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André Villas-Boas, aqui na tribuna do Dragão: em setembro de 2024, estreia não oficial da equipa feminina bateu o recorde de assistências em jogos nacionais
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▲André Villas-Boas, aqui na tribuna do Dragão: em setembro de 2024, estreia não oficial da equipa feminina bateu o recorde de assistências em jogos nacionais

▲André Villas-Boas, aqui na tribuna do Dragão: em setembro de 2024, estreia não oficial da equipa feminina bateu o recorde de assistências em jogos nacionais

Operações, reuniões internas, mais investimento, claques e uma nova estrutura: como Villas-Boas mudou o seu FC Porto para um novo FC Porto

Villas-Boas não teve uma entrada fácil no Dragão. Pior: foi forçado a contrariar a sua essência, focando-se nas finanças por "sobrevivência". Dois anos depois, o trabalho "invisível" chegou ao título.

Pode uma cadeira de sonho ter várias formas no mesmo local? Pode. André Villas-Boas que o diga. Em 2010, depois de conseguir libertar-se de um acordo que o colocava como novo treinador do Sporting, assumiu a liderança da equipa técnica do FC Porto e regressou a um espaço onde estivera como membro do conjunto chefiado por José Mourinho. Numa época, ganhou tudo. Campeonato, Taça de Portugal, Supertaça, Liga Europa. Acabou por sair, logo no verão de 2011, naquela que foi então a maior transferência de sempre. Passou por Chelsea, Tottenham, Zenit, Shanghai SIPG e Marselha — pelo meio realizou ainda um outro sonho, o de competir no Rali Dakar. Após a experiência em França, e dentro de uma perspetiva da qual nunca abdicou de ter uma carreira curta, preparou-se para outros palcos. Para outra vida. Para outro sonho que, na verdade, só foi antecipado por ver o seu clube entrar num pesadelo. Em 2014, encontrou na presidência dos azuis e brancos uma cadeira que se tornou um projeto de vida. Dois anos depois, atingiu o primeiro objetivo.

O “Cenourinha” chega à outra cadeira de sonho: a vida a acelerar de Villas-Boas até ao Dakar

Apesar de ter sido a cara mais interventiva do FC Porto ao longo da temporada, Villas-Boas quis ser discreto na hora das celebrações. Quando o jogo frente ao Alverca chegou ao fim, com a vitória pela margem mínima a carimbar a conquista do 31.º Campeonato do clube, cumprimentou todos aqueles que estavam à sua volta na tribuna, desceu ao relvado para uma homenagem sentida a Jorge Costa, abraçou de forma calorosa Farioli e deixou apenas uma carta aberta a todos os portistas recordando o “Presidente de todos os Presidentes”, Jorge Nuno Pinto da Costa. Passou também pelo balneário, onde bebeu até um shot na comemoração, mas deu o palco a jogadores e treinadores na altura da festa, garantindo que tinham todas as condições para assinalar a quebra de jejum sem Campeonatos que é também um marco no mandato do atual presidente.

Pré-publicação. A primeira conversa em que André Villas-Boas assumiu que queria ser presidente do FC Porto

Apesar de ter estado a planear ao pormenor toda a revolução que pretendia levar a cabo, a realidade que foi encontrando era mais complicada e complexa do que pensava. Foi por isso que vestiu quase duas peles ao longo de dois anos. Primeiro, uma pele mais global, com o foco centrado na parte financeira, na organização de um novo organograma interno e na tentativa de estabilizar o clube internamente depois de toda a convulsão a que o FC Porto foi sujeito durante a campanha eleitoral e nos meses que se seguiram ao sufrágio. Depois, com a questão da “sobrevivência” assegurada e com os planos de sustentabilidade em execução, foi para uma pele mais ligada à vertente desportiva com enfoque no futebol – algo adensado pela trágica morte de Jorge Costa na semana em que a época oficial ia arrancar. Também aqui, ganhou a sua aposta.

Nem sempre tudo foi pacífico. Longe disso. O Observador sabe, por exemplo, que a rábula das bolas e toalhas roubadas no clássico com o Sporting para o Campeonato, a par de outros episódios registados pelo Sporting nessa noite, não caiu bem a toda a gente no interior do clube – mesmo admitindo que houve “uma grande dose de exagero” nas queixas verde e brancas. No entanto, e ao longo deste percurso feito com figuras que conhecem bem o clube, trabalham na sombra e preferem andar longe dos holofotes, o grande segredo foi colocar todos no mesmo “barco”. Na defesa da honra portista nos choques com Frederico Varandas, no processo de modernização que foi transversal a todas as áreas, no resgate de uma ‘identidade Porto’ que se tornou a chave da retoma do futebol, no apaziguamento das tensões que existiam com franjas da massa adepta. Tudo isso ganharia outro sentido com o regresso às vitórias no futebol. E foi isso que aconteceu.

▲ Depois de ter sido campeão como treinador em 2011, Villas-Boas festejou o primeiro título como presidente uma década e meia depois

500 mil euros do próprio bolso, duas operações entre vendas e a aposta na parte desportiva

André Villas-Boas viveu no primeiro exercício completo como presidente um dos grandes dilemas/mágoas no plano pessoal. Por um lado, e entre as experiências técnicas falhadas com Vítor Bruno e com Martín Anselmi (opções que pareceram sempre condenadas à nascença), sabia que a única maneira de recuperar o “seu” FC Porto era ter sucesso desportivo. Por outro, tinha pela consciência que 2024/25 seria sobretudo uma época de sobrevivência em termos financeiros – afetando também a sobrevivência do clube como todos conhecem. Quando vendeu Nico González ao Manchester City e Galeno ao Al Ahli ainda no mercado de inverno, estava contra tudo aquilo que defendia. Pior: sabia-o. Contudo, essa era a única forma de criar condições para haver um futuro, qualquer que fosse e com quem quer que fosse. O ano 1 passou rapidamente a “ano 0” sem deixar de passar uma mensagem de ambição para dentro e para fora. Essa fasquia não podia baixar mas as “vitórias” naquela fase eram aquelas discutidas em gabinetes e salas de reuniões, sempre de Excel nas mãos.

Foi uma fase crítica. Ao longo de mais de um ano, Villas-Boas e José Pedro Pereira da Costa, administrador financeiro do universo portista, projetaram múltiplos cenários para enfrentar uma realidade que sabiam ser má. Quando entraram, era pior. Os planos que tinham para refinanciamento de passivo e financiamento das operações da SAD eram vitais mas curtos quando todos os dados a que não tinham acesso antes da eleição foram esmiuçados. Aí, o próprio presidente era mais gestor do que líder do futebol. Foi renegociado o acordo que tinha sido feito pouco antes com a Ithaka, aumentando o valor global e o encaixe à cabeça (além de haver uma cláusula de recompra). Foi feita a emissão de obrigações no valor de 115 milhões de euros a uma taxa fixa anual de 5,62% a 25 anos através da Dragon Notes, subsidiária do FC Porto com 70% da Porto Stadco. Foi encontrada luz ao fundo do túnel dentro de um contexto com demasiados gastos a curto prazo.

▲ André Villas-Boas trabalhou ao longo de mais um ano na sua "war room" com José Pedro Pereira da Costa para dar sustentabilidade ao projeto FC Porto – e quis garantir a "sobrevivência" no primeiro ano

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Com as questões mais prementes controladas, sem que o passivo e as dívidas a terceiros “estrangulassem” a vida corrente e com um resultado líquido recorde no final do exercício de 2024/25 superior a 39 milhões de euros (recuperando mais de 100 milhões em capitais próprios), Villas-Boas tinha condições para ser fiel à sua forma de pensar o FC Porto: ali, como em qualquer SAD, só é possível ter sucesso financeiro se o mesmo for alavancado pelo sucesso desportivo. Os tempos em que se teve de chegar à frente com 500 mil euros do seu bolso para debelar as questões de tesouraria que afetavam o pagamento de salários ao final do mês já tinham passado, a situação corrente estava “controlada”, a participação na Liga Europa reduzia aquilo que seriam os rendimentos desportivos nas competições europeias – que é a maior fonte atual de receitas dos clubes, a par da alienação de ativos e dos direitos televisivos (que não tenham sido antecipados). Era por isso que, em julho, Villas-Boas já tinha na cabeça aquilo que seria o maior investimento de sempre no plantel.

“Período de intensa reestruturação operacional e financeira”: FC Porto apresenta melhor resultado de sempre com 39,24 milhões de lucro

Tudo foi assumido assente em três premissas: 1) se os resultados continuassem a faltar, aquilo que se gastara não ficaria perdido; 2) se existisse sucesso desportivo, todo o dinheiro investido iria ser “multiplicado”; 3) mais importante que tudo, era necessário construir uma nova base para a partir daí ir trabalhando todas as épocas seguintes em cima de algo que agora não existia. Assumindo mais de perto o futebol, sobretudo após o trágico desaparecimento de Jorge Costa, o presidente portista teve margem para operar no mercado de verão como quis, com quem quis e por onde quis, fosse em situações de custos mais altos de transferência como a de Victor Froholdt, fosse em casos de empréstimo assumindo a questão dos ordenados como Jakub Kiwior. Tudo foi cumprido: o FC Porto voltou a ganhar, aumentou e muito o valor de mercado do plantel, criou uma nova base com muitos jovens pelo meio, dotou o plantel da experiência e liderança que faltaram antes em situações limite, assegurou o regresso à Champions e ganhou o fôlego para ser “autónomo” de operações financeiras para dotar a parte desportiva. O passo atrás que deu em 2024/25 foram dois à frente em 2025/26.

O talento não herdado, os testes beep, o boné para não ser reconhecido. Froholdt, o viking que chegou para correr mais do que todos

A convicção em Farioli, as conversas sobre questões técnicas e a evolução da estrutura

Outro dos pilares base para o regresso ao sucesso do FC Porto foi a aposta em Francesco Farioli. Esta, mais do que jogadores ou demais pessoas ligadas ao futebol, foi uma aposta pessoal de André Villas-Boas, que no momento em que preparava a sucessão de Martín Anselmi foi ouvindo conselhos para que optasse por uma via mais “conservadora”, nacional, com menor margem de risco. A todos eles foi fazendo ver que o italiano era exatamente aquilo que os dragões precisavam e que o facto de nunca ter trabalho no futebol português e no FC Porto era uma grande oportunidade e nunca uma potencial crise pela forma de estar e de ser. Quando desceu ao relvado após o triunfo frente ao Alverca que carimbou a conquista do 31.º Campeonato da história, aquele abraço apertado ao técnico foi muito mais do que uma saudação – foi a celebração do próprio.

“Tem um percurso explosivo, com sucesso, rendimento e visão”: Villas-Boas explica opção Farioli numa era de “alterações profundas”

Rebobinando o filme, as opções que tinham sido antes tomadas não correram bem. Sérgio Conceição, que era o treinador quando o FC Porto ganhou a Taça de Portugal de 2024 tendo André Villas-Boas como presidente do clube mas Pinto da Costa ainda como líder da SAD, sabia que tinha os dias contados. Vítor Bruno surgiu numa ótica de continuidade, sendo que a própria guerra aberta entre número 1 e ex-número 2 fragilizou essa entrada que foi depois ficando ainda mais deteriorada com alguns choques internos no balneário. Seguiu-se Martín Anselmi. Em condições normais, e dando essa margem de erro para que tivesse seis meses para ir conhecendo os cantos à casa, a opção teria sido Farioli mas o italiano estava no Ajax, tinha uma cláusula de rescisão de dez milhões e liderava de forma destacada a Eredivisie. O argentino cumpria o perfil mais “fora da caixa” mas rapidamente ficou “fora da caixa” – e a eliminação logo na primeira fase do Mundial de Clubes fez o resto. O líder azul e branco partia para o quarto técnico em pouco mais de… um ano.

▲ Francesco Farioli foi uma aposta pessoal de Villas-Boas contra uma corrente que defendia outro perfil. Italiano já tinha sido pensado em janeiro de 2025

Era esse contexto que fazia com que existissem dois perfis diferentes na sucessão. Para Villas-Boas, era um e apenas um. Até nos nomes, era um e apenas um – aquele que de repente deixou de estar na lista de contactos dos principais clubes europeus após ter perdido o título com o Ajax. Uma conversa curta com representantes do técnico fechou o acordo, uma conversa curta com o próprio técnico selou o negócio e a partir daí foram conversas quase diárias, umas mais curtas e umas mais longas, para construir um novo FC Porto que fosse capaz de resgatar o velho ADN azul e branco que se tornou uma marca identitária ao longo de mais de quatro décadas com Pinto da Costa. “Discutimos sobre o que serão mudanças na infraestrutura mas e no estilo de jogo que irá imprimir com o tempo. Tudo ajudou a chegar a acordo para este corpo comum de ideias e a noção de um sentido de rigor, exigência e determinação que é necessário no clube”, assegurou.

Duas tragédias, mentalidade, conversas com Villas-Boas e as consequências de uma “causa”: como Farioli resgatou uma identidade perdida

“Tem um percurso explosivo no futebol europeu, com rendimento, sucesso e visão. Escolhemos o Francesco para atacar as próximas duas temporadas, especialmente a primeira. Da parte do FC Porto, iremos colocar à disposição todos os meios necessários, esse é um compromisso que assumimos. Iremos continuar a fazer alterações profundas, renovar o nosso plantel. Temos a demonstração do que é uma equipa à FC Porto”, referiu ainda na apresentação do novo sócio, o número 152.234. Villas-Boas sempre teve o à vontade necessário para discutir questões técnicas com Farioli, como aconteceu numa das primeiras conversas em que colocou em causa a colocação de Samu ao primeiro poste nas bolas paradas defensivas. Farioli sempre teve também o à vontade necessário para sugerir alterações até nas infraestruturas do futebol. Tão ou mais importante, a comunicação entre ambos colocou sempre o técnico como um portista e um portuense convicto, a abraçar uma “causa”. A consequência disso, alicerçado numa grande primeira volta, foi o regresso aos títulos.

A queda de Zubizarreta, a morte de Jorge Costa que mudou AVB e uma nova estrutura

Outro dos recuos para dar passos em frente foi Andoni Zubizarreta. André Villas-Boas tinha trabalhado com o espanhol no Marselha ainda na carreira de treinador, manteve uma relação próxima com o antigo guarda-redes internacional do Barcelona e não teve dúvidas em apostar no seu nome em contexto eleitoral para uma estrutura inicialmente gizada de uma forma que lhe permitia não estar tanto com o futebol, tendo em conta a presença de Jorge Costa como diretor do futebol e Zubizarreta como diretor desportivo. Cedo começou a ver que a prática não correspondia ao que pensara na teoria: os mercados de transferências não foram bons, a falta de alternativas perante as saídas de Nico González e Galeno pesaram, o insucesso de Anselmi também o deixou numa posição mais fragilizada. Neste caso, o líder azul e branco foi mais renitente na possibilidade de mudar o figurino e abdicar do espanhol mas percebeu que, em termos internos, era a melhor solução.

A boina que foi para casa, uma war room “secreta”, dez grupos WhatsApp e a revelação ao almoço de Zubi: um dia com André Villas-Boas

“A vasta experiência de Zubizarreta permitiu ao FC Porto estabelecer as bases de um projeto desportivo sólido, suscetível de se desenvolver e consolidar no futuro. Foi, também, uma figura central no processo de aquisição e venda de determinados atletas que permitiram não só reforçar o plantel como promover a sua sustentabilidade financeira. Definidas as prioridades de ambas as partes para as próximas épocas, entendeu-se que este seria o momento mais adequado para dar por concluída a relação entre ambas”, frisou o clube em comunicado, de tal forma elogioso que dificilmente se poderia adivinhar as críticas feitas internamente ao seu trabalho. Tudo mudava: Jorge Costa mantinha-se como diretor do futebol mas com pelouros mais amplos, o departamento de scouting assumia outro protagonismo, Villas-Boas fechava a troika com Farioli. Foi assim que a temporada começou a ser desenhada, com alguns jogadores pretendidos pelos dragões a serem “confirmados” por Jorge Costa e Villas-Boas antes de Farioli ter uma palavra final sobre a contratação.

▲ Com a saída de Zubizarreta, Jorge Costa ganhou outro peso no futebol portista. Villas-Boas perdeu uma referência, uma base e um amigo – mas nunca o esqueceu

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

A 5 de agosto, tudo voltou a mudar. O próprio Villas-Boas mudou. Naquele que era mais um dia de trabalho, Jorge Costa, que acabara de dar uma entrevista à Sport TV, não resistiu a uma paragem cardiorrespiratória no Olival e acabou por morrer no hospital de São João. O FC Porto perdia um símbolo, o grupo perdia uma referência, Villas-Boas perdia um amigo, um homem de confiança e uma cola que agregava tudo e todos. “Era um grande companheiro, um homem que nunca me deixou só, que se manteve sempre ao meu lado. Às vezes sou invadido por diferentes sentimentos, por o ter trazido de volta a esta casa, de o ter perdido aqui, da forma que foi, nos meus braços…”, soltou em lágrimas quando, a 14 de outubro, dia de aniversário do Bicho, apresentou o Centro de Treinos e Formação Desportiva Jorge Costa em homenagem ao antigo capitão. Todos sentiram aquele momento no Olival e no Dragão, André Villas-Boas sentiu mais do que ninguém aquele dia.

“Tê-lo perdido aqui, nos meus braços…” Villas-Boas emociona-se no dia em que Jorge Costa passa a dar nome ao centro de treinos do FC Porto

Quando poucos tinham “coragem” para apoiar alguém que estivesse contra Pinto da Costa, Jorge Costa deu a cara. Defendeu Villas-Boas. Chegou a ser insultado por isso respondendo que “o André” era a única hipótese para salvar o que tinha sido construído desde os anos 80. O líder portista nunca esqueceu essa posição, esse apoio, essa amizade – e foi por isso que, acabado de ser campeão, viu o Dragão homenagear o número 2. Em paralelo, e dentro de uma reorganização de quadros que colocou Tiago Madureira mais perto da equipa e Henrique Monteiro como diretor executivo, Villas-Boas passou a estar bem mais presente junto das decisões estruturais do futebol. Sem necessidade de montar uma estrutura “estanque”, longe do modelo com que assumiu a presidência, o líder portista simplificou processos, apostou num perfil de profissionais discretos mas conhecedores das suas áreas, ficou mais perto do campo e terminou a época como campeão.

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A guerra aberta com o Sporting (ou com Varandas) após um início de “respeito institucional”

À boleia das críticas depois do TVgate no FC Porto-Sp. Braga, quando a TV do balneário de Fábio Veríssimo começou a passar imagens de um alegado penálti que ficara por marcar e foi depois buscar um vídeo do lance de um golo do Benfica validado numa final do Torneio Internacional da Pontinha de infantis entre as águias e os portistas, André Villas-Boas resumiu aquilo que para si era uma espécie de espelho do futebol nacional. “Compreendo que o Benfica esteja em campanha eleitoral, compreendo que os candidatos se queiram digladiar insultando o FC Porto, mas o FC Porto nada tem a ver com as eleições do Benfica e recomendo aos dois [candidatos] que se preocupem antes com o rival da Segunda Circular, porque há muito tempo que o Sporting tem o presidente do Benfica no bolso”, referiu. Além de colocar mais gasolina na fogueira em que se tornara o sufrágio dos encarnados, o líder portista estabeleceu uma “hierarquia” – e tudo o que foi fazendo sobretudo ao longo da presente temporada entroncou à luz dessa ideia, colocando os leões na mira.

“Há muito tempo que o Sporting tem o presidente do Benfica no bolso”: Villas-Boas critica rivais e assegura “ajuda aos órgãos competentes”

Quando assumiu a liderança dos dragões, Villas-Boas rapidamente percebeu a influência perdida pelos azuis e brancos nas esferas de poder do futebol nacional. Aliás, teve um exemplo prático: se a eleição de Pedro Proença para a Federação contou com o apoio de quase todos os principais clubes nacionais, o sufrágio na Liga de Clubes foi diferente, com Sporting e Benfica (que até na Associação de Lisboa perderam em conjunto) a apoiarem Reinaldo Teixeira e FC Porto e Sp. Braga ao lado de José Gomes Mendes. Mais uma vez, o “eixo lisboeta” venceu. Não é por haver o presidente A, B ou C em determinado órgão que algo muda mas ali ficava de novo expresso a ausência portista nos centros de decisão que se acentuara nos últimos anos e as próprias cimeiras que juntavam todos os líderes dos clubes profissionais davam pouca margem para inverter isso. Se em alguns temas tinham de estar juntos, a bem do futebol português, na maioria estava cada um por si.

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▲ Após um período de relações institucionais "normalizadas", Villas-Boas e Varandas entraram numa guerra aberta (que ainda hoje continua)

DeFodi Images via Getty Images

Numa primeira fase, e quando estava sobretudo a ganhar equilíbrio e sustentabilidade interna, Villas-Boas foi-se tentando colocar mais à margem de “políticas” sem deixar de fazer cenários críticos sobre a realidade nacional. “O futebol português está podre, as instituições não estão colaborantes, os grandes não estão sentados à mesa. Há um choque evidente entre o presidente da Liga e o presidente da Federação. É preciso dar um murro na mesa”, pediu no final de maio, à margem da apresentação do Centro de Alto Rendimento do FC Porto em Gaia. Também aí, fez outro pedido: “Toda esta liberdade que o presidente do Sporting tem em coagir árbitros, em condená-los publicamente, tem de ser severamente punida”. Se até aí as relações no plano institucional entre os dois clubes foram mais serenas, apesar de algumas “farpas” e dos reparos por não ter havido uma mensagem para alguns momentos como a morte de Pinto da Costa, tudo foi mudando.

O discurso duro de Frederico Varandas nos Rugidos do Leão, em novembro, marcou o início assumido de uma guerra que está longe de terminar. “Dizia-se que vinha aí uma lufada de ar fresco. Hoje posso dizer o que o País já constatou: não é lufada de ar fresco, é bafio, hipocrisia do pior que o futebol português, infelizmente, já conheceu”, atirou, a propósito do episódio no balneário de Fábio Veríssimo, algo que voltou a acontecer depois dos episódios das bolas e toalhas roubadas ou as colunas de som nas bancadas do visitante. Mais do que uma disputa FC Porto-Sporting, tornou-se também um despique entre Villas-Boas e Varandas, com revelações de episódios privados ou acusações de mentira, cobardia e hipocrisia. Na ótica de Villas-Boas, o Sporting “manda” no futebol português e beneficia disso em termos desportivos. Para Varandas, o futebol português não tem “donos”, mas o FC Porto quer voltar a mudar isso. As polémicas sucedem-se, como se viu no clássico do andebol que acabou com ambos os líderes a serem recebidos pela ministra do Desporto, e tão cedo não existe cenário de acalmia tendo em conta tudo o que tem vindo a ser dito pelos dois líderes.

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Os encontros com funcionários, um FC Porto mais “aberto” e a reorganização empresarial

Antes, durante e depois das eleições, uma das grandes preocupações de André Villas-Boas foi o universo de funcionários do FC Porto nas mais diversas áreas. Ao longo da campanha, o então candidato sabia que havia de tudo: quem continuasse a apoiar Pinto da Costa, quem queria a mudança mesmo que não o assumisse, quem tivesse receio de manifestar uma qualquer opinião. Após assumir a liderança, o presidente dos azuis e brancos escreveu uma carta aberta a todos os colaboradores agradecendo pelo trabalho feito sobretudo nos últimos meses de maior desgaste na vida quotidiana dos portistas e deixando palavras de esperança para o futuro. Mais tarde, quando tinha outra perceção de toda a realidade concreta do grupo FC Porto, voltou a chamar todos os funcionários dos mais diversos departamentos para apresentar uma visão a dez anos.

“Arrependido? Não. Sou muito convicto, obstinado. Sei que este é o caminho e confio que serei eleito”: entrevista a André Villas-Boas

Nesse encontro, feito no auditório do clube com pedidos da reserva possível dentro daquilo que seriam as mudanças estruturais em termos internos, Villas-Boas apresentou todos os elementos dos órgãos sociais com devidas competências (do clube e da SAD), exibiu um organograma interno para detalhar o funcionamento gizado para toda a máquina dos azuis e brancos e apontou depois aquilo que eram os principais objetivos em micro áreas dentro da ideia macro como a parte das finanças, a vertente comercial e as modalidades do FC Porto, sempre focando três ideias: estabilidade, competitividade e sustentabilidade. Por um lado, queria fazer desaparecer os eventuais “fantasmas” que ainda existissem após mais de quatro décadas com Pinto da Costa na liderança. Por outro, fazia questão que todos tivessem um sentimento de pertença em relação a uma nova era que estava a ser construída no Dragão. Dois anos depois, ganhou essa “aposta”.

▲ Presidente portista fez questão de enviar uma carta aberta a todos os colaboradores após as eleições, convocando depois os funcionários para conhecer o projeto a dez anos

O FC Porto mudou. “Abriu-se”. Ficou mais moderno. Algumas áreas foram reforçadas por uma mera questão de necessidade, houve uma redefinição global de toda a comunicação fazendo uma separação entre o que é o plano institucional e aquilo que são intervenções mais direcionadas do próprio presidente (que tem assumido quase na plenitude as aparições públicas com raras exceções), outros departamentos ganharam um novo protagonismo por serem possíveis alavancas de receita, como é o caso do corporate. A própria forma como toda a animação feita no Estádio do Dragão foi mudando funciona como exemplo dessa “viragem”.

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Em paralelo, e a par das supracitadas renegociações com a Ithaka que aumentaram o valor global que tinha sido assinado ainda na anterior gestão e também o encaixe à cabeça, o universo empresarial tem vindo a ser reorganizado. Primeiro passo: as sociedades Porto Estádio e FC Porto – Serviços Partilhados, que tinham situações líquidas positivas mas com pouco impacto, passaram para a SAD. Novo passo: a venda de 100% do capital da Porto Seguro – Sociedade Mediadora do Porto, Lda. à MDS Portugal, que gerou uma mais valia para a FC Porto SAD de nove milhões de euros. Em breve poderão existir novas reorganizações em toda a estrutura empresarial, sempre com o propósito de simplificar e também flexibilizar processos interno.

As apostas de sucesso no feminino e na formação entre dois investimentos estruturais

O futebol feminino foi uma das grandes “conquistas” de André Villas-Boas, que viu na aposta uma vontade, uma necessidade e uma oportunidade de colocar o FC Porto ao nível dos principais rivais num projeto feito a médio prazo. Para já, todos os objetivos foram cumpridos: as azuis e brancas conquistaram a 3.ª Divisão, garantiram na presente temporada a subida ao principal escalão ganhando também o título da 2.ª Divisão (e chegando à final da Taça de Portugal, onde defrontará o Benfica este domingo no Jamor) e conseguiram até bater o recorde nacional de assistência num jogo de clubes, quando em setembro de 2024 estiveram 31.093 espectadores no Estádio do Dragão para o jogo particular com o Famalicão. A par dessa evolução, o clube foi fomentando também a prática nos escalões de formação, tentando assumir-se como o grande clube no feminino na região Norte numa realidade que tem sido dominada por Benfica (sobretudo) e Sporting, entre algumas aparições de Sp. Braga e Torreense – e essa surge como a grande mais valia dos dragões.

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Também na formação houve uma aposta forte, com remodelação de quadros e melhoria das condições. Não houve um impacto direto disso na equipa principal, que estreou André Miranda e, mais recentemente, Tiago Silva, mas as sementes para um plantel que já conta com Diogo Costa, João Costa, Martim Fernandes e Rodrigo Mora, além dos jovens que muitas vezes treinam com a A e jogam na B como Gabriel Brás, foram deixadas: a par do quinteto que se sagrou campeão mundial Sub-17, com Martim Chelmik, Yoan Pereira, Bernardo Lima, Mateus Mide e Duarte Cunha, a equipa Sub-19 sagrou-se no passado fim de semana campeã nacional, a formação Sub-17 está a um triunfo do título e também o conjunto Sub-15 lidera a fase final. Ou seja, e apenas num ano, o FC Porto pode fazer o pleno de conquistas. “Para o FC Porto é mais importante vencer com identidade, com método e com futuro. Este título reforça a convicção de que estamos no caminho certo. Que vale a pena investir, acompanhar, exigir e acreditar”, destacou André Villas-Boas após o triunfo.

Andre Villas-Boas was sworn in this Tuesday as president of FC Porto in a ceremony at the Dragão stadium in Porto, Portugal, 7th May 2024. JOSE COELHO/LUSA

▲ Villas-Boas fez uma aposta forte no futebol feminino e na formação, com resultados à vista. Agora, próximo objetivo passa por construir Centro de Alto Rendimento em Gaia

JOSÉ COELHO/LUSA

Em paralelo com esses investimentos, as infraestruturas não passam ao lado, numa das lacunas que tinha sido identificada pelo líder na condição de candidato: faltam espaços para haver maior prática desportiva, no futebol e nas restantes modalidades. É nesse sentido que estão em curso os dois grandes projetos nessa área do mandato: o Centro de Alto Rendimento em Gaia, que permitirá recolocar a estrutura profissional num local mais moderno e abrir o Centro de Treinos e Formação Desportiva Jorge Costa, no Olival, a mais equipas de formação, e a ideia de um novo pavilhão multidesportivo para os escalões de formação portistas no terreno da desativada Escola Ramalho Ortigão, tendo assegurado com a Câmara Municipal do Porto ainda liderada então por Rui Moreira a transmissão do direito de superfície para iniciar as obras.

Nas modalidades, este é sobretudo um momento para perceber cada contexto e preparar cada equipa para projetos a médio prazo. O voleibol feminino conseguiu recuperar o título nacional numa final frente ao Sp. Braga após afastar o Benfica nas meias-finais, o hóquei em patins foi campeão europeu pela quarta vez na história depois de um início irregular e o basquetebol entrou agora na fase decisiva dos playoffs mas a ideia presente passa por montar bases que possam trazer resultados de forma sustentável, como acontece nesta fase com o andebol. Em paralelo, e num problema em busca de solução por todos os clubes, a estrutura trabalha à procura de mais receitas de patrocínios e maiores assistências no Dragão Arena.

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Das paredes pintadas ao protocolo que veio esvaziar as claques como foco de instabilidade

Um dos grandes problemas que Villas-Boas enfrentou quando assumiu a liderança do FC Porto foi a ligação estreita que existia entre as claques, sobretudo os Super Dragões, com o antecessor, Jorge Nuno Pinto da Costa. A votação de quase 80% nas eleições do clube era um espelho real da vontade de mudança que existia no clube mas nem por isso os primeiros tempos foram fáceis em termos internos, com paredes pintadas com críticas à liderança do clube perante os resultados desportivos que não apareciam. Os Grupos Organizados de Adeptos apoiavam as equipas mas nem por isso apoiavam o novo líder, que nunca teve pejo em denunciar as más práticas e vícios que vinham do passado que tinham de terminar. A presente temporada, marcada pelo fim do processo da Operação Pretoriano e, já este ano, pela libertação de Fernando Madureira após quase dois anos de prisão preventiva, conseguiu mudar essa realidade – e os resultados fizeram o resto.

Por um lado, e de forma “transparente”, o FC Porto chegou a acordo para estabelecer novos protocolos com as claques do clube, Super Dragões e Colectivo Ultras 95. “Os acordos permitem o reconhecimento formal e o retomar das relações entre o FC Porto e ambos os Grupos Organizados de Adeptos (GOA). A partir de agora, os Super Dragões e o Colectivo Ultras 95 passam a ter outras condições para apoiar o FC Porto de forma apaixonada, vibrante e responsável no Estádio do Dragão e no Dragão Arena, de acordo com as normas vigentes”, anunciaram os azuis e brancos, que colocaram esse protocolo no Portal da Transparência (além de ficar disponível no site da da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto).

O treinador do FC Porto, André Villas-Boas (C), tira uma selfie com simpatizantes durante a iniciativa "FC Porto na Baixa", com a participação da equipa principal de futebol e de atletas de todas as modalidades do clube, Porto, 25 de julho de 2024. FERNANDO VELUDO/LUSA

▲ Apesar do "choque" inicial com as claques, Villas-Boas conseguiu fazer um novo protocolo com os GOA e manteve a prioridade de aproximar sócios e adeptos ao clube

FERNANDO VELUDO/LUSA

Por outro, Villas-Boas teve sempre o cuidado de fazer uma separação entre aquilo que foram as críticas (às vezes muito duras) ao longo do período de campanha eleitoral contra Pinto da Costa e as homenagens que se foram seguindo ao “Presidente dos Presidentes”, como se viu agora após a conquista do Campeonato. Houve situações mais tensas, como as cerimónias fúnebres do ex-líder que só à última tiveram autorização da família para que pudessem passar também pelo Estádio do Dragão e as críticas que vão sendo feitas de forma esporádica por parte de alguns indefetíveis, mas André Villas-Boas afastou sempre qualquer parte mais “negativa” em relação ao antecessor, “defendo-o” dos ataques que iam sendo feitos de fora e destacando o legado que deixou na instituição, não só a nível de títulos mas também de construção de uma identidade.

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Tudo parece ter sido fácil, tudo foi feito sempre com “pinças”. Foi isso que se viu, por exemplo, na divulgação, em janeiro de 2025, da auditoria forense feita pela Deloitte, que resumia as últimas dez épocas de gestão de Pinto da Costa, entre 2014 e 2024, com foco nas áreas de bilhética, transferências de jogadores e despesas de representação “revelando práticas que impactaram negativamente saúde financeira e reputação do clube”. A partir daí, todos os sócios e adeptos azuis e brancos tiveram contacto com uma realidade que era comentada mas não “conhecida”, percebeu-se a dimensão da ligação entre clube e Super Dragões em termos de regalias (que deixaram de existir) e apontou-se um modus operandi a nível de mercado de transferências acima do que era praticado – mas sem que isso beliscasse tudo o que tinha sido construído antes de bom.

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