1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Médicos
i

▲Médico lucrou 400 mil euros em 10 sábados de cirurgias adicionais

▲Médico lucrou 400 mil euros em 10 sábados de cirurgias adicionais

"Calculista", "sobredotado" e fã de astronomia. Quem é Miguel Alpalhão, o recém-especialista que fez 51.000€ num dia

O médico ainda é jovem, mas a sua "inteligência" permitiu-lhe "ganhar cada vez mais poder" no hospital de Santa Maria e explorar o sistema de cirurgias extra ao máximo, conta fonte hospitalar.

    Índice

    Índice

Tem 33 anos, acabou a formação universitária apenas há nove, e nunca pensou que iria dedicar a sua vida à Medicina. Nos últimos dias, Miguel Alpalhão tem estado sob fogo após uma investigação da CNN divulgar que o dermatologista faturou mais de 51 mil euros num único dia de trabalho em 2024 com cirurgias adicionais. Tudo foi possível devido à sua “inteligência”, conta fonte do hospital de Santa Maria ouvida pelo Observador: sendo conhecedor do sistema, conseguiu “aproveitar e maximizar” os ganhos, fazendo uso do “poder” que cada vez mais tinha e que lhe era conferido pelo diretor do serviço de Dermatologia deste hospital. Afinal quem é Miguel Alpalhão, especialista com o coração dividido entre as doenças e a “imensidão do universo”, que terminou o mestrado com média de 18 valores e viu a vida mudar quando foi apanhado de surpresa por uma doença que ninguém conseguiu diagnosticar?

“Ao contrário de muitos colegas, nunca senti particular fascínio pela Medicina”, explicou Miguel Alpalhão no dia em que fez o Juramento de Hipócrates, no Coliseu dos Recreios. No testemunho que à época deu ao Expresso, o jovem admitia que “sempre” tinha amado “a Física”, chegando a “expressar uma vontade constante de ser astrónomo”. Mas acabou por escolher Medicina e o ponto de viragem foi a adolescência: sofreu de uma doença “que até hoje permanece sem nome”. E nenhum especialista de qualquer área ou qualquer exame permitiu chegar a um diagnóstico ou tratamento. Mas “da mesma forma abrupta que surgiu, a doença desapareceu alguns anos depois”.

Um “sobredotado” que ponderou emigrar

Fascinado pela “imensidão” do Universo, pela “sensação de pequenez” e pelo “desconhecido”, quando tinha cerca de 17 anos participou no projeto Quark (uma espécie de escola de Física para estudantes do 11.º e 12.º ano), organizado pelo departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Mas a ideia de poder “aliviar o sofrimento” dos que sofrem com a “ausência de respostas” (tal como ele sofreu) fizeram-no mudar de rumo. “O Miguel [Alpalhão] é sobredotado, fez todo o percurso na faculdade sempre com notas altíssimas“, conta fonte do Santa Maria ao Observador sob anonimato, referindo-se à média de 18,19 valores com que este terminou o mestrado em Medicina na Universidade de Lisboa. Pelo caminho, durante os seis anos obrigatórios de formação, o jovem concorreu pelo menos duas vezes a uma bolsa para estudantes do Ensino Superior, através da Câmara Municipal de Borba, no distrito de Évora — mas obteve sempre resposta negativa, tanto no ano letivo 2011/2012 como no ano letivo 2014/2015.

No hospital, Miguel Alpalhão era visto "como alguém calculista, dissimulado e socialmente estranho"
Fonte do hospital de Santa Maria

No dia em que terminou a formação, Alpalhão fez o juramento a que todos os novos médicos são sujeitos e recebeu o prémio Professor Manuel Machado Macedo. Todos os anos, esse galardão é atribuído aos melhores alunos da faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e da Nova Medical School, da Universidade Nova de Lisboa, e em 2016 foi a vez de Miguel Alpalhão e Inês Pereira, respetivamente.

Na altura, a estudante da UNL partilhava que tinha aceitado uma proposta para trabalhar numa clínica privada em Berlim, na Alemanha. E a mesma ideia passou pela cabeça do agora médico especialista. À época, questionava-se: “Será que devo emigrar agora, que ainda não tenho família enraizada? Será que vou ter de emigrar depois? Será que as condições de trabalho que me impõem são as adequadas para prestar os melhores cuidados aos meus doentes?”.

Mas o jovem não só não quis deixar o país, como se esforçou para ter a melhor nota possível, porque nunca estudou “a pensar em exames”, mas sim “na esperança de que um dia ia [poder] ajudar a dar respostas a alguém que sofre em busca de respostas”. No ano seguinte, em que fez a prova nacional de ingresso no internato médico, na lista de classificação provisória lia-se que Miguel Alpalhão tinha obtido 95%.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]

Sendo próximo do diretor, Alpalhão teve “cada vez mais poder”

Foi sobre “emergências dermatológicas” que Miguel Alpalhão escreveu para terminar o mestrado, ainda em 2016. Na sua dissertação eram analisados “dados de um ano de 8.620 pacientes num hospital universitário terciário português”. E foi também com este trabalho (e com o início do internato no hospital de Santa Maria) que a sua carreira, ainda muito prematura, começou a avançar.

“A tese final foi feita na [área] da Dermatologia, com o professor Paulo Filipe, e criaram logo uma relação de proximidade nessa altura. Na altura ele [Paulo Filipe] já era o diretor de serviço de Dermatologia e a partir daí foi a subir“, conta fonte hospitalar. O Observador tentou contactar o médico Paulo Filipe, mas não obteve resposta.

À medida que crescia e ganhava importância em Santa Maria, Miguel Alpalhão foi contratado como professor assistente na faculdade onde pouco tempo antes ainda estudava, a faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. E, a propósito da pandemia por covid-19, chegou a promover estudos relacionados com o impacto que a utilização regular e intensiva de máscaras e outros equipamentos de proteção individual (EPI) tinham na pele. Juntou-se também ao Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, pertencendo a uma equipa gerida por Paulo Filipe — que agora, além de chefe do seu serviço, era também o seu superior neste instituto de investigação científica.

Alpalhão “foi tendo cada vez mais poder dentro do serviço de Dermatologia”, descreve fonte do Santa Maria ouvida pelo Observador. Apesar de ser visto com bons olhos pelos responsáveis pela Dermatologia, Miguel Alpalhão não era acarinhado no hospital de Santa Maria, segundo afirma fonte ouvida pelo Observador. No hospital, viam-no “como alguém calculista, dissimulado e socialmente estranho, sem relações com ninguém e como uma pessoa que não é simpática”.

▲ O médico terminou o mestrado em 2016

GONÇALO DELGADO/OBSERVADOR

Médicos mais velhos criticavam postura de Alpalhão. Mas também faziam cirurgias adicionais

O período de internato de Miguel Alpalhão terminou em 2023/2024. Realizou o exame final no serviço de Dermatologia do hospital Egas Moniz, tendo-se tornado especialista em dermato-venereologia (dedicado ao estudo, diagnóstico e tratamento das doenças de pele, cabelo, unhas e mucosas e também de doenças sexualmente transmissíveis).

O momento teve como júri o diretor de Dermatologia do Egas Moniz (o médico João Teles de Sousa) e também o dermatologista Tiago Torres — e valeu a Miguel Alpalhão uma publicação feita por este médico na sua página no Linkedin, a única presença online que Alpalhão parece ter. “Tive a oportunidade de fazer parte do júri juntamente com o dr. João Teles de Sousa, diretor de serviço do hospital Egas Moniz. Parabéns aos recém-dermatologistas (…) pela excelência do exame realizado e pelo conhecimento demonstrado”, lia-se na publicação.

Esse ano em que terminou o internato foi também o “mais polémico”: “Já tinha a especialidade feita e sentiu-se mais no poder”, diz fonte do Santa Maria. “Quando Miguel Alpalhão se torna especialista, a partir daí tudo o que é organização de cirurgia adicional começa a ser feito por ele: as escalas dos médicos, quem operava, a codificação do serviço…”, acrescenta.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]

Segundo fonte ouvida pelo Observador, a postura de Miguel Alpalhão não era bem vista pelos médicos mais velhos do serviço de Dermatologia, mas nunca o confrontaram porque “quase todos os médicos especialistas” também fizeram cirurgias adicionais.

Miguel Alpalhão "é muito inteligente e, dentro de um sistema montado que já existia, conseguiu aproveitá-lo e maximizar os ganhos"
Fonte do hospital de Santa Maria sobre os lucros que Alpalhão obteve com cirurgias extra

A par do percurso realizado na rede de saúde pública, tem também encontrado o seu lugar no privado, dando consultas na CUF Descobertas (em Lisboa) e CUF Torres Vedras. No perfil que consta no site deste hospital privado, lê-se que Miguel Alpalhão é especialista “em acne, dermatite atómica, dermatite de contacto, doenças de transmissão sexual, doenças do cabelo, melasma, psoríase, rosácea, vitiligo”.

E que é responsável pela “unidade de Alergologia Cutânea e das consultas de Venereologia e de Microstomia”, assim como “membro da comissão de avaliação de tecnologias de saúde do Infarmed”, como se confirma com a assinatura da declaração de “inexistência de incompatibilidades”, publicada em 2022 no site desta autoridade nacional que tem como missão “regular e supervisionar os setores dos medicamentos, dispositivos médicos e produtos cosméticos e de higiene corporal”, detalha o SNS.

Miguel Alpalhão é “muito inteligente” e “conseguiu maximizar os ganhos”

Mas afinal, como é que Miguel Alpalhão “maximizou” o sistema, conforme aponta fonte do Santa Maria? “Ele é muito inteligente e, dentro de um sistema montado que já existia, conseguiu aproveitá-lo e maximizar os ganhos ao máximo.”

“Há uma diferença entre pequena cirurgia e cirurgia de ambulatório”, diz. A primeira pode ser feita dentro de um gabinete e a segunda obriga à existência de um bloco operatório, com condutas de oxigénio, recobro e monitorização de doentes. E Miguel Alpalhão “arranjou maneira de ‘convencer’ a administração do hospital — ou tentar — a fazer com que a sala de pequena cirurgia do hospital fosse considerada um bloco operatório, apesar de não ser”.

Ao passar a usar-se a sala de pequena cirurgia como sendo um bloco operatório, “todas as intervenções são mais bem pagas, porque assume-se que são coisas mais complexas que justificam esse valor”.

Miguel Alpalhão “encontrou uma forma de mudar o sistema, tendo aprovação superior”, considera fonte do hospital. Contudo, terá sido o próprio médico que validou no sistema os dados das cirurgias que lhe valeram cerca de 400 mil euros em 10 sábados de trabalho adicional.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.