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As ruas de Amã, capital da Jordânia, pintaram-se de vermelho, preto, verde e branco na passada sexta-feira. No ar, agitavam-se centenas de bandeiras, tanto da Jordânia como da Palestina. Os gritos de ordem que se fizeram ouvir explicam a manifestação: “Não ao deslocamento de palestinianos. Não à pátria substituta. Gaza pertence aos palestinianos”. O protesto foi convocado pelo maior partido no Parlamento, a Frente de Ação Islâmica, contra as declarações de Donald Trump de que a Jordânia deveria acolher palestinianos retirados de Gaza.
A posição oficial do Rei Abdullah II e do seu governo está alinhada com a da população que saiu à rua: “A Jordânia é dos jordanos, a Palestina é dos palestinianos”, declarou já por várias vezes o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ayman Safadi. O Rei terá dito isso mesmo ao Presidente norte-americano quando se encontrou com ele esta terça-feira na Casa Branca, segundo o próprio escreveu nas redes sociais.
Contudo, na conferência de imprensa com Trump, Abdullah recusou afirmar diretamente a sua oposição e adiou declarações decisivas para o Presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, que também estava previsto visitar Washington na próxima semana. A ideia de Donald Trump incluía que o Egito — que faz fronteira com a Faixa de Gaza e tem mediado as negociações para o acordo de cessar-fogo — também acolhesse palestinianos.
A resposta do Cairo à proposta foi, até agora, a mesma que a de Amã: negativa. Confrontado com a falta de colaboração do Egito e da Jordânia, Trump chegou a pôr um trunfo em cima da mesa: “Se eles não concordarem, eu consideraria suspender a ajuda [que recebem dos EUA]“, declarou na segunda-feira.
“A abordagem [da Jordânia e do Egito] às ideias de Trump reflete um ato de equilibrismo”, avalia o analista jordano Ghaith al-Omari ao Observador. Isto porque os dois países estão entre os maiores recetores de ajuda externa norte-americana, a que se soma a defesa convicta da população da causa palestiniana (grande parte da sua população são refugiados da Palestina) e os tratados de paz assinados com Israel nas décadas de 1970 e 1990.
O retrato da Jordânia. O apoio popular ao Hamas, o acolhimento histórico de refugiados e a maioria palestiniana
“É preciso acreditar na nossa população. E parar de tornar a América num Deus”, afirmou Yanal Freihat, político da Frente de Ação Islâmica, na manifestação da passada sexta-feira, que ajudou a organizar. Freihat proclamava o seu apoio ao governo de Abdullah, mas apenas enquanto as ações do monarca estiverem alinhadas com as suas reivindicações.
A Frente de Ação Islâmica é o braço político na Jordânia da Irmandade Muçulmana, o grupo islamita sunita transnacional, a partir do qual se formou o vizinho palestiniano Hamas. Depois da ofensiva israelita em Gaza, em outubro de 2023, o descontentamento cresceu na Jordânia e o apoio à Frente de Ação Islâmica também. Isso refletiu-se nas eleições legislativas de setembro do ano passado, em que o partido conquistou 31 dos 138 lugares disponíveis e se afirmou como o maior partido jordano.
Da mesma forma, em julho do ano passado, uma sondagem mostrava que 66% dos jordanos aprovam as ações da Irmandade Muçulmana. Este aumento de popularidade traduziu-se em posições mais radicais: a Irmandade Muçulmana reivindicou um ataque fracassado a um posto das Forças de Defesa de Israel (IDF) perto da fronteira, a Economist ouviu pessoas que apoiam que a sede do Hamas seja transferida para a Jordânia (se os líderes políticos do movimento tiverem de sair do Qatar) e o Washington Post entrevistou um ativista que defende o serviço militar obrigatório na Jordânia e a ajuda militar aos grupos palestinianos. Todos justificam as ações e declarações com a solidariedade para com o povo palestiniano.
▲ O apoio à Irmandade Muçulmana (e ao Hamas) cresceu na Jordânia
MAHMOUD ZAKI/EPA
Para perceber esta proximidade entre a Jordânia e a Palestina é preciso recuar até 1948, data em que foi fundado o Estado de Israel e se deu o primeiro grande êxodo de refugiados palestinianos, conhecido como Nakba (“catástrofe” em árabe). Dos 75 mil palestinianos que foram forçados a sair das suas terras, a grande maioria refugiou-se na Jordânia. Em 1967, na sequência da Guerra dos Seis Dias e da ocupação israelita dos territórios palestinianos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, milhares de palestinianos voltaram a refugiar-se do outro lado do rio Jordão.
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Ao longo de mais de sete décadas, a Jordânia tornou-se destino para os refugiados e deslocados palestinianos. Pelo menos 2,4 milhões de palestinianos estão registados na Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos (UNRWA) como habitantes da Jordânia. Mas a Jordânia não distingue entre cidadãos jordanos da origem nativa beduína e de origem palestiniana, pelo que é estimado que o número de deslocados e descendentes possa chegar aos 7 milhões — bem mais de metade dos 11,3 milhões de habitantes no país. Entre esta maioria está, por exemplo, a rainha Rania.
Este contexto histórico, político e cultural justifica o apoio à autodeterminação palestiniana. “Têm uma ligação emocional muito forte à causa palestiniana“, define Ghaith al-Omari, analista no Washington Institute for Near East Policy. Mas o Rei Abdullah II também tem de considerar as consequências económicas, de Defesa e estratégicas que o acolhimento de mais palestinianos — neste caso 1,8 milhões de habitantes em Gaza — teriam em Amã, ressalva o especialista.
Apoio económico dos Estados Unidos, tratados de paz com Israel e guerras internas
Logo à partida, a principal motivação para a Jordânia colaborar com a ideia de Donald Trump seria a dependência financeira dos Estados Unidos: em 2023, a Jordânia recebeu 1,72 mil milhões de dólares de Washington, tornando-se no quarto maior recetor de ajuda externa norte-americana. No entanto, Trump também tem muito a ganhar em manter uma boa relação com a Jordânia, um dos seus maiores aliados entre os países árabes. Não é coincidência que o Rei Abdullah II tenha sido o primeiro chefe de Estado árabe a ser recebido na Casa Branca. Pelo contrário, é uma tradição que visa manter as boas relações entre Washington e Amã.
“A relação não é unidirecional e a administração Trump estaria errada se ignorasse a importância das constantes contribuições egípcias e jordanas para a diplomacia e a segurança no Médio Oriente”, escreveu Amr Hamzawy, diretor do programa do Médio Oriente no Carnegie Endowment for International Peace.
▲ A colaboração da Jordânia com os Estados Unidos gera contestação interna
MOHAMMAD ALI/EPA
Ora, a segurança e diplomacia no Médio Oriente são precisamente outras das prioridades de Amã. Depois de um período violento e atribulado nas relações com Israel, Amã e Telavive assinaram o acordo de paz de Wadi Araba, em 1994. Formalmente, o acordo mantém-se de pé até hoje. No âmbito deste acordo, os dois países assinaram uma série de acordos de cooperação para a importação de gás natural israelita. Apesar das acusações de genocídio que o governo de Amã dirigiu a Telavive desde outubro de 2023, no final de 2024 40% do fornecimento de gás natural na Jordânia ainda provinha de Israel.
O acolhimento de mais palestinianos e o eventual aumento dos ideais islamistas da Irmandade Muçulmana e do Hamas iriam tornar a Jordânia num potencial alvo para Israel, o que poria em causa a estabilidade regional — ainda que tímida — que têm vindo a consolidar desde 1994.
Internamente, o aumento do número de palestinianos também poria em causa o próprio reinado de Abdullah II. “Se os palestinianos passassem a ser uma maioria, a sua influência política iria aumentar, levando a exigências para maior representação no Parlamento, no Exército e no setor público. Isso podia desestabilizar a estrutura de poder do país”, argumentou Mohammed Bani Salameh, professor de Ciência Política na Universidade de Yarmouk, na Jordânia, ao Washington Post.
A fricção entre Amã e um grupo palestiniano não seria inédita. Recuar novamente na História permite chegar ao Setembro Negro de 1970 e à guerra civil da Jordânia. O conflito foi desencadeado ao fim de meses de tensão entre a Organização da Libertação da Palestina (a OLP de Yasser Arafat), que neste período estava sediada na Jordânia, e o governo do Rei Hussein, pai de Abdulladh II. Quando, em setembro de 1970, a OLP desviou e despenhou três aviões civis, Hussein entrou em confronto aberto com a organização palestiniana. Um acordo entre as duas partes acabou por ser mediado pelo Egito, mas o incidente demonstra precedente para um conflito entre Amã e grupos palestinianos.
Esta acumulação de fatores contraditórios explica a reação do Rei Abdullah à proposta da “Riviera” de Donald Trump. “Por um lado, não podem dizer que não, porque um confronto com o Presidente dos EUA vai ferir interesses económicos e de Defesa nacional. Mas não podem dizer que sim, porque vai criar agitação interna e pode significar o fim das aspirações palestinianas”, analisa Ghaith al-Omari ao Observador. “Em vez disso, como vimos com o Rei Abdullah [esta terça-feira], vão tentar apresentar as suas próprias ideias alternativas sobre como avançar em Gaza“, remata.
O caso do Egito. Um líder regional “entre a espada e a parede”
Qualquer “ideia alternativa” que a Jordânia possa ter ainda não foi apresentada oficialmente. Na terça-feira, na conferência de imprensa com Trump, Abdullah afirmou apenas: “Vamos esperar até que os egípcios venham [a Washington] e apresentem [o plano] ao Presidente e não nos vamos precipitar”. Bola atirada para o campo do Egito; mas a resposta formal do Cairo não foi mais elucidativa sobre que tipo de plano é que estes Estados árabes estão a traçar.
Ainda assim, a recusa do plano de Trump ficou bem clara. A visita à Casa Branca de que Abdullah falou devia acontecer no próximo dia 18 de fevereiro, mas o Presidente Abdel Fattah al-Sisi adiou a viagem sem definir uma nova data, avançaram fontes egípcias. A decisão foi tomada devido às reações “muito negativas” de Washington às preocupações do Cairo sobre a implementação do plano de Trump.
Esta informação vai ao encontro do que fontes egípcias também já tinham avançado ao Washington Post: o Cairo informou o Pentágono, o Departamento de Estado, membros do Congresso norte-americano e aliados europeus de que a ideia de Trump põe em causa a segurança nacional do Egito e a paz com Israel.
Shahira Amin, jornalista e analista egípcia, argumenta que a segurança nacional — a par com o apoio à causa palestiniana e à definição do Estado da Palestina — é realmente a principal preocupação do Cairo. “O Egito teme que ter uma grande população na Península do Sinai possa ameaçar o processo de paz e começar um guerra com Israel se rockets forem disparados a partir do Sinai e Israel retaliar com contra ataques”, afirma ao Observador.
O tratado de paz que vigora entre Israel e o Egito pode ser visto como o mais significativo na região, uma vez que o Egito foi o primeiro Estado árabe a reconhecer e a assinar um acordo com o Estado de Israel, em 1979, na sequência dos acordos de Camp David, mediados pelos Estados Unidos.
A chegada ao poder de Sisi, em 2014 — depois de derrubado o regime de Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana —, aproximou ainda mais o Egito de Israel e dos Estados Unidos. Foram assinados novos acordos económicos, de segurança e cooperação com Telavive e o Egito é agora o segundo maior recetor de ajuda militar norte-americana na região — só atrás de Israel. Os laços com o Presidente Trump são particularmente positivos: na primeira administração, Trump referiu-se a Sisi como “o seu ditador favorito”. Se os líderes democratas se mostravam mais reticentes a apostar no Egito, devido às acusações de violações de Direitos Humanos, o Presidente republicano não tem essas reservas. O anúncio de que os Estados Unidos iam suspender todos os programas de ajuda externa teve apenas duas exceções: Israel e Egito.
▲ Trump e Sisi durante o primeiro mandato do Presidente norte-americano
AFP/Getty Images
Donald Trump chegou a ameaçar, na terça-feira, a retirada de todos os apoios — fez o mesmo com a Jordânia, ainda que eles já estejam suspensos devido à ordem interna. Porém, mais tarde no mesmo dia, afirmou que isso não seria necessário e que ia conseguir um acordo com ambos os países.
Mesmo sem a ameaça ambígua de sanções, a preservação da boa relação com os Estados Unidos é particularmente importante neste momento, uma vez que o Egito atravessa uma crise económica, causada, em parte, pela queda para metade dos lucros do canal do Suez, explica Shahira Amin. O tráfego no canal diminuiu substancialmente nos últimos meses devido aos ataques dos Houthis iemenitas a navios no Mar Vermelho, levados a cabo em apoio ao Hamas. Portanto, a estabilização da situação na região teria vantagens a dobrar para o Cairo, pois ia reduzir problemas nas duas frentes: securitária e económica.
Mas Amin sublinha que o caminho para esta estabilização não é linear, pois ambos os problemas pesam muito no Cairo. “O que é certo é que a liderança egípcia está entre a espada e parede“, atira.
Entre a “Riviera” e o cessar-fogo: a “visão compreensiva para a reconstrução” de Gaza do Egito
Na comparação direta entre os interesses do Cairo e Amã na situação, a Jordânia parece ter mais fichas na mesa, devido à ligação cultural mais profunda com o povo palestiniano. Porém, tem sido o Egito a assumir o papel de mediador regional ao longos dos 15 meses de ofensiva israelita em Gaza.
Apesar de o Cairo ter começado por recusar contactos com o Hamas — pelas ligações à Irmandade Muçulmana, classificada no Egito como uma organização terrorista desde 2013 –, as relações foram estabilizadas em 2016, sublinha Shahira Amin. Isto foi útil para as negociações, uma vez que os oficiais egípcios, a par com os qatari, funcionaram como ponto de ligação ao Hamas. No entanto, também fez do Cairo um alvo para Israel, que os acusa de terem permitido o tráfico de armas para a Faixa de Gaza, que faz fronteira com o Egito.
Face às acusações, o Egito mostrou-se flexível: terá aceitado as condições de construir um sistema de vigilância na fronteira (em substituição da manutenção da presença das IDF no Corredor de Filadélfia, que bloqueou as negociações para o cessar-fogo em agosto de 2024); disse estar disponível para colaborar na reconstrução de Gaza e fechou a fronteira o que impediu o tráfico de armas, mas também a entrada de refugiados palestinianos (ainda assim, milhares de palestinianos em Gaza terão conseguido fugir para o país vizinho).
▲ A fronteira entre Gaza e o Egito em 2007. Hoje, foi ponto de discórdio para o cessar-fogo
AFP via Getty Images
Apesar das cedências, a linha vermelha do Egito é muito claramente o acolhimento de 1,8 milhões de palestinianos que vivem em Gaza. Mas a recusa árabe do plano de Trump não fechou a porta às negociações. O Egito anunciou, esta terça-feira, que está a trabalhar numa “visão compreensiva para a reconstrução” de Gaza, que inclua uma “solução justa para a causa palestiniana”. O ponto principal deste plano é o facto de não obrigar à saída dos palestinianos do enclave. Ainda assim, o Cairo e os Estados árabes que também estarão envolvidos no plano dizem ainda desejar a colaboração com Donald Trump.
Não é certo que tipo de aprovação terá este plano. O Hamas já agradeceu a recusa tanto do Egito como da Jordânia em acolher palestinianos e o trabalho para um plano árabe. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, desdobrou-se em elogios ao plano de Trump, mas ainda não se pronunciou sobre a possibilidade de um plano alternativo. Contudo, também assinou o acordo de cessar-fogo do passado dia 15 de janeiro, que não previa qualquer saída dos palestinianos de Gaza, pelo que o seu apoio a um terceiro plano é imprevisível.
Os dois analistas ouvidos pelo Observador argumentam que difícil fazer previsões, sem conhecer o plano alternativo do Egito. De qualquer forma, o peso da responsabilidade recai sobre os países árabes e sobre as suas capacidades para o “equilibrismo”. Preferem manter a estabilidade regional, a paz com Israel e o apoio norte-americano? Ou preferem a solução de dois Estados, a autodeterminação da Palestina e a estabilidade política e civil no Cairo e em Amã?