O Chega vai ter um candidato próprio nas eleições presidenciais e decidiu não apoiar nenhuma outra candidatura. Em reunião de direção, André Ventura, que tinha reconhecido que Henrique Gouveia e Melo ou Pedro Passos Coelho poderiam ter o apoio do Chega, resolveu fechar mais um capítulo na série Belém e descartar essa hipótese. No futuro, tomará uma decisão sobre o nome do candidato próprio e não exclui, para já, a hipótese de repetir a candidatura presidencial de 2021.
A informação foi inicialmente avançada pela CNN Portugal e confirmada pelo Observador junto de fonte conhecedora do processo. Com Gouveia e Melo a distanciar-se do Chega e Pedro Passos Coelho aparente e irremediavelmente fora da corrida a Belém, André Ventura decidiu que estava na hora de tomar uma decisão — mesmo que há poucos dias tenha atirado a mesma para o primeiro trimestre de 2025, altura em que voltou a abrir a porta a uma possível recandidatura.
Tal como o Observador tinha escrito aqui, as posições públicas que Henrique Gouveia e Melo tem assumido nos últimos tempos (ainda que sejam poucas) começavam a causar desconforto junto de alguns dirigentes do Chega, tanto que André Ventura o reconheceu de viva voz: apesar da “boa opinião” que assume em nome próprio, assegurou que o almirante “não é absolutamente unânime dentro do partido”.
Mais do que isso e das “muitas reticências” de vários elementos do núcleo duro, a postura do militar só ajudou a que o Chega desse um passo atrás — ou recusasse dar um passo em frente. “Quando lançámos sinais dizendo que poderíamos apoiá-lo, seria de esperar que Gouveia e Melo fizesse algum caminho no nosso sentido e mostrasse de alguma forma que estava agradado com o possível apoio. Fez o contrário”, lamenta um dirigente do Chega, rematando que o partido “não ia continuar a dizer que podia apoiar uma pessoa que enxota as bandeiras e políticas do partido”.
Um outro membro da direção do Chega explica que a falta de um “gesto” por parte de Gouveia e Melo, “por mais pequeno que fosse”, obrigou a uma decisão mais rápida para que o Chega se demarcasse rapidamente, de forma a “clarificar que o partido não apoia o almirante” — já que internamente sempre se considerou que parte eleitorado podia e pode sentir simpatia por Gouveia e Melo. Este recuo foi considerado necessário para travar de imediato qualquer colagem entre partido e protocandidato — fazê-lo no futuro poderia ser mais difícil.
Com Gouveia e Melo posto de parte, sobrava aquela que sempre foi a primeira escolha dos principais dirigentes do Chega: Pedro Passos Coelho. Mas a hipótese de uma candidatura a Belém parece cada vez mais distante e os dirigentes do partido foram recebendo sinais disso mesmo. Uma fonte da direção explica ao Observador que “já não tem lógica ir atrás da opção Passos” quando tudo aponta para uma não-candidatura. Assim, e apesar de “ser o favorito” do núcleo duro de Ventura, a direção decidiu que não vai estar indefinidamente à espera de alguém que não dá um único sinal de que pode ou quer avançar.
A somar a isso, a necessidade de ”não perder o espaço político” das presidenciais. “Já não podemos sustentar mais essa ideia”, garante um dirigente, enquanto um outro hesita quando questionado sobre a possibilidade de Passos ainda entrar na corrida, reconhecendo que não era de descartar um passo atrás, mas reiterando que tudo indica o oposto e que é nesse cenário que o partido trabalha.
▲ O Chega cansou-se de esperar por Passos, o favorito
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O candidato de sempre
Depois de tomar a decisão de não apoiar nenhum candidato externo ao partido, André Ventura volta a ter nas mãos um já velho dilema: ir ou não a votos. O eterno candidato do Chega, aquele que todo o partido tem consciência de que terá sempre o melhor resultado, entrou na corrida a Belém em 2021, quando ainda era deputado único, e conseguiu quase 500 mil votos — com um terceiro lugar muito próximo do segundo. Quatro anos depois, o Chega é um partido diferente. Está em todos os parlamentos (europeu, nacional e regionais) e é claramente a terceira maior força política nacional.
Apesar do tropeção nas europeias, o atual contexto favorável ao partido não vai deixar de ser tido em conta. Se todos os dirigentes ouvidos pelo Observador são unânimes em assumir que Ventura seria o “melhor candidato” para obter o resultado mais confortável nas eleições presidenciais. “É difícil não ser o André Ventura” ou “é sempre o melhor candidato”, vai-se dizendo no partido, remetendo a decisão, naturalmente, para o próprio.
No início desta semana, à margem das jornadas parlamentares do Chega, em Coimbra, André Ventura, que vinha torcendo o nariz à ideia de repetir uma candidatura a Belém, relançou-se como possível candidato. “Os cenários que existem são esses: eu, se avançar, direi até ao final de março. É uma decisão que ainda não tomei também. É uma decisão que, obviamente, se tomar, porque sou o líder do partido, contarei com o apoio do partido. Quer dizer, não me fazia muito sentido eu avançar para as eleições presidenciais sem o apoio do meu partido.”
Ao mesmo tempo, no entanto, não deixa de existir um dilema: para quê aplicar a máxima energia, o grande trunfo do partido, numas eleições onde não têm manifestas hipóteses de vencer. “Valeria a pena voltar a levar Ventura a votos e desgastar a imagem?”, interroga-se um influente elemento do Chega. No inner circle de Ventura tenta-se perceber que riscos podem existir numas presidenciais que serão (aparentemente) bastante concorridas, ainda mais no campo da direita, e que efeitos isso terá na imagem de Ventura e do partido. A esta distância, há quem admita que talvez fosse melhor “não queimar” mais a imagem do presidente do Chega e mantê-lo focado em afirmar-se verdadeiramente como “líder da oposição”.
Entretanto, na altura de expandir as possibilidades além de Ventura, os dirigentes apontam e procuram um “senador” dentro do partido. A tarefa é difícil, ninguém duvida, e alguns estão fora de jogo. Tânger Corrêa está na Europa e de lá não sairá — até porque não ajudou o partido a ser bem sucedido nessas eleições. Diogo Pacheco Amorim é atualmente vice-presidente da Assembleia da República e não parece estar interessado (nem o partido quer empurrá-lo) para um voo até Belém. E assim quase se esgota a lista de senadores presidenciáveis. Ventura tem então até março para decidir se quer ou não dar novamente a cara em mais uma ida a votos ou se quer surpreender e escolher outro nome — não tem corrido particularmente bem.
Ventura admite ser candidato a Belém e diz que Gouveia e Melo não é “absolutamente unânime” no Chega