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CAIS: 20 anos com os olhos na realidade

A CAIS já não é só uma revista. Passados 20 anos, a associação continua a adaptar-se à realidade. “A solidariedade pode ser uma onda viral”, diz José Macieira.

“Sou muito conhecido aqui.” Veste um colete vermelho, tem o chapéu posto e revistas nas mãos. Há 14 anos que o podem encontrar naquele cruzamento da avenida dos combatentes com a rotunda da Praça de Espanha, sempre ao pé dos semáforos e passadeira. A experiência ensinou-lhe que era aquele o melhor sítio para vender a revista CAIS.

José Barros, 61 anos, trabalhava como distribuidor das páginas amarelas, mas quando a empresa decidiu modernizar-se e aderir “à moda da internet”, perdeu o posto de trabalho. Encurralado numa situação de quase pobreza, no desemprego e com a esposa grávida da segunda filha, um amigo recomendou-lhe que pedisse ajuda à CAIS, uma associação de solidariedade social sem fins lucrativos reconhecida a nível nacional, que comemora nesta sexta-feira 20 anos de existência.

Deram-lhe uma t-shirt e revistas para a mão. Teve de se fazer à vida, aprender a vender. Lembra com uma certa nostalgia quando a revista custava “300 escudos e vendia 30 a 40 por dia”. Hoje, um bom dia é quando vende mais de dez. Por mês, faz à volta de 400€, mas admite nunca fez a conta para saber o valor exacto. “Dá para pagar a água, luz, comida e umas gomas para as crianças”, explica a rir-se.

Há 14 anos que José Barros vende a revista Cais. Créditos: Fábio Monteiro

Todos os dias, excepto aos domingos, entre as 11 horas da manhã e as cinco da tarde, José está naquela esquina a vender. Às vezes, quando o dia é fraco, dá “mais uma hora para ter sorte.” É uma lotaria, conta. E apesar de falar num tom leve sobre o assunto, José Barros vê nas revistas e no seu trabalho algo sério: “Há pessoas que dormem com o dinheiro disto [a revista]”, diz ao mesmo tempo que aponta para as revistas plastificadas que tem na mão.

Em 1994, os membros fundadores da CAIS foram a Londres e descobriram a publicação britânica Big Issue: uma revista criada para ser vendida por pessoas em contexto de pobreza, em que grande parte do valor fica para o vendedor: é esse o salário. As revistas eram-lhes dadas gratuitamente pela instituição. A CAIS surgiu em Portugal para replicar essa ideia.

Hoje, a revista CAIS custa dois euros e desse valor 70% vai directamente para o vendedor. Por cada revista que José vende, fica com 1.40€. Ao todo, a nível nacional, a CAIS tem 95 vendedores próprios, utentes da associação. Mas também é possível comprar a revista noutras organizações parceiras. A impressão, plastificação e distribuição da revista portuguesa é oferecida à CAIS por várias empresas. A única despesa mensal são 5.000€ no papel.

A edição deste mês tem como capa o naturalista lendário David Attenborough. “É o mesmo senhor que aparece aos domingos de manhã na SIC”, diz José Barros, que o baptizou de forma carinhosa como o “senhor das borboletas”. O vendedor preferia as características editoriais da revista “há mais anos”. “Quando falavam da moda de Lisboa, a pintura da Graça Morais.” E relembra uma que tinha como capa o jogador de futebol Luís Figo, que “vendeu muito bem”.

Neste momento, José está a tentar juntar dinheiro para o almoço. Na mercado que existe na praça de Espanha diz que pode almoçar por quatro euros. “Já é dia 23”, diz a esfregar os dedos. Ainda não vendeu nenhuma revista hoje e já é quase meio-dia.

Um projeto com garra

A primeira lembrança que Diana Ribeiro, 29 anos, assessora de imprensa da CAIS, guarda sobre a revista deve-se aos “tios intelectuais”. “Eram mais cool, mais ligados à cultura”, explica. Diana diz recordar-se de os ver à conversa com os amigos e a discutir temas da revista CAIS. Fala como já tivesse na associação há muitos anos, mas a verdade é que só passou da hotelaria de luxo para o mundo associativo em Fevereiro deste ano. “Encontrei um projeto com garra”, conta.

Passaram 20 anos desde a fundação da associação CAIS e algumas coisas já mudaram. Deixaram de publicar só uma revista, passaram a dar formação em vários campos, têm uma sede em Lisboa desde 2005, e alguns micro-negócios. Mas o essencial do ADN não mudou. “Desde o iníciozinho, que as pessoas que fundaram a CAIS criaram uma grande cultura, princípios que ainda hoje nos passam nas veias”, diz Sara Pinto, 49 anos, coordenadora do centro de Lisboa da Cais. Há 13 anos que está na associação.

Entrou na CAIS como voluntária, mas quando se apercebeu já “fazia horário completo.” Criou uma ligação emocional com a instituição. Em 2002, leu um estudo sobre tecnologia que lhe provocou “um rasgo” de clarividência. “Quem dominasse as tecnologias” ia ter mais oportunidades de emprego no futuro. “Na época ainda não se falava de capacitação e empowerment”, explica ao falar do que é aprendizagem. Tanto investiu nessa ideia que acabou por conseguir financiamento para abrir quatro salas de formação, três em Lisboa e uma no Porto, conta num tom orgulhoso. No meio disto tudo, criou o seu posto de trabalho na CAIS.

Sara afirma já ter assistido a vários ciclos da situação social do país. Quando começou a trabalhar na associação quem recorria mais eram homens, na casa dos 40 e 50 anos, e muitos casos de imigrantes de leste, africanos e brasileiros.

Em 2014, o perfil mudou: “Mais famílias, mais mulheres, mais crianças.” Muitos desempregados de longa duração e nota “que a maioria deles tem baixos níveis de escolaridade.”

A cantina social na sede da CAIS, em Lisboa, serve todos os dias 65 almoços e jantares gratuitos, graças ao financiamento do plano de emergência social. Quem tiver coparticipação paga 1.5€, o que não é assim tão pouco para quem vive no limiar da pobreza. E, mesmo assim, têm “algumas” pessoas em lista de espera. A maioria são encaminhados para outras instituições.

No ano passado, a CAIS conseguiu criar autonomia profissional e social para 25 pessoas. “São números à nossa dimensão”, diz. Os membros da associação fazem questão de saber “cada nome e história” de cada utente da CAIS. “Numa altura de vacas muito magrinhas estamos mais adequados ao contexto social”, afirma José Macieira, 50 anos, director executivo da CAIS, ao descrever a remodelação pela qual está a passar a CAIS.

Para o director, a associação que dirige tem de ser “um porto de abrigo para alguém que está perdido no mar”. Alguém que não consegue acompanhar os avanços da economia, nas palavras do próprio. Seja por rutura familiar, por terem perdido o emprego ou qualquer outro motivo. Têm de existir respostas mais prontas, mais adequadas à realidade. Quem está à procura de emprego, não é picuinhas.

"Não é algo como entrar para a NASA”, diz José simplificando a questão.

Tal como a crise económica chegou a Portugal nos últimos três anos, também “houve um tombo” nos donativos e contribuições dos mecenas para a associação. Em Abril, Durão Barroso esteve em Portugal e foi visitar a associação CAIS. Fez um donativo de 45.000 euros, metade do prémio Carlos V que lhe tinha sido atribuído. “A solidariedade pode ser uma onda viral”, sentencia José Macieira.

Micro-Negócios CAIS:

· Cais Recicla: através de protótipos feitos por designers, os artesãos do centro Cais Porto criam objectos de eco-design com a transformação de materiais de desperdício em peças úteis.

· Cais Lavauto: para as empresas que procuram um serviço de lavagem para a sua frota automóvel utilizando produtos amigos do ambiente e com um mínimo ou mesmo sem recurso a água.

· Cais Buy@Work: um serviço de compras de conveniência dedicado aos colaboradores das empresas aderentes. A partir do local de trabalho, durante o expediente e à distância de um email podem estes solicitar serviços e produtos existentes no comércio local.

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