As cartas dentro e fora do baralho no futuro do PSD /premium

Rio assume que a sua liderança pode estar em causa a 6 de outubro. Montenegro, Rangel, Pinto Luz, Jorge Moreira da Silva e Miguel Morgado podem ir a jogo no day after. Que trunfos tem cada um?

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Não é golpe, nem conspiração interna. É o próprio Rui Rio quem o diz: a sua liderança depende do resultado que tiver no dia 6 de outubro. “Se o PSD tivesse um resultado baixíssimo, o que é que uma pessoa fica lá a fazer?“, questionou numa entrevista à Antena 1 esta quinta-feira. Disse ainda que seria hipócrita se dissesse que ninguém lhe está “a tentar fazer a cama”. O que é certo é que, pelos estatutos, dentro de poucos meses há eleições diretas e já há quem esteja a preparar a jogada para o pós-legislativas. Cada um com um seu estilo, são várias as figuras que tentam fazer os mínimos para ocupar o espaço que pode ficar livre depois de outubro. Uma coisa é certa: à exceção de Rio, nenhum pode enfrentar António Costa em debates quinzenais no Parlamento, pois o atual líder é o único candidato a deputado. Há outra coisa que têm em comum: todos se disponibilizaram para participar na campanha das legislativas se forem convidados. Mas afinal, que cartas têm na manga?

Rui Rio. Fica, sai ou não se recandidata?

Rui Rio não arrisca apontar uma fasquia para lá da qual o resultado eleitoral do PSD deve ser considerado inaceitável, mas tem dito várias vezes, e de várias formas, que não está agarrado ao poder e, portanto, que pode vir a sair pelo seu próprio pé caso o resultado seja desastroso. “Se o PSD tivesse um resultado baixíssimo, o que é que uma pessoa ficava lá a fazer? Em cada resultado eleitoral, seja qual for, joga-se sempre o futuro de cada líder partidário, em qualquer parte do mundo”, disse na entrevista à Antena 1, esta quinta-feira.

Antes, já tinha dito o mesmo de outras formas, ao falar em desapego ao poder, ao dizer que só fica no partido (caso perca as eleições) se for para ser útil ao país, ou ao dizer, por outras palavras, que só fica se António Costa aceitar assinar com ele um acordo escrito para fazerem as reformas que considera inadiáveis.

Tudo cenários improváveis, pelo menos a olhar para as sondagens. Fontes do partido, ouvidas pelo Observador, começam a admitir apenas duas hipóteses: 1) o cenário em que Rio se demite no day after, se tiver um resultado muito mau (abaixo dos 20%); e, 2) o cenário em que, tal como fez Passos Coelho depois das autárquicas, não se demite logo, mas também não se recandidata. Isso pode acontecer se o resultado for melhor do que se pensa (acima de 25%).

A verdade é que Rui Rio tem, matematicamente, o partido do seu lado: sempre que houve um desafio à liderança, como o “golpe de Estado de janeiro”, ou uma prova de fogo como a da elaboração das listas de candidatos a deputados, não se coibiu de alimentar as guerras com os opositores internos mas saiu sempre vencedor, com elevadas percentagens de aprovação.

Em todo o caso, Rui Rio, que se orgulha de “nunca ter perdido uma eleição” (até às europeias de maio), tem dito que no dia “7, 8 ou 9 de outubro” tomará uma decisão sobre o seu futuro. Para já, nada está garantido e o líder do partido não pode ser subvalorizado. Há sempre a hipótese de ter um resultado surpreendente e de se recandidatar nas diretas que se seguem. Nesse caso, Rio tem uma vantagem clara: o PSD vai ter um grupo parlamentar desenhado por si, e ele é o único (deste leque de cartas do baralho) que vai ter assento no Parlamento e, com isso, possibilidade de defrontar António Costa nos debates quinzenais (caso António Costa se mantenha como primeiro-ministro, como é expectável).

Problema: Rui Rio admite que não tem um interesse particular em ser deputado. Depois de o ter admitido à agência Lusa, esta quinta-feira voltou a reiterar a ideia à Antena 1: “O que me move não é ser deputado, é ser primeiro-ministro”, disse, recusando desvendar se cumprirá o mandato de deputado caso seja eleito (ou seja, caso não ganhe as eleições). “Isso depois eu vejo…”.

Ponto forte: É o presidente do PSD, ganhou o partido nas diretas contra Santana Lopes, e voltou a reforçar a liderança quando saiu vencedor do golpe de Estado de janeiro (com uma moção de confiança aprovada em conselho nacional). Mesmo com uma oposição interna forte, sempre que encontrou obstáculos no caminho, ultrapassou-os.

Ponto fraco: Nunca foi um líder consensual no partido, e nunca pareceu incomodar-se com isso. Pelo contrário, foi à guerra quando o desafiaram e ele próprio comprou algumas. Resultado: qualquer derrota eleitoral vai ser-lhe cobrada com estrondo.

Porquê “Às”? Porque, se for a jogo novamente, Rui Rio vai sempre na pole position, enquanto presidente em exercício.

Luís Montenegro, o líder da oposição interna

Foi o protagonista do golpe de Estado de janeiro de 2019, e desde então tem mantido o jogo escondido — à espera da cartada final. Depois de ter perdido, em Conselho Nacional, o desafio de levar Rui Rio a eleições internas, o ex-líder parlamentar de Passos Coelho optou por deixar o espaço mediático e manteve-se em silêncio até à campanha para as europeias. Aí, viria a aparecer ao lado de Paulo Rangel, na feira de Espinho (a sua terra natal), mas em jeito de serviços mínimos. Disse estar disponível para participar em ações de campanha no PSD, mesmo ao lado de Rui Rio, por considerar que o partido está habituado a “conviver com opiniões diferentes”, mas picou o ponto e não apareceu mais. Agora, na pré-campanha para as legislativas, deverá repetir o número: apareceu já numa ação de pré-campanha em Lamego, distrito de Viseu, numa visita à Festa da Nossa Senhora dos Remédios, onde disse que estava a fazer a sua “quota parte” de apoio ao partido. “Eu faço a minha quota parte, que é neste momento muito limitada, e desejo que todos façam o mesmo”, disse. Ou seja, serviços mínimos hoje, para voos altos amanhã?

Além destas aparições de campanha, a única vez que Montenegro apareceu em público durante o seu período de clausura foi quando Pedro Duarte apresentou o seu Manifesto X (um projeto para pensar o centro-direita), em Lisboa. Até nessa altura, a sua presença no evento foi vista com peso e simbolismo. Pedro Duarte, ex-líder da JSD e ex-secretário de Estado, tinha sido o primeiro a mostrar-se disponível para avançar com uma candidatura pós-Rio, causando zum zum o facto de um putativo candidato à liderança estar na cerimónia de lançamento do movimento de outro putativo candidato à liderança. A verdade é que não há no PSD quem objetivamente acredite que Pedro Duarte vai mesmo avançar, correndo até a ideia de que já estará combinado que vai ter um lugar na direção de Luís Montenegro, se este for eleito. Os dois, de resto, são amigos de longa data: fizeram o curso juntos na faculdade e chegaram a partilhar casa nesses tempos.

Ninguém tem dúvidas de que Luís Montenegro é o challenger. Mostrou-o logo no dia em que Rui Rio foi eleito em congresso, ao subir ao palco para dizer, olhos nos olhos, que não estaria ao lado do projeto político defendido por Rio e que, quando sentisse que o devia fazer, não iria pedir licença a ninguém para avançar. Fez isso em janeiro deste ano, quando começou a contar espingardas e desafiou Rio a avançar com uma moção de confiança (se não fosse aprovada, Rio caía). A contagem de espingardas falhou por pouco, mas ficou a ideia: Montenegro não faltou à chamada no momento em que ainda era possível inverter a marcha, e se o resultado eleitoral no dia 6 de outubro não for bom, vai poder dizer ‘eu tinha razão’. Há quem diga, no entanto, que Montenegro pode não ter a vida assim tão facilitada: “Montenegro não tem uma grande base de apoio, longe disso, e nesta altura, já seria expectável que tivesse o partido mobilizado em torno dele”, ouve o Observador de uma fonte não-montenegrista.

Ponto forte: É o candidato garantido. Nesta fase do campeonato, ninguém tem dúvidas de que Luís Montenegro se candidata nas próximas diretas, independentemente de outras candidaturas que possam surgir, e independentemente do resultado do PS nas eleições. Por isso, tem tido muito tempo para recolher apoios, contar espingardas e preparar o tabuleiro de jogo para quando os dados forem lançados.

Ponto fraco: Desafiou o líder em ano de eleições (e perdeu), o que caiu mal nalguns setores do partido que viram nesse gesto um contributo para fragilizar ainda mais o partido. Por outro lado, as lideranças nos partidos ganham-se com o apoio das estruturas distritais e locais, e não é certo que Montenegro (que nem o distrito de Aveiro tem do seu lado) consiga dominar este xadrez. Resta saber de que lado se vão posicionar as peças-chave quando foram divulgados os resultados eleitorais e (se) Rui Rio sair de cena.

Porquê o “Às”: É o líder da oposição interna desde o dia em que Rui Rio ganhou as diretas contra Santana Lopes, e em janeiro (ou dezembro), quando houver novas diretas, é um dos que tem mais hipóteses de ganhar.

Rangel, come back kid ou dona Constança?

Vinte e um vírgula noventa e quatro por cento. Este podia ser o número do fim das ambições políticas de Paulo Rangel no PSD. Depois da derrota histórica em maio, já se previa um exílio de mais cinco anos para Paulo Rangel em Bruxelas. Mas na última sexta-feira, 6, Rangel fez uma demonstração de força que foi lida por potenciais apoiantes e opositores como um dizer “presente” no futuro do PSD. Na conferência-almoço no International Club, em Lisboa, os barões não faltaram à chamada: Nuno Morais Sarmento, José Luís Arnaut, Mira Amaral e Miguel Frasquilho. Até Miguel Pinto Luz, um possível adversário de Rangel na corrida à liderança, esteve presente. Se assim for, Rangel pode ser um “Às” e baralhar as contas, mas, para já, avançar ou não avançar é a grande dúvida. Para isso, há muitos fatores a ter em conta, incluindo o próprio resultado do PS, porque não vai ser indiferente ser líder do PSD com um PS em maioria absoluta ou em governo minoritário. A verdade é que, depois de ter sido dado como certo na corrida de há dois anos (que seria uma corrida contra Rio) e ter recuado em cima da hora, Paulo Rangel corre o risco de se transformar numa espécie de António Vitorino do PSD — “Não há festa nem festança, sem a dona Constança” — se perder mais uma oportunidade de ir a jogo.

A intervenção de Rangel no famoso almoço não foi sobre política partidária, mas a pergunta do público lá acabou por chegar. Questionado sobre se podia ser uma voz do futuro do PSD, respondeu: “Sou uma voz do passado, do presente e do futuro, como todas.” Como o próprio gosta de dizer, não se exclui (nem se inclui) de uma futura candidatura à liderança.

Entre os “montenegristas” admite-se que Rangel seria “o candidato mais forte, o mais bem preparado” e o que poderia trazer mais problemas ao antigo líder parlamentar, já que ia existir uma “bipolarização Rangel-Montenegro”. A mesma fonte “montenegrista” não acredita, no entanto, que Rangel avance: “Há dois anos podia ter avançado em melhores condições e não avançou, porque havia de avançar agora com os despojos de Rio? Na altura vinha de uma derrota honrosa, agora vem de uma derrota humilhante”. Pelo sim, pelo não, os montenegristas avisam que Rangel seria sempre o “candidato da continuidade”. Já um apoiante de Rio presente no almoço, registou que “Pinto Luz saiu do almoço preocupado”.

Por outro lado, sem Rio na corrida, se conseguisse o apoio da sua distrital (o Porto), Braga (é próximo de José Manuel Fernandes) e Aveiro (com a ajuda de António Topa e Malheiro, que estarão sempre contra Montenegro) podia ter uma boa base para atacar a liderança. Há ainda o facto curioso de, num espaço de mais de 30 anos, Paulo Rangel ser o único segundo classificado em eleições internas no PSD desde a luta João Salgueiro-Cavaco da Figueira da Foz, que não foi líder do partido antes ou depois dessa medalha de prata. Todos os outros que ficaram em segundo – Marques Mendes, Luís Filipe Menezes, Pedro Santana Lopes e Pedro Passos Coelho -, chegaram a líderes.

Ponto forte: Tem estatuto de notável do partido e poderia ter o apoio de distritais importantes.

Ponto fraco: A pesada derrota nas últimas eleições europeias e estar em início de um novo mandato no Parlamento Europeu.

Porquê o “Ás”: Pode ser o rosto de um dos dois principais lados da barricada. Ou seja: o principal adversário de Montenegro. Além de poder vir a ter apoio de vários barões assinalados, pode ter as armas do aparelho deixado órfão por Rui Rio.

Pinto Luz mal pode esperar para ser rei

Miguel Pinto Luz é, dos anunciados candidatos à liderança, aquele que parece estar mais impaciente para lá chegar. É quem dá mais entrevistas, quem fala mais sobre o assunto e o que não admite a hipótese de não ir a jogo. Nas diretas optou por não escolher nenhum dos blocos (nem Santana, nem Rio) e foi uma espécie de não-alinhado anti-Rio e crítico do Santana. Depois disso, ainda Rui Rio não tinha sido empossado como líder e já Pinto Luz lhe enviava uma carta aberta (que ficou sem resposta), na qual lhe exigia a vitória nas legislativas. Era um aviso: se perder, tem de fazer as malas.

Meses depois, em entrevista ao Observador, deixava implícito que seria candidato a líder quando houvesse as próximas eleições: “Não sou candidato a nada porque não há eleições marcadas. Mas não me excluo do futuro do meu partido.” Em janeiro de 2019, Pinto Luz voltava à carga nas críticas à direção e, em entrevista à Visão, defende que as sondagens são más para o PSD porque “não há oposição em Portugal a apresentar um modelo alternativo.”

Pouco depois, um grupo de líderes distritais operou uma tentativa de derrubar Rui Rio. Pinto Luz voltou a ser prudente. No seu calendário estava o pós-legislativas e resistiu a pedir a cabeça de Rio. O resguardo colocou-o numa “win-win situation”: se a ala Montenegro ganhasse, ia a votos; se a ala Montenegro perdesse, via um adversário direto perder uma batalha. Aconteceu a segunda. Pinto Luz não abandonou o espaço mediático e deu mais uma entrevista, desta vez ao Diário de Notícias, em junho, para dizer que não é candidato anunciado, mas tem um projeto pronto: “Eu tenho um conjunto de ideias para o meu país que, na devida altura, quero muito apresentar aos militantes do meu partido e aos portugueses, mas esta não é a altura, esta é a altura da união”. Na altura justificou o facto de não ter estado na campanha das Europeias com o facto de ter sido pai.

Miguel Relvas lançou-o como potencial candidato à liderança numa entrevista ao Expresso em setembro de 2017. Na altura, muitos dos seus potenciais opositores se riram com desdém, mas agora já o veem como um adversário a sério. Terá nas suas tropas a “ala Carreiras” do distrito de Lisboa e fala-se nos bastidores que pode ter parte do distrito de Setúbal. A seu favor tem também o facto de ter sido “vetado” como candidato a deputado por Rui Rio. Deu-lhe o epíteto de mártir. O antigo secretário de Estado José Eduardo Martins saiu em sua defesa e fez-lhe rasgados elogios. “[Pinto Luz] é mesmo dos melhores, um dos nossos melhores autarcas, um dos que mais se interessam e pensam no futuro”, escreveu no Facebook.

Ponto forte: Um eventual apoio de Miguel Relvas e de parte da distrital de Lisboa.

Ponto fraco: Não é conhecido das bases.

Porquê “rei”?: Se a corrida for bipolarizada entre Montenegro e Rangel (os ases), ou mesmo entre Rio e Montenegro, não terá muitas hipóteses, mas se os ases se forem afastando passa a ser das cartas mais bem pontuadas (leia-se, com mais hipóteses) no baralho.

Moreira da Silva na rua do Chateau à Lapa

Depois do desaire eleitoral de 26 de maio, dia das eleições Europeias, Moreira da Silva escreveu um artigo no Expresso a posicionar-se para a liderança. No artigo, Jorge Moreira da Silva era muito crítico de Rui Rio e disse claramente que “a responsabilidade por este desastre eleitoral e por esta humilhação, que os militantes do PSD não mereciam, reside única e exclusivamente na estratégia e gestão política da liderança do PSD”. A 13 de junho, na RTP, Moreira da Silva admitiu que — caso Rui Rio tivesse aceitado clarificar a liderança após a crise no PSD — “tinha sido candidato”. E não excluiu a hipótese de avançar depois de outubro: “Nessas circunstâncias teria sido candidato, no futuro se verá.”

Está há praticamente três anos como diretor para o Desenvolvimento e Cooperação da OCDE, em Paris, mas nunca deixou de desenvolver trabalho cívico na Plataforma para o Crescimento Sustentável, onde tem figuras de vários quadrantes políticos. O seu mandato na OCDE foi renovado por três anos e, se assim quiser, aquele cargo é seu até outubro de 2022. O que não significa que continue pelo Château de la Muette, a sede da OCDE.

Em tempos, Jorge Moreira da Silva chegou a ser visto como o sucessor preferido de Pedro Passos Coelho quando o então líder do PSD o colocou como primeiro vice-presidente com o pelouro da coordenação política. São amigos, mas Passos nunca se quererá envolver em apoios à liderança. Embora afastado das lides partidárias, Marcelo Rebelo de Sousa, nas suas inevitáveis análises à situação política, também vê Moreira da Silva como um dos possíveis futuros candidatos à liderança do PSD. Moreira da Silva colocou o pé na porta.

Ponto forte: Não tem anti-corpos no partido e é nome do agrado de Passos e Marcelo.

Ponto fraco: Está afastado das lógicas de aparelho.

Porquê o “Joker”?: Jorge Moreira da Silva é o joker porque é uma carta que não entra na maior parte dos jogos, mas que surpreende quando aparece.

Miguel Morgado? Presente

Independentemente do resultado eleitoral do PSD a 6 de outubro, Miguel Morgado vai ser candidato nas próximas eleições internas do partido, que acontecem inevitavelmente dois ou três meses depois das legislativas (podendo ser antecipadas se houver uma hecatombe). Pelo menos é isso que tem dito desde que, nos finais de 2017, o partido ficou reduzido a Rio e Santana: Foi um “erro” não ter havido mais candidatos. Na altura, foi um mea culpa, mas também um desafio a um debate mais participado. A ideia é: todos os que considerem que têm algo a propor ao partido devem ir a jogo, porque o PSD é maduro o suficiente para conseguir ter uma discussão ampla e civilizada, sem correr o risco de sofrer golpes baixos. E para haver a tal discussão ampla e civilizada, é preciso protagonistas.

Foi nesse âmbito, para dar um contributo à discussão, que Miguel Morgado criou este ano o Movimento 5.7, para dar voz àquilo que chama o “espaço não-socialista”. Isto é, o espaço político no centro-direita que rejeita o projeto político socialista e que de maneira nenhuma equacionaria negociar medidas ou orçamentos com o PS. Por isso, haja meios financeiros e haja assinaturas (isso não será problema: são apenas precisos 1500 militantes com capacidade eleitoral) e Miguel Morgado dirá “presente” quando o PSD fizer a chamada.

Ponto forte: Não se propõe a vencer, por isso não tem obrigatoriedade de ganhar e, por isso, um resultado pífio não será visto como uma derrota.

Ponto fraco: É uma carta isolada, que vale apenas os seus próprios pontos. Não tem, no partido, uma vaga de apoio real.

Porquê a “Dama”?: Porque das cartas que valem pontos, é a que vale menos. Ou seja, ao ir a jogo, Miguel Morgado conta para a pontuação final, mas a sua prestação será meramente simbólica e ideológica. Não tem reais hipóteses de vencer.

Pedro Duarte, de candidato a líder a candidato a vice

Foi o primeiro a chegar-se à frente, mas agora aparece em último na corrida. Em agosto de 2018, apenas seis meses depois de Rui Rio assumir a liderança do PSD, Pedro Duarte deu uma entrevista ao Expresso onde afirmou que “o PSD deve mudar de estratégia e de líder”, e onde se mostrou “disponível” para isso. Na altura, dizia que a mudança na liderança do partido deveria ocorrer “tão cedo quanto possível”. Pedro Duarte surpreendeu pelo timing e foi acusado de não dar espaço ao novo presidente para mostrar o que vale. Houve quem encarasse como uma jogada para marcar terreno e para não deixar fugir apoios para outras bandas, mas foi cedo demais.

Desde aí, dedicou-se à criação de um movimento político (não partidário) que foi encarado como uma espécie de programa alternativo ao de Rui Rio. Chamado de Movimento X, porque o X é um símbolo que junta uma seta a apontar para a esquerda (>) e uma seta a apontar para a direita (<), Pedro Duarte pretendia “convergir ideias da direita e da esquerda para o centro”, porque  “o centro é o bem-estar dos portugueses e a política não pode ser uma guerra da esquerda e da direita”. Luís Montenegro foi o convidado-surpresa do evento de apresentação do Manifesto e esse foi o primeiro sinal daquilo que viria depois a ser assumido por várias fontes no partido: Pedro Duarte já não pensa avançar com uma candidatura própria, mas deverá apoiar a candidatura de Montenegro, e, quem sabe, vir a ter um lugar de vice na sua direção.

Ponto forte: A rede que tem no partido, desde os tempos em que foi líder da Jota, que podia ser útil num momento de colher apoios.

Ponto fraco: Picou o ponto cedo demais, criou expectativas e afinal foi só fogo de vista.

Porquê o “Duque”: Porque é uma carta dispensável, que não entra para as contas. É agora consensual no partido que Pedro Duarte está fora da corrida. Até porque deverá apoiar outro candidato.

Carlos Moedas não vai andar por aí

Carlos Moedas vai ser comissário europeu até 31 de outubro — mesmo na fase em que o PSD se começa a movimentar para novas diretas — e, por isso, seria um dos nomes que podia perfilar-se para a corrida à liderança. Mas o social-democrata aproveitou o calor do final de agosto em Monsaraz, durante o SummerCEmp da comissão europeia, para dizer: “Acabei a minha parte da política. Vou fazer qualquer coisa que não seja na política“. Explicou que, depois de ser comissário, já “não faria nada tão bonito” como o papel que desempenhou no colégio de comissários.

Nesse mesmo dia, em declarações ao Observador, reiterava que o seu objetivo “agora não é voltar para a política” e que será apenas um “militante base do PSD”. A curto prazo, dizia, há “muitas coisas” que Moedas quer fazer “seja na ciência, seja no projeto europeu”. Mas deixava em aberto outros voos para mais tarde: “Depois, o futuro dirá”.

Moedas tinha vindo a marcar algum terreno no PSD. No último congresso, apresentou mesmo uma moção sectorial com Pedro Duarte sobre desigualdades sociais. O modo como Pedro Duarte foi correspondendo a solicitações do partido, sugeria que estaria disponível a envolver-se na vida partidária. Mas a estratégia é não se envolver, para já. Como foi comissário, entra para a categoria de notáveis do partido. Está a resguardar-se para mais tarde e, por isso, resta-lhe, para as próximas eleições, escolher um dos lados da barricada. A dúvida é saber qual será a sua aposta.

Ponto forte: Estatuto que adquiriu como comissário europeu e ausência de anti-corpos no partido.

Ponto fraco: Pouca influência na estrutura e junto das famosas bases do partido.

Porquê o “Duque”: Ao colocar-se de fora e não tendo capacidade de mobilização no aparelho vai contar pouco para as próximas diretas.

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