Caça ao Voto 6 - Altos e baixos de uma semana de campanha. O que corre bem e o que corre mal em cada partido /premium

  • Texto de Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes, fotografia de João Porfírio e André Dias Nobre

Com um escândalo político a marcar (ainda) a primeira semana da campanha, há vencedores antecipados a perder terreno e derrotados à partida a levantarem-se do chão. Quem disse que ia ser morno?

Quem imaginava uma campanha morna para estas legislativas, não mais que um passeio triunfal do Partido Socialista em direção à maioria absoluta, enganou-se redondamente. Rui Rio está a revelar ser um político em campanha mais forte do que se podia supor inicialmente. Tanto ele como Cristas podem agradecer aos deuses o presente que lhes caiu no colo, em forma de Tancos, e que veio reforçar o depauperado armazém de munições contra o governo de António Costa. O assunto chegou para ficar, o que significa que houve outro efeito surpresa: ao palco mediático acabou por subir a direita, que disputa os holofotes com Costa. Quanto à esquerda, que começou a campanha a explorar a relação tensa com o PS, tem vindo a passar mais discreta. O PAN está a fazer a primeira caravana debaixo de toda a atenção mediática, mas ainda parece não ter percebido bem para que lado aponta a luz. Esta é a análise dos repórteres do Observador que estão na estrada, quando estamos exatamente a meio da campanha eleitoral.

PS. O novo medo de Costa, depois do despiste de 2015

Há um momento da campanha de 2015 em que António Costa percebeu o que combatia realmente e que podia ser difícil de bater a PSD/CDS: quando uma senhora em Viseu lhe disse que gostava do que ele dizia, mas tinha receio de votar nele por arriscar perder o que tinha e estava a recuperar. Desta vez é outra a conversa que ouve na rua a fazê-lo pensar: quem lhe diz que gostava de votar nele mas tem receio da maioria absoluta.

O desejo escondido do PS tornou-se um problema. O líder socialista já assumiu que a maioria absoluta não é coisa que apaixone os portugueses, embora saiba que é o que lhe dá segurança para o dia seguinte às eleições. Como não pode falar nela, vai alinhando outra linha de argumentação. Quem quer o PS no Governo, tem de votar no “partido da mãozinha” não em nenhum outro quadrado acima ou abaixo. O político que gosta de jogar, neste campeonato não quer contas. Quer os votos expressos, para conseguir “governar mais quatro anos”, para dar “estabilidade” política, para que o que foi feito não possa ser revertido.

São estes os principais argumentos que tem usado nesta campanha, agitando com o diabo da direita poder fazer o país “voltar para trás”. Depois conta no terreno com os seus valetes, como Santos Silva e Carlos César, que vêm dizer o que ele não pode. O presidente do partido para pedir uma “maioria de valor reforçado” e o ministro para dizer que o crescimento da esquerda (nomeadamente do Bloco) é um risco grande para o PS.

E é assim que vai avançando pelo país. António Costa não se perde em guerras paralelas ou combates diretos com adversários eleitorais (não atacou mais o BE desde o último debate televisivo), deixa-as para o os seus mais próximos virem dizê-lo no palco e alertar consciências — assim o espera.

A única vez que entrou em confrontos diretos, foi quando pegou no caso Tancos — de alta sensibilidade para o PS — e o virou contra Rui Rio, acusando-o de atingir a “dignidade da campanha” com “insinuações”. De resto, vai-se resguardando — até excessivamente. E tentando ver no que isto dá. Dia 7 trata-se do resto.

Voto a favor

A acusação de Tancos a rebentar em plena campanha estava prevista pelo PS, bem como o registo do “à justiça o que é da justiça” para lhe continuar a responder. Do que não estavam à espera, garantem, era da reação de Rui Rio. Mas acabou por dar jeito a Costa que não tardou em aproveitar a fragilidade para a transformar em trunfo e atacar o carácter de Rio, bipolarizando as eleições na esperança de atrair o voto útil. E sobre Tancos, dificilmente sairá desta linha até ao dia 6.

Voto contra

Quem esperava que esta campanha fosse aproveitada pelo PS para levar o líder das “contas certas” e da “economia a crescer” e dos “mais empregos criados” num andor pelas ruas, desengane-se. A estratégia é mesmo tê-lo fora de campo, com poucas iniciativas de campanha e aquele argumento enganador de que é um primeiro-ministro em funções e que há tarefas em São Bento — como se isso alguma vez tivesse impedido antecessores nas mesmas condições de andarem na estrada. Costa não quer aparecer. Ponto. No contacto com as pessoas também não é propriamente um candidato das feiras. Abraços e beijinhos dá, mas com pouca conversa. Encerra tudo, bom ou mau, com um “muito bem”. Poucochinho.

Fotografia da semana

Nada fazia prever que António Costa chegaria ao final do dia assim: forçado a reagir às acusações de Rio por causa de Tancos. Lisboa, 26 de setembro de 2019. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rio. Uma questão de caráter (a política segue dentro de momentos)

Uma semana já lá vai e a campanha de Rui Rio segue otimista. As sondagens continuam a dar o PSD a cerca de 10 pontos de distância do PS mas Rui Rio, analista dele próprio, é o primeiro a dizer que a campanha está em “crescendo” e que, contra tudo e contra todos (adversários internos e externos, como faz questão de lembrar), conseguiu chegar a uma semana das eleições a disputar o primeiro lugar “taco a taco” com António Costa. Depois de, este sábado, se pendurar num pelourinho em Bragança para, de megafone em riste, dizer com toda a certeza que “vamos ganhar as próximas eleições”, Rui Rio admitiu que “no norte é mais fácil”, mas se chega ou não para ganhar no país, “vamos ver”. Para a comitiva do PSD, o grande trunfo desta que é uma campanha “diferente” das outras é a imagem de Rui Rio como um homem honesto, sério, sem manhas, e que “diz o que pensa” — sem “hipocrisias”. 

Começou a sul, terreno mais duro para sociais-democratas, mas isso não impediu que saísse à rua. Faro, Beja e Évora não foram efusivos, e as ruas pouca gente tinham (menos ainda gente que vota PSD), mas o candidato não se refugiou em empresas ou em fábricas, como acontece muitas vezes em campanha. Experimentou o contacto, a medo. Depois, foi subindo: Leiria, Santarém, Castelo Branco, Guarda e terminou em Bragança e Vila Real. Aí sim, o calor humano aumentou — mas sem as multidões ou enchentes de outros tempos. Para campanha “diferente”, a verdade é que de diferente só tem a forma. Para bem entender, basta ver que tudo parece ter sido pensado ao milímetro para que nas imagens que chegam “lá a casa” apareça rua, cor e força. O caso Tancos, claro, foi um extra, premeditado (o prazo legal para a acusação sair batia com a primeira semana de campanha), que funcionou como foguetes numa campanha que se dizia não querer ter “gritaria”. Mas teve. E não foi pouca. Rio continua a dizer que não vai criar casos, nem escalar os casos existentes, como Costa parece querer fazer ao pôr, este domingo, os “batedores” profissionais do PS, Carlos César e Santos Silva, na linha da frente do ataque. A isso, Rio limita-se a responder com “desnorte” do PS.

E a política onde fica? A política segue, quiçá, dentro de momentos, na semana que aí vem. Com os habituais comícios de fim de dia a serem substituídos pelas “talks”, tudo levava a crer que Rui Rio iria trocar as intervenções políticas com críticas aos adversários por discursos de esclarecimento sobre propostas concretas do programa do PSD. Bom, na forma, sim. Mas no conteúdo, não foi bem assim. Com as talks a resumirem-se a questões pré-combinadas com a distrital, para o líder do PSD debitar partes do programa (às vezes até com recurso a uma cábula, como fez em Leiria), Rui Rio acabou por não se comprometer com propostas políticas concretas. Nem quando, no interior, empresários do setor agrícola lhe pediram para não se esquecer do distrito. Rui Rio disse que esquecer não esqueceria, e iria sempre valorizar o interior, mas não só não dizia como, como até ressalvava que não podia prometer se ia ter mais atenção a Bragança ou a Beja, à Guarda ou a Évora. Tudo em aberto, portanto. 

Entre um “contacto com a população” e outro, o único momento em que Rio vai comentando a atualidade é nas respostas aos jornalistas, que, na semana que passou, se resumiram sempre ao caso que se tornou “o” caso da campanha: Tancos, o envolvimento, ou não, de António Costa, e o aproveitamento político, ou não, que Rio estava a fazer de um caso judicial. E é nesses momentos que Rio fez aquilo que dizia sempre que a sua campanha não faria: gritaria, ataque aos adversário, crítica e contra-crítica. Durante quatro dias, Rio e Costa entraram num bate-boca diário. Antes, Rio já tinha atacado Centeno e quem mais discursasse nos comícios socialistas da véspera. Resultado: a campanha bipolarizou-se, Rio subiu na perceção das sondagens, e, pelo menos do ponto de vista mediático, a luta centrou-se entre dois protagonistas: Rui Rio e António Costa. Missão cumprida? Talvez. Na caravana social-democrata não se esconde a satisfação. 

Voto a favor

Se a pré-campanha parecia fazer adivinhar uma estrada difícil para Rui Rio, uma vez que o líder do PSD fez sempre questão de não hostilizar António Costa e mostrar que concordava com o PS no que tinha de concordar, a campanha surpreendeu muitos descrentes. Rio apanhou balanço nos debates e montou uma estratégia crescente, não se poupando a atacar Costa quando tem de atacar. Foi o que fez com o caso de Tancos, que se tornou ‘o’ caso da campanha muito por responsabilidade do PSD. Rio parou a campanha, montou um palco e, com pose institucional, apontou responsabilidades políticas ao primeiro-ministro. Para quem é o arauto máximo dos julgamentos em tribunais, e não na praça pública, o ataque fez ricochete, com Costa a procurar atingir a dignidade de Rio. Resultado 1: é pouco provável que se fale em mais alguma coisa no resto da campanha. Resultado 2: para o PSD está bom assim. É sinal de que a campanha fica bipolarizada entre os dois partidos e isso, para Rio, é tudo o que queria. É mano a mano. Ou, como diz o candidato, “taco a taco”.

Voto contra

Se o que Rio pretendia era uma campanha esclarecedora, em vez de uma gritaria, deixou a desejar. A primeira semana foi rica em “talks”, para potenciar esse esclarecimento, mas o que sobressaiu mais nessas tertúlias foram as perguntas demasiado combinadas, e demasiado amigas, que apenas resultaram em revisões da matéria dada por parte do líder do PSD. Nos almoços com empresários, a mesma coisa: numa semana de campanha, Rui Rio nunca se comprometeu com políticas concretas, defendendo apenas ideias vagas como a deslocalização de investimento do litoral para o interior. Outro ponto negativo: a falta de notáveis. Este sábado, o Expresso noticiou que Passos Coelho recusou o convite para aparecer na campanha. Rio prefere não comentar questões internas, mas vai deixando recados aos “hipócritas”. É uma campanha de um homem só. Embora o trunfo pareça ser esse mesmo: o homem.

Fotografia da semana

Rui Rio assistiu à tuna da Universidade de Évora de capa traçada no fim de uma arruada na cidade. Évora, 25 de setembro de 2019.(ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

BE. Manter a agenda, apesar de Tancos. E puxar a fasquia lá para cima

O Bloco de Esquerda entrou para esta campanha disposto a dar seguimento à ideia lançada dias antes do arranque oficial por Catarina Martins, numa entrevista à Lusa: “A história desta legislatura é a tensão entre o Partido Socialista e a esquerda”. Com este argumento conseguia colocar sobre si e sobre o seu partido o ónus da responsabilidade de ter limitado as pulsões do PS ao mesmo tempo que contribuía para uma polarização à esquerda. O que leva a que a líder bloquista, quase como consequência natural, retire uma conclusão: “O voto útil dos socialistas que não querem maioria absoluta nestas eleições é no Bloco de Esquerda”.

Eram estes os pressupostos com que Catarina Martins e direção de campanha queriam partir para a estrada. Reforçados pelo “arrufo” — como lhe chamou Rui Rio, no debate a seis de segunda-feira — entre o PS e BE sobre a origem da “geringonça”. Depois de uma troca de acusações acesa entre a líder bloquista e o primeiro-ministro estavam ambos dispostos a pôr de lado a quezília. E nesse momento, a campanha conhece um volte-face: o caso Tancos começou a entrar na agenda. Catarina Martins começou por desvalorizar, dizendo que não se atravessaria em grandes interpretações com base em fugas de informação. Na análise do Bloco, nada de útil haveria a retirar dessa informação, que descentraria o foco e implicaria gastar esforços num tema do qual não colheriam quaisquer dividendos. Mas o tema acabou por se impor.

O Bloco de Esquerda assumiu, finalmente, a sua posição: se a acusação se confirmar ficará provado que “houve responsáveis políticos que mentiram na Comissão de Inquérito a Tancos” e isso, para Catarina Martins, “é gravíssimo”. Mais do que isto o partido não diria.

Com esta polémica, o BE perdeu espaço, o que para as hostes bloquistas não é necessariamente mau, já que o caso pode vir implicar uma diminuição de votos no PS e colocar os socialistas mais longe da maioria absoluta. Tudo sem ter de se sujar. Reagir mas não agir. Cumprir mas não rasgar. Por enquanto, vai mantendo a estratégia e falando dos temas que tinha alinhavado antes de a campanha começar. Continua a apelar ao voto útil da esquerda e a pedir que se evite uma maioria absoluta do PS.

É esse o foco do partido. Isso e apostar tudo no crescimento do BE. Aliás, ao longo da semana, Catarina Martins foi pedindo a eleição de vários candidatos. Em Almada, pediu a eleição de Daniel Bernardino, número três por Setúbal; em Viana do Castelo apontou à eleição do cabeça-de-lista, Luís Louro; em Lisboa pediu a de Sofia Nunes, número oito pelo círculo da capital; e em Viseu, onde foi mais incisiva, assumiu que quer roubar ao CDS o deputado para eleger Bárbara Xavier. São mais seis deputados. Somados aos 19 existentes, coloca a fasquia do partido nos 25 deputados.

Uma narrativa que aposta tudo na influência que o partido pode ter junto de um novo governo minoritário do PS. Claro que tudo só é possível se o bicho-papão da maioria absoluta não chegar. Na semana que se segue, a estratégia é para manter. Tancos pode não sair da agenda, mas mesmo com esta perspetiva, os bloquistas acreditam que não sairão penalizados por picar o ponto apenas quando for necessário e dar gás aos temas que consideram ser as suas prioridades. A partir de segunda-feira vão começar a privilegiar o contacto popular, que faltado esta semana. Mesmo os momentos de maior concentração, como o mega-almoço em Lisboa no sábado e arruada que se lhe seguiu, o Bloco foi fazendo a festa consigo próprio.

Mas isso irá mudar. A campanha entra na reta final, faltam seis dias e é nestes que o partido aposta as fichas todas para mostrar o apoio que tem na rua e para afinar a pontaria, com um PS ferido por Tancos na mira.

Voto a favor

O Bloco de Esquerda tem cumprido com aquilo a que se propôs no início da campanha eleitoral: trazer para cima da mesa uma agenda própria, não ceder aos impulsos mediáticos e tentar evitar ficar-se pela espuma dos dias. O partido tem conseguido manter esta estratégia e não raras vezes surge nas notícias a apelar ao voto útil à esquerda e a pedir que se evite uma maioria absoluta do PS. Tem sido o partido que mais tem defendido abertamente a “geringonça” e até já colocou diversas vozes — de Fernando Rosas a Pedro Filipe Soares, passando pelas irmãs Mortágua — a pedir um aprofundamento da solução. É este eleitorado, adepto de uma maioria de esquerda, que os bloquistas procuram e têm desempenhado o papel de pivô na capitalização desse voto.

Voto contra

A estratégia do BE tem sido seguida à risca, sem mudar uma linha do que estava programado. Mas o caso Tancos caiu com estrondo e tomou conta da campanha. Não é assunto que renda votos ao partido e implicou passar despercebido na troca de disparos entre PS, PSD e CDS, o que prejudica a mensagem que traziam preparada .

A falta de rua também não tem permitido averiguar se a mensagem do Bloco de Esquerda está ou não a ser bem recebida – o partido atuar quase só em ambientes controlados. A próxima semana vai promover mais vezes estes contactos: na segunda-feira, logo pela manhã, está agendada uma ida à Feira de Espinho — um must de qualquer campanha bloquista — e estão ainda previstas arruadas no Porto e em Almada.

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No Mercado de Benfica uma peixeira pede a Catarina Martins que impeça o PS de atingir a maioria absoluta. Lisboa, 25 de Setembro de 2019. (LUSA)

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CDS. A 2ª temporada é melhor: ‘Assunçãozinha das feiras’ partiu de barco para evitar o ’táxi’

A ação do Barreiro, logo a primeira da campanha oficial, podia ser o retrato do fado de Cristas no início desta campanha: muita vontade, ideias diretas, mas mesmo assim as pessoas só queriam apanhar o barco. A líder do CDS tinha de pedir por favor para entregar um flyer e parecia quase invisível para quem passava. Para piorar, o partido nas sondagens parecia seguir o mesmo caminho. Estava claro que Cristas chegava à campanha de barco a tentar evitar que a futura bancada do CDS chegasse de “táxi” à Assembleia da República na próxima legislatura.

Depois, Nuno Melo sobrepôs-se à líder no primeiro grande comício em Famalicão e com um discurso mais agressivo que a linha de Cristas (a dizer que “há imprensa que não é livre” e que está em causa a democracia portuguesa respirar “ar puro”). Paulo Portas aparecia em Aveiro ao lado de João Almeida, mas não da líder. E até o mais bem intencionado dos eleitos locais do CDS em Lamego (o vereador José Pinto) repetia, numa ação que correu bem a Cristas, palavras que marcaram esse dia: “Vamos pôr a ciganada toda a votar no CDS“.

Ainda assim, foi ali também que se deu a mudança na campanha do CDS, com um rumo que passou a fazer sentido. Apareceu Tancos e puxou pelo lado político da líder. Se a campanha do CDS fosse uma série da Netflix, comparação utilizada por Cristas para este caso, a segunda temporada teria começado na quinta-feira. Cristas cresceu com Tancos, ganhou gravitas político, atirou-se ao governo e tentou antecipar-se sempre na reação ao PSD. Ganhou tempo de antena para além do tempo de antena. Nesse dia, Rio ainda surpreendeu Cristas a defender que a comissão permanente do Parlamento se reunisse sobre o caso, mas pôs em marcha um plano ambicioso.

Nessa noite, por WhatsApp, Cristas convocou a comissão executiva do CDS para reagir a Tancos. Suspendeu uma ação de campanha e no sábado atirou a artilharia toda contra o governo. Não só defendeu uma nova comissão de inquérito (já está a pensar desgastar Costa no pós-6 de outubro), como tentou envolver Ferro Rodrigues e quase impor que o Ministério Público analise as declarações de António Costa e Azeredo Lopes no Parlamento para investigar se mentiram. O CDS abriu noticiários das rádios durante várias horas e conseguiu ser manchete em vários jornais online, algo que não tinha acontecido até agora.

Cristas tem agora um foco: Tancos, Tancos, Tancos. Na mesma noite em que fez a conferência de imprensa, recebeu um vídeo de Paulo Portas e teve o maior evento em Aveiro, com cerca de 700 militantes. Aveiro é a “capital do CDS” e dá sempre uma alma suplementar às campanhas centristas. Foi o que aconteceu. O melhor estava reservado para o dia seguinte quando, com o caso a entrar numa bipolarização PS/PSD, Assunção Cristas conseguiu ser visada por Augusto Santos Silva. Um ataque do ministro socialista é uma medalha para a líder do CDS e ajuda a arregimentar as bases centristas em torno da sua candidatura. Na mesma tarde, a líder do CDS tinha um banho de multidão em Arouca. Não que as pessoas ali tenham ido por causa da líder do CDS, mas assim que a viram criou-se um happening à Marcelo: filas para selfies, fotografias e para beijinhos. “Deixe-me chegar à senhora dona Cristas“, ouvia-se em Arouca. Cristas é boa nas ruas, uma espécie de ‘Assunçãozinha das feiras’, embora nada disso se tem refletido nas sondagens.

Voto a favor

Assunção Cristas cria empatia com as pessoas nas ruas e, se algumas estiverem indecisas, é possível que conquiste votos no contacto direto. Isso não chega, mas vale mais um político hábil a líder com a população do que o contrário. Não tem o jeito de Paulo Portas nas feiras, mas é muito acarinhada e já houve pessoas que choraram com a emoção de a abraçar. Por outro lado, a forma como o CDS atacou o caso Tancos, rapidamente e em força, deu rumo à mensagem política dos centristas e palco mediático à líder. A conferência e imprensa foi o turning point.

Voto contra

A campanha está montada à imagem do que foi as Europeias. A grande aposta centrista é nos distritos onde o CDS já tem deputados, o que dá a ideia de o partido estar mais a jogar para não perder o que já tem do que para ganhar. Isso traz um clima de desmoralização. Nas entrelinhas, os notáveis vão deixando escapar a ideia de não perder por muitos. Caso de Nobre Guedes a lembrar os tempos em que o CDS tinha 1% nas sondagens ou Portas que a sua presença ainda é mais necessária “se as circunstâncias forem difíceis”.

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Paulo Portas ainda não apareceu presencialmente em nenhum ação coma líder do CDS mas enviou um vídeo transmitido num comício no distrito de Aveiro. Aveiro, 28 de setembro de 2019. (LUSA)

LUSA

A campanha da CDU também tem indicações para repouso?

As dores nas costas de António Costa obrigaram a campanha socialista a ser reduzida a ações de almoços e comícios. Quase igual àquilo que tem sido o dia-a-dia da campanha da coligação PCP-Os Verdes. Não será esse o motivo com certeza — já que Jerónimo de Sousa até já disse que “não está fresco que nem uma alface, mas que tem ânimo suficiente para aguentar” —, mas depois de sete dias na estrada, a campanha da CDU resume-se a almoços, jantares, comícios e encontros.

Uma semana de ações programadas pela organização da campanha, articulada com as respetivas direções regionais para os apoiantes que já se mobilizam em modo automático. Este tipo de iniciativas não cessa ao longo do ano, até porque nisso a máquina comunista não falha. Cadeiras, sistemas de som, iluminação e cenários desmontados tão rapidamente que é impossível não se acreditar que aquilo é feito “todos os dias”.

Mas a CDU partiu para a estrada com o objetivo de se reforçar e conquistar votos onde normalmente não tem. Foi o próprio Jerónimo de Sousa quem o disse no comício da Festa do Avante!, era preciso “alargar a influência do partido” também “naqueles círculos” onde não têm. Seria preciso então que a caravana comunista passasse mais vezes nesses sítios. Heloísa Apolónia, por exemplo, dá a cara pelo círculo de Leiria onde há mais de 20 anos a CDU não elege. A caravana fez uma passagem rápida e um tanto ou quanto falhada pelo Pinhal de Leiria, mas na zona da Marinha Grande — onde a tradição comunista é muita —, voltará ao concelho. É certo que pertence ao distrito de Leiria, para mais um jantar entre apoiantes, mas na capital de distrito nem uma ação com Jerónimo.

A opção tem sido sempre jogar pelo seguro e não tentar inventar a roda. Para definir o roteiro da campanha conta-se com a experiência acumulada dos anos anteriores e com a disponibilidade e agenda das direções regionais, numa espécie de puzzle. Para os casos políticos que vão surgindo, o espaço é quase nenhum.

Antes do quilómetro zero já a CDU assistia a um conflito entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista. Jerónimo disse que “não se queria meter” e assim fez. Não conseguiu repetir a estratégia em Tancos. Jerónimo começou por dizer que não iria comentar o assunto, umas horas mais tarde vestiu-se de secretário-geral para falar, mas menos de 24 horas depois em direto para as televisões dava luz verde a uma nova comissão de inquérito e dizia que era preciso saber se Azeredo Lopes “mentiu” na comissão.

Fugir aos temas que vão aquecendo a campanha permite à CDU ter mais tempo para, nas intervenções públicas, atacar o principal adversário nesta corrida: o PS e a sua maioria absoluta. Não há intervenção onde não se ouça que “deixar o PS de mãos livres é perigoso”. Pede-se mais vezes que o PS não tenha a maioria absoluta que “o reforço da CDU”. Algo que se tem invertido ao longo dos dias. Se no início da campanha os dois pedidos eram feitos quase na mesma frase, com o avançar dos dias ouve-se cada vez mais s alertas contra o PS.

Uma campanha costuma ter rua, mas esta só tem arruadas previstas para Lisboa, Setúbal e Porto, duas delas no mesmo dia (Lisboa e Setúbal) e o contacto com a população em Santa Catarina

Voto a favor

Sabendo que o eleitorado é fiel e que não espera inovações nem alterações de fundo naquelas que são as propostas do partido, as intervenções da CDU têm-se mantido à margem dos casos que têm ocupado grande parte do discurso político nas outras campanhas. Talvez a postura ajude a captar o eleitorado que não se revê no estilo de troca de galhardetes entre rostos dos partidos. Uma espécie de menos é mais: quanto menos se falar, melhor pode correr.

Voto contra

Enquanto os líderes dos partidos competem no campeonato de quem faz mais arruadas e se discutem os maiores banhos de multidão, a campanha da CDU resume-se a viagens de carro entre os locais onde estão marcadas as ações. Se quer conquistar votos onde ainda não os tem, talvez a caravana comunista acrescentar mais locais para além daqueles onde já são habitués. Mas isso é um risco e por aqui continua a valorizar-se mais a tradição.

Fotografia da semana

Numa campanha ainda sem ações de rua foi em Almada que o PCP conseguiu a maior enchente desta semana. Almada, 28 de setembro de 2019. (LUSA)

LUSA

PAN. Muito ambiente e pouco povo na primeira grande campanha

Frequentemente criticado por levar todas as discussões para os temas do ambiente e dos direitos dos animais, o Pessoas-Animais-Natureza assumiu, sem deixar margem para dúvidas e sem pruridos, que a sua principal bandeira é mesmo essa.

A primeira ação de campanha oficial do PAN evidenciou bem como parte da estratégia do partido passa por chegar às bases que lhe deram o primeiro empurrão: os defensores dos animais. A comitiva do PAN — composta por apenas cinco pessoas (André Silva incluído) — estacionou (o híbrido) no porto de Sines para se juntar a ativistas da Animal Save na contestação à falta de condições em que é transportado em grandes navios o gado vivo exportado por Portugal.

O ambiente, as alterações climáticas, a defesa das florestas e os direitos dos animais são, sem dúvida, os temas que o PAN quer colocar como seus. “Conseguimos falar de temas que antes não estavam na agenda, nomeadamente o clima. Isso, para nós, é fundamental”, comentava na sexta-feira o eurodeputado Francisco Guerreiro, eleito pelo PAN em maio, que se juntou à campanha do partido durante a marcha da greve climática estudantil.

Aliás, a semana internacional de luta dos jovens pelo clima não podia ter calhado em melhor altura. Apesar de praticamente todos os partidos terem, de uma forma ou de outra, aderido a esta iniciativa, a verdade é que o PAN dirigiu para a marcha toda a sua comitiva e soube capitalizar aquela que é a sua grande bandeira, após ter praticamente monopolizado, no espectro político, os ideais de defesa do ambiente. E sabendo precisamente que é entre os mais jovens que se encontram os mais empenhados na luta pelas alterações climáticas, André Silva não tem perdido oportunidades para falar da sua proposta de alargar a idade mínima do voto para os 16 anos.

Em campanha, o partido faz três tipos de ações: ou leva um punhado de apoiantes e os jornalistas que acompanham a caravana até locais onde aproveita para pôr determinados temas na agenda (fê-lo em Sines, em Santiago do Cacém, em Monchique e em Santa Maria da Feira; ou visita projetos, associações e instituições de cariz ambiental (e, menos frequentemente, social); ou ainda organiza sessões de “Pergunta-me o que quiseres”, momentos em que o candidato e outros membros do partido se colocam em locais públicos por todo o país disponíveis para responder a questões de quem os abordar.

Na maioria das vezes, esta última iniciativa tem-se transformado num mais comum misto de arruada com distribuição de folhetos (reciclados, claro, e só folhetos, porque no PAN não há brindes pouco ecológicos). Porém, sem o mesmo nível de implementação local e de membros do “aparelho” que os restantes partidos, uma arruada do PAN passa mais facilmente despercebida. A estrutura do partido ainda está a aprender a montar uma campanha de grande nível — e não tem medo de o assumir. Aliás, a principal mensagem política passada ao longo dos últimos dias quer por André Silva quer pelos membros da comitiva é mesmo essa: o PAN é um partido em crescimento à procura de um grupo parlamentar e ganhar, passo a passo, uma dimensão comparável à dos outros que já andam pelo Parlamento há muitos anos.

Mas se é verdade que quer chegar à dimensão dos outros, o PAN não o quer fazer pelas mesmas vias que os outros. Recusa os comícios, as arruadas e os casos — ingredientes essenciais numa campanha eleitoral à antiga — e não muda nem a agenda nem o discurso consoante as marés das outras campanhas. Exemplo claríssimo é o caso Tancos. Diz que a campanha não é lugar para discutir processos judiciais, mas sim para expor programas eleitorais e ideias concretas, e só vai à boleia do caso para lembrar as suas propostas na área do combate à corrupção (e para as apresentar como linhas vermelhas em qualquer eventual futuro acordo de apoio parlamentar).

Voto a favor

O PAN sabe ler o zeitgeist dos dias de hoje e tem a noção clara de que representa a voz política de um cada vez maior conjunto de pessoas (jovens acima de tudo) que colocam o combate às alterações climáticas e o futuro do planeta como prioridade essencial. Na campanha, tem colocado o ambiente no centro e apelado à consciência ambiental das novas gerações — mas também dos mais velhos. Os novos votos que arrecadar no dia 6 virão, seguramente, destas pessoas.

Voto contra

A inexperiência do PAN torna a campanha menos eficaz do ponto de vista do impacto mediático, designadamente devido à falta de alguns momentos chave e de mensagens políticas de força que lhe permitam entrar no campeonato dos grandes. Um amadorismo com que o PAN quer progressivamente acabar — já que espera habituar-se ao Parlamento nas próximas legislaturas.

Fotografia da semana

André Silva, do PAN, subiu a um escadote para colocar um abrigo para morcegos, durante uma visita ao Programa Castro Verde Sustentável. Castro Verde, 25 de setembro de 2019. (NUNO VEIGA/LUSA)

NUNO VEIGA/LUSA

Papa-quilómetros

PS – A caravana do PS andou pelo Porto e por Matosinhos. Mas aumentou a contagem de quilómetros quando regressou a Lisboa onde Costa passa a noite. O dia totalizou 319km para um acumulado de 1658 km.

PSD – A comitiva laranja começou a campanha neste dia em Vila Real, depois desceu à Figueira da Foz e terminou em Coimbra. 279km feitos no domingo. Total de 2068 km.

CDS – Este foi o percurso do CDS  no domingo: Águeda-Palhaça-Vale de Cambra-Arouca-Albufeira. Mais um recorde para o CDS, 637km num só dia. CDS aos 2426 km.

BE – O Bloco arrancou o dia em Viseu e depois seguiu para o Porto, gastando apenas 128 km, o que perfaz um total de 2143 km.

CDU – O dia arrancou em Sines, subiu a Lisboa, passou por Alpiarça e terminou em Évora. 426kms, num total acumulado de 2484 km.

PAN – O percurso do partido de André Silva neste último dia da semana começou em Paredes de Coura, passou por Esposende, Barcelos e terminou o percurso no Porto, onde a comitiva dorme — 142 km. É o partido que deixa a menor pegada ecológica na estrada, a meio da campanha, o que não é propriamente surpreendente. O total vai em 1185 km.

O Caça ao Voto é uma análise diária à campanha com os contributos dos repórteres do Observador na caravana dos partidos, Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes.  A Fotografia da Semana é uma escolha do editor de Fotografia João Porfírio.

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