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Carro celular que transporta Fernando Madureira  também conhecido com "Macaco" à chegada para o início do julgamento da "Operação Pretoriano" que decorre no Tribunal São João Novo no Porto, 17 de março de 2025. O processo tem como arguidos Fernando Madureira, ex-líder dos Super Dragões, Sandra Madureira, Vítor Catão e ainda mais nove arguidos, acusados de crimes alegadamente cometidos numa Assembleia-Geral do FC Porto. FERNANDO VELUDO/LUSA
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▲Início do julgamento da Operação Pretoriano no tribunal de São João Novo foi marcado pelo enorme dispositivo policial com dezenas de efetivos

FERNANDO VELUDO/LUSA

▲Início do julgamento da Operação Pretoriano no tribunal de São João Novo foi marcado pelo enorme dispositivo policial com dezenas de efetivos

FERNANDO VELUDO/LUSA

Bate coro, grupos de WhatsApp, "choque" com Villas-Boas, vídeo "mistério" e as contradições: o início do julgamento da Operação Pretoriano

Madureira mais magro e a revirar olhos com palavras de Villas-Boas, agressões por impulso, ações concertadas negadas apesar das mensagens no WhatsApp: o arranque do julgamento da Operação Pretoriano.

Grande aparato policial, fortes medidas de segurança, ruas cortadas, essa possibilidade de ver pela primeira vez Fernando Madureira depois da prisão preventiva em que se encontra há mais de um ano. O arranque do julgamento da Operação Pretoriano quase criou um ecossistema próprio nos arredores do Tribunal de São João Novo, com a primeira semana a ter três sessões onde deveriam ser ouvidos não só todos os arguidos que quiseram prestar declarações mas também assistentes no processo como o presidente do FC Porto, André Villas-Boas, ou o sócio Henrique Ramos, conhecido como “Tagarela”. Apesar de alguns atrasos no arranque dos trabalhos, esse programa acabou por ser cumprido conforme esperado, sempre com alguns curiosos a tentarem olhar para o centro das atenções ou a manifestarem apenas o seu apoio a “Macaco”.

Operação Pretoriano. Super Dragões suspeitos de ameaçarem idosos de muletas e agredirem mulheres

Logo no início, numa curta explicação introdutória, foi anunciado a todos os presentes a inexistência de motivos ou circunstâncias para que houvesse qualquer tipo de restrição para a “livre assistência do público” durante as sessões, com essa reserva de que qualquer testemunha poder falar sem a presença dos arguidos caso existisse uma explicação dessas razões para apreciação do tribunal. Ou seja, dentro das circunstâncias que eram possíveis tendo em conta as restrições da sala (com a criação de uma outra sala onde os jornalistas que não tivessem lugar na do julgamento pudessem na mesma acompanhar os trabalhos), todos puderam seguir o julgamento onde o FC Porto pede uma indemnização civil de cinco milhões de euros, com algumas publicações como o Record ou o CM a conseguirem acompanhar as incidências ao minuto enquanto outros tiravam notas para as edições impressas ou para os diretos para rádios e televisões.

Operação Pretoriano. A “forte prova” e a “liderança assumida” do casal Madureira que convenceu o tribunal a avançar para julgamento

Com 12 arguidos acusados de um total de 31 crimes na Assembleia Geral do FC Porto de 13 de novembro de 2023, entre coação agravada (19), ofensa à integridade física no âmbito de espetáculo desportivo (sete), atentado à liberdade de informação (três), instigação pública a um crime (um) e arremesso de objeto (um), o julgamento que tem o antigo líder dos Super Dragões, Fernando Madureira, como principal figura começou exatamente com o único arguido em prisão preventiva a prestar declarações ao longo de cerca de três horas. O que sobra das primeiras três sessões? O “confronto” entre apoiantes de Pinto da Costa e André Villas-Boas, a tentativa de desconstruir a ideia do Ministério Público de uma ação concertada para provocar o clima de terror que se viveu no Dragão Arena e diálogos com tom “diferente” com a presidente do coletivo de juízes, Ana Dias Costa. Entre os pontos de contacto de casos que são em muito distintos, as mensagens nos grupos de WhatsApp, tal como acontecera no julgamento da invasão à Academia do Sporting em Alcochete, voltaram a ser uma das principais chaves para a reconstrução do que se passou.

Carro celular que transporta Fernando Madureira  também conhecido com "Macaco" à chegada para o início do julgamento da "Operação Pretoriano" que decorre no Tribunal São João Novo no Porto, 17 de março de 2025. O processo tem como arguidos Fernando Madureira, ex-líder dos Super Dragões, Sandra Madureira, Vítor Catão e ainda mais nove arguidos, acusados de crimes alegadamente cometidos numa Assembleia-Geral do FC Porto. FERNANDO VELUDO/LUSA

▲ Início do julgamento da Operação Pretoriano levou a um forte dispositivo policial em torno do tribunal de São João Novo

FERNANDO VELUDO/LUSA

Dia 1. Madureira mais magro, o “bate coro” pelas pulseiras e o impulso que deu chapada

Forte aparato de segurança com muitos agentes da PSP no exterior do Tribunal de São João Novo, cerca de 60 efetivos contando também com os mais de dez elementos do Grupo de Intervenção e Segurança Prisional, as primeiras imagens de Fernando Madureira depois de mais de um ano de prisão preventiva a mostrarem um antigo líder da claque dos Super Dragões mais magro e visivelmente abatido com toda a situação. Não foi por acaso que as ruas adjacentes estavam com trânsito condicionado: acrescentando os advogados dos 12 arguidos, muitos jornalistas, alguns apoiantes do Grupo Organizado de Adeptos dos azuis e brancos e os habituais curiosos que se cruzam sem querer com a realidade, era muita gente concentrada num só local.

Madureira nega agressões na assembleia do FC Porto e acusa Villas Boas de espalhar desinformação. O início do julgamento do caso Pretoriano

Primeiro ponto de interesse do dia? As declarações dos advogados, com mira apontada ao Ministério Público consoante a acusação em causa para quem defendiam. “Esta acusação que culmina no julgamento que hoje se inicia não é mais do que terrorismo jurídico. É a degradação da Justiça numa decisão instrutória que dá continuidade ao erro, mostrando à sociedade que a justiça já teve melhores dias. Isto são bagatelas penais sem conteúdo. É uma acusação enfadonha. Não circunstancializa factos, momentos ou sujeitos”, apontava Cristiana Carvalho, advogada do antigo Oficial de Ligação aos Adeptos do FC Porto, Fernando Saul. “A narrativa do Ministério Público nunca foi objeto de verdadeiro contraditório e está inundada de factos genéricos não comprovados”, acrescentava Francisco Duarte, representante de Hugo Loureiro. “A acusação é impactante mas pobre juridicamente, chegando a ser ridícula”, dizia Adélia Moreira, advogada de José Pedro Pereira. Os dados estavam lançados, com uma clara ideia sobre o que uns e outros iriam estar a defender.

Operação Pretoriano. Fernando e Sandra Madureira vão a julgamento por 31 crimes

Fernando Madureira foi o primeiro a ser ouvido, já com a mulher Sandra na sala depois de um lacónico “Bastante” à entrada, perante a pergunta se estava tranquila. Como o espaço era limitado, cada um dos 12 arguidos poderia indicar apenas um familiar para estar presente em cada sessão, sendo que os jornalistas também acompanhavam tudo o que se ia passando numa outra sala. O antigo líder dos Super Dragões saiu da carrinha celular e chegou ao banco dos réus algemado, com uma garrafa de água nas mãos e preparado para falar apesar do atraso em todos os procedimentos que tiveram também pelo meio uma perda de som e imagens na sala onde os jornalistas seguiam a sessão. “Quero dizer que nestes 14 meses detido sempre me prontifiquei a prestar declarações, sempre falei. Foram declarações que não foram levadas em conta ou então foram dadas como falsas, sendo que sempre foram declarações verdadeiras”, começou por referir “Macaco”.

Sandra Madureira (D) à saída do Tribunal de Instrução Criminal (TIC), no Porto, 18 de outubro de 2024. O arranque da fase instrução da 'Operação Pretoriano' previsto para hoje foi adiado devido à greve dos oficiais de justiça. O processo tem como arguidos Fernando Madureira, ex-líder dos Super Dragões, Sandra Madureira, Vítor Catão, e ainda mais nove arguidos, acusados de crimes alegadamente cometidos numa Assembleia-Geral do FC Porto. LUSA

▲ Sandra Madureira, mulher de Fernando Madureira e ex-vice da claque Super Dragões, preferiu não prestar declarações nesta fase do julgamento

LUSA/LUSA

“Começamos pelo Dr. Adelino. No início, o Ministério Público dizia que o plano era do doutor Adelino, que me pediu e ao Saul que levássemos os sócios para a Assembleia para que votassem. Eu na altura disse logo que era mentira. Não falava com o doutor Adelino três meses antes disso. Eu e a minha esposa dissemos ao falecido presidente [Pinto da Costa] que se quisesse ganhar as eleições tinha de tirar o Adelino Caldeira e o Fernando Gomes da lista. O doutor Adelino soube e depois virou-nos a cara, a mim e ao Saul”, disse. A juíza interrompeu. Razão? Adelino Caldeira, antigo vice e administrador da SAD, não constava na acusação, pelo que era uma peça “a mais” no raciocínio. Com uma nuance: inicialmente, e mesmo não fazendo parte da acusação do Ministério Público, o ex-dirigente chegou a ser ventilado como suspeito mas depois “caiu”.

– Porque é que a Assembleia era tão importante?
– Esta Assembleia Geral era como umas primárias, não sei se era braço no ar. No Dragão Arena era impossível ser braço no ar, era muita gente…
– O que é que ia ser objeto de votação?
– Eram umas primárias porque ele [Pinto da Costa] ia sentir o pulso. Houve uma campanha orquestrada nas redes sociais e na comunicação social. Eu não tive nada a ver com a elaboração dos estatutos…
– E isso mudava alguma coisa na claque?
– Nada.
– Mas não passava a ser um protocolo formalizado e não uma colaboração?
– O que mais se falava era na questão do voto eletrónico, quem poderá explicar melhor são os membros do Conselho Superior…

“Quiseram-me também colar ao caso do zelador [da casa de André Villas-Boas, que foi barbaramente agredido de madrugada] e aos Super Dragões, afinal era um caso de delinquência. Depois a acusação diz também que ameacei o Henrique Ramos. Ele é meu amigo, já o conheço há 23 anos. Nunca me aproximei dele, depois da Assembleia fomos ao Barril comer um prego e uma cerveja. Nos dias seguintes brincámos por ele ter ido à Assembleia com uma gabardina, disse que devia ir lá para o museu da Madame Tussauds para rivalizar com a do Mourinho… A altercação entre o Tagarela [Henrique Ramos] e o Moreira de Sá não teve nada a ver com eleições, eram ambos pelo Pinto da Costa. O Moreira de Sá era mais Alexandre Pinto da Costa, o Henrique era mais Pedro Pinho. Também quero falar desse pseudo ataque à liberdade de imprensa do Catão. Então ligaram-me a dizer que havia problemas, estava no ginásio…”, frisou.

– Mas existiu ou não uma ação concertada da claque no sentido da presença na Assembleia?
– Eu mobilizei os Super Dragões para irem apoiar o Pinto da Costa, como o Villas-Boas mobilizou os seus apoiantes. Eu só disse para irem e para votarem em conformidade com o presidente…
– Mas o senhor soube que aquilo deu para o torto?
– Eu vi o senhor Bruno Branco puxar o braço a um senhor de idade, vi outra altercação do Vítor [Aleixo], é aí que apareço num vídeo a gesticular, até se tornou viral. Nunca pedi a ninguém para mudar de bancada.

As suspeitas contra Madureira. “Quem não está com Pinto da Costa vai morrer!”

“Fiquei muito nervoso, transtornado, irritado e triste por ver sócios do FC Porto uns contra os outros. Eu disse: ‘É esta m*** que vocês querem para presidente? Veio dar uma entrevista, foi para casa. A esta hora está com os c*** sentados no sofá e vocês aqui à porrada”, contou depois, numa fase mais emotiva, com gestos, a pedir licença para usar palavrões. “Agressões? Não vi. Ameaças de morte? Vi só a garrafa de água a voar, isso eu vi. Uma garrafa de plástico que voou de uma bancada para a outra. Filmagens? Também não sei de nada, nem me recordo se fiz ou não acreditação para entrar na Assembleia Geral porque andava sempre lá dentro e cá fora”, continuou, explicando também que os “fozeiros” e os “betinhos da Foz” eram expressões usadas para descrever apoiantes de André Villas-Boas e “baralhando-se” sobre as pulseiras de entrada.

"Fiquei muito nervoso, transtornado, irritado e triste por ver sócios do FC Porto uns contra os outros. Eu disse: 'É esta m*** que vocês querem para presidente? Veio dar uma entrevista, foi para casa. A esta hora está com os c*** sentados no sofá e vocês aqui à porrada."
Fernando Madureira, falando no julgamento sobre o que se passou na Assembleia Geral do FC Porto de 13 de novembro de 2023

“Mensagens de WhatsApp? Agradeci aos Super Dragões porque se comportaram de forma exemplar na Assembleia Geral. O que se passou na Assembleia Geral não teve nada a ver com os Super Dragões, foi tudo criado pela máquina de campanha do André Villas-Boas para ganhar as eleições. O que pedi aos chefes dos núcleos dos Super Dragões? Para levarem três ou quatro pessoas à Assembleia Geral mas nunca pedi para baterem em ninguém. Passar à frente na fila? Isso de pessoas a passar à frente foi uma constante, cheguei a passar um grupo de senhores de idade para não estarem à espera horas na fila. Até o Villas-Boas furou a fila O que pedi aos chefes dos núcleos dos Super Dragões? Pedi para levarem três ou quatro pessoas mas nunca pedi para baterem. A votação era indiferente, só queria que apoiassem o Pinto da Costa”, vincou.

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Da parte da tarde, numa sessão que recomeçou já depois das 14h previstas, Fernando Madureira continuou a responder sobre os grupos de WhatsApp. “Este grupo tinha cerca de 300 participantes. Se deixava de ir lá meia hora tinha logo 500 mensagens, era impossível ver todas”, voltou a dizer, mesmo perante a leitura de algumas mensagens que tinha deixado como “Amanhã lá estaremos, contra tudo e contra todos” ou “Arranjem cartões de sócios, dá na mesma”. De seguida, as perguntas vieram da advogada do FC Porto.

– O que foram fazer à Assembleia Geral pessoas que nem eram sócias?
– Tem de perguntar a quem não era sócio. Eu sou sócio há 30 anos, com quotas pagas e por isso fui.
– E esta mensagem para uma alegada apoiante de André Villas-Boas onde diz que da próxima vez que a vir a tira do Dragão pelos cabelos?
– Isso não foi uma ameaça, foi no sentido figurado. Eu tenho mulher, filhas, mulher, sogra… Quando era líder dos Super Dragões estava em mais de 80 grupos, muitas vezes dizia ‘Ok, ok’ mas era só para despachar, nem lia as mensagens. Até gozavam comigo, chamavam-me o ‘Ok, ok’…

O Líder dos Super Dragões, durante a final da Taça de Portugal entre o Sporting de Braga e o Futebol Clube do Porto, 04 de junho de 2023. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

▲ Fernando Madureira referiu no julgamento que às vezes era conhecido como o "Ok, ok" pela forma como respondia à pressa entre centenas de mensagens

José Sena Goulão/LUSA

Depois das questões de Sofia Ribeiro Branco, também a advogada de Fernando Saul, Cristiana Carvalho, fez perguntas a Madureira, numa interlocução que acabou por ser travada pela própria juíza. “André Villas-Boas não está aqui a ser julgado. O que é que pretende demonstrar? Que houve algum tipo de incitamento e que isso depois justifica a ação dos arguidos?”, atirou. “Existiam muitas páginas nas redes sociais que era só para enxovalhar o presidente, a dizer que ‘o velho tinha de morrer’ e coisas assim. Só não queria que ele fosse humilhado. Porque é que era o bombeiro de serviço? Sempre foi assim, tentei sempre acalmar os ânimos, muitas vezes ia lá e nem era preciso chamar a polícia”. Estava concluído o depoimento de “Macaco”.

Logo de seguida, Hugo Carneiro, conhecido por Hugo Polaco, também quis falar num momento que ficou sobretudo centrado na questão das pulseiras para entrada na Assembleia Geral. “Nesse dia fui à Assembleia, normal. Cheguei lá, tudo normal, entrei e vi. É o que posso dizer… Pulseiras? Eu fui lá falar com a senhora, bati-lhe o coro e pedi as pulseiras. Disse que tinha a minha mulher, colegas de trabalho e precisava de pulseiras para entrar. Nas outras Assembleias também me deram pulseiras”, disse o adepto portista.

– O senhor não está credenciado e ainda pede pulseiras para outras pessoas?
– Mas não sou eu que estou mal, quem está mal é a menina que me deu as pulseiras. Eu bati-lhe o coro e ela deu…
– E esteve com o senhor Fernando Madureira?
– O senhor Fernando nunca esteve comigo. Só quando existiram os problemas com o senhor Henrique Ramos é que a gente se cruzou.
– O que é que viu nessa altura?
– Não vi nada. Antes da situação do Tagarela eu não vi nada. Não vi agressões, nada. Estive sempre sentado. Depois peguei na minha companheira e vim embora. Não vi nem ouvi nada de agressões, é mais pura das verdades que estou aqui a dizer…
– O senhor não deu pulseiras a mais ninguém?
– Só dei à minha mulher e ela deu às amigas. As pessoas podem dizer o que quiserem mas é mentira.
– O senhor ainda abre também uma porta, não é?
– Sim, estávamos lá, um senhor de alguma idade magoou-se e os seguranças estavam aflitos. Então eu abri a porta para ajudar os seguranças.
– Tem o dom de ver pelas paredes? Se estava dentro do recinto como é que sabia que do outro lado alguém estava a passar mal? Não venham com versões do arco da velha…
– Ouvi pessoas a dizer que uma pessoa se estava a sentir mal, ouvia as coisas pelos rádios dos seguranças.

“Estive só lá na Assembleia a falar com uma senhora que foi qualquer coisa da cultura. Eu só quero o FC Porto campeão, o resto quero lá saber. Ninguém me mandou fazer nada. Se o Madureira tivesse dito para pararem? Há perguntas que não consigo responder, está aqui a confundir-me. Fazer o que o líder dizia? Então e se ele me mandasse atirar de uma ponte, eu atirava-me? Eu não ia fazer algo que ia contra a minha cabeça. Eu na Assembleia não ia votar, não percebo nada daquilo. Só ia ouvir, gosto de ouvir os discursos. A gente respeitava muito o falecido Pinto da Costa, é o rei”, concluiu, entre vários reparos da juíza.

Operação Pretoriano. Os grupos WhatsApp, o plano para a Assembleia Geral e os sócios agredidos na noite negra do FC Porto

Por fim, Vítor Manuel Oliveira, conhecido por Aleixo (o pai), foi o terceiro e último arguido a falar, dizendo que não era membro da claque Super Dragões. “Soube da Assembleia pelos jornais. Vi lá o senhor Fernando [Madureira], o meu irmão José. Cumprimentei-os, tudo normal. Depois estive no auditório com eles, não havia lugar para toda a gente. Estávamos num corredor a cantar músicas. Lá dentro do Dragão Arena vi uma confusão mas não sei quem era a pessoa em concreto. Vi depois do presidente Pinto da Costa falar. Quando o presidente acabou de discursar, muita gente começou a chamar-lhe nomes. Velho, que estava agarrado ao poder… Senti-me indignado com aquilo, eu adoro o presidente”, começou por dizer no depoimento.

“Saltei para o pavilhão [para o recinto do Dragão Arena], fui à bancada norte e disse que não tinham nada que mandar vir e que estavam a cuspir no prato onde comeram estes anos todos. Estava lá um senhor a dizer que ele mamou [Pinto da Costa] e que eu queria mamar. Tive um impulso e dei-lhe uma chapada. Depois levei um soco, não dele, de outra pessoa. Depois vim a saber que era pai desse rapaz. Na altura até queria pedir desculpa ao pai. Vou fazer neste tribunal quando os vir se for possível. Nessa altura reparei que o meu filho estava ali, foi para me defender. Senti-me mal, vim pela parte de cima. As pessoas começaram a insultar-me a dizer que levei e bem. Do nada vi um senhor a dizer que devia levar mais. Peguei, dei-lhe um cachaço e saí dali. Disse ao meu filho ‘O pai vai embora, já fez me***’. Pedi desculpa a vários dirigentes do FC Porto que conheço. Depois fui ao Capa Negra comer um prego e vi na TV que na Assembleia tinha dado mais problemas”, acrescentou Vítor Aleixo. “Quero pedir desculpa à pessoa que agredi e ao seu pai”.

Operação Pretoriano. Três arguidos são libertados e Vitor Catão desiste de prestar declarações após junção de mensagens incriminatórias

Chegava ao fim o primeiro dia do julgamento da Operação Pretoriano, que teria ainda mais um episódio no exterior quando Vítor Catão, outro dos 12 arguidos no processo que chegou a estar em prisão preventiva e mais tarde passou a prisão domiciliária, a dizer que tinha sido ameaçado e insultado por elementos dos Super Dragões na zona do Mercado Ferreira Borges, perto do tribunal mas já sem polícia. “Conheci-os. Tenho receio, claro, e a polícia tem de me dar proteção. Não tenho nada a ver com os Super Dragões, nem nunca fui dos Super Dragões. Estão a ameaçar-me. Sou pai, tenho netos e filhos”, disse aos jornalistas.

Dia 2. O piscar de olho de Macaco, a emoção por Pinto da Costa e o “vale tudo, não é?”

Apesar de continuar detido, as mais de três horas de depoimento pareceram dar um outro estado de espírito a Fernando Madureira, que no início da segunda sessão de julgamento foi dos primeiros a chegar (sempre com um grande aparato) e piscou o olho à entrada da sala para a zona onde se concentravam todos os outros arguidos da Operação Pretoriano. Não são muitos aqueles que conseguem ver o antigo líder dos Super Dragões desde que chega na carrinha celular ao Tribunal de São João Novo até entrar na sala, sendo que até aí estão apenas os arguidos, os advogados, familiares e os quatro/cinco jornalistas que ficam nesse espaço (os restantes acompanham as incidências através de vídeo numa sala ao lado). Ainda cá fora, Vítor Catão recordava o episódio da véspera. “Se tenho medo? Com esta gente toda aqui, não”, dizia.

A sessão, de novo com atraso no início, começou com uma série de pedidos entre dispensas de apresentação periódicas em esquadras em dias de julgamento ou dispensas por questões laborais. Todos aguardavam o que seria o depoimento de Fernando Saul, antigo Oficial de Ligação aos Adeptos do FC Porto, com a advogada Cristiana Carvalho a assumir também o protagonismo nas declarações aos jornalistas no exterior, mas antes haveria não só a conclusão das declarações de Vítor Manuel Aleixo mas também o depoimento do filho.

Julgamento da Operação Pretoriano. ‘Aleixo’ filho confessa agressão em defesa do pai e Fernando Saul nega ter agido para criar clima hostil

“Passei à frente na fila para a Assembleia, encostei-me a uns colegas que estavam por ali e passei. Se tinha conhecimento de que tinha de estar no P1 às 20h45? Não, não sabia de nada disso. Proibição de filmagens? Também não vi nada disso. Eu adoro o Presidente, ele estava a ser insultado… Para mim o presidente é o símbolo do Porto, é o FC Porto. Mensagens de que o Aleixo estava avisado? Mas eu não sei nada disso, não tenho redes sociais, sou daqueles antigos…”, concluiu no depoimento que começara na véspera e que seria depois continuado pelo filho, Vítor Bruno, conhecido como “Aleixo” como o progenitor.

“Fiz a acreditação na Assembleia Geral e entrei, foi tudo normal. Estava na bancada norte do Dragão Arena. Ouvi os discursos todos. O doutor Lourenço Pinto [antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral] falou e esteve tudo bem, o presidente Pinto da Costa falou e começaram os insultos. Diziam ‘Estás velho, vai acabar a mama, vai embora’. Os insultos vinham principalmente da bancada norte”, começou por dizer.

“O meu pai sempre disse para o respeitar a ele, depois à minha mãe e, por fim, o Pinto da Costa. O meu pai discutiu com um indivíduo, deu-lhe uma chapada e depois leva um soco de outra pessoa. Cheguei lá e dei um soco a esse homem. Depois o homem caiu, levantou-se e eu afastei-o com um pé. Porque troquei de roupa? Troquei a camisola no pavilhão e as calças no carro. Um amigo disse-me ‘Estás com a camisola cheia de sangue’. Fiquei nervoso, a minha mãe disse que a polícia me ia levar. Confusão com o meu pai? Mal vi isso, a minha reação foi descer. Dei-lhe um soco, o homem caiu. Levantou-se e vinha para cima outra vez e foi quando o afastei com o pé. Ele não caiu ao chão, ficou nas cadeiras. Entretanto o meu pai chamou-me e fui para cima”, começou por referir Vítor Bruno “Aleixo” sobre os episódios ocorridos no Dragão Arena.

– O senhor disse ao Henrique Ramos ‘Vou-te matar’ e depois cuspiu-lhe na cara, como diz a acusação?
– Não é verdade. Só lhe perguntei ‘Quem és tu para estares aqui a falar?’. Disse-lhe que não tinha moral nenhuma para falar. O senhor Henrique Ramos começou a desafiar as pessoas que estavam na bancada, foi apelidado de candongueiro. Foi para a Assembleia falar de Casas do FC Porto que eram fictícias para venda de bilhetes mas ele também comprava bilhetes e depois revendia-os. Estava indignado e não me dou com ele há vários anos. Sempre que nos vemos dá faísca. Só lhe disse que ele era um ‘mamão’ e que ‘sócio dos três grandes’, depois um amigo meu afastou-me dali…

“Sim, fazia parte de um grupo do WhatsApp dos Super Dragões mas muitas vezes estava dois ou três dias sem passar por lá, quando via tinha mil e tal mensagens no grupo. Muitas vezes já nem via o que estava lá. Estou arrependido. Não quis ligar ao senhor [que agrediu] mas quando ele estiver cá, se a senhora doutora deixar, quero pedir desculpa. Não o fiz antes porque podia interpretar de outra maneira”, concluiu antes de uma curta pausa de cinco minutos, mais para beber um café, ir à casa de banho ou fumar um cigarro, que teria antes Vítor Manuel “Aleixo” a tentar explicar a mensagem de Sandra Madureira, mulher de “Macaco” e vice dos Super Dragões, para ser “discreto” e evitar as coisas “da última vez”. “Estava a referir-se ao incidente da primeira Assembleia, que eu nem sou dos Super Dragões. Às vezes arranjava cartões para um amigo que me pedisse. Até estranhei ser preciso, quem trabalhava no FC Porto costumava facilitar a entrada”, disse.

Depois de uma pausa de cinco minutos, Fernando Saul começou a depor, tendo logo no início de enfrentar as mensagens de WhatsApp apontadas pela juíza onde teria escrito “Vai levar nos cornos, o Aleixo e o pessoal já está avisado”: “Foi três meses antes, nem se sabia que ia existir Assembleia. Tinha um problema com o Henrique Ramos, que ele andava a difamar-me. Disse às pessoas para terem cuidado com ele”.

– Vai levar tudo nos cornos. Como e onde? Tudo era só para ele?
– Era só para o senhor Henrique Ramos.
– E esta mensagem onde diz ‘Vai haver mocada, a Assembleia vai ser quentinha, vai dar m****’?
– Mesmo não sendo da segurança alertei que ia mais gente do que o costume e que devia existir mais segurança. Alertei o diretor de segurança e o diretor de marketing. Curiosamente são os únicos diretores que continuam [com a nova direção de André Villas-Boas]. Isto é extraordinário…
– E quando diz ‘Levou nos cornos esse boi mas dei-lhe lá dentro, ninguém viu’?
– Foi para me vangloriar aos meus amigos. Isso não aconteceu.

“Eu era funcionário do FC Porto, não fazia parte da claque. Fui funcionário durante 25 anos, era Oficial de Ligação aos Adeptos e o speaker do Estádio do Dragão. Cheguei à Assembleia tarde, já estava tudo a sair do auditório. No Dragão Arena estive só com a Sandra Madureira. Estava tudo tranquilo. Eu fiquei na bancada sul, que era onde tinha lugares. As outras bancadas estavam cheias. Confusão? Depois do discurso do Pinto da Costa ouviram-se insultos e apupos. Passados uns minutos vi que na bancada norte houve um tumulto e vejo as pessoas a afastarem-se. Aquilo terminou, a Assembleia retomou e só na parte final há uma altercação com o senhor Henrique Ramos. Sandra Madureira? Vi a dona Sandra a discutir com um adepto e eu conheço-a devido às minhas funções. Isso foi na bancada sul. Eu só disse ‘Oh Sandra, deixa lá isso, anda embora’. Ela estava a discutir por causa de umas mensagens e de uns vídeos, por causa das filhas. Disse para ela sair dali e ela saiu. Não chegou a existir qualquer problema”, contou sobre a Assembleia Geral.

Fernado Saúl à chegada para o início do julgamento da "Operação Pretoriano" que decorre no Tribunal São João Novo no Porto, 17 de março de 2025. O processo tem como arguidos Fernando Madureira, ex-líder dos Super Dragões, Sandra Madureira, Vítor Catão e ainda mais nove arguidos, acusados de crimes alegadamente cometidos numa Assembleia-Geral do FC Porto. FERNANDO VELUDO/LUSA

▲ Fernando Saul, antigo Oficial de Ligação aos Adeptos, teve um momento mais emotivo quando recordou a morte de Pinto da Costa

FERNANDO VELUDO/LUSA

“Essas mensagens foram enviadas para amigos. Era a perceção que tinha como Oficial de Ligação. Desde há uns meses que existiam muitas páginas de apoio ao Villas-Boas a difamar a Direção, falavam muito nas redes sociais. Pelo que via nas redes sociais percebia que ia muita gente e que os ânimos estavam exaltados. Em várias páginas de apoio a Villas-Boas diziam para irem todos à Assembleia, para se filmar tudo, que o FC Porto dos mamões iam acabar. Não consigo perceber como é que um diretor de segurança que prepara jogos não acaba logo com a Assembleia quando percebeu que não cabia toda a gente no auditório. Podia ter evitado isto tudo. Mas deve ser por isso que ele lá continua. Toda a gente sabia que o André [Villas-Boas] ia ser candidato, até pela máquina que já estava a funcionar. Acho que ele quis chamar as pessoas dele para estarem com ele”, prosseguiu Saul, dizendo que iria votar contra em alguns pontos.

A sessão foi depois interrompida para almoço, com o antigo Oficial de Ligação aos Adeptos a responder no regresso à advogada do FC Porto e aos advogados de defesa. “Se a mudança de estatutos teria influência nas eleições? Na minha opinião não, era apenas uma questão de modernidade para o clube. O senhor Fernando Madureira disse-me só que queria apoiar o Pinto da Costa. Se ele dominava os Super Dragões? Ninguém domina ninguém mas ele era o líder. Dava-nos informações importantes para organizarmos os jogos, tinha uma boa relação com as autoridades. O diretor de segurança relatou-me que quando existiram os primeiros tumultos foi contactado pela PSP a perguntar se era preciso intervenção e ele disse que não. Onde estão as câmaras de vigilância? Existe um aquário no Dragão Caixa e a mando do diretor de segurança está lá um colaborador do FC Porto e um segurança da SPDE”, começou por referir Fernando Saul.

"Em várias páginas de apoio a Villas-Boas diziam para irem todos à Assembleia, para se filmar tudo, que o FC Porto dos mamões iam acabar. Não consigo perceber como é que um diretor de segurança que prepara jogos não acaba logo com a Assembleia quando percebeu que não cabia toda a gente no auditório. Podia ter evitado isto tudo. Mas deve ser por isso que ele lá continua."
Fernando Saul, antigo Oficial de Ligação aos Adeptos do FC Porto, durante o depoimento em tribunal

Em paralelo, houve mais algumas mensagens colocadas em cima da mesa, nomeadamente uma conversa entre Saul e “Macaco”. “O presidente não se deve recandidatar. Vai ser humilhado”, dizia o ex-Oficial de Ligação aos Adeptos. “Vamos à guerra, morremos mas morremos de pé”, respondia o antigo líder dos Super Dragões. “Isto era a perceção que eu tinha, que o presidente ia perder as eleições”, referiu, antes de mais uma interação com a líder do coletivo de juízes a propósito do apoio pretendido por André Villas-Boas.

– Porque é que é uma afronta alguém que se quer candidatar a um clube querer numa Assembleia pessoas que o apoiem? Onde é que está aqui uma afronta?
– Para mim é uma afronta. O senhor André Villas-Boas nunca tinha ido a uma Assembleia, era uma afronta porque estava a arregimentar pessoas. Meses antes surgiram várias páginas de pessoas que nem existiam, isto era uma cartilha. Não estou a dizer que foi o senhor André Villas-Boas, mas isto estava um ambiente muito mau. A afronta está no que vem de trás, no historial…
– …
– Ele teve de criar uma máquina de campanha para tirar uma pessoa que estava lá há vários anos. Nem que fosse falar mal das pessoas, criar problemas. Dou-me por muito feliz por ter sido sempre leal ao senhor presidente, ao contrário de muitos…
– Naquela assembleia não foi Pinto da Costa contra André Villas-Boas?
– Sim, foi. Mas não houve nenhum plano para que isso acontecesse. Há pessoas que deram uma chapada apenas por amor ao clube. A tal Assembleia do terror não existiu. Não houve nenhum clima de terror. O ambiente estava inflamado. Uns queriam chegar ao poder e outros queriam manter-se no poder.

“Pode chamar-me de doido mas eu chorei tanto no funeral de Pinto da Costa como vou chorar na morte de alguns familiares”, atirou depois quando já estava de novo a responder a questões dos advogados de defesa, numa frase que acabou por marcar o segundo dia da sessão de julgamento. Vítor Catão abandonou por alguns momentos a sala em lágrimas, tal como Sandra Madureira, visivelmente emocionada. O próprio Saul, visivelmente abalado, também esteve alguns minutos fora da sala. Entre estes momentos, começou a falar mais um arguido da Operação Pretoriano, neste caso José Pereira, “de 30 anos e há 27 sócio”.

“Um amigo estava na fila e deu-me uma pulseira. Disse que foi o Polaco que lhe deu a pulseira. Ele disse que foi o Polaco mas eu não conhecia, nem conheço. Vi um primeiro tumulto na bancada norte. Tentei dar um pontapé [a Henrique Ramos] mas nem sei se lhe acertei. Eu primeiro tentei falar com ele sobre o que ele tinha discursado mas começou com provocações. Acabei por me envolver na onda e depois tentar dar um pontapé. Ele [Henrique Ramos] criticou que existiam Casas do FC Porto sem espaço físico mas muitas vezes se calhar beneficiou disso, que conseguiu bilhetes. A vida dele é feita disso”, começou por dizer.

– Mas em que é isso o afetava a si?
– Porque sou sócio do FC Porto, vai contra os meus ideais.
– Mas em que é que isso o afetava ao ponto de ir até outra bancada e ter dado no que deu?
– A mim nada, afetava o clube. Ele beneficiava com isto.
– E isso não é uma contradição?
– Ele beneficiava mas deixou de beneficiar.
– E alguém passou a beneficiar com os bilhetes?
– Não.

“Agressão? Eu acho que não lhe toquei, que não cheguei a dar o pontapé. Se calhar raspei. Ele depois foi afastado para o centro do pavilhão e eu fui embora”, reforçou, antes de ser confrontado com mensagens que enviou à namorada sobre a Assembleia, em especial uma que dizia “Macaco, Polaco, tudo a virar-se. Estão a insultar quem filma, até a Sandra”. “Todas as mensagens que enviei eram coisas que ouvia as pessoas nas minhas costas a dizer. Eu não vi nada. Tudo o que relatei foi o que ouvi, não vi. Sim, ouvi isso de que havia pessoas que tinham caído nas bancadas”, acrescentou José Pereira na parte final do depoimento.

De seguida falou José Dias, adepto portista que recusou a ideia de fazer parte dos Super Dragões mas que se disse sócio do clube desde os 14 anos. “Não tinha as quotas em dias mas como era sócio há alguns anos consegui entrar”, explicou, antes de falar do que se passou na Assembleia Geral. “Sentei-me na bancada central, em baixo. Levantei-me só uma ou duas vezes para ir à casa de banho. Isto até ao momento em que o Henrique Ramos discursou. Vim da casa de banho quando o Henrique Ramos estava a discursar, estava no fim. Depois aconteceu um burburinho. Proferi um insulto. Conheço o Henrique Ramos há muitos anos mas eu não fiz nada mais do que isso, senhora doutora”, frisou, antes de passar a lado da “confusão”.

“O Henrique Ramos é apoiante do Pinto da Costa, até tem uma tatuagem com a assinatura do Pinto da Costa. Acho que por trás daquele discurso dele na Assembleia existia algo, gosta muito de protagonismo. Não gostei que ele tivesse ido incendiar as coisas, os ânimos já estavam exaltados. Só lhe disse ‘Oh boi’”, concluiu.

“As Casas são para pagar outras casas a funcionários do FC Porto”: o discurso que incendiou ânimos, levou a mais agressões e suspendeu AG

Seguiu-se Fábio Sousa, o último arguido a prestar declarações no segundo dia. “Fui lá só para ver, nunca tinha ido a uma Assembleia. Soube por amigos que ia haver. Passamos à frente na fila, eu e os meus amigos. Ninguém me meteu lá dentro, ninguém me impediu de entrar e eu fui”, referiu, já depois de dizer que não era sócio do FC Porto. “Estava lá um senhor junto à porta vestido de segurança que não estava ali a fazer nada então, é isso?”, questionou a juíza. “Basicamente”, respondeu, entre respostas quase sempre vagas.

– Vem imputado que o senhor terá agredido uma senhora. É verdade?
– Não. Não dei nenhum estalo, não ameacei nem insultei ninguém. Só vi a confusão com o Aleixo, até estava a fumar nessa altura…
– Lá dentro?
– Sim…
– Isto vale tudo, não é?

“Fui à Assembleia para apoiar o Pinto da Costa. Vi o Aleixo pai a descer as escadas, vi confusão, o Aleixo filho estava lá embrulhado. Eu ia para separar mas um segurança empurrou-me”, referiu ainda, com essa nuance de a senhora em causa ser a mulher e a mãe de Vítor Manuel e Vítor Bruno “Aleixo”. Fim de sessão.

Dia 3. “Choque” com Villas-Boas, Madureira a revirar olhos e um Henrique muito “Tagarela”

Depois da pausa esta quarta-feira, o terceiro dia de julgamento, último da primeira semana, seria marcado pela presença de André Villas-Boas, presidente do FC Porto que chegou ao Tribunal de São João Novo com as advogadas que representam o clube enquanto assistente no processo e seguranças privados que seguiam um pouco atrás de forma mais discreta. Logo à chegada, o líder dos azuis e brancos recusou com cortesia falar antes do arranque dos trabalhos, seguindo para a porta de acesso sem mais comentários. Nessa altura, Fernando Madureira, que estava noutro espaço, já tinha também chegado entre o habitual aparato policial tal como Henrique Ramos, adepto portista que iria também prestar declarações esta quinta-feira e que passou em passo acelerado pelos jornalistas à porta que apenas se deram conta quando tinha entrado.

Filas sem fim, petardos, cânticos, mudança de local e agressões no Dragão Arena: os momentos de tensão na AG do FC Porto (que foi cancelada)

Enquanto tudo era preparado, Fernando Madureira estava num local, André Villas-Boas encontrava-se num outro espaço de onde saiu apenas para rumar à sala do julgamento, todos os restantes arguidos (hoje menos, pelas dispensas concedidas pela juíza por motivos profissionais) esperavam o arranque dos trabalhos. Numa primeira instância ainda se considerou que seria Henrique Ramos, conhecido no processo como Tagarela, a ser o primeiro a falar mas a ordem não se confirmou, com o presidente portista a dar início à sessão.

– Sim, conheço Fernando Madureira, Sandra Madureira, Vítor Catão e Fernando Saul.
– Esteve na Assembleia Geral?
– Não esteve na Assembleia, apenas na final de acreditação. Não cheguei a entrar.
– Porque é que não entrou?
– Quando cheguei ao Estádio do Dragão fiquei na fila. Dá-se um compasso de espera para uma potencial mudança de local, era a informação ia circulando. Na altura estava perto do P1. O meu advogado diz que a mudança do local estaria ou poderia infringir os estatutos do FC Porto. Também tínhamos informação do que se passava no auditório e o meu advogado disse que era melhor não participar e depois prestar declarações à comunicação social.
– Falou-se aqui de uma grande mobilização de pessoas da sua parte. Porque é que essa Assembleia era tão importante? O que é que mudaria? Teve conhecimento da alteração dos estatutos?
– Sabia-se mais ou menos os pontos que iam ser votados, pela comunicação social. Todas as mudanças de estatutos são importantes para um clube. Naturalmente isso atrai uma massa associativa muito forte, isso acontece em todo o mundo. Estes estatutos já prevalecem há algum tempo. Estava em causa a mudança dos estatutos a seis ou sete meses das eleições, até podia implicar esticar no tempo a data das eleições.
– No geral qual era o seu voto?
– Era contra.

Foi nesta fase que o julgamento sofreu uma curta interrupção, sem que ninguém conseguisse perceber numa primeira instância das razões para essa pausa (até porque alguns pormenores como a imagem e sobretudo o som na sala onde ficavam os jornalistas que não conseguiam aceder ao espaço do julgamento tinham sofrido melhorias). Pouco depois, o próprio presidente da Comarca do Porto explicou que teria de haver alguma “reorganização” de todos os trabalhos também por parte da comunicação social para que não houvesse qualquer tipo de perturbação ou interrupção das outras sessões de julgamento que estão a decorrer no local.

▲ André Villas-Boas explicou razões para não ter entrado na Assembleia Geral depois da mudança para o Dragão Arena

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

“Quando vou para o Estádio do Dragão faço duas passagens. Na minha primeira passagem de carro ouço rebentamentos de petardos e pedi ao meu motorista para fazer outra passagem e deixar-me na Alameda. Tudo o resto soube por pessoas conhecidas e pela comunicação social. Organização das Assembleias Gerais? Nós mudámos a organização das Assembleias, atualmente passam pelo departamento das operações e temos um vice-presidente com essa responsabilidade. Antigamente não sei como era”, explicou.

– As câmaras no Dragão Arena são controladas por segurança. Se viram para um lado ou outro é porque alguém as virou?
– Normalmente sim, elas não mudam sozinhas. Um novo foco de disrupção pode levar a uma mudança.
– Quanto à claque, algo ia mudar?
– Os novos estatutos permitiam que o financiamento fosse mais facilitado. Aliás, na nossa auditoria foram detetadas várias ilegalidades. O protocolo com os Super Dragões foi revisto, não havia controlo nenhum e o FC Porto foi lesado em vários milhões.

“Quando viu as movimentações nas redes sociais achou que o auditório ia chegar?”, questionou de seguida a procuradora. “Sim, achei que não ia chegar, pela movimentação orgânica de adeptos que existia. O meu advogado achava que aquela Assembleia podia ser impugnada. Movimentações da claque? Sabíamos que queriam captar cartões de sócios para que não sócios entrassem. Vi mensagens, não sei a veracidade”, apontou, antes de tentar falar à luz das conclusões da auditoria que foi entretanto conhecida e difundida, algo que a juíza não deixou perante a contestação de vários advogados dos arguidos. No entanto, e perante as questões da advogada do FC Porto, o atual líder dos dragões abordou a relação que existia com a claque.

“Essa alteração nos estatutos seria uma maneira mais fácil de saldar a dívida que os Super Dragões tinham com o FC Porto. Benefícios da claque eram ilegítimos? Não é normal que o FC Porto pague despesas de viagens a membros da direção dos Super Dragões. Era um privilégio e um abuso”, apontou. Foi nessa altura que Fernando Madureira manifestou de forma mais visível o descontentamento pelas declarações, a revirar os olhos e a respirar fundo como foi acontecendo em vários momentos do depoimento. Outro exemplo disso? Quando Villas-Boas referiu que nunca disse que não se candidataria contra Pinto da Costa.

"Essa alteração nos estatutos seria uma maneira mais fácil de saldar a dívida que os Super Dragões tinham com o FC Porto. Benefícios da claque eram ilegítimos? Não é normal que o FC Porto pague despesas de viagens a membros da direção dos Super Dragões. Era um privilégio e um abuso."
André Villas-Boas, presidente do FC Porto, durante a terceira sessão do julgamento da Operação Pretoriano

André Villas-Boas começou depois a responder a questões dos advogados de defesa, numa parte que seria mais “esperada” por aquilo que poderia ser perguntado. “Bruno Branco [agente da PSP] não foi a única pessoa que me transmitiu o ambiente de coação e intimidação na Assembleia. Ninguém gosta de ver os associados do FC Porto a ter estes comportamentos indignos para com outros associados. Alguns órgãos sociais do FC Porto ficaram inertes perante o que estava a acontecer. Se há comportamentos graves por omissão? Acho que deveria ter sido chamada a polícia e essa responsabilidade cabe ao presidente da Mesa da Assembleia [então Lourenço Pinto]”, assumiu a esse propósito o atual líder da Direção do FC Porto.

“O chefe de segurança não é um órgão social para poder chamar a polícia. A certo ponto, nessa Assembleia Geral, achei que tinha de ser chamada a polícia e essa responsabilidade cabe ao presidente da Mesa da Assembleia Geral. Pedi ao meu advogado por diversas vezes para chamar a polícia pelos relatos que me iam chegando. Ninguém gosta de ver associados do FC Porto com comportamentos indignos e intimidatórios para com outros associados. Destaco também a passividade dos anteriores órgãos sociais. Ficaram inertes perante a passividade que estavam a ver. Bruno Branco? Só o vi à vinda do auditório. Quando comecei a dar uma entrevista, existe algo que faz parte de um processo que Bruno Branco tem como agente. Se ele alguma vez me fez segurança? Não, não fez. Essa notícia referida é falsa”, assegurou Villas-Boas.

Perante as questões de Cristiana Carvalho, advogada de Fernando Saul, o âmbito das questões ficou mais alargado, nomeadamente com declarações em que dizia que não se candidataria contra Pinto da Costa. “Eu nunca disse isso, eu disse que enquanto fosse vivo deveria manter-se no cargo. Percebo que algumas pessoas tenham ficado dececionadas por me candidatar, compreendo que sim. Há uma mudança de posicionamento. Mas isso não implica é pintarem os muros de minha casa…”, atirou, antes de dizer que João Brandão, atual técnico da equipa B, não era seu padrinho de casamento e que não havia ninguém com o nome Gustavo Villas-Boas Ricca no scouting. Foi nessa parte do depoimento que surgiu o dado “anormal”.

Cristiana Carvalho pediu para que fosse anexado ao processo um vídeo onde alegadamente Villas-Boas incentivava pessoas a votarem nas eleições de abril e que, caso não pudessem, pedissem a alguém que o fizesse em seu nome. A procuradora comentou que o vídeo não dizia respeito ao objeto do processo, tendo em conta que o sufrágio eleitoral foi realizado seis meses depois, os advogados de defesa não colocaram qualquer objeção, a advogada do FC Porto pediu cinco dias para ver o vídeo e depois tomar uma posição.

▲ Assembleia Geral do FC Porto de 13 de novembro de 2023 continua a ser escalpelizada como um dos dias mais negros na história do clube

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

A juíza informou André Villas-Boas que terá de voltar ao tribunal para esclarecer um alegado apelo à transmissão de cartões de sócios se os seus detentores não pudessem comparecer no ato eleitoral. Isto na sequência de um pedido de Cristiana Carvalho para que se junte um vídeo onde diz que Villas-Boas surge a incentivar as pessoas a votarem nas eleições e que, se estivessem impedidas de o fazer, que pedissem a alguém para ir no seu lugar. A procuradora diz que o vídeo se reporta às eleições e que por isso está fora do objeto do processo. Os advogados de defesa nada têm a opor e a advogada do FC Porto pediu cinco dias de prazo de vista, ou seja, quer ver o vídeo e depois vai pronunciar-se. A pausa para almoço chegaria pouco depois, sendo que antes desse momento Villas-Boas defendeu Carlos Carvalho, diretor de segurança, e das mensagens no grupo do WhatsApp dos Super Dragões: “Têm um elevado nível de agressividade”.

André Villas-Boas voltou a não falar à saída do tribunal, onde regressou pouco antes das 14h30 para a parte final da sua presença onde iria responder a perguntas dos advogados de defesa. Gonçalo Cerejeira Namora, advogado de Fernando e Sandra Madureira, voltou a colocar o enfoque na figura do agente Bruno Branco por um alegado problema durante a reunião magna de 13 de novembro de 2023 com um associado. “Cruzei-me com ele, disse-me que as condições no auditório eram hostis, com muita desordem e gente de pé, e muitos cânticos, o que é estranho no contexto de Assembleia Geral”, ainda respondeu o líder portista, antes de a juíza fazer o que já fizera antes com Adelino Caldeira, por exemplo, dizendo que não estava a ser julgado. Mais tarde, ainda ao mesmo advogado, quase que se sentindo visado pelo teor das questões, André Villas-Boas deixou também uma questão: “Há aqui um ponto importante: como é que o FC Porto se permite lesar? Como é que o FC Porto se lesava com a relação que tinha com um Grupo Organizado de Adeptos?”.

“O sentido e o âmbito da proposta é que haja uma facilidade de votarem sócios de vários pontos do país. A segurança e a proximidade do ato eleitoral, volto a repetir, é que são questão. Disse a Henrique Ramos que teve grande coragem em ter revelado as ilegalidades das Casas”, assumiu Villas-Boas no final.

Foi precisamente Henrique Ramos que se seguiu (enquanto o presidente portista falava cá fora à porta do tribunal aos jornalistas). O associado portista, também conhecido por Tagarela, foi agredido e alvo do maior foco de problemas na Assembleia Geral, na sequência de um discurso onde inicialmente mostrou o seu apoio a Pinto da Costa mas depois colocou em causa a existência de Casas do FC Porto sem morada, algo que podia ter impacto perante as alterações estatutárias discutidas. “Quando entrei já estava muita gente dentro do pavilhão. Sentei-me na bancada superior norte. Expliquei depois em discurso que muitas Casas só serviam para justificar a saída de bilhetes que iam para as mãos de muitas pessoas. Podiam dizer que havia uma Casa em Angra do Heroísmo e se calhar só tinha lá um pasto, por exemplo”, começou por referir.

▲ Bancadas do Dragão Arena não demoraram a encher quando a Assembleia Geral passou do auditório para o Dragão Arena

“Fui interpelado por um senhor Jorge Silva, o Jorge das paletes. Disse que eu era um mamão, como não tinha nada para dizer chamou-me de mamão. Levantei a mão e nisto vem outro senhor, o António Sá e agride-me”, prosseguiu antes uma interrupção que motivou muitos risos na sala por parte da juíza: “Já sei de onde vem a sua alcunha…”. “Ele empurrou-me, eu caí. Depois fui para o meu lugar para tentar que as coisas acalmassem, sentei-me mas fui agredido novamente pelo senhor Vítor Bruno [Aleixo] e pelo José Pedro, que eu nunca o tinha visto na minha vida. Ainda não sei qual foi a motivação dele, deve-lhe ter dado os cinco minutos”.

Durante as respostas, que foram prestadas no mesmo local onde André Villas-Boas tinha estado a depor (que não é o mesmo onde marcaram presença para depoimento os arguidos), Henrique Ramos fez questão de “defender” o comportamento de “Macaco” na Assembleia Geral. “Cheguei a ver lá o Fernando Madureira. A certa altura ele começa a ver que aquilo vai dar confusão e tentou evitar a confusão. Foi ali para me defender. O que vi foi inoperância pelo número de pessoas que ali estavam. Se as portas abrem às 20h e às 20h as pessoas já não cabiam, o presidente da Mesa da Assembleia Geral só deveria era suspender”, frisou, em declarações que não só ilibavam o antigo líder dos Super Dragões mas eram particularmente defensoras de Pinto da Costa, ex-presidente do FC Porto falecido no último mês (que era uma das testemunhas do caso).

No entanto, e num depoimento que não chegaria ao fim – será retomado na próxima segunda-feira, a partir das 13h45 –, o caminho das declarações levaria outro rumo, com a juíza Ana Dias Costa a mostrar por mais do que uma vez a irritação com algumas respostas ou dúvidas apresentadas por Henrique Ramos.

“Havia muitos grupos de WhatsApp a mobilizar pessoas, a maior parte delas nunca tinha ido a uma Assembleia. Não pertencia a esses grupos mas tinha amigos que me mostravam e enviavam para outros grupos onde estava que nada tinham a ver com futebol. Muitos diziam que eram contas falsas e que a Assembleia era importante porque se ia ver se eram pessoas reais. Começou-se a ver que eram pessoas e não eram poucas. Linguagem usada? Não vou estar a falar de linguagens porque havia dos dois lados, uns com mais erros ortográficos, outros com menos. Havia muita bitaitada por lá”, comentou, antes de referir que João Borges, que seria eleito vice-presidente na Direção de Villas-Boas, lhe enviou uma mensagem a dizer “Vais pegar fogo à AG”, que tinha uma boa relação com Fernando Madureira e que estava zangando com Fernando Saul na altura da Assembleia Geral: “Estávamos, sim, mas apenas por assuntos particulares”.

De seguida, o Ministério Público entrou em cena e, mais do que fazer questões, comparou declarações de Henrique Ramos em tribunal com que tinha referido ainda na fase de inquérito. Contradição 1: depois de dizer que tinha visto Sandra Madureira no Dragão Arena, referiu agora que afinal não tinha visto nesse dia. Contradição 2: depois de dizer que a aprovação dos estatutos iria favorecer Pinto da Costa e a sua liderança no decorrer da fase de inquérito, agora comentou que não teria qualquer influência. Mais: enquanto tido isto acontecera, Henrique Ramos colocava em causa o interesse das questões. A juíza “cortou” – e foi a eito.

“Gosta muito de estar a comentar a importância das perguntas e já é a terceira vez que lhe digo, assim a gente não se entende. O senhor não está no café nem está no teatro”, atirou Ana Dias Costa. “Estamos a lidar com a liberdade das pessoas, temos de ser sérios. O senhor pede desculpa e cala a boca porque, se disser mais, as desculpas perdem o sentido. O senhor é um bocado mais que testemunha. Tem danos, alegadamente foi vítima, por isso é assistente, mas tem de se comportar com o seu estatuto no processo e não o está a fazer. Vamos ter uma conversa minimamente aceitável, com os mínimos de inteligência e respeito pelos senhores advogados que estão aqui presentes”, reforçou. A terceira sessão estava a chegar ao fim mas nem por isso o testemunho de “Tagarela” acabou, tendo ainda questões por responder no arranque da quarta sessão.

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