O relógio está a contar, há protocandidatos que já estão no terreno e, apesar dos largos meses que faltam para as eleições presidenciais, a marcação de território no caminho que leva a Belém começou em força e tornou-se uma inevitabilidade. Com as sucessivas sondagens a serem dominadas claramente pelo almirante Henrique Gouveia e Melo, a vida complicou-se para os possíveis candidatos de PS e PSD. No caso do centro-direita, Luís Marques Mendes continua a ser o pré-candidato mais provável, mas os dados que existem até ao momento não são exatamente animadores sobre o sucesso da candidatura — mesmo dentro do PSD, onde não faltam céticos sobre as suas reais hipóteses de ganhar a corrida ou sequer de passar à segunda volta. É preciso dar ao pedal.
Este sábado, Luís Marques Mendes estará em Ovar, marcando presença num evento dos Autarcas Sociais Democratas, ao lado de Hugo Soares, Carlos Moedas e Luís Montenegro. Sob o pretexto formal de lançar as próximas eleições autárquicas, o convite ao antigo líder do PSD não deixa de ser um sinal político relevante: depois do ato falhado que foi a presença do comentador no último congresso do partido, a direção do partido está a tentar dar espaço e tempo a Mendes para de alguma forma se reencontrar com eleitorado social-democrata.
A preocupação não é para menos. Há muito que se instalou a convicção junto de alguns setores do partido de que Luís Marques Mendes não será capaz de alargar a “base eleitoral” do PSD. Existem autarcas do espaço político do PSD — como Carlos Carreiras ou Isaltino Morais — que não escondem as dúvidas sobre a candidatura de Mendes e que apoiam ativamente Gouveia e Melo. Pedro Santana Lopes, que se pôs formalmente fora da corrida presidencial mas que continua a ser muito acarinhado pelas bases do partido, veio dar uma entrevista ao Público para dizer que “Marques Mendes não desperta o mínimo entusiasmo”.
Aliás, a última sondagem da Pitagórica para a CNN e TSF veio trazer um dado alarmante: Pedro Passos Coelho (que se pôs fora da corrida) é o mais bem posicionado junto do eleitorado da Aliança Democrática, seguido depois por… Henrique Gouveia e Melo. Quer isto dizer que, de acordo com este estudo de opinião, Luís Marques Mendes está atrás do almirante mesmo entre a base eleitoral que deu a vitória a Luís Montenegro nas últimas eleições legislativas. Perante este cenário pouco animador, e mesmo que a partir da direção do PSD se vá jurando a pés juntos que Mendes tem todas as condições para chegar a uma segunda volta e vencer as presidenciais, importa nesta altura dar todos os sinais de apoio ao antigo líder social-democrata.
Este encontro em Ovar servirá seguramente para relançar as aspirações presidenciais de Luís Marques Mendes — mesmo que todos se esforcem para dizer que não. Ao Observador, Pedro Pimpão, autarca de Pombal e presidente dos ASD, garante que o partido está totalmente focado no desafio autárquico, mas faz rasgadíssimos elogios a Luís Marques Mendes. “Pessoalmente, não tenho dúvidas de que o perfil de Marques Mendes é aquele em que me revejo, com provas dadas em prol da intervenção cívica, com um percurso de vida e uma ligação à sociedade com reconhecido mérito”, diz. “Tem o perfil indicado para vir a ser um bom Presidente da República”.
Mesmo insistindo que esta é apenas a sua opinião “pessoal” e que não vincula mais ninguém — até porque ainda não há candidaturas oficializadas —Pedro Pimpão sublinha que Luís Marques Mendes tem um perfil “sobejamente conhecido da esmagadora maioria da população portuguesa” e já prestou contas públicas da sua experiência política — notoriedade, previsibilidade e currículo que são geralmente características a que os apoiantes de Luís Marques Mendes se agarram para contrariar os primeiros dados favoráveis aos potenciais adversários, sobretudo a Gouveia e Melo.
Todavia, a última sondagem da CNN reforçava uma perceção que tem dominado o debate público sobre as eleições presidenciais: mais do que favorecer a experiência política — que Mendes tem de sobra e Gouveia e Melo não —, os portugueses parecem privilegiar características como a “liderança forte”, a “integridade e ética” ou, por exemplo, a “capacidade de comunicação”. Ora, curiosamente (ou não), Luís Marques Mendes vai falar neste encontro do PSD para falar sobre “Governança Local e Ética: Construindo Pontes de Confiança com os Cidadãos”.
O antigo líder social-democrata tem pergaminhos nesta matéria. As questões “éticas” marcaram e muito o mandato de Mendes como líder do PSD — incluindo nos conflitos e guerras que comprou dentro do próprio partido contra figuras como Valentim Loureiro, Isaltino Morais ou Carmona Rodrigues. “Os valores e a ética têm relevo. Não há dúvida de que ter sido presidente do PSD, ter liderado processos autárquicos, fazem dele uma referência da visão que temos para as nossas comunidades”, acrescenta Pedro Pimpão.
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Não falta quem frise que, nos tempos que correm, com os partidos e as figuras do sistema a serem penalizados nas urnas, valores como a ‘ética‘ e a ‘integridade do regime‘ devem estar no centro das prioridades e preocupações presidenciais dos candidatos — até para equilibrar a comparação direta com Gouveia e Melo. O antigo líder social-democrata tem, no seu percurso político, umas quantas batalhas nesse sentido — dentro e fora do partido. Este sábado é provável que as venha a recordar, mesmo que indiretamente.
Em declarações ao Observador, Luís Marques Mendes esforça-se por garantir que este convite não deve ser associado a uma possível candidatura presidencial, nem tem a ver com a corrida a Belém. “Apesar de estar há 17 anos fora da vida partidária ativa, continuo a ser muito solicitado para iniciativas autárquicas do PSD. Tenho uma ligação grande com o poder autárquico”, explica, reforçando que a sua experiência política começou precisamente como autarca (foi vice-presidente da Câmara Municipal de Fafe com 19 anos).
É certo que Mendes tem marcado presença em eventos autárquicos, assim como em lançamentos de candidaturas autárquicas, com frequência nos últimos anos — e nos últimos meses também (passou por convenções e apresentações autárquicas em Porto de Mós ou no Algarve recentemente, por exemplo). Mas, mesmo que se rejeitem aqui segundas e terceiras leituras, esta será mais uma oportunidade de Marques Mendes para marcar a agenda, recebendo o conforto das estruturas do PSD num momento em que as sondagens mostram um cenário conturbado também à direita — e logo em mais um evento nacional em que aparece como convidado de honra, ao lado de Luís Montenegro.
Autarcas tentam promover Mendes
Pedro Pimpão não é, de resto, o único autarca com responsabilidades na organização que deixa uma declaração de apoio a Mendes — acompanhada de duras críticas ao homem que parece poder complicar-lhe mais seriamente as contas numa corrida a Belém. Ao Observador, o presidente da câmara de Braga, Ricardo Rio, que também discursará no evento deste sábado, considera que Luís Marques Mendes “seria o candidato natural do PSD” nas próximas presidenciais.
“Tem um percurso de reconhecimento público e político muito relevante. Tem experiência e capacidade para vir a desempenhar um bom cargo”, diz Rio, acrescentando que Marques Mendes é uma personalidade do seu distrito (Braga) — como já era Marcelo Rebelo de Sousa, recorda em jeito de curiosidade — e tem um conhecimento “muito próximo” da realidade do país. Além disso, acrescenta os elogios ao “respeito” pelos valores da ética, que “estão em cima da mesa” neste momento político.
O autarca social-democrata aproveita ainda para atirar diretamente a Gouveia e Melo — e à “recetividade” com que o seu nome está a ser recebido. “Causa-me alguma estranheza essa recetividade de impulso sobre essa possível candidatura, não se lhe conhecendo uma visão para o país. Causa-me estranheza que seja apenas pela notoriedade pública. Os portugueses têm de ter outro critério de exigência e escrutínio”. Ricardo Rio vai ainda mais longe na crítica ao pré-candidato que, reconhece-se no PSD, mais pode baralhar as contas. “Não se pode afirmar a diferença tendo como mérito não ser um político, numa candidatura a um cargo político. É um contrassenso”.
O presidente da câmara de Viseu, o histórico Fernando Ruas, que não estará presente no encontro, também deixa muitos elogios a Marques Mendes. “É uma figura conhecida, um antigo presidente do PSD, tem notoriedade, são bons atributos. É um ilustre militante do PSD. E eu confio na escolha do primeiro-ministro e presidente do PSD, e se for essa não tenho nada a opor.”
Nada que, mais uma vez, acabe com o espectro do almirante ou faça com que os apoiantes de Marques Mendes nas estruturas sociais democratas não reconheçam as dificuldades que terá pela frente. “O PSD tem sempre a obrigação de apresentar um candidato ganhador, mas naturalmente não se pode esquecer de ter em conta os candidatos que aparecerem… Tem de contar com isso. Mas se quer alguém com notoriedade, Marques Mendes tem-na granjeado”.
O aparelho social-democrata (onde Luís Marques Mendes tem muitos aliados, mas também uns quantos inimigos que nunca esqueceram determinadas decisões que tomou quando era líder) será muito importante para impulsionar a candidatura presidencial do comentador. Como explicava aqui o Observador, depois de ouvir senadores, dirigentes e militantes influentes do partido, a entrada em cena de Gouveia e Melo complicou e muito as contas a Marques Mendes.
À cabeça, o antigo líder social-democrata parece estar a ser vítima de um fator que até lhe é alheio: ser percecionado como tendo um perfil próximo ao de Marcelo Rebelo de Sousa numas eleições que serão também um referendo aos dez anos de mandato do Presidente da República e que tenderão a favorecer outro tipo de forma de encarar o exercício do cargo.
Apesar das dúvidas do aparelho social-democrata, apesar de um certo desânimo que se instalou no partido, apesar, inclusive, da rejeição do CDS, e a menos que Marques Mendes mude de ideias, Montenegro não deixará cair o seu candidato. Depois do congresso de outubro de 2024, este poderá muito bem ser o segundo ato para promover o candidato do PSD a Belém.
Entrada em cena do almirante complica a vida a Mendes. “Não vale a pena tapar o sol com a peneira”