A apresentação do Manifesto X, de Pedro Duarte, estava marcada para as 18h30, mas só arrancou minutos depois das 19h. Porquê? Porque o ex-secretário de Estado do PSD e ex-líder da JSD esperava por um convidado especial, que tardava em aparecer: Luís Montenegro, o ex-líder parlamentar do PSD que em janeiro desafiou a liderança de Rui Rio no PSD e que, soube-se agora, vai-se ausentar temporariamente da política nacional para estudar “liderança” em Paris. Montenegro chegou discretamente e a sua chegada foi o tiro de partida para Pedro Duarte pegar no microfone e começar a apresentar aquele que diz ser um “movimento cívico”, não partidário, que pretende desafiar os cidadãos a pensar o futuro daqui a dez anos sem olhar a disputas partidárias internas. Uma missão que parece difícil quando no mesmo rooftop onde decorreu a apresentação se encontravam dois dos principais adversários de Rui Rio dentro do PSD — embora ali estivessem na qualidade de “amigos”. Um do outro.

“Somos amigos há anos, fomos aliás colegas de curso há 25 anos”, explicou aos jornalistas Pedro Duarte quando questionado sobre o apoio-relâmpago de Luís Montenegro. Relâmpago porque Montenegro saiu da mesma forma que entrou: discretamente e sem levantar ondas, ou seja, sem prestar declarações à comunicação social. Admitindo que foi ele próprio que o convidou — porque “convidou os amigos” –, Pedro Duarte mostrou-se “sensibilizado” pela presença do “amigo que veio dar um abraço”. O abraço, de facto, Luís Montenegro deu. Mas saiu sem mais delongas.

O facto de Pedro Duarte, no verão passado, já se ter mostrado “preparado para liderar uma nova estratégia no PSD”, e o facto de Luís Montenegro ter desafiado a liderança de Rui Rio em janeiro, e perdido depois de Rio ganhar uma moção de confiança no Conselho Nacional, não é aparentemente para aqui chamado. “A questão das candidaturas alternativas ao PSD não se coloca, é especulativo”, diz Pedro Duarte, insistindo na ideia de “unidade” dentro do partido — pelo menos até ao próximo congresso, depois das eleições, onde, aí sim, se vai voltar a discutir a liderança do PSD. Foi precisamente essa a meta que traçou para voltar a falar de “lideranças”: “Há um congresso depois das legislativas, essa é a altura adequada”, disse.

Até lá, diz, é tempo de “unidade”. “Este não é o momento para fazer especulações. O melhor serviço que posso prestar ao PSD e ao país neste momento é a unidade”, disse ainda aos jornalistas, defendendo que o Manifesto X, cujas primeiras 100 medidas hoje divulga, não é mais do que “um espaço complementar ao trabalho dos partidos”, que, ainda para mais, estão nesta altura a preparar os seus programas eleitorais.

Um movimento que aponta para o centro. Porque é aí que está “o bem-estar das pessoas”

O símbolo do “movimento”, colocado em cima do palanque onde Pedro Duarte se preparava para falar, é um X e isso não é por acaso. Um X é, ele próprio, um símbolo que junta uma seta a apontar para a esquerda (>) e uma seta a apontar para a direita (<). A ideia é, portanto, “convergir ideias da direita e da esquerda para o centro”, explica o ex-líder da JSD a alguns jornalistas enquanto fazia um compasso de espera para arrancar a sessão. “O centro é o bem-estar dos portugueses e a política não pode ser uma guerra da esquerda e da direita”, acrescentou o apresentador antes de dar a palavra a Pedro Duarte.

Num folheto distribuídos aos convidados constavam as 10 metas que o movimento prevê para os próximos 10 anos, e que vão desde “chegar ao top 10 do ranking da felicidade mundial (Portugal está em 67º)” a “baixar a taxa de incidência de pobreza para menos de 10% (que é de 17%)”, passando por “reduzir a dívida pública para 75% do PIB (está em 118% em 2019)” ou por “ter 99% dos serviços digitalizados”. Não querendo ser exaustivo nas metas, Pedro Duarte optou antes por lançar um desafio: uma espécie de “10 year challenge” mas para o futuro, não para o passado. Ou seja, olhar para a próxima década e decidir que país queremos. “O mundo mudou muito em 10 anos e vai mudar de forma mais acelerada ainda nos próximos 10 anos”, disse.

Um rápido exercício de memória não deixa enganar: “O carro demorou 62 anos a atingir 50 milhões de utilizadores, a televisão demorou 22 anos a atingir os 50 milhões de utilizadores, a internet demorou 7 anos a atingir os 50 milhões de utilizadores, o Facebook demorou 3 anos a atingir 50 milhões e o jogo Pokemon Go demorou 39 dias a atingir 50 milhões de utilizadores”, disse, para fazer valer o ponto de que a mudança está a ocorrer a uma “velocidade galopante” e não vai parar, com todas as oportunidades e desafios que isso acarreta. Por isso, “os próximos 10 anos podem ser fantásticos e a nossa geração tem a responsabilidade de aproveitar as oportunidades desta década, para dar às novas gerações um futuro melhor”, disse.

O caminho para lá chegar, na sua opinião, passa por “apontar para o centro” (tal como as setas do X apontam), porque é no centro que está o “bem-estar das pessoas”. E isso é um fim em si mesmo. “É fundamental apostarmos no crescimento económico mas isso é um meio, não é um fim em si mesmo”, disse, sublinhando que o fim é o bem-estar, a felicidade das pessoas. “São as políticas públicas que têm de contribuir para um país mais equitativo, mais justo, com mais qualidade de vida para as pessoas”, disse, pedindo que o poder político lute por “causas mobilizadoras” para a sociedade portuguesa. Esse, no seu entender, será o motor do progresso.

Numa curta apresentação de intenções, onde não se demorou na explicação de ideias concretas (são 100 as medidas hoje divulgadas), Pedro Duarte fez prova de vida e disse “presente”. Para já, apenas no plano das ideias. Depois, seguem-se “tertúlias” para explicar essas mesmas ideias — a primeira será no Bairro Alto, dedicada ao tema da Transparência, segue-se um momento de discussão na Covilhã sobre “Solidão e Idosos” e está ainda previsto um outro momento, em Coimbra, sobre Natalidade. E, depois, logo se verá. A liderança do PSD discute-se no próximo congressso que, se não houver surpresas, será em fevereiro.