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Barca Velha. Ou a história de como nascem os grandes vinhos

O homem sonha e o vinho nasce. O Barca Velha, cuja colheita de 2008 chega agora ao mercado, continua longe da reforma e está mais perto da imortalidade. Em 64 anos apenas 18 foram selecionados.

Três homens e um vinho, o mais emblemático do país

De todos os vinhos por ele criado, aquele era o predileto. Um sonho tornado realidade numa altura em que Portugal, e a região do Douro, era quase exclusivamente sinónimo de vinho do Porto. O Casa Ferreirinha Barca Velha, que nasceu para ser bebido no auge de uma velhice que poucos vinhos de mesa conseguem alcançar, tornou-se imortal e, com ele, Fernando Nicolau de Almeida.

É este o homem que, em plena década de 1950, teceu uma filosofia de vinho ainda hoje replicada. Diz quem o conheceu que o sonhador oficial da Ferreirinha, Fernandinho para uns, era um desses senhores do Porto com pouco gosto em subir até ao Douro, tal como conta a jornalista Ana Sofia Fonseca no livro Barca Velha — Histórias de um vinho.

“O Meão é terra de milagres. Por entre fragas, num chão seco como ventre de velha, as videiras agitam-se, bonitas e fartas, quais moças em idade casadoira. Já se adivinha a festa da vindima. Da Régua a Barca de Alva, na miragem de uns tostões para o pé-de-meia, de toda a aldeia vê ouro nos cachos. E é como formigas a amealhar para o Inverno que homens, mulheres e crianças acorrem às quintas do Douro. Será um mosto singular, este de 1952.” Barca Velha — Histórias de um vinho, pág. 19

O calor e a inacessibilidade da região vinhateira faziam-lhe torcer o nariz e repetir uma expressão que à data se popularizou: “É mais difícil ir ao Meão do que a Luanda.” Tão poucas letras para tamanha fama: foi no Meão que nasceu o primeiro Barca Velha, vindo diretamente da histórica colheita de 1952.

As videiras na Quinta do Vale do Meão — a última propriedade comprada pela mítica D. Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida por Ferreirinha — deram vida à primeira edição daquele que ficaria conhecido como um dos mais emblemáticos vinhos portugueses até à data. Este e outros elogios que se seguem têm razão de ser e não apelam ao exagero. O Barca Velha leva 64 anos de vida mas está longe da reforma, passou por três enólogos que chegaram a trabalhar todos juntos e duas quintas e, agora, promete voltar com novo fôlego ao mercado — a 18º edição, que diz respeito à colheita de 2008, é finalmente lançada em novembro. 2016 é ano de Barca Velha, o terceiro rótulo de tanta estima que o século XXI teve a ousadia de proporcionar.

Foram várias as experiências até se descobrir que era ali, numa sub-região específica, que estava plantado o segredo do vinho. Fernando Nicolau calcorreou o Baixo Corgo e o Cima Corgo em busca da melhor matéria-prima, mas foi no Douro Superior que encontrou as vinhas perfeitas, o motivo de tantos sorrisos. Esta era tarefa para causar suor, cansaço e alguma frustração. A região era temperamental e não dava as boas-vindas a qualquer um: “O Douro Superior era todo inacessível. Quando comecei a trabalhar na Sogrape nos anos 1980 demorava cinco horas a chegar à Quinta da Leda. Hoje demoro duas horas e um quarto”, conta Luís Sottomayor, o terceiro enólogo a trabalhar o Barca Velha, não sem antes falar das curvas e contracurvas que seriam mais estreitas, perigosas e menos definidas há 60 anos.

A Quinta da Leda é o atual berço do Barca Velha.

SERGIO FERREIRA

Se em tempos a Quinta do Vale do Meão foi o berço do Barca Velha — uma das cerca de 30 grandes propriedades do império da famosa Ferreirinha, hoje entregue à sabedoria do seu trineto, Francisco Javier de Olazabal –, as edições mais recentes têm lugar cativo na Quinta da Leda, entre 160 hectares de vinha (as uvas que dão estrutura e aroma ao mítico vinho são selecionadas a dedo e nascem em diferentes altitudes).

O vinho especial teve um pai especial: Fernando Nicolau de Almeida vestia-se que nem um gentleman e portava-se que nem um gentleman. Foi pai de poucos afetos — tratava os filhos por “senhores” e as filhas por “meninas”. Mas até a rigidez que o caracterizava era de uma peculiaridade tal que chegou a inventar um irmão gémeo, de nome Eduardo, bem mais divertido para os miúdos do que o pai que “só vestia clássicos e cores sóbrias”, tal como se conta no livro já referido. Eduardo, com morada fictícia em Angola, roubou o coração da miudagem sem deixar rasto de ciúmes fraternais.

Nicolau de Almeida tem no currículo os Porto Ferreira. Assegurou também a produção de vinhos verdes, de vinhos do Dão e de aguardentes velhas. Mas foi o seu “vinhinho”, o Barca Velha, que o levou a voos mais altos. 

Os filhos cedo tomaram gosto ao vinho, com Nicolau de Almeida a proporcionar-lhes inúmeras provas. E até aí havia regras: se não cheirasse bem, nem à boca chegava. O olfato era estrela maior num universo de tantas outras constelações e consta até que a mulher de Fernandinho, vinda também ela de boas famílias do Porto (Ramos Pinto) tinha um papel determinante quando a declarar um Barca Velha, apenas produzido em anos de colheitas excecionais.

Luís Sottomayor gaba-lhe o humor fino, de estilo britânico, mas também o olfato afinado. Uma personagem como nenhuma outra que, pousado o copo de vinho depois de o cheirar ao fim de duas horas de provas, era capaz de suspirar um inesperado: “este vinho lembra-me um chapéu de palha”. O senhor era um “cheirista” de profissão, que teimou em criar um vinho de mesa que pusesse os olhos do mundo em Portugal. E conseguiu.

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Fernando Nicolau de Almeida, o homem que sonhou o Barca Velha. DR

Nicolau de Almeida tem no currículo os Porto Ferreira. Assegurou também a produção de vinhos verdes, de vinhos do Dão e de aguardentes velhas. Mas foi o seu “vinhinho”, o Barca Velha, que o levou a voos mais altos. “Este vinho, produzido de lotes de uvas estudadas no Douro Superior, vinificado em condições que na época não eram fáceis de obter, e cuidadosamente controlado com a ‘sua’ prova durante o estágio em pequenos cascos de madeira de carvalho, revolucionava, desde então, os vinhos em Portugal. Desde logo atingiu este vinho grande notoriedade em Portugal e no estrangeiro, tendo sido considerado (…) como o mais emblemático dos vinhos portugueses”, chegou a escrever José Maria Soares Franco.

Soares Franco — Zé Maria para os amigos — foi o segundo enólogo a trabalhar o Barca Velha, depois de Fernando Nicolau de Almeida se ter reformado em 1987. Foi também o primeiro licenciado em enologia a trabalhar para a casa Ferreira, tal como contou o jornal Público por altura dos 60º aniversário do mítico vinho. Ali ficou a ocupar um dos cargos mais apetecidos no mundo vinícola, até chegar o ano de 2007, quando Soares Franco une esforços com o também reputado enólogo João Portugal Ramos para começar um projeto de raiz, já batizado de Duorum. A missão de criar o “vinhinho” passaria agora para Luís Sottomayor, na Ferreira desde 1989.

Luís Sottomayor é o terceiro enólogo a trabalhar o Barca Velha.

© DR

“Hoje em dia é muito mais fácil fazer vinhos do que era há 60 anos. Temos um conhecimento técnico que na altura não existia e também uvas de uma maior qualidade”, afirma Sottomayor. “O que sucede é que também somos mais exigentes quando fazemos o vinho. Hoje não há mais Barca Velha do que havia no passado”, continua. Na verdade, as principais questões técnicas à época de Fernando Nicolau prendiam-se sobretudo com o controlo da fermentação — foram vários os estudos e façanhas, incluindo uma viagem a França, que ajudaram a solucionar tais problemas.

“Fernando Nicolau de Almeida foi pioneiro. O primeiro a fazer vinho de consumo no Alto Douro, o primeiro a antecipar a moda de fazer a fermentação maloláctica em cascos, mesmo sem saber que química é essa que faz o vinho agitar-se uma segunda vez e que confere aos tintos uma suavidade até então desconhecida. Muito mais empírico do que cientista, tinha compêndios de alquimia no nariz. A intuição era a sua enxada.” Barca Velha — Histórias de Um Vinho, pág. 39

A exigência na ponta do nariz e da língua é a personagem principal numa história que ainda hoje se repete, competência agora a cargo de Sottomayor: à menor dúvida de que um determinado vinho não esteja apto a receber o rótulo Barca Velha, este passa automaticamente para a gama inferior para aí ser batizado de Reserva Especial, cujo valor final será metade daquele pedido por um Barca Velha (que anda à volta de 400€). “A diferença às vezes pode ser impercetível. Basta numa prova haver uma dúvida. Claro que pode haver enganos, tal como declarar um vinho como Reserva Especial, mas nunca o contrário”, assegura o “cheirista” dos tempos modernos.

Recriemos ditados populares: quando a natureza é amiga o enólogo desconfia, no bom sentido. Ainda o vinho se está a habituar às paredes de uma barrica onde é posto a estagiar e já o enólogo que dele cuidou desde o berço suspeita da sua qualidade que, na verdade, só será revelada com o tempo. O mesmo vinho é depois provado sucessivamente ao longo dos anos, tarefa que só finda quando se acredita ter atingido o apogeu — até lá, quem o leva à boca e ao nariz fá-lo sempre na expetativa de que boas notícias advenham daí.

Foi o que aconteceu com a colheita de 2008, cujo valor foi (re)confirmado quando há um ano Luís Sottomayor caçava na Ilha Terceira. “Pediram-me para organizar um jantar vínico. Foi provado um Quinta da Leda 2008 e a evolução evidenciada por este vinho durante essa prova veio solidificar a minha convicção de que viríamos a ter um Barca Velha do mesmo ano.”

"Hoje em dia é muito mais fácil fazer vinhos do que era há 60 anos. Temos um conhecimento técnico que na altura não existia e também uvas de uma maior qualidade. O que sucede é que também somos mais exigentes quando fazemos o vinho. Hoje não há mais Barca Velha do que havia no passado."
Luís Sottomayor, enólogo

O Barca Velha, ainda hoje criado à imagem e semelhança de Fernando Nicolau, pode demorar uns sete anos a ser declarado como tal. É fazer as contas, até porque em 64 anos apenas foram reconhecidas 18 colheitas: 1952, 1953, 1954, 1957, 1964, 1965, 1966 e 1978 por Fernando Nicolau de Almeida; 1981, 1982, 1983, 1985, 1991, 1995 e 1999 por José Maria Soares Franco e 2000, 2004 e 2008 por Sottomayor. Apesar da filosofia ter resistido à vontade dos tempos em inovar e mudar vontades, a alquimia nunca é a mesma. “Não há receita para o Barca Velha, há antes uma personalidade que tentamos manter ano após ano”, atira Luís Sottomayor.

Um vinho com honras de jantar de gala

Fernando Nicolau de Almeida já não está cá para ver, mas o lançamento de um novo Barca Velha continua a ser um acontecimento. Na passada terça-feira, dia 18, teve mesmo honras de um jantar de gala com a assinatura do chef Miguel Rocha Vieira, o primeiro português a chefiar o prestigiado Fortaleza do Guincho. Talvez o “cheirista” assim não o imaginasse, mas na ementa há “pintada assada com topinambour e aveia” (leia-se, galinha acompanhada de um tubérculo) e veado a baixa temperatura com marmelo e romã para harmonizar com a estrela da companhia: Casa Ferreirinha Barca Velha 2008, cujas garrafas foram abertas nas primeiras horas do dia para chegar à mesa no ponto.

A nova edição do vinho foi apresentada no Palácio de Monserrate no passado dia 18 de outubro. © André Ribeirinho

André Ribeirinho

A nova edição do emblemático vinho é servida no Palácio de Monserrate, em Sintra. Críticos e jornalistas dedicados ao tema, mas também figuras fortes da Sogrape (que detém a Casa Ferreira desde 1987), estão cá, depois de quatro anos à espera. A expetativa paira no ar e, volta e meia, vem à baila o encontro que serviu para apresentar o último Barca Velha (colheita de 2004, lançada em 2012), que ocupou as Casas do Côro em Marialva. E há perguntas na ponta da língua: como será que se vai portar a colheita de 2008 que agora é servida com o tão estimado rótulo?

2008, esse ano bom. Mal as uvas foram colhidas e largadas na adega já a suspeita de que aquele vinho trazia muitas alegrias era uma realidade. “Este é um vinho que precisa de tempo. Com um caráter muito próprio“, diz o enólogo Luís Sottomayor de pé, colado ao microfone, diante de uma sala onde já todos se sentaram à mesa e estão de copo em riste. Sottomayor está nervoso ou, então, prefere a sala inócua de provas àquele salão festivo. Repete a palavra “tempo” vezes sem conta e confessa que antes de se decidir sobre se aquele seria ou não o 18º Barca Velha da casa chegou a perguntar-lhe, ao vinho, “o que é que tu queres?”. O que o néctar respondeu só ele sabe.

“O 2004 era mais direto. Este [Barca Velha 2008] tem mais austeridade, é preciso falar com ele. Mas vai longe.”
Luís Sottomayor, enólogo

Se este Barca Velha fosse uma pessoa, seria daquelas que fala pouco e diz muito. Que não é de confianças fáceis mas que vale a pena o investimento. Um amigo para guardar no tempo.

Ei-la, a prova. Os copos enchem-se num diálogo silencioso entre o cuidado de quem serve o vinho e o entusiasmo de quem o vai beber. Cheiram-se e agitam-se os recipientes XL de cristal, assinados pela marca Riedel, e levam-se os primeiros tragos à boca. Ao contrário do que seria de esperar, tudo acontece numa questão de segundos e o suspense termina ali, nos lábios rasgados da maioria dos presentes. Acenos de cabeça vigorosos e considerações positivas: “O 2004 era mais direto. Este tem mais austeridade, é preciso falar com ele. Mas vai longe”, continua Luís Sottomayor, já sentado na mesa.

O Barca Velha 2008 chega ao mercado na primeira semana de outubro. © André Ribeirinho

© André Ribeirinho

Cor rubi. Aroma intenso, a puxar os frutos vermelhos vivos e especiarias como a pimenta e o cravinho — não somos nós que o dizemos, por mais que cheiremos o vinho, antes a ficha técnica entretanto cedida. As considerações pessoais são de que este é um vinho para guardar, com uma pujança tal que, apesar do equilíbrio, não parece ter os anos que o Bilhete de Identidade teima em evidenciar. A receita difícil de recriar faz-se de diferentes castas: 50% Touriga Franca, 30% Touriga Nacional, 10% Tinta Roriz e 10% Tinto Cão. 18.000 é o número de garrafas que já a partir da primeira semana de novembro chegam ao mercado, mesmo a tempo do Natal. Cada garrafa tem o preço base de 265 euros, embora o valor esteja sujeito às exigências do mercado. E se agora, a poucos meses do fim de 2016, o vinho tem peso e fama, imagine-se daqui a uns anos.

“O Barca Velha tem de ser guardado nas condições ideais para viver muitos anos. O vinho mais velho que bebi foi há sete ou oito anos e era de 1957. Estava extraordinário”, conta Sottomayor. Há quem diga que este é um vinho que desafia o tempo. Se sim, se não, a Sogrape ainda guarda exemplares dos primeiros Barca Velha alguma vez criados — alguns dos quais regateados em leilões –, mas Luís Sottomayor conta, de sorriso posto, que esse lugar mágico onde repousam as garrafas é, naturalmente, do desconhecimento geral. O que seria se assim não fosse.

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