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NIC BOTHMA/EPA

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A pandemia contagiou as vendas, mas não parou a indústria. No vinho também se contra-ataca

Até ao final do ano, a quebra nas vendas podem rondar 25% a 30%. Com restaurantes fechados, o setor do vinho reinventa-se e vira-se para o online: há lojas, provas, visitas e lançamentos virtuais.

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A pandemia fechou milhões em casa e fez diversos negócios pararem quase por completo. “Austeridade” é uma palavra que parece retomar, uma vez mais, ao nosso vocabulário. O setor do vinho, não sendo um bem de primeira necessidade, está também a atravessar dias difíceis. A Associação das Empresas de Vinho do Porto estima uma quebra de vendas a rondar os 25% em 2020 para o vinho do Porto e entre 25% e 30% para os DOC (Denominação de Origem Controlada) da região. Bernardo Gouvêa, presidente do Instituto do Vinho e da Vinha, confirma a tendência. Ao Observador explica que poderá ser expectável uma “quebra significativa até ao final do ano, na ordem dos 25% a 30%” nas vendas globais em Portugal, mas alerta que estas não são previsões suportadas por dados estatísticos – mas sim resultado de um check up à indústria, feito através de contactos com as diferentes comissões vitivinícolas e associações do sector – e que ainda é cedo para saber o que realmente vai acontecer.

Existem dois fatores fundamentais, explica Gouvêa. Se por um lado as culturas não param, com as vinhas a produzirem todos os anos, há dificuldades nos stocks de vinho, sobretudo os de rotação rápida – essencialmente entradas de gama que tendem a ficar obsoletas, uma vez que costumam ser vendidas no ano seguinte à colheita. Nesse sentido, existe uma “maior pressão” nas cooperativas, dado que a “crise não afeta todos da mesma forma”.

Se nas cooperativas se colocam problemas ao nível do escoamento e da armazenagem de stock de colheitas atrasadas, os pequenos e médios produtores sofrem essencialmente com a quebra da hotelaria, do canal Horeca e do encerramento dos centros de enoturismo. Produtores esses que podem não ter uma grande estrutura de exportação e, por isso, “reagem com maior dificuldade aos acontecimentos”. Nas grandes empresas, referências na exportação, apesar de a crise ter os seus efeitos, esta “está a ser bem enfrentada”. Bernando Gouvêa refere ainda o caso do Brasil, que tem um mercado muito grande de vinhos premium portugueses e que regista “alguma queda”.

Não há dúvidas. As empresas do universo estão a passar “por enormes dificuldades”, atesta Luís Lopes, diretor da revista especializada Grandes Escolhas. A alternativa, ou parte dela, pode passar em alguns casos pela exportação – sobretudo para países como Canadá, Suécia e EUA – e pelas vendas nos supermercados.

Na duriense Lavradores de Feitoria sentiu-se “uma grande quebra” nas vendas. “O mercado nacional parou”, afirma Olga Martins, a CEO da empresa que reúne vários empresários agrícolas com vinhas. A maior parte das exportações foram adiadas, sem data definida, e outras pura e simplesmente canceladas – curiosamente, atesta, nos mercados onde existem monopólios estatais, como a Noruega, nota-se um crescimento; mais residual é o interesse do Canadá (França, Inglaterra e Japão contam, ainda que “muito pouco”, para as contas). Ainda assim, estão as “cumprir obrigações” e a “manter tudo dentro de uma certa normalidade”. Ao Observador, Olga Martins explica não foi preciso recorrer ao lay-off e que o negócio foi organizado de forma a que continue ativo. “Não me parece que venha a ser preciso fazer lay-off ou redução. É claro que não vamos ter um ano brilhante. Mesmo que tenhamos um segundo semestre muito bom, há coisas que não se recuperam.”

Olga Martins, Lavradores de Feitoria

Rui Manuel Ferreira / Global Imagens

Francisco Bento dos Santos, da lisboeta Quinta Monte D’Oiro, faz um retrato semelhante e fala numa situação extremamente desafiante para todos. “Não há ninguém que saia ileso. É novidade para todos”, diz. Apesar da pandemia que se faz sentir globalmente, e de haver muitos sectores a fechar portas, o vinho não é um deles. “Não podemos parar de produzir. O que se produz hoje na vinha só vai ser vendido daqui a três anos. O que estamos a fazer na adega é para vender daqui a um ou dois anos”, exemplifica. Mesmo que quisesse não ter vinho para vender, a vinha é a sua fábrica. “Se a vinha morrer não é só esta colheita que está em causa, são todas as outras”, acrescenta. Daí a preocupação em assegurar que a produção continua, tendo em conta a dificuldade acrescida de ser biológica.

Também na conhecida Soalheiro, nos Vinhos Verdes, foi preciso reduzir a produção. “Efetivamente a queda de vendas é global”, atesta Luís Cerdeira, explicando que as quebras referentes ao último mês são superiores a 60%. Cerdeira faz referência à crise económica de 2008, em como na altura existiam indicadores do que se aproximava. Não é o caso de agora. “Esta surge no auge, quando Portugal estava a crescer, havia muitas pessoas a investir, muito otimismo. O mercado parou no momento em que o mundo estava a crescer. Parece um balde de água fria. É impossível substituir as vendas, não temos consumidores ativos. Não há aqui nenhum milagre.”

Mas nem tudo é um cenário negro, com os produtores a adaptarem-se na medida do possível. É também na Soalheiro que o tempo de isolamento social está a ser aproveitado para pôr em prática novas estratégias e novos produtos, ideias que estavam pendentes e que, agora, podem ser pensadas com mais calma – como provas virtuais ou livros de receitas, mas já lá vamos. Luís Cerdeira garante que nada do que a empresa está a fazer é por reação à crise e prefere falar antes em adaptação. Afinal, “nós vamos de ter viver com isto”.

"Não podemos parar de produzir. O que se produz hoje na vinha só vai ser vendido daqui a três anos. O que estamos a fazer na adega é para vender daqui a um ou dois anos."
Francisco Bento dos Santos, Quinta do Monte D'Oiro

“A restauração está parada no mundo inteiro”

A principal preocupação dos produtores consultados – depois da segurança das equipas – é a área comercial. A restauração está fechada um pouco por todo o mundo e é sobretudo nos restaurantes que estão os vinhos da Quinta de Monte D’Oiro, que vende ainda em garrafeiras. “As vendas caíram a pique, mas não as sentimos no imediato porque temos intermediários”, explica Francisco Bento dos Santos. “Sabíamos que isso ia acontecer: se não tivermos procura ou vendas, temos de manter a produção. Podemos atrasar ou adiar um investimento ou outro, mas não os podemos cancelar. Basicamente, os custos mantêm-se todos. É uma ginástica complicada de tesouraria, de garantir que não vamos falhar com a equipa nem com os fornecedores.”

“A nível comunitário, o encerramento de hotéis, bares e restaurantes está a afetar 30% do volume, que corresponde a 50% do vinho consumido na Europa”, atesta Bernardo Gouvêa. A restauração continua a ser 80 ou 90% das vendas dos produtores, sobretudo de alguns mais pequenos que não chegam a grandes superfícies, segundo Rodolfo Tristão, conhecido escanção do restaurante Belcanto e também docente de Enogastronomia na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.

André Ribeirinho, co-fundador e CEO do Adegga, que está em permanente contacto com a indústria, explica que o canal Horeca levou um corte muito grande, uma vez que restaurantes e hotéis estão bastante parados, ainda que os serviços de take away sejam um contributo. “Nos canais dos supermercados o negócio não está parado, tem ajudado alguns produtores. E há canais que subiram 20%, 30%, 40% no digital. O digital não substitui as vendas de outros canais, mas poderá ser importante para entrar dinheiro”, destaca.

Francisco Bento dos Santos, Quinta do Monte D'Oiro

Filipe Amorim / Global Imagens

“A pandemia empurrou-me para o online

Helena Pereira Muelle não tem como esquecer o dia em que se viu forçada a encerrar a garrafeira em Telheiras. Estava Marcelo Rebelo de Sousa a decretar a primeira fase do estado de emergência, a 18 de março, e estava a Wines 9297 a fechar as portas. “Fiquei sem chão. O que é que íamos fazer?”, desabafa. Apesar de estar aberta há seis anos, o negócio foi sempre presencial. Estava nos planos montar um site mas os dias foram-se acumulando uns a seguir aos outros e a iniciativa caiu no esquecimento. Até a pandemia chegar. “Não tinha nada, zero. Sou sozinha. A minha filha viu-me tão mal que pegámos numa plataforma e construímos um site em dois dias”, conta — os números “9297” no nome da garrafeira são as datas de nascimento de ambos os filhos.

A 20 ou 21 de março, já não se recorda ao certo, o site estava online. Surgiu como uma reação à crise que ditou a interrupção económica de um momento para o outro. Começou com 50 referências de vinho. Hoje são entre 150 a 200. A página deu-lhe novos clientes e uma nova tendência de consumo: “Há clientes que encomendam várias garrafas na base dos cinco ou seis euros, e compram dez vinhos de cada vez nesta gama de preços”. Enquanto o negócio cresce no domínio digital, Helena Pereira vai vendendo à porta fechada – entreaberta, na verdade – aos clientes de sempre mas também a muitos vizinhos do bairro que antes faziam essas compras no supermercado. “Meti visível uma sugestão de preços, de vinhos mais baratos, e as pessoas… Noto que há muitos clientes novos na zona”, conta. “A pandemia empurrou-me para o online. Está a ser uma alternativa. Se não fosse o online não íamos ao lado nenhum. Está a funcionar”, diz, admitindo que o regresso a uma nova normalidade não vai ditar a extinção da página.

Já a data de nascimento da Onwine está mais próxima da crise económica de 2008 do que aquela que agora se avizinha. A loja online funciona desde 2011. De 16 de março a 10 de abril – o primeiro mês de confinamento social em Portugal – a faturação cresceu 540% em comparação com as vendas das dez semanas anteriores, isto é, de 1 de janeiro a 15 de março. O aumento da faturação média diária neste primeiro mês de quarentena é de quase 1.600%. À data em que este artigo é escrito, tal como esclarece a assessoria do projeto, já foi ultrapassado o valor total da faturação de 2019. E que vinho compraram os portugueses a partir de casa? Vinhos de mesa (90%), sobretudo do Douro e do Alentejo, com as duas regiões a representarem 70% dos vinhos vendidos – são mais tintos do que brancos. A encomenda média está nos 55 euros, o que equivale a um preço médio por garrafa superior a 6,20 euros.

Helena Pereira e o marido © DR

“A indústria do vinho é das que historicamente está mais atrasada do ponto de vista do digital. Foi natural, nas condições em que ficou a restauração e a hotelaria, que os produtores reagissem de uma forma muito rápida”, diz André Ribeirinho, um dos nomes à frente do projeto Adegga. Para ele, registou-se uma maior aceleração digital no último mês do que na última década – e não é exagero, se pensarmos que no período da quarentena o mundo do vinho encontrou-se debaixo de um mesmo teto, o das redes sociais. O fenómeno não é exclusivo do vinho, resulta antes da “experimentação massiva das oportunidades do digital”, descreve Ribeirinho, falando nas reuniões, nas consultas médicas e nas compras que agora estão à distância de um clique.

Os produtores, continua, estão mais próximos dos consumidores finais. Mas há outras alterações à rotina vínica previamente instalada. “Muitas das viagens que aconteciam no passado parecem agora uma perda de tempo. Os negócios fazem-se à mesma, de forma muito mais eficiente, do ponto de vista financeiro e temporal”. Ribeirinho fala ainda nos lançamentos virtuais de vinhos, uma realidade que já existia lá fora, mas que ganha mais terreno em Portugal. A centenária Symington é um bom exemplo disso. No próximo dia 14 de maio vai lançar, via videoconferência, os novos Vintage 2018. Já mais de 200 pessoas estão registadas para comparecer na prova – qualquer pessoa pode fazê-lo desde que se inscreva. Mas esta será de longe a única do seu género. “Estamos a preparar várias provas privadas nacionais e internacionais. Vamos mandar amostras e apresentar os vinhos por videoconferência, nunca fizemos isto”, diz ao Observador Rob Symington, membro da quinta geração da família.

"A indústria do vinho é das que historicamente está mais atrasada do ponto de vista do digital. Foi natural, nas condições em que ficou a restauração e a hotelaria, que os produtores reagissem de uma forma muito rápida."
André Ribeirinho, Adegga

O lançamento online surgiu por necessidade, ainda que a ideia já estivesse em cima da mesa. Quem pensou de forma semelhante foram as marcas Kranemann Wine Estates, que no passado dia 21 de abril apresentaram virtualmente o Quinta do Convento Branco 1999, o mais recente vinho no mercado, e a Kopke, que a 23 do mesmo mês utilizou a plataforma Zoom para dar a conhecer a um número restrito de convidados o rosé Kopke Winemaker’s Collection – para isso, a equipa fez chegar a casa de cada um dos participantes um kit com o vinho a provar e conservas como propostas de harmonização. A conversa ficou a cargo do enólogo Ricardo Macedo.

Já a pandemia ameaçava paralisar Portugal e o mundo quando os fundadores do Adegga criaram a Portugal Wine Week o conceito estava na gaveta, mas foi acelerado com o adiamento de uma das maiores feiras de vinho no mundo na sequência da Covid-19. A Prowein, na Alemanha, era um ponto de partida para muitos produtores portugueses (e não só) estabelecerem pontes. Assim, foi lançada uma plataforma para que os produtores apresentassem os seus vinhos a profissionais do sector de todo o mundo. Foram cerca de 100 reuniões virtuais, com um milhar pessoas a assistir a cada dia. Na altura em que a iniciativa foi para a frente já era evidente que alguns países estavam a deixar de comprar vinho, mas André Ribeirinho garante que pelos menos cinco empresas nacionais conseguiram estabelecer contactos importantes – a Quinta de Monte D’Oiro é um dos exemplos.

Covid-19. Feira internacional de vinhos foi adiada, mas empresa portuguesa contra-ataca

O Adegga MarketPlace é uma segunda resposta à crise, que veio reforçar as entregas ao domicílio no sector do vinho. A plataforma aloja cerca de 100 lojas online de diferentes produtores, num total de 800 vinhos.  “É como um Adegga WineMarket em que vendemos os vinhos aos consumidores, mas são os produtores que escolhem o que querem ter à venda, os preços nas plataformas e que, depois, enviam o vinho ao consumidor.” Passado um mês em funcionamento, Ribeirinho fala em vendas no valor de “vários milhares de euros”, sem conseguir dar um valor concreto. Para uma empresa cujos eventos têm um peso importante na faturação, Ribeirinho pondera a hipótese de passar o Adegga Festival, no verão, para o formato digital. Ainda não há data marcada, mas será no início de junho. Mais detalhes não dá, visto que há uma “corrida ao ouro”. “O negócio dos eventos vai sofrer um impacto gigantesco, será das últimas coisas a voltar.”

Ainda sobre as lojas online, Luís Lopes assegura que estas funcionam como os take away dos restaurantes. “Nem por sombras servem para pagar custos fixos, mas sim para atenuar. Temo que estejam a esgotar stocks, a tentar vender o que já têm, e não a propriamente comprar. Faria o mesmo.”

"As pessoas estão todas fechadas em casa. Quisemos mostrar a quinta com história e dar a conhecer os elementos da família", diz Joana. Tudo se passa através de uma simples videochamada por Whatsapp, algo "caseiro e sem grandes produções". As visitas à quinta — às vinhas, ao lagar e à adega — são sempre feitas por um membro da família e começaram no início de abril.
Joana Vivas, Quintado Olival da Murta

Provas e até visitas virtuais, o enoturismo está no Instagram

A Quinta do Olival da Murta vendia à volta de 10 mil garrafas por ano. A chegada da pandemia contribuiu para a quebra nas vendas, até porque o pequeno produtor trabalha sobretudo com o canal Horeca. Ainda que a exportação continue, de certa forma, a funcionar, também aí se acusam dificuldades. E o enoturismo, tido como fonte de rendimento adicional, está agora completamente parado. Acima de tudo, o que este produtor familiar nota, explica Joana Vivas, é o aumento do interesse do consumidor privado. As vendas online tiveram um aumento reduzido, mas suficiente para confirmar a tendência. Foi precisamente por isso que optaram por proporcionar uma visita virtual gratuita acima de 40 euros gastos em compras.

“As pessoas estão todas fechadas em casa. Quisemos mostrar a quinta com história e dar a conhecer os elementos da família”, diz Joana. Tudo se passa através de uma simples videochamada por Whatsapp, algo “caseiro e sem grandes produções”. As visitas à quinta – às vinhas, ao lagar e à adega – são sempre feitas por um membro da família e começaram no início de abril. Já foram feitas cerca de dez visitas, cada uma mais espontânea do que a outra. “As pessoas enviam o comprovativo da compra que fizeram, desta forma tentamos potenciar a venda dos nossos parceiros, todos os distribuidores que emigraram para o digital. Também somos produtores de ervas aromáticas e aí está a ser muito mais difícil dar a volta.”

O enoturismo do Soalheiro foi outro dos que teve de fechar as portas mas isso não se aplicou à atividade. Luís Cerdeira explica que não só investiram numa campanha nas redes sociais para incentivar as pessoas a procurarem o Solheiro “mais perto de si”, numa lógica de apelar ao comércio online, como criaram provas virtuais na forma de um kit entregue em casa, com três vinhos (Granit 2019, Terramatter 2018 e Reserva 2018, inclui ainda um voucher com a validade de um ano para visitar a Soalheiro) e um vídeo de 30 minutos onde o próprio enólogo explica cada um dos rótulos. “O objetivo é proporcionar uma experiência técnica”, diz. Os kits foram disponibilizados há mais de duas semanas e, de lá para cá, já foram vendidos 100, a 50 euros cada um – o primeiro foi Luís Cerdeira que o comprou, “só para testar”, uma vez que vive na Maia. “Dá-nos alguma ânimo para continuar. A nível nacional não é muito, mas a equipa continua motivada.” Mais recente é o kit para celebrar o Dia da Mãe e para breve está um livro de receitas previamente testadas pela equipa. Na pandemia há tempo para pensar.

Luís Cerdeira, Soalheiro

Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

Também a Symington está a apostar no formato das provas virtuais, realizadas a partir dos seus três centros de enoturismo – Caves Graham’s, Cockburn’s e Quinta do Bomfim. A ideia é proporcionar uma prova comentada e em direto durante cerca de 30 minutos, sendo que os vinhos são escolhidos pelo cliente, que previamente os recebe em casa. Basta selecionar uma das quatro provas disponíveis, receber os vinhos e agendar o dia da visita. Rob Symington explica que, num ano normal, os três centros de visita agora encerrados recebem mais de 100 mil pessoas de mais de 100 países, pelo que a iniciativa resultou da lista de clientes já adquirida e da rede estabelecida nas redes sociais. “Não podemos visitar as caves, mas interação live permite beber três garrafas no conforto da casa.” O kit só foi lançado em meados de abril e conta com “dezenas de encomendas”. “Isto vai abrir um novo ramo para nós, até depois da pandemia.”

O primeiro podcast contou com Dirk Niepoort — um favorito nestas andanças — e o segundo com o cantor Rui Veloso. São posdcasts de 35 a 40 minutos em "que a conversa rola". "São histórias de vida. Olhamos para o passado. É para as pessoas não se sentirem tão sozinhas e para quebrar a ideia de solidão."
Cristiano Van Zeller, produtor

A versão didática da pandemia

O surto de Covid-19 obrigou Rodolfo Tristão, docente de Enogastronomia na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, a dar aulas virtuais. Aos alunos vai ser pedido que comprem determinados vinhos, com as provas a acontecerem via Zoom. Mesmo à distância dá para explicar a lágrima do vinho, descrever a sua tonalidade, entre outras notas de prova. Claro que não é o mesmo do que o fazer presencialmente, mas “estamos todos na nossa casa, a provar o mesmo vinho”.

Tristão também dá “aulas” online, sendo um dos responsáveis pela “Wine Hour At Home”, que arranca em “live” no Instagram pelas 17h, às segundas, quartas e sexta-feiras. Tendo sempre em consideração que, sobretudo numa altura particular como esta, todo o consumo de álcool deve ser moderado, uma das ideias é fazer “com que as pessoas deixem de beber vinho só às refeições e que o possam fazer também ao final do dia. É uma forma de conhecer o vinho que têm em casa e de o ir provando”. Em cada sessão são convidados produtores nacionais e internacionais, para ficarem à conversa com o “wine advisor” Cláudio Martins e com o sommelier. O primeiro convidado foi Dirk Niepoort. Gostou tanto da iniciativa que já a “Wine Hour at Home” tinha terminado e continuou a falar “sozinho” durante “três horas em direto e a abrir garrafas”. A iniciativa conta com uma média de 70 pessoas a acompanhar cada sessão, que posteriormente tem entre 400 a 500 visualizações. “Depois queremos fazer uma “Wine Hour” na praia, no restaurante, na vinha… O conceito é provar vinhos e descontrair com um copo.”

Luís Lopes, diretor da Grandes Escolhas, lançou o “Vinho da Casa” no Instagram e no Youtube – não está integrado no projeto editorial. Ainda lhe é estranho estar sozinho a olhar para uma câmara de filmar, mas a habituação vai ganhando terreno. São cada vez mais os vídeos de três minutos que faz – tudo num único take –, nos quais  apresenta um vinho, conta a sua história e descreve-o. O nome da iniciativa diz muito dos tempos em que vivemos, mas é algo para continuar quando o confinamento acabar. “Sinto um feedback muito acima daquilo que eu esperava”, diz, referindo-se ainda a um número de visualizações também “muito acima das expectativas”. À altura em que este artigo foi escrito, foram publicadas oito “Vinhos da Casa”, dando um total de “oito mil visualizações”.

A iniciativa no universo do vinho não se esgota nos lives de Instagram, com o produtor Cristiano Van Zeller a ser o anfitrião de uma primeira série do podcast “Ligados pelo Vinho”. “Conto mais histórias do que falo sobre o vinho”, diz ao Observador, explicando que este é um catalisador para as pessoas se juntarem. O primeiro podcast contou com Dirk Niepoort – um favorito nestas andanças – e o segundo com o cantor Rui Veloso. São posdcasts de 35 a 40 minutos em “que a conversa rola”. “São histórias de vida. Olhamos para o passado. É para as pessoas não se sentirem tão sozinhas e para quebrar a ideia de solidão.”

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