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Há mais casos, mais surtos, mas menos mortes? Estamos ou não na segunda vaga? Verdades, mentiras e incógnitas /premium

Há mais casos, mas menos mortes e isso são boas notícias. A segunda vaga pode ser evitada se as medidas de restrição forem seguidas à risca. Mas, a existir, não se sabe se será pior do que a primeira.

Desde abril que Portugal não tinha números tão elevados de novos infetados pelo coronavírus: 646 novos casos na quarta-feira, tantos quanto os que tinham sido registados durante a fase do pico da epidemia, a 20 de abril, e a menos de uma semana do regresso dos jovens às aulas e de muitos adultos ao trabalho. Em 196 dias de Covid-19 no país, desde que a 3 de março foram registados os primeiros quatro casos, 9 de setembro foi mesmo o 16.º pior.

Esta quinta-feira, o número de novos casos baixou para os 585, mas isso não bastou para tranquilizar as autoridades. Os últimos relatórios da Direção-Geral da Saúde surpreenderam os especialistas o que, somando às declarações feitas na reunião com os políticos na segunda-feira, trazem novamente ao debate o que se deve esperar no futuro, agora que Portugal vai entrar de novo em estado de contigência.

Se em Espanha os gráficos dos novos casos diários já indicam a chegada de uma segunda vaga da Covid-19, estará ela a entrar em Portugal também? O que se deve esperar desta segunda onda? E qual é o papel dos surtos (e dos testes) na realidade epidémica no país? Os mitos, as confirmações e as dúvidas sobre a segunda vaga.

Desde o pico da pandemia que novos casos diários entre os 20 e 30 anos não aumentavam tanto

Há mais casos mas menos mortes?

De acordo com os dados que têm sido fornecidos pelas autoridades de saúde portuguesas, sim. Em Portugal, o número de novos casos diários de infeção pelo novo coronavírus alcançou um pico entre o final de março e o início de abril, mas abrandou em meados de maio. Depois disso, acompanhando o ritmo do desconfinamento delineado pelo governo em parceria com os especialistas, o número de novos casos de Covid-19 voltou a aumentar ligeiramente.

O Our World In Data, que elenca os dados enviados pelas autoridades de saúde ao Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, mostra que os gráficos dos casos diários no país entraram nessa fase num planalto em que os números de novas infeção não diminuiram consideravelmente, mas também não aumentaram muito. Desde o final de agosto, no entanto, os casos confirmados de infetados pelo novo coronavírus começaram a subir e esta quarta-feira soaram os alarmes quando os números ultrapassaram os 600, o que não se via desde abril. Terá a segunda vaga chegado a Portugal?

Ainda há dúvidas sobre esta pergunta, mas já lá vamos. Certo é que a este aumento de casos não há uma correspondência de subida do número de mortes por Covid-19. Fazendo o mesmo exercício de análise aos gráficos da epidemia em Portugal percebe-se que, se o número de vítimas mortais foi especialmente alto até meados de junho, baixou muito depois e estabilizou a partir daí e até agora, sem refletir a subida de infetado.

Aliás, é o que transparece também a evolução da taxa de letalidade. Até ao início de junho, quatro em cada 100 pessoas infetadas pelo novo coronavírus acabava por morrer por complicações provocadas pela Covid-19. Mas desde aí que a taxa de letalidade tem diminuído com solidez, estando agora pouco acima dos 3% (uma ligeiríssima subida).

O motivo parece claro para os especialistas: depois do confinamento, a maior fonte de infetados pelo SARS-CoV-2 são os mais jovens, mais resistentes ao vírus. Ainda na quarta-feira, a faixa etária dos 20 aos 29 anos registou o maior aumento diário de infetados desde abril: com 125 dos novos casos, representava 19% do total daquele dia. O intervalo etário com menos novos casos era o dos idosos com 80 anos ou mais.

É um cenário que contrasta com o início da epidemia em Portugal, quando grande parte dos infetados eram idosos, um grupo populacional cujo sistema imunitário, por ser mais frágil, não é tão capaz de fazer frente ao vírus. Por isso é que, mesmo com menos infetados a morrer de Covid-19, a maior parte das vítimas mortais continuam a ser os mais velhos.

Certo é que a este aumento de casos não há uma correspondência de subida do número de mortes por Covid-19. Fazendo o mesmo exercício de análise aos gráficos da epidemia em Portugal percebe-se que, se o número de vítimas mortais foi especialmente alto até meados de junho, baixou muito depois e estabilizou a partir daí e até agora, sem refletir a subida de infetado.

Em Espanha, isso é ainda mais visível. Com segunda vaga dada como certa, basta olhar para os gráficos para compreender porquê. Em março e abril, o número de novos casos diários subiu para lá dos 9.000. Mas depois desceu até aos cerca de 200 e manteve-se assim até ao início de julho. Até que os casos de Covid-19 voltaram a disparar para valores que chegam por estes dias a ultrapassar os da primeira vaga.

Ainda assim, o número de mortes só ultrapassou os 100 uma vez desde meados de junho — longe das quase mil mortes diárias por Covid-19 que chegaram a ser registadas no início da epidemia. E a taxa de letalidade, apesar de ser superior à de Portugal — na segunda-feira era de 5,6% em Espanha — tem descido dia após dia desde 20 de junho, após um período de estabilidade entre os finais de maio e meados de junho.

Há mais casos porque se estão a fazer mais testes?

As contagens das autoridades de saúde portuguesas reportadas ao Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças mostram que o número de testes de deteção ao novo coronavírus feitos diariamente em Portugal esteve em ascensão desde o início da epidemia até meados de junho. No entanto, depois disso, e apesar de algumas flutuações, manteve-se mais ou menos regular.

O número de testes que se fazem atualmente é ligeiramente superior ao que se fazia no final de maio e início de junho. De acordo com a plataforma Our World In Data, os últimos três picos no número de testagem foi de 17.014 a 1 de setembro, 17.674 a 25 de agosto e 18.242 a 18 de agosto. Em finais de maio e início de junho, quando o número começou a estabilizar, os testes diários também rondavam os 17 mil. Já esta quinta-feira, na conferência de imprensa onde o governo anunciou as novas regras a vigorar durante o estado de contingência, António Costa afirmou que o país tinha alcançado um novo recorde no número de testes diários: mais de 20 mil.

Ao longo do final do último mês, o número de testes por novo caso de Covid-19 baixou bruscamente e ronda agora os 45. Ou seja, apesar de o número absoluto de testes diários se ter mantido mais ou menos constante, são precisos menos testes para identificar um novo infetado com o novo coronavírus.

Acontece que, mesmo considerando este aumento ligeiro, são precisos fazer cada vez menos testes para se encontrar um caso positivo de infeção pelo novo coronavírus. É o que revela a métrica sobre quantos testes são feitos até se detetar uma nova pessoa com Covid-19 em Portugal. Desde meados de julho até meados de agosto, eram precisos cerca de 80 testes para detetar um caso positivo de Covid-19.

Durante a semana de 16 a 22 de agosto, essa média baixou e estabilizou nos cerca de 65 testes por caso positivo. Depois disso, ao longo do final do último mês, o número de testes por novo caso de Covid-19 baixou bruscamente e ronda agora os 45. Ou seja, apesar de o número absoluto de testes diários se ter mantido mais ou menos constante, são precisos menos testes para identificar um novo infetado com o novo coronavírus.

O aumento de casos tem a ver com o aumento dos surtos?

Não necessariamente com o aumento do número de surtos, mas com a natureza desses surtos. Em entrevista ao Observador, Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e docente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explicou que “o aumento do número de casos é sempre causado pelo aumento do número de contactos entre pessoas e/ou pela maior contagiosidade desses contactos”, isto é, se esse contacto foi ou não feito com máscara, por exemplo.

É por isso que, de acordo com o especialista, que foi também um dos intervenientes na reunião com os políticos na segunda-feira, “as perguntas a fazer são, portanto, onde e porquê ocorreram mais contactos contagiosos entre os portugueses nas primeiras três semanas de agosto”. Essas respostas revelam as razões do aumento de casos. “Uma fatia importante” da resposta está na “entrada do vírus em residências de idosos”; outra parte está relacionada com “os contactos entre co-habitantes”; e uma terceira fatia, mais pequena, “ocorreu em contexto laboral”.

“Os cuidadores de lares poderão ter contraído a infeção no próprio contexto familiar? Aparentemente sim. Como é que o vírus entrou nos agregados familiares? Provavelmente por cadeias de transmissão locais, relativamente limitadas em dimensão”, projeta Manuel Carmos Gomes. As boas notícias? “As equipas de saúde pública têm em geral conseguido reconhecer estas cadeias, porque o aumento de casos não tem sido descontrolado. Por outras palavras, não tem havido um aumento exponencial do número de novos casos”. Pelo menos até ver, resta saber o que acontece agora depois do regresso às aulas e ao trabalho depois das férias.

"As perguntas a fazer são, portanto, onde e porquê ocorreram mais contactos contagiosos entre os portugueses nas primeiras três semanas de agosto". Essas respostas revelam as razões do aumento de casos. "Uma fatia importante" da resposta está na "entrada do vírus em residências de idosos"; outra parte está relacionada com "os contactos entre co-habitantes"; e uma terceira fatia, mais pequena, "ocorreu em contexto laboral".
Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e docente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Já estamos na segunda vaga de Covid-19?

Depende a quem perguntar. Gabriela Gomes, epidemiologista, investigadora da Escola de Medicina Tropical de Liverpool e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, já “estamos na segunda onda” porque “a epidemia, tendo recedido durante algum tempo, a partir de certa altura voltou a ter um crescimento sustentado da incidência da doença”.

Mas nem todos os especialistas concordam com ela. Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular, já tinha partilhado com o Observador que, a seu ver, estamos a assistir apenas a “flutuações dinâmicas do mesmo fenómeno”: “Só se justificará falar em segunda vaga quando acontecer algo radicalmente diferente, algo que permita dizer que uma pessoa teve Covid-19 e a outra teve Covid-20; ou em que haja um aumento do número de casos que seja claramente uma nova fase em termos de infeção”.

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Numa entrevista ao Observador em agosto, Pasi Penttinen, especialista em imunização do Centro Europeu de Prevenção e Controlo da Doença (ECDC), disse até que “evitaria usar a dicotomia de primeira e segunda onda”: “Estamos no meio da primeira onda na Europa e globalmente. Só vimos declínios [no número de casos] na Europa, por causa das medidas de distanciamento físico. O vírus não mudou a dinâmica. No momento em que relaxarmos essas medidas, vão criar-se oportunidades para o vírus se espalhar novamente”, respondeu ele.

É uma dinâmica que Manuel Carmo Gomes também já descrevera ao Observador numa entrevista em agosto. Segundo ele, os padrões por vagas das doenças “dependem essencialmente do número de pessoas que são suscetíveis à doença”. No caso de agentes infecciosos que infetam muita gente rapidamente, o número de pessoas que podem apanhar a doença diminui rapidamente e nem o número de nascimentos, nem o número de pessoas que perde a imunidade conseguem repor a população suscetível — ocorre então uma epidemia. Mas no caso de doenças que infetam pouca gente ou mais lentamente, o número de pessoas infetadas mantém-se mais estável ao longo do tempo.

A Covid-19 é provocada por um vírus capaz de infetar muita gente rapidamente, ou seja, enquadra-se no primeiro caso. No entanto, continua a haver muita gente suscetível de ser infetada pelo novo coronavírus, uma vez que grande parte da população entrou em confinamento, cumpriu o distanciamento físico e, mais tarde, passou a utilizar máscara e a adotar novos hábitos de higiene respiratória.

Por isso, quando algumas dessas medidas começaram a ser levantadas, o número de infetados também voltou a aumentar. Daí que a primeira vaga não teve um pico súbito que se alastrou por todo o lado e teve um decréscimo muito grande, a roçar os zeros casos diários. “Nós tivemos um pico mas, com o desconfinamento, o vírus encontrou novamente condições para alastrar. Neste momento, estamos na primeira vaga, a meio de combate, à procura de um equilíbrio: o número de novos casos não desce muito, mas também não sobe muito”, defendeu Miguel Castanho.

É assim também que o epidemiologista justifica o aumento do número de casos nos últimos dias: terá havido uma “alteração nos comportamentos” da população nas últimas semanas que provocou um “aumento de contactos” ou uma capacidade inferior de cumprir os cuidados aconselhados pelas autoridades de saúde. Apesar de não ser um aumento “descontrolado”, é “inesperado”.

É assim também que o epidemiologista justifica o aumento do número de casos nos últimos dias: terá havido uma "alteração nos comportamentos" da população nas últimas semanas que provocou um "aumento de contactos" ou uma capacidade inferior de cumprir os cuidados aconselhados pelas autoridades d saúde. Apesar de não ser um aumento "descontrolado", é "inesperado".
Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular

Será pior do que a primeira vaga, como aconteceu na Gripe Espanhola?

Para Manuel Carmo Gomes, as comparações com a pandemia gripal de 1918 “não são boas conselheiras”. Nessa época, “não se sabia o que é um vírus e muito menos se sabia como é que eles causam doença”, “não havia antibióticos que permitem hoje tratar complicações bacterianas de infeções virais” e “não se compreendia a dinâmica da propagação de doenças infecciosas”.

Tudo isto mudou nos últimos 100 anos. “Hoje sabemos que há uma fração muito larga da população que ainda é suscetível a contrair Covid-19 e por isso não baixamos a guarda no que respeita às medidas que travam a propagação do vírus”. Mesmo tendo em conta que uma segunda vaga da Covid-19 pode mesmo acontecer, visto que o R (número médio de contágios causados por cada pessoa infetada) do vírus SARS-CoV-2 é elevado e a maioria da população é suscetível, continua a ser “muito improvável que nos apanhe de surpresa como aconteceu aos nossos avós e bisavós do início do século XX”.

Ao Observador, Miguel Castanho já tinha explicado as circunstâncias que tornaram a segunda vaga da Gripe Espanhola pior do que a primeira. Há 100 anos, a primeira vaga ocorreu nos Estados Unidos, depois alastrou para a Europa com o recrutamento de tropas durante a I Guerra Mundial.

“A determinada altura, no inverno de 1918, quando começou a segunda vaga, aquilo que se nota é que, em áreas geográficas muito bem definidas, começou a morrer muita gente. A mortalidade associada à doença é muito maior do que se verificava antes. A partir daí, alastrou uma nova epidemia que se tornou pandémica e morreu muita gente”, contou o bioquímico.

É assim também que o epidemiologista justifica o aumento do número de casos nos últimos dias: terá havido uma "alteração nos comportamentos" da população nas últimas semanas que provocou um "aumento de contactos" ou uma capacidade inferior de cumprir os cuidados aconselhados pelas autoridades d saúde. Apesar de não ser um aumento "descontrolado", é "inesperado".
Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular

Mas a segunda vaga teve uma agravante: o surgimento de uma nova estirpe do vírus, mais perigosa e com tendência a atacar os mais jovens com exceção das crianças. “Era um vírus que era mais inofensivo para as faixas etárias mais frágeis da população”, explicou Miguel Castanho, o que o torna diferente do SARS-CoV-2, que parece ser mais perigoso para os idosos e para os recém-nascidos do que para as faixas etárias mais jovens. Tal como dito anteriormente, mesmo que o novo coronavírus se tenha tornado mais contagioso desde o início da pandemia, nada indica que provoque uma doença mais grave do que tem sido reportado até agora.

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Se a segunda vaga for pior que a primeira, a culpa será da gripe?

Mais uma vez, não necessariamente. É certo que os sintomas da gripe e das constipações, assim como de outras infeções virais do trato respiratório, podem ser muito semelhantes aos primeiros dias de doença por Covid-19 — tão semelhantes que, numa fase inicial, pode ser difícil distingui-las. Por causa disto, “na época gripal, pode haver um aumento do número de pessoas a contactar a linha SNS 24 ou outras criadas para o efeito” e “haverá também necessidade de mais testes para saber se se trata de Covid-19”, antecipa Manuel Carmo Gomes.

Quer o país esteja numa segunda vaga da Covid-19, quer não, o inverno e a época gripal que ele traz pode trazer mais desafios no combate à epidemia em Portugal. É que, se o aumento de contactos com o sistema de saúde e dos testes for muito acentuado, “o tempo médio para receber o resultado de um teste aumenta, e com isto atrasa-se o início do período de isolamento de um doente de Covid-19, logo, espera-se mais transmissão da doença”, indica o especialista.

“Um outro aspeto perigoso”, prossegue, “diz respeito ao quadro clínico de uma co-infecção de Covid-19 e gripe” — isto é, o caso de uma pessoa que esteja infetada pelo novo coronavírus mas também pelo agente infeccioso que provoca a gripe. “Penso que ainda não se sabe muito sobre as consequências da co-infeção“, aponta Manuel Carmo Gomes, por isso , este é “um assunto a seguir com atenção”.

se o aumento de contactos com o sistema de saúde e dos testes for muito acentuado, "o tempo médio para receber o resultado de um teste aumenta, e com isto atrasa-se o início do período de isolamento de um doente de Covid-19, logo, espera-se mais transmissão da doença", indica o especialista.
Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e docente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Apesar destes alertas, o epidemiologista diz-se “relativamente otimista” em relação à interação da Covid-19 com a gripe: “As medidas que adotamos para evitar a transmissão da Covid-19 também evitam a transmissão de outros vírus respiratórios. O R da gripe é claramente inferior ao do vírus SARS-CoV-2. Penso que há razões para esperar uma época gripal muito mais amena do que a média de anos anteriores”.

Pode haver reinfeções?

Pode, mas pensa-se que não serão muitas nem desenvolverão quadros graves de Covid-19. No final de agosto, uma equipa de investigadores da Universidade de Hong Kong anunciou um possível caso de reinfeção pelo novo coronavírus: um homem de 33 anos que apanhou Covid-19 foi dado como curado e, quatro meses e meio depois, foi diagnosticado com a segunda infeção. Outros casos semelhante surgiram desde então, incluindo nos Estados Unidos, Holanda e Bélgica.

Ainda assim, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou estes casos “quase irrelevantes” do ponto de vista estatístico. Em conferência de imprensa, Maria Van Kerkhove, líder técnica da organização, defendeu que “apenas houve uns poucos casos de reinfeção” e “até agora não foram muito relevantes”.

Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, foi mais longe e disse ainda que “não há nenhuma prova inequívoca, nem em Portugal nem em nenhum país, que exista reinfeção”. Para a líder da DGS, o facto de algumas pessoas terem testado positivo para o novo coronavírus depois de terem testado negativo no passado “não quer dizer que tenham partículas viáveis de vírus, que são capazes de provocar outra vez doença ao próprio e a outros”.

As dúvidas em torno das reinfeções começam contudo com um problema a montante: ninguém sabe se as pessoas recuperadas da Covid-19 ficam imunes ao novo coronavírus; e, se ficarem, durante quanto tempo.

Por isso é que João Gonçalves, virologista e professor de farmácia da Universidade de Farmácia de Lisboa, afirmou à rádio Observador que “vêm aí mais reinfeções, mas não é um motivo de grande preocupação”. “Não fico surpreendido, é algo que equacionávamos que fosse acontecer, a possibilidade de algumas pessoas possam vir a ser infetadas depois de já terem sido reinfetadas”, adiantou.

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"Vêm aí mais reinfeções, mas não é um motivo de grande preocupação. Não fico surpreendido, é algo que equacionávamos que fosse acontecer, a possibilidade de algumas pessoas possam vir a ser infetadas depois de já terem sido reinfetadas", adiantou.possam vir a ser infetadas depois de já terem sido reinfetadas".
João Gonçalves, virologista e professor de farmácia da Universidade de Farmácia de Lisboa

É possível evitar a segunda vaga?

Sim, defendeu Manuel Carmo Gomes numa entrevista ao Observador: “Se nós formos muito rápidos a identificar os casos de doença, se formos muito rápidos a ir ter com essa pessoa, fazer um inquérito e perguntar com quem é que andou a contactar nos últimos dias; se formos muito rápidos a ir ter com esses contactos, a testá-los e a isolá-los, não há segunda vaga”.

Foi também isto que o epidemiologista defendeu na reunião entre especialistas e políticos na segunda-feira: é possível evitar uma segunda onda de Covid-19 em Portugal, desde que se reduzam significativamente os contactos entre pessoas. Utilizando um modelo matemático, Manuel Carmo Gomes explicou contudo que “se as escolas reabrirem com contactos interpessoais em situação pré-Covid, é provável uma segunda onda”.

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Basta que esses contactos sejam reduzidos para 50% para haver “grandes incertezas” quanto à possibilidade de uma segunda onda e mesmo as hospitalizações médias esperadas atingem valores “muito baixos”. Se forem reduzidos para 30%, então “não parece que o risco de uma segunda onda seja muito forte”. “É exigente mas é possível”, adjetivou Manuel Carmo Gomes na reunião.

Basta que esses contactos sejam reduzidos para 50% passa a haver "grandes incertezas" quanto à possibilidade de uma segunda onda e mesmo as hospitalizações médias esperadas atingem valores "muito baixos". Se forem reduzidos para 30%, então "não parece que o risco de uma segunda onda seja muito forte". "É exigente mas é possível"
Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e docente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Além disso, há outras medidas que podem fazer a diferença, acrescentou o especialista: é “fundamental” ventilar as salas das escolas durante cinco minutos no início e no fim de cada aula com 90 a 105 minutos. E “é de evitar que haja mais do que uma turma a partilhar a mesma sala”, não só porque isso dificultaria o processo de rastreio de contactos, mas também porque isso exigiria uma ventilação ainda mais intensa do espaço.

A 2.ª vaga surge porque o vírus está mais contagioso?

Não é obrigatório que a segunda vaga ocorra apenas porque o vírus terá mudado de alguma forma. Manuel Carmo Gomes já tinha indicado ao Observador que o aumento do número de casos de Covid-19 não parece ter relação com o surgimento de uma nova estirpe do vírus, mas sim de uma “questão comportamental”: “O vírus não se foi embora, não foi limitado ao verão, mas baixou-se a guarda”, disse o epidemiologista.

Todos os vírus sofrem mutações e o SARS-CoV-2 não é exceção. Apesar de algumas dessas alterações terem chamado a atenção dos investigadores, nenhuma delas parece ter provocado mudanças que tornassem o vírus extremamente diferente das estirpes que circulavam no início da pandemia. O que está a mudar é a dinâmica das populações: os jovens parecem estar a juntar-se em grupos novamente, o verão trouxe mais convívios de família e muitas empresas estão a abandonar o regime de teletrabalho. A estes fatores juntar-se-á ainda nos próximos dias o regresso às aulas.

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