas europeias e o mau resultado da candidatura presidencial apoiada pelo Livre, a par de uma prestação modesta nas autárquicas, exigem reflexão estratégica”, lê-se no texto.
A moção S dedica um capítulo inteiro ao tema da democracia interna, considerando que “o partido enfrenta um problema de liderança” por ter “imposto um sistema de porta-vozes que não está previsto nos estatutos”.
Além disto, esta moção apela a uma “participação séria e alargada”, apontando que “nos últimos tempos, tem crescido um desconforto perante o alargamento da discussão e da decisão para lá dos órgãos nacionais”.
Esse movimento de fechamento interno empobrece o debate, diminui a transparência, fragiliza a legitimidade das decisões e projeta para fora uma imagem menos confiante e menos aberta do partido. Um partido que defende mais democracia para o país deve começar por confiar mais na democracia dentro de si próprio”, é defendido no texto.
Uma terceira corrente – intitulada “Livretária” – volta a candidatar-se com a lista V, encabeçada por Tiago Mota. O dirigente assumiu o lugar na direção de João Manso, que em março deste ano se demitiu do cargo acusando Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes de “decisões unilaterais”.
Estes membros acusam a atual direção de “um padrão de concentração de poder e hierarquização dos processos políticos que, além de violarem estatutos e regulamentos, traem também os princípios fundadores do partido” e pedem mais horizontalidade e mais transparência.
A lista acusa mesmo a atual direção de uma “gestão financeira opaca“, afirmando que em 2025, “o partido orçamentou 50 mil euros em multas” e a direção não apresentou os orçamentos atempadamente.