Esta foi uma campanha que terá sido desenhada durante meses nas salas de guerra de cada um dos partidos, mas assim que veio para a estrada mostrou ser permeável a tudo o que vinha de fora do guião. Começou com a acusação do caso Tancos, terminou com a notícia da morte de Freitas do Amaral.

Mas se no primeiro caso se estabeleceu de imediato a fronteira esquerda/direita com que se tem vivido a política nos últimos quatro anos, no outro houve um estranho fenómeno de apaziguamento.Todos os líderes partidários, sem exceção, baixaram o volume e prestaram homenagem ao legado político e académico de um homem que fez uma passagem arriscada nessa ponte agora quebrada entre a direita e a esquerda.

Por causa da morte de Freitas, o PSD anunciou um último dia de campanha frugal. O CDS demorou mais a reagir, mas à noite decidiu-se pelo fim antecipado da caça ao voto – às três da tarde de sexta-feira.

Quer isto dizer que a campanha acabou? Nem por isso. Para já, as sondagens continuam a revelar surpresas, desta vez a queda do CDS para valores abaixo dos do PAN. Por outro lado, no PS o apelo ao voto é cada vez mais dramático, e até Mário Centeno fez um golpe de teatro com olhares para a câmara para falar diretamente a Rui Rio.

No PSD, a frugalidade é mesmo só para o último dia, até porque nesta quinta-feira à noite já estava contratado Alberto João Jardim. E Jardim é Jardim, seja no Funchal, seja no Porto. Ainda assim, pareceu discreto ao pé de um surpreendente André Silva que subiu a um púlpito pela primeira vez nesta campanha, e já que lá estava, disparou contra todos os adversários.

Francisco Louçã juntou-se ao comício do Bloco de Esquerda no Porto e Catarina Martins aproveitou a força para prometer um “upgrade” à “geringonça”. Jerónimo de Sousa diz que “nunca houve uma batalha fácil”, mas não se comprometeu.

A campanha segue agora para as últimas horas na estrada, e neste Caça ao Voto aproveitamos para olhar para trás e tentar perceber o que de bom e de mau marcou cada partido.

O PS tem a bússola D. Fernanda. Mas Costa tem um trauma

No balanço do meio da campanha socialista, o Observador lembrou um encontro de António Costa em Viseu há quatro anos, com uma senhora, em que percebeu que não ganharia as eleições. Pois bem, durante esta última semana, o mesmo António Costa lembrou esse episódio e o nome da senhora: “D. Fernanda”. Agora está satisfeita com o Governo socialista e António Costa vai animado, mas não seguro. Nada seguro.

Digamos que é difícil definir o que é que nesta campanha nasceu primeiro: se o caso Tancos que travou o ímpeto socialista e deu gás a Rio; se as sondagens a esfriar os ânimos socialistas e a dar gás a Ri0. Um dos socialistas que tem colaborado com Costa nestes dias acredita antes que foi o PSD a fabricar durante meses uma expectativa baixa em relação a Rui Rio, para ter precisamente este efeito de onda nesta fase do campeonato — e que isso prejudicou o PS no comparativo direto. Seja qual for a tese a vingar, Rio parece sempre sair por cima de Costa que começou a última semana arredado dos holofotes. Saiu de candidato para primeiro-ministro por causa do furacão dos Açores, cancelou agenda, voltou à estrada para mostrar obra feita (aqui e aqui), insistindo no fato de chefe do Governo (não fosse alguém esquecer-se que ele é que é o primeiro-ministro), e a dramatizar ao máximo o apelo ao voto.

Não há nada nesta sucessão de acertos de estratégia que mostre uma candidatura serena. Só nas estratégias ganhadoras não se mexe. O líder socialista faz contas à vida, chamou as tropas pesadas (Centeno, Santos Silva, Vieira da Silva, Pedro Nuno Santos e Carlos César) para fazer as despesas da campanha dos ataques ao PSD e a Rui Rio e também de avisos (poucos) à esquerda — que não quer ver crescer de forma “desmesurada”. Não foi claramente para o lado dos parceiros que o PS teve de virar as suas armas nesta campanha, mas antes para o social-democrata. Costa prepara-se para sair de cena a avisar para a “angústia” do dia 7, caso quem quer que o PS governe não vote no PS e faça um voto estratégico para travar uma maioria absoluta. Mas o angustiado maior será ele, até porque aquilo que será dos próximos quatro anos define-se até ao último voto. E porque há o trauma de 2015.

PSD. O líder que tinha os dias contados e que agora quer ficar

Ufa, já passou. Foram 15 dias de campanha onde Rui Rio não podia errar, e não errou (muito). Antes de partir para a estrada, um membro da direção social-democrata dizia ao Observador que os últimos 15 dias de campanha oficial não decidem uma campanha, mas não dar tudo nos últimos 15 dias de campanha pode decidir uma campanha. A estratégia parecia ser não haver estratégia nenhuma: sem notáveis, sem companhia de relevo (a não ser Alberto João Jardim, no penúltimo dia), sem grande colorido, o trunfo era mesmo o protagonista. O político “honesto”, “sério”, “genuíno”, que diz o que pensa e não é “politicamente correto” contra o político “manhoso” que é António Costa.

O caso Tancos serviu como uma luva a esta narrativa da “manha”. António Costa foi rápido a reagir, apanhando de surpresa Rui Rio, e Tancos quase fez ricochete no atirador. Quase. Rui Rio estava a condenar na praça pública um ex-ministro que ainda não foi condenado nos tribunais? Costa defendeu esta tese, Rio defendeu a sua, e assim se passou uma campanha a falar do caso que Rio levou para a campanha com pose de estadista. Resultado: a campanha bipolarizou-se entre Rio e Costa. Bingo. Era isso que Rio queria. Seguiu-se o “duelo de Centenos”, outro tema que Rui Rio pôs na agenda. Mário Centeno é o ministro do PS que goza de maior popularidade junto dos portugueses e que leva para o PS o carimbo da “credibilidade das contas certas”. Falando dia sim, dia sim no duelo que nunca se realizaria entre o Centeno de Costa e o Centeno de Rio, o líder do PSD conseguiria pôr o “seu” Centeno, Joaquim Sarmento, no mesmo patamar do verdadeiro. O caso repetiu-se: Centeno a destruir as contas do PSD, e Rio e Sarmento a defenderem as contas do PSD. Todos os dias o mesmo tema nos noticiários. Resultado: a bipolarização. Bingo.

Foi uma campanha de casos, numa campanha que não queria “gritaria”. Foi uma campanha sem propostas concretas, numa campanha que queria trocar os comícios por “talks”, para falar de propostas concretas. A política chegaria na segunda semana, com três comícios à moda antiga, “porque também tem que ser”. 

CDS – Uma campanha para esquecer

Depois desta campanha, a Lei de Murphy corre o risco de se tornar a Lei de Cristas. E não tem nada a ver a lei das rendas, que a esquerda lhe tenta colar à pele. Tudo o que podia correr mal ao CDS, correu. A campanha arrancou no Barreiro, com Cristas a passar quase indiferente perante os passageiros apressados que só queriam apanhar o barco. Era um mau presságio, que se confirmou. O CDS lutou sempre para sair da condição de grande derrotado nas sondagens, com o fantasma do táxi a pairar sobre a campanha. Um partido médio (tem 18 deputados), que já foi governo várias vezes, a ver-se no limbo de estar a discutir o último lugar com o PAN. Isto enquanto via o antigo parceiro de governo a crescer.

Mesmo sem ser culpa de Cristas, muitas coisas foram correndo mal à líder do CDS. Nuno Melo entrou na campanha a atacar a “imprensa que não é livre” e a ofuscar Cristas no primeiro grande comício da campanha. Depois chegou Tancos e tudo mudou. Cristas ganhou gravitas político, suspendeu a campanha para reagir e conseguiu até fazer manchetes de jornais na edição online ao suspender uma sessão de campanha e convocar a comissão executiva para iniciar o tiro ao Costa. 

A estratégia do quadrado (com quatro ataques ao Governo sobre Tancos: provar incoerência de Costa, pedir a Ferro que enviasse as declarações de Costa e Azeredo para o Ministério Público, pedir uma segunda comissão de inquérito e viabilizar a comissão permanente antes das eleições) ajudaram o CDS a marcar uma posição. Mas essa posição foi esvaziando ao longo da campanha com o primeiro-ministro a conseguir desviar-se dos ataques.

Quando a campanha entrava na fase final esperava-se demonstrações de força no Porto e Lisboa. A campanha de Cristas chegou até a comunicar que a candidata ia aparecer ao lado de Rui Moreira, o presidente da câmara do Porto, num espectáculo de jazz, mas uma notícia que interpretou o encontro como um apoio enfureceu Rui Moreira. O autarca já não apareceu e deixou Cristas ir sozinha com a família à Casa da Música. Este tipo de confusões era impossível na máquina profissional do CDS de Paulo Portas. 

Pela finta que fez a Cristas, Rui Moreira teve direito a uma reprimenda de Lobo Xavier, que a par de Nobre Guedes foi dos poucos notáveis que apareceu na campanha. Paulo Portas continua sem aparecer e só falta meio dia para que o possa fazer. A ausência de uma ação com a líder é um sinal que pode ser mal interpretado pelas bases do CDS, mesmo que seja apenas uma questão de agendas, como diz a líder.

Na arruada do Porto, Cristas foi alvo de uma tentativa de agressão. Isto apenas um dia depois de ter visto uma noite de fados estragada em Coimbra por gritos de “fascistas”. A tentativa de agressão podia afeta-la anímicamente, mas a líder centrista recebeu mensagens de vários quadrantes do CDS a darem-lhe força. O momento até podia ser capitalizado a favor de Cristas. Mas no momento em que o CDS procurava evidenciar a coragem da sua líder, como mulher sem-medo, que não foge da rua e que encara os problemas de frente, morreu o fundador do partido, Freitas do Amaral.

A líder do CDS já estava a ser criticada por não suspender a campanha até que optou por uma solução intermédia: cancelar a campanha no último dia às 15h00, para que os militantes pudessem prestar homenagem nas cerimónias fúnebres ao fundador do partido. Isso faz com que não possa ter a descida do Chiado nem um grande comício no Largo do Caldas. Não se sabe se isso seria bom ao mau, mas é mais um exemplo de que tudo o que podia correr mal a Cristas, correu. Teve de fugir do guião e correr muitas vezes atrás do prejuízo. O CDS alimenta a esperança, que aconteceu em outros escrutínios, de que os resultados do CDS nas urnas são sempre melhores que as sondagens. Só domingo se saberá.

BE. Do arrufo com o PS ao upgrade da “geringonça”

O Bloco de Esquerda partiu para a estrada disposto a apelar ao “voto útil” à esquerda. As sondagens deixavam antever a possibilidade de haver uma maioria absoluta do PS, o que, a conretizar-se colocaria o partido de fora de qualquer solução de governo. Assim, e para manterem a influência que conquistaram ao longo destes quatro anos, os bloquistas iam apostar tudo em dividir para reinar. PS de um lado, Bloco do outro. Ou o que é o mesmo: maioria absoluta de um lado, nova “geringonça” do outro.

Ao longo da campanha foi possível ver por diversas vezes os bloquistas a atacarem o PS. Catarina Martins inaugurou as hostildades, começando por responder diretamente a António Costa sobre as acusações que o líder do PS tinha lançado sobre a formação da “geringonça”, insinuando que o BE tinha sido o último partido a juntar-se à solução. Francisco Louçã encerrou-as esta noite ao lembrar que “António Costa só governou porque Catarina Martins e Jerónimo de Sousa lhe deram a mão”. Pelo meio, houve várias figuras que também cerraram fileiras: Fernando Rosas, que diabolizou — e muito — as maiorias absolutas, ou José Manuel Pureza, que encostou o PS à direita. 

A outra parte da narrativa passava por dar uma nova pele à imagem do Bloco de Esquerda. E assim foi. Nestas duas semanas, não houve comício em que não se pintasse o BE como “o partido da estabilidade” e das “contas certas”. por oposição aos empecilhos. Neste ponto, Catarina Martins e a sua entourage insistiram por várias vezes na ideia de que foi o Bloco a controlar os impulsos do PS, garantindo estabilidade. Tudo para que, como a coordenadora do BE explicou esta quinta-feira, o partido possa crescer e assim partir para “novas soluções” que partam da “geringonça”.

Catarina Martins que fazer upgrade à “geringonça”: “BE contará para novas soluções, um novo começo”

A líder apostou muito em pedir mais deputados nos distritos em que o BE espera eleger pela primeira vez — Viseu e Viana do Castelo — ou aqueles em que quer crescer — Braga, Aveiro e Setúbal.

Pelas ruas, Catarina Martins foi sendo muito solicitada, sobretudo por mulheres. Das pensões à saúde, da maioria absoluta à geringonça, muitos foram os temas que serviram de base aos populares para lançarem ataques ou elogios à líder do partido. Nunca lhe falaram de Tancos nas ruas e pouco disse aos jornalistas, quando foi questionada. Reagiu apenas quando houve acusação e, por mais insistência que houvesse, nunca mais acrescentou uma frase ao argumento inicial. Conseguiu passar à margem daquele que foi o principal tema e não conseguiu que o despique com o PS, que foi entrando na agenda, marcasse tanto como queria. No domingo, tudo ficará respondido.

CDU – A trabalhar para o reforço ou para a manutenção?

Antes de ir para a estrada, a CDU estabelecia como meta, além de se querer reforçar nos distritos onde habitualmente já elege, conseguir conquistar os votos do eleitorado que habitualmente não opta pelo “quadrado ao lado da foice e do martelo e do girassol”. A verdade é que, nas duas semanas de campanha, a caravana comunista pouco se desviou dos distritos onde é mais forte. Tirou um dia para fazer um três-em-um e visitar Coimbra, Viseu e Aveiro, onde não tem deputados, mas os discursos mornos não fizeram transparecer o empenho em catapultar deputados para a Assembleia. 

Numa campanha eleitoral com muitos quilómetros e percursos de norte a sul, ao longo essencialmente do litoral português — o mais interior que esteve foi em Serpa —, ficou a faltar o contacto direto com a população. Jerónimo de Sousa chega às ações dois minutos antes da hora marcada e sai assim que terminam. Havia uma grande expectativa para as arruadas de Jerónimo de Sousa, que foram deixadas para os últimos dias, e para o contacto com pessoas de fora da máquina do partido (que chegam aos jantares e comícios em autocarros e estão habituados à confraternização entre camaradas ao longo do ano), mas as arruadas foram transformadas numa espécie de marcha ao longo da rua, com um corpo de seguranças a delimitar o trajeto e pouco espaço de manobra resta para interpelar ou ser interpelado por quem assiste.

O discurso coerente e repetitivo das intervenções nas duas semanas de campanha oficial garantem à coligação que em qualquer distrito por onde tenha passado a mensagem foi a mesma, procurando capitalizar também os votos dos mais desconfiados com a política —primando pela coerência — e garantir o eleitorado do “voto honrado”.

Uma campanha muito apostada também em distanciar o PCP do PS, garantindo que nem um nem outro mudaram a sua génese e que continuam divergentes em muitas matérias; e em ataques frequentes ao PAN, com o argumento de na coligação integrarem Os Verdes que “já cá andam há mais de quatro décadas”. 

PAN. A campanha discreta mostrou as garras no último dia

A campanha do PAN começou discreta e um passo atrás das dos outros partidos — até mesmo em termos de tempo, já que o partido optou por arrancar com a agenda apenas na quarta-feira da primeira semana oficial de campanha. Durante praticamente todo o tempo, o PAN manteve-se relativamente imune e alheio às polémicas que foram rodeando a campanha eleitoral e procurou apelar às bases do partido com um foco especial nas iniciativas de cariz ambiental e algumas relacionadas com os animais.

Recusou comentar e trazer à campanha o caso de Tancos (embora tenha aproveitado para pedir mais meios de combate à corrupção e de o ter apresentado inclusivamente como linha vermelha para um eventual futuro acordo com os socialistas) e preferiu sempre discutir propostas. Mesmo com menos meios e muito menos experiência, o PAN percorreu grande parte do país, de Faro a Paredes de Coura, e recolheu apoios até nos lugares mais improváveis e entre as faixas etárias menos esperadas.

Mas se, praticamente até ao final da campanha, os outros partidos foram ignorando o PAN, acreditando que o partido ainda estava na mesa das crianças e sem entrar no jogo dos adultos, André Silva aproveitou o otimismo das sondagens (uma chega a dar ao PAN mais votos do que ao CDS) para se impor — e fê-lo em grande força. No único discurso da campanha, durante um jantar-comício em Palmela, André Silva apontou em todas as direções, deixando duras críticas ao CDS, PSD, PCP, Bloco e PS. Durante a tarde, já tinha criticado os Verdes, considerando-os uma “ficção política”, em resposta às declarações do deputado José Luís Ferreira, na quarta-feira, sobre os “novos ecologistas” do PAN.

Concentrando na região da Grande Lisboa os esforços na reta final da campanha, o PAN ainda passou por uma fase de moderação das expectativas — assumindo que uma vitória seria qualquer resultado que desse mais de um deputado ao partido —, mas o ar que se respira agora na comitiva ambientalista é de enorme otimismo e confiança na eleição de um conjunto considerável de deputados. Entre os apoiantes mais ativos na campanha, a esperança de eleger uma mão cheia de deputados não esmorece.

Papa-quilómetros

PS – Viseu-Mangualde-Lisboa-Setúbal-Lisboa. Total do dia, 413km. O PS já leva 2865 km.

PSD – Aveiro-Porto. 80km, 2890 km de estrada.

CDS– Porto-Barcelos-Gondomar-Porto: 160 km. Total: 3644 km.

BE – O Bloco só fez campanha no Porto. Total de quilómetros na campanha, 2706 km.

CDU – Barreiro – Lisboa – Marinha Grande, 218 km. Total: 3659km. Ultrapassou o CDS e lidera em distância percorrida.

PAN Lisboa – Seixal – Almada – Palmela – Lisboa. O partido percorreu 109 km e fica com um total acumulado de, 1723 km.

O Caça ao Voto é uma análise diária à campanha com os contributos dos repórteres do Observador na caravana dos partidos, Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes.