Avaliou-se Henrique Gouveia e Melo, sonhou-se com Pedro Passos Coelho e apostou-se no candidato que, no Chega, nunca falha: André Ventura. Porém, a crise política que vai previsivelmente conduzir à queda do Governo de Luís Montenegro e à convocação de eleições legislativas antecipadas levou o presidente do Chega a admitir que pode acabar por recuar na candidatura a Belém.
“O cenário mudou, o contexto é outro e a minha responsabilidade primeira e maior como líder do partido, e isso não vai mudar nas próximas semanas, é ser o cabeça de lista do Chega às eleições legislativas”, afirmou André Ventura aos jornalistas, já depois de ter dito por duas vezes que era um cenário em cima da mesa.
Com a “perfeita noção de que o calendário político se alterou”, Ventura recordou que “o primeiro objetivo, o grande objetivo, o objetivo mais importante de um partido, é transformar o país, alterar o país” e como “isso se consegue maioritariamente por via da composição do Parlamento”, deixou no ar a possibilidade de retirar a candidatura a Belém para se focar nas eleições legislativas — ainda à espera dos votos contra a moção de confiança ao Governo que já foram anunciados.
Ventura revelou que será preciso reunir a direção do partido, ainda que esta seja uma decisão pessoal por se tratar de uma candidatura à Presidência da República. Também Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, reconheceu, em entrevista ao Observador, que a possibilidade de Ventura retirar a candidatura a Belém “estará em cima da mesa”. “A estratégia política muda diariamente, como as coisas mudaram”, assumiu. E acrescenta que há “muito tempo” até às presidenciais.
Ainda que as palavras de Ventura apontem para essa solução, há quem no núcleo duro Chega alerte para o facto de as eleições presidenciais serem apenas para janeiro. No limite, cenariza-se, estas legislativas antecipadas e posteriores autárquicas podem atirar a campanha a Belém mais para o final do ano — uma sugestão de quem acha que até seria possível Ventura ir a jogo duas vezes.
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Para já, não há outras hipóteses em cima da mesa, até porque o Chega ainda não deu como certo que Ventura não vá ser candidato a Belém. Mas, comenta um destacado dirigente do Chega, a hipótese Gouveia e Melo está definitivamente afastada porque não serve as intenções do partido — desde logo porque fez questão de se distanciar do discurso do Chega, o que deixou vários elementos da direção desconfortáveis.
Gouveia e Melo esteve na calha, mas Chega descartou hipótese
O caminho para as presidenciais de 2026 foi atribulado — apoiar ou não um candidato fora do partido chegou mesmo a estar em cima da mesa e dividiu a direção (não é “absolutamente unânime”, disse Ventura). Pesados os argumentos, o presidente do Chega acabou a avançar. Era e é o candidato natural, não só porque conseguiu 500 mil votos em 2021, como projeta o partido como um independente não conseguiria fazer.
Porém, é caso para dizer que a realidade pode ter estragado os planos a Ventura e, quem sabe, dificultar a escolha do partido para 2026. A prioridade do presidente do Chega é chegar a primeiro-ministro, sempre o disse e sublinhou-o mais recentemente numa entrevista à CNN, em outubro de 2024, quando ainda considerava possível que o partido apoiasse uma candidatura a Belém que não do Chega — numa fase em que Gouveia e Melo não se tinha posicionado claramente contra os extremos e quando a sombra de Passos Coelho ainda deixava dirigentes a suspirar.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O presidente do Chega deixou claro que estava “muito focado em ser primeiro-ministro” e garantia não se querer “distrair” dessa missão. Três meses depois, com Gouveia e Melo fora da equação, defendeu a sua entrada na corrida a Belém para que existisse uma candidatura que representasse “o espaço da direita anti-corrupção e anti-emigração sem confusão com os políticos que toda a vida defenderam o contrário”.
Além disso, assumia uma candidatura “com riscos”, mas que visava também “evitar que alguns” candidatos tivessem o apoio do partido quando “desdenhavam” ou deixavam “transparecer que não gostam da marca Chega” — numa clara referência a Gouveia e Melo que com a aproximação inicial de Ventura acabou por se posicionar contra extremos e com um discurso “entre o socialismo e a social-democracia”. Com a candidatura, o partido pretendia também que os votos do eleitorado mais fiel do Chega não acabassem desperdiçados ou espalhados por outros candidatos.
Agora, a possibilidade de umas novas eleições legislativas voltam a virar a agulha do Chega, que pretende recentrar-se para dar continuidade a um resultado histórico que permitiu a eleição de 50 deputados na Assembleia da República. O partido considera que o caso de Luís Montenegro assente que “nem uma luva” no discurso do Chega, pelo que os casos e casinhos de há umas semanas estão hoje transformados numa lufada de ar fresco para Ventura.