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Donald Trump não acordou bem-disposto no domingo e não o escondeu: “Não estou de bom humor”. No resort de golfe de que é proprietário em Turnberry, na Escócia, queixou-se das turbinas eólicas que estavam à espreita. “Estão a destruir a beleza da nossa paisagem, dos nossos vales… é uma coisa horrível. São feitas na China, quase todas elas”, disse. Mas o Presidente norte-americano não estava ali para falar sobre turbinas. Após uma partida de golfe na presença de convidados e da família, incluindo o filho Eric, recebeu Ursula von der Leyen. A presidente da Comissão Europeia viajou para um país que já não pertence à União Europeia (como consequência do Brexit) para tentar chegar a um acordo comercial sobre tarifas.
Antes da reunião, as duas partes colocavam as hipóteses estavam divididas, metade-metade. O encontro durou cerca de uma hora, o suficiente para que as negociações chegassem a bom porto. Ao lado de Ursula von der Leyen estiveram o comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, o seu chefe de gabinete, Bjoern Seibert, e mais dois membros da equipa, Sabine Weyand e Tomas Baert. Já Donald Trump contou com o apoio de Howard Lutnick, secretário do Comércio.
No final da reunião, em declarações que fez aos jornalistas com um papel na mão que continha os detalhes do acordo, o mau humor de Trump já tinha passado. E o líder norte-americano mostrou-se satisfeito com o entendimento alcançado: “Alcançámos um acordo. E é um bom acordo para todos. Vai tornar-nos mais próximos… é uma parceria, de certa maneira”. Por sua vez, Ursula von der Leyen notou que o acordo foi fechado após “duras negociações” e disse que vai “reequilibrar” as relações comerciais entre os dois lados do Atlântico, trazendo “estabilidade” e “previsibilidade”. Mais tarde, segundo a agência Reuters, afirmou que foi “o melhor” que conseguiu alcançar e que os 15% não devem ser subestimados, uma vez que existia uma ameaça iminente de tarifas de 30%.
Que acordo é este que taxa os bens da UE em 15% e obriga a investimentos avultados nos EUA?
Trata-se de um acordo comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia que prevê uma taxa de 15% sobre produtos europeus que entram no mercado norte-americano. Tudo o que se sabe até agora é o que tem sido dito pelas duas partes, nomeadamente o facto de a nova tarifa não ser ‘acrescentada’ a nenhuma que já esteja em vigor. Para já, as delegações europeia e norte-americana ainda não emitiram um comunicado conjunto ou publicaram um documento oficial que consagre todos os pormenores do entendimento.
A maioria dos produtos europeus estará abrangida pelo acordo, incluindo a indústria automóvel, que até ao momento era alvo de tarifas de 27,5%, o que significa que, neste caso, há uma redução da taxa. Donald Trump disse, desde logo, que o acordo seria “ótimo para os carros” e que também teria impacto na agricultura. Em Portugal, a AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel aguarda por mais informações, dizendo que “Indústria de Componentes Europeia está preocupada quanto à aplicabilidade [do acordo], em virtude de não ser conhecido se os fornecedores de componentes automóveis estão englobados nas tarifas”. A verificar-se a exclusão de componentes e peças automóveis, “poderá verificar-se tarifas mais elevadas para os fornecedores de componentes do que para os construtores de automóveis”.
A União Europeia comprometeu-se a comprar energia aos EUA, incluindo petróleo e gás, no valor de 750 mil milhões de dólares (646 mil milhões de euros) ao longo dos próximos três anos. Ou seja, até ao fim do segundo mandato de Trump enquanto Presidente dos EUA. Segundo a BBC, é um investimento que ajudará a reduzir a dependência europeia da energia russa.
Além disso, a União Europeia prometeu investir mais 600 mil milhões de dólares (517 mil milhões de euros) na economia dos Estados Unidos, além de adquirir uma “grande quantidade de equipamento militar”. O Presidente norte-americano disse que a UE iria comprar “centenas de milhares de milhões de dólares em equipamento militar”, mas não revelou um montante em concreto.
Esta segunda-feira, menos de 24 horas após o anúncio do acordo, o jornal Politico avançou que os 600 mil milhões de dólares estão inteiramente dependentes do setor privado, sobre os quais Bruxelas não tem controlo. Ou seja, disse um alto funcionário da Comissão Europeia, “não é algo que a UE, enquanto autoridade pública, possa garantir”. “É algo que depende das intenções das empresas privadas”, acrescentou. Um outro funcionário disse que o montante se baseava em “discussões detalhadas com diferentes associações empresariais e empresas, com o intuito de conhecer as suas intenções de investimento”.
Até ao momento, a Comissão Europeia não indicou se tem planos para introduzir incentivos para que o setor privado ajude a cumprir a meta dos 600 mil milhões de dólares, nem disse em quanto tempo é que esse investimento tem de ser feito.
O que ficou de fora?
Como não existe um documento formal que detalhe, com pormenor, os termos do acordo, pode ser difícil dizer com certeza os produtos que ficam de fora. “As duas partes parecem ter interpretações diferentes em alguns detalhes específicos, especialmente nas tarifas sobre produtos farmacêuticos e metais. Portanto, ainda falta alguma clareza”, considera Martin Wolburg, economista sénior na Generali Asset Management. A confusão foi notória logo no domingo à noite. Donald Trump disse que os produtos farmacêuticos não entravam no acordo, mas um funcionário norte-americano esclareceu mais tarde que, afinal, estavam abrangidos pela tarifa de 15%.
O líder norte-americano também disse que o aço e o alumínio continuarão sujeitos a tarifas de 50%, tendo Ursula von der Leyen afirmado que a taxa poderá ser substituída, depois de mais negociações, por um sistema de quotas, de acordo com o The Guardian. A presidente da Comissão Europeia disse também que aeronaves, incluindo os seus componentes, determinados produtos químicos, certos medicamentos genéricos e alguns produtos agrícolas, recursos naturais e matérias-primas essenciais ficam isentos. “Vamos continuar a trabalhar para adicionar mais produtos a esta lista zero”, garantiu. O regime de isenção é recíproco, funciona nos dois sentidos (EUA-UE e UE-EUA).
Durante as suas declarações, nem Trump, nem Von der Leyen esclareceram qual será a tarifa imposta aos vinhos e às bebidas alcoólicas. Será um ponto que as duas partes ainda se encontram a negociar, não existindo uma decisão final. A BBC escreve que França e os Países Baixos, em particular, defendem isenções para as indústrias do vinho e da cerveja, respetivamente. Um dos produtos portugueses que mais teme o aumento das tarifas americanas é precisamente o vinho, dada a relevância desse mercado nas exportações portuguesas.
De acordo com uma análise feita pelo economista Martin Wolburg, “a taxa média de tarifas sobre as importações dos EUA provenientes da UE aumentará de 1,2% em 2024 para cerca de 15% a 17% este ano”. “Este valor é superior à taxa de 10% que se esperava após o acordo entre os EUA e o Reino Unido, mas inferior aos 30% ameaçados após o prazo de 1 de agosto”, acrescentou, notando que o acordo proporciona “algum alívio” ao setor automóvel, mas continua a deixar os metais sob “grande pressão”.
“Em suma, penso que há motivos para nos sentirmos aliviados por ter sido evitado o pior cenário possível. Isto contradiz claramente um cenário de recessão […] Olhando para o futuro, a aceitação unilateral das tarifas reflete a atual assimetria de poder. A UE não quer entrar em guerra comercial com os EUA num momento em que precisa das armas e da energia dos EUA para conter a agressão russa. A longo prazo, no entanto, esperamos que a UE continue a promover acordos de livre comércio com outras regiões para se tornar menos dependente do mercado americano”, defende Martin Wolburg.
De acordo com dados partilhados pela BBC, o comércio de bens entre a União Europeia e os Estados Unidos totalizou aproximadamente 976 mil milhões de dólares no ano passado. No mesmo período, os norte-americanos importaram cerca de 666 mil milhões de dólares em bens da UE e exportaram cerca de 370 mil milhões de dólares.
Os detalhes estão ainda a ser elaboradores, faltando, para tomar forma, o decreto presidencial de Trump.
Qual era a ameaça que estava em cima da mesa?
A União Europeia não conseguiu propriamente o que queria, mas não enfrenta as taxas com que Trump ameaçou. A tarifa de 15% é inferior (metade) à de 30% que o Presidente norte-americano disse que seria imposta já a partir de sexta-feira, dia 1 de agosto, se não fosse alcançado um acordo, e até aos 20% anunciados no dia 2 de abril, a que Trump apelidou de Dia da Libertação.
Inicialmente, Bruxelas propôs tarifas zero para bens industriais e carros, sendo que mostrou abertura para negociar. Porém, o líder dos EUA disse logo que esse cenário não se iria verificar. “A União Europeia tem sido muito má para nós. Eles vão ter de nos comprar energia porque precisam dela”, afirmou Trump, citado pelo The Guardian.
A Comissão Europeia sempre preferiu alcançar uma solução negociada com Washington, apostando em tarifas zero ou de 10%, como aquelas que o Reino Unido negociou. Caso não conseguisse evitar que os seus produtos fossem taxados em 30%, Bruxelas preparava-se para retaliar com um pacote no valor de 93 mil milhões de euros a impor aos produtos norte-americanos.
Segundo o jornal Politico, a Comissão Europeia pretendia que produtos norte-americanos, desde agroalimentares às aeronaves, automóveis, produtos químicos e plásticos ou dispositivos médicos, enfrentassem tarifas de até 30% (a taxa seria variável consoante os produtos). A proposta, que só recebeu a oposição da Hungria, determinava que as tarifas entrariam em vigor a 7 de agosto, se não tivesse sido alcançado um acordo — algo que não se verifica.
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Quais foram as reações ao acordo?
As reações ao acordo anunciado por Donald Trump e Ursula von der Leyen não tardaram a chegar. António Costa, presidente do Conselho Europeu, elogiou o trabalho da Comissão Europeia para “estabilizar o comércio transatlântico”. “A determinação e a unidade pavimentaram o caminho para um acordo negociado com os EUA, que prioriza a cooperação, protege os interesses fundamentais da UE e oferece às empresas a certeza de que precisam”, afirmou, numa mensagem deixada na rede social X.
Por sua vez, Maroš Šefčovič, comissário europeu para o Comércio que também esteve na Escócia, disse ter “100% de certeza” de que “este acordo é melhor do que uma guerra comercial com os EUA”. “Se eu tivesse de resumir este acordo UE-EUA numa frase, diria que traz uma estabilidade renovada e abre a porta à colaboração estratégica”, sublinhou, indicando que os estados-membros foram recebendo atualizações das negociações à medida que estas decorriam.
I commend @vonderleyen, @MarosSefcovic and the @EU_Commission’s work in stabilizing transatlantic trade.
Determination and unity paved the way for a negotiated deal with the US – one that prioritizes cooperation, protects the EU’s core interests, and gives businesses the…
— António Costa (@eucopresident) July 27, 2025
Quanto aos líderes europeus, o primeiro-ministro Luís Montenegro afirmou que o acordo traz “previsibilidade e estabilidade” à economia, mas alertou que “põe exigências novas na luta por mais acordos de comércio, no corte de barreiras e na agenda transformadora de simplificação e redução de custos”.
O acordo comercial UE-EUA traz previsibilidade e estabilidade, vitais para as empresas portuguesas e a economia. Evita a escalada, mas põe exigências novas na luta por mais acordos de comércio, no corte de barreiras e na agenda transformadora de simplificação e redução de custos.
— Luís Montenegro (@LMontenegro_PT) July 28, 2025
Friedrich Merz, chanceler alemão, disse que o acordo evita “um escalada desnecessária nas relações comerciais transatlânticas” e Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, afirmou que apoia o acordo comercial, ainda que o faça “sem qualquer entusiasmo”. A italiana Giorgia Meloni disse somente “é positivo que exista um entendimento”, uma vez que ainda não conhecia os detalhes quando fez as declarações.
Na rede social X, Dick Schoof, primeiro-ministro dos Países Baixos, disse que “não existir tarifas teriam sido melhor”, mas saudou a Comissão Europeia por ter alcançado um acordo que “proporciona mais clareza para as empresas e traz mais estabilidade ao mercado”.
The agreement reached by the EU and the US is vital for an open economy like ours. The Netherlands’ annual goods exports to the US are worth over 50 billion euros.
I greatly appreciate the European Commission’s determined efforts to secure the best possible outcome for our…
— Dick Schoof (@MinPres) July 27, 2025
François Bayrou, primeiro-ministro francês, adotou um tom mais crítico e disse que a Europa se submeteu aos Estados Unidos: “É um dia sombrio aquele em que uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar os seus valores e defender os seus interesses, decide submeter-se”. Também Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, criticou o entendimento, dizendo que “Donald Trump comeu Von der Leyen ao pequeno-almoço”. “Foi isso que aconteceu e até já suspeitávamos que isso iria acontecer”, acrescentou, descrevendo o líder norte-americano como um “peso pesado” em negociações e a presidente da Comissão Europeia como um “peso pena”.
Accord Van der Leyen-Trump : c'est un jour sombre que celui où une alliance de peuples libres, rassemblés pour affirmer leurs valeurs et défendre leurs intérêts, se résout à la soumission.
— François Bayrou (@bayrou) July 28, 2025
Num comentário enviado ao Observador, Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe, diz que os efeitos do anúncio do acordo “fizeram-se sentir de forma distinta dos dois lados do Atlântico”. “Nos EUA, setores como o da defesa e da energia registam ganhos, impulsionados pela perspetiva de compras no valor de 750 mil milhões de euros. Já na Europa, os principais índices acionistas — como o DAX alemão e o CAC francês — registaram perdas. Até agora, o principal beneficiário deste anúncio tem sido o dólar norte-americano, que está a ter a sua melhor sessão face ao euro desde maio, com ganhos próximos de 1%” ao início da tarde, nota, salientando que “a reação negativa dos mercados reflete a apreensão de que estas novas condições possam traduzir-se num abrandamento do crescimento económico [da Europa]”.
Ricardo Evangelista considera que o acordo não pode ser visto como uma vitória para a União Europeia, uma vez que “a perceção que fica” é que Bruxelas “cedeu muito mais do que conseguiu em troca”. “Na prática, não obteve quaisquer ganhos concretos — apenas evitou o pior cenário possível. As exportações americanas para a UE beneficiarão de uma tarifa de 0% e Bruxelas comprometeu-se ainda a investir centenas de milhares de milhões de euros nos EUA, nomeadamente nos setores da energia e do material militar. Ainda não conhecemos todos os detalhes do que foi acordado, mas, neste momento, é difícil ver este acordo como algo que não seja uma vitória para Donald Trump — e uma demonstração de fraqueza negocial por parte da União Europeia, de quem se esperava maior firmeza.”
Que acordos já fechou Trump com outros países?
O objetivo era claro e estava traçado. Em abril, um conselheiro de Trump previa que a Casa Branca conseguisse fechar “90 acordos em 90 dias”. Isso não aconteceu. Além da União Europeia, o republicano conseguiu fechar entendimentos com o Reino Unido, o Japão, a Indonésia, as Filipinas e o Vietname.
As mais recentes negociações, que culminaram com uma taxa de 15% a ser aplicada aos produtos europeus, criaram uma divisão na Irlanda. Se na Irlanda do Norte os produtores podem vender para os Estados Unidos a uma tarifa de 10%, a que foi acordada com o Reino Unido, os “vizinhos” da República da Irlanda são atingidos pelos 15%. Esse valor, aplicado aos produtos europeus, está em linha com o acordo negociado com o Japão, que inclui sobretaxas tarifárias de 15% sobre importações para os EUA.
Trump anuncia acordo comercial com Japão que inclui tarifas de 15%
No caso da Indonésia, foi acordada na semana passada numa tarifa de 19% sobre as importações (inferior à de 32% com que Trump tinha ameaçado o país). A taxa é a mesma que enfrentam as Filipinas, num entendimento alcançado após uma “bonita visita” de Ferdinand Marcos Jr, Presidente do país, à Casa Branca. Segundo a BBC, esse acordo faz parte de um pacto mais amplo em que as Filipinas se comprometeram a eliminar as taxas sobre os produtos norte-americanos.
Os 19% aplicados aos produtos das Filipinas ficam ligeiramente abaixo dos 20% com que Trump tinha ameaçado o país no início do mês, mas acima dos 17% que tinham sido aplicados em abril. Quanto ao Vietname, o acordo pressupõe uma tarifa de 20% sobre exportações para os Estados Unidos. O entendimento foi alcançado em vésperas de os produtos enviados do Vietname para os EUA passarem a enfrentar uma taxa de 46%.