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▲Centeno não será reconduzido como governador e também se afasta de Belém. O que se segue?

Bloomberg via Getty Images

▲Centeno não será reconduzido como governador e também se afasta de Belém. O que se segue?

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Centeno avisou Pedro Nuno que ia desistir de Belém. Vida pessoal e ambições políticas terão pesado na decisão

Desistência de Centeno muito celebrada por seguristas. Mas Pedro Nuno avisa que não se deixa condicionar. Governador do BdP terá querido preservar família e manter ambições para outros voos políticos.

Quando a entrevista de Mário Centeno à RTP3 começou, sensivelmente depois das onze da noite, Pedro Nuno Santos já sabia que o governador do Banco de Portugal iria afastar definitivamente a candidatura às próximas eleições presidenciais. O governador do Banco de Portugal, com quem o líder socialista foi falando ao longo do processo de reflexão, fez questão de avisar Pedro Nuno sobre o anúncio que estava prestes a fazer e explicar as suas motivações. O secretário-geral do PS não ficou exatamente feliz (Centeno era um nome forte e poderia ser um trunfo), mas entre os dois houve lealdade até ao fim.

Da parte de Centeno, aliás, a coreografia da entrevista foi preparada ao milímetro. O programa “Grande Entrevista”, conduzido pelo jornalista Vítor Gonçalves, é gravado previamente e transmitido sempre às 23h00. A conversa foi feita durante a manhã de quarta-feira, mas, e ao contrário do que às vezes acontece, a RTP não libertou a entrevista sob embargo para que outros órgãos de comunicação social pudessem preparar notícias sobre a mesma, o que fazia suspeitar que Centeno tinha revelado algo de muito importante.

Além disso, a questão das eleições presidenciais foi deixada propositadamente para o fim, para que a mensagem do governador do Banco de Portugal sobre outros temas não ficasse automaticamente contaminada pelo fim do tabu. O ‘não’ definitivo de Centeno chegaria já perto do final da entrevista e, com ele, cairiam também por terra as expectativas de uma parte importante do PS. Agora fazem-se apostas sobre o futuro de Mário Centeno e as suas verdadeiras ambições.

A alegria daqueles que apoiam ativamente António José Seguro é indisfarçável. "Quando há um antigo líder do PS como candidato não há nada a fazer. Mário Centeno foi inteligente e fez a melhor opção. Só ganha ao almirante alguém do PS que seja do moderado e ao mesmo tempo não esteja associado à 'geringonça'", argumenta um segurista ouvido pelo Observador.

Vida pessoal terá pesado de forma determinante

Apenas um círculo muito restrito de pessoas conhece as verdadeiras motivações que estiveram na origem desta decisão do governador. Há quem garanta que quis preservar a vida pessoal — a família mais próxima não veria com bons olhos esta candidatura, em particular os filhos —, e quem sugira que Mário Centeno mantém outro tipo de ambições políticas que uma candidatura presidencial neste momento iria hipotecar.

Publicamente, Centeno falou apenas na primeira questão. “Não vou ser candidato à Presidência. Não vou apresentar nenhuma candidatura. Não está no meu horizonte que isso aconteça. Foi uma decisão pessoal, tomada dentro do meu círculo pessoal, na minha família, na visão que eu tenho de mim mesmo e daquilo que quero fazer no futuro”, explicou o governador do Banco de Portugal na referida entrevista.

As duas hipóteses não são necessariamente excludentes. Mário Centeno é um homem relativamente novo (58 anos) e pode ensaiar uma nova candidatura presidencial daqui a cinco ou 10 anos. Simultaneamente, para uma parte do PS, o ex-ministro das Finanças continua a ser um quadro a ter em conta como possível candidato a primeiro-ministro no futuro — com a dificuldade evidente de não ser militante socialista, o que o impede automaticamente de disputar a liderança do PS. Mas isso são outros quinhentos.

Ao mesmo tempo, no plano internacional, existe um lugar muito apetecível e que pode ter pesado nas contas de Centeno. O mandato de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, termina em novembro de 2027 e poderia ser um passo interessante para o ex-presidente do Eurogrupo. Se estivesse com vontade de entrar na luta pelo lugar, teria de começar a trabalhar a sua rede de apoios algures no final de 2026 — uma candidatura a Belém tornaria impossível esse objetivo.

Aliás, na entrevista à RTP3, Centeno puxou pelos seus pergaminhos em matéria de política económica à escala europeia. “Sou governador do Banco de Portugal, fui escolhido para presidir ao comité de acompanhamento técnico de riscos sistémicos, tenho essa capacidade e gosto e vontade de participar na política económica, como executivo”, disse o antigo ministro, congratulando-se por ter “uma voz muito ativa e presente em termos europeus em matérias como a inflação, as taxas de juro”. “Esse é o meu foco.”

No entanto, uma das fontes do setor financeiro ouvidas pelo Observador considera a hipótese do BCE um “delírio”, sobretudo depois de Portugal ter tido muito recentemente um vice-presidente (Vítor Constâncio). “Lagarde tem mais três anos de mandato, até ao final de 2027, e [o vice-presidente] Luis de Guindos, o espanhol que sucedeu a Constâncio, sai mais cedo mas é provável que lhe suceda alguém dos países do leste da zona euro”, cenariza a mesma fonte.

Apenas um círculo muito restrito de pessoas conhece as verdadeiras motivações que estiveram na origem desta decisão do governador. Há quem garanta que quis preservar a vida pessoal — a família mais próxima não veria com bons olhos esta candidatura, em particular os filhos —, e quem sugira que Mário Centeno mantém outro tipo de ambições políticas que uma candidatura presidencial agora hipotecaria

Fim do tabu esvazia tensão no BdP

Pedro Nuno Santos considerava Mário Centeno efetivamente um bom candidato presidencial — elogiou-o publicamente, de resto. Não era o único nome em cima da mesa, mas era uma hipótese forte e com pernas para andar. Ainda antes do final de 2024, os dois almoçaram para discutir precisamente uma possível candidatura a Belém. Esse encontro aconteceu antes do repasto com António José Seguro.

Em rigor, lembra-se a partir da cúpula do PS, Centeno nunca disse que ‘sim’ ou que tinha vontade de ser candidato presidencial. Mas estava a ouvir gente e havia pessoas ativamente empenhadas na sua protocandidatura — Adalberto Campos Fernandes, Marçal Grilo, ambos ex-ministros em governos do PS, mas também Luís Nobre Guedes, do CDS, estavam a reunir apoios em nome do governador do Banco de Portugal, como explicava aqui o Observador.

Centeno acabou por perceber que o seu caminho não passava por ali e que era importante matar o assunto de vez — a sua saída prematura da corrida ajuda também a aliviar o “ambiente péssimo” que esta indefinição estava a provocar no Banco de Portugal, conta ao Observador uma fonte conhecedora do processo. “O ambiente estava a ficar péssimo por causa deste tabu, que estava a penalizar a instituição.”

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Um exemplo dado por outra fonte, que corrobora esta leitura, foi a polémica em torno do estudo sobre a descida do IRC – pelas suas conclusões e pelo seu timing, que foi amplamente visto como “um ato de busca de protagonismo e de intervenção na política económica” — acusação que Centeno sempre rejeitou e voltou a refutar em entrevista à RTP.

Nos próximos meses, o Banco de Portugal vai continuar nas notícias por outras razões “não-bancárias”, relacionadas com a provável não-recondução de Centeno. Mas o fim do “tabu presidencial” do governador deverá “limitar a sucessão e a intensidade de polémicas”. O governador do Banco de Portugal deixará de ser um alvo político a abater numa corrida presidencial que está a acelerar muito rapidamente.

Além disso, para uma das fontes do setor financeiro ouvidas pelo Observador, ao timing do anúncio não foi alheio o facto de estar em cima da mesa a possibilidade de Lisboa receber, na próxima primavera (possivelmente em maio), uma reunião do Conselho do BCE – reuniões que costumam ser em Frankfurt mas que, por vezes, acontecem noutras cidades.

A eliminação do “fantasma presidencial” é algo que, na ótica desta fonte, “torna mais provável” que o governador consiga trazer para Lisboa essa reunião do BCE – no que pode ser um ato, eventualmente o último, de grande projeção para o Banco de Portugal sob a liderança de Centeno.

Em cima da mesa não está — nem nunca esteve verdadeiramente — a recondução de Mário Centeno como governador do Banco de Portugal. Há muito que o antigo ministro sabe que não contará com a confiança do Governo e já vai preparando a sua saída

“Não foi um momento que tenha procurado”

A verdade é que, não tendo nunca dito que sim, Mário Centeno nunca afastou verdadeiramente a candidatura. Em finais de novembro, num evento organizado pela CNN Portugal, confrontado com essa hipótese, o ex-ministro deu uma resposta ambígua e sugeriu que “as mudanças acontecem, por vezes são inesperadas, noutras vezes são expectáveis”. “Não temo a mudança, mas estou muito focado no meu trabalho, e a minha resposta é sempre a mesma: estou sempre focado no que estou a fazer no momento.”

O tempo foi passando e a solução ‘Centeno’ foi ganhando muitos adeptos — ainda recentemente, em entrevista ao Observador, Eduardo Cabrita não escondeu a sua manifesta vontade de o ver em Belém até por oposição a António José Seguro. As sondagens apontavam-no como um bom candidato da área socialista e o mais bem posicionado para enfrentar Henrique Gouveia e Melo à exceção de António Costa e António Guterres, que não estão disponíveis para ser candidatos.

Na entrevista à RTP3, Centeno tentou defender-se dizendo nunca ter “procurado” avaliar que potencialidades teria essa eventual candidatura – não contratou, por exemplo, os serviços de quaisquer “focus groups” — e garantiu não ter feito “rigorosamente nada” para dar gás aos rumores sobre a sua candidatura. “Não foi um momento simples e não foi um momento que tenha procurado“, garantiu Centeno, asseverando que tem feito o cargo de governador com “total independência” e que nada fizera para alimentar artificialmente as boas sondagens que ia tendo.

Nem as críticas a algumas medidas do Governo, nem a previsão (isolada) de um possível défice orçamental, nem as visitas a escolas, por todo o país, nas quais Centeno disse ter conseguido reunir centenas de jovens alunos de escolas secundárias para falar sobre economia. “As sondagens talvez demonstrem a projeção [favorável] que existe na sociedade portuguesa sobre o [meu] trabalho enquanto ministro e governador”, atalhou o antigo ministro.

"O PS apoiará uma candidatura. Temos de esperar. Não estamos presos a nenhuma candidatura particular", fez questão de avisar Pedro Nuno Santos assim que se soube de Mário Centeno. O destinatário evidente era António José Seguro e a mensagem que se vai passando a partir do Largo do Rato é relativamente simples: claro que é melhor que avançasse apenas um candidato; mas a direção do PS não apoiará um candidato só por ter sido o primeiro a apresentar-se

Seguristas celebram. Pedro Nuno não se deixará condicionar

Vale o que vale. A verdade é que a saída precoce de Centeno da corrida presidencial criou um desafio adicional a Pedro Nuno Santos, que agora terá de procurar convencer um candidato igualmente forte a ir a jogo. No Parlamento, confrontado pelos jornalistas com o anúncio do ex-ministro, Pedro Nuno Santos não conseguiu disfarçar alguma pena. “O PS apoiará um candidato entre aqueles que estão disponíveis para o ser. Candidatos ideais não existem.”

Ao mesmo tempo, a alegria daqueles que apoiam ativamente António José Seguro era indisfarçável. “Quando há um antigo líder do PS como candidato não há nada a fazer. Mário Centeno foi inteligente e fez a melhor opção. Só ganha ao almirante [Gouveia e Melo] alguém do PS que seja moderado e ao mesmo tempo não esteja associado à ‘geringonça’”, argumenta um segurista ouvido pelo Observador.

O ‘não’ de Mário Centeno é, portanto, uma boa notícia para António José Seguro. Na última sondagem da Pitagórica para a CNN, TSF e JN, o antigo secretário-geral do PS não ia além dos 8% na intenção direta de voto e tinha uma taxa de rejeição alta (63%). Centeno era o favorito e conseguia ter 17% de inquiridos a dizer que votariam nele de certeza, Ana Gomes (que não quer ser) levava 12% e António Vitorino registava 11%, embora tivesse um potencial eleitoral superior ao de Seguro e ao de Ana Gomes.

Mas, com melhores ou piores sondagens, o PS terá de ter um candidato a Belém. Ao contrário dos outros possíveis candidatos — Elisa Ferreira (estará fora dos seus planos, tal como dos de Ana Gomes), Augusto Santos Silva ou António Vitorino (nenhum dos dois disse que não) — Seguro está muito empenhado na corrida presidencial e pode ditar o calendário do PS. Basta ver que assim que formalizar a vontade de ir a votos será difícil para Pedro Nuno Santos dizer que não a um antigo líder do partido. Mas difícil não é impossível.

“O PS apoiará uma candidatura. Temos de esperar. Não estamos presos a nenhuma candidatura particular”, fez questão de avisar Pedro Nuno Santos assim que se soube de Mário Centeno. O destinatário evidente era António José Seguro e a mensagem que se vai passando a partir do Largo do Rato é relativamente simples: claro que é melhor que avançasse apenas um candidato; mas a direção do PS não se sente condicionada, nem apoiará um candidato só por ter sido o primeiro a apresentar-se. Traduzindo: Seguro até pode avançar primeiro; mas Pedro Nuno pode privilegiar outra figura como, por exemplo, António Vitorino.

No plano internacional, existe um lugar muito apetecível e que pode ter pesado na decisão de Centeno. O mandato de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, termina em novembro de 2027 e poderia ser um passo interessante para o ex-presidente do Eurogrupo. Se estivesse interessado em entrar na luta pelo lugar, teria de começar a trabalhar na sua candidatura algures no final de 2026 — uma candidatura a Belém tornaria impossível esse objetivo

Futuro de Centeno não passa pelo Banco de Portugal

Essas contas já não serão da responsabilidade de Mário Centeno. Para já, está focado em concluir o seu mandato à frente do Banco de Portugal, que terminará no verão deste ano. Em cima da mesa não está — nem nunca esteve verdadeiramente — a sua recondução como governador do Banco de Portugal. Há muito que o antigo ministro sabe que não contará com a confiança do Governo e já vai preparando a sua saída.

Isso não o impede de continuar a assumir publicamente que gostaria muito de se manter no cargo — mas tal deve ser lido com uma forma de tentar criar um embaraço a Joaquim Miranda Sarmento e a Luís Montenegro. “O meu foco é completar o meu mandato, agora há um segundo mandato. Nunca desempenhei as minhas funções para passar com 10. Estou a desempenhar as minhas funções com esse objetivo [o da recondução] porque é sempre assim que desempenho as minhas funções”, insinuou Centeno.

Não é a primeira vez que o faz. No verão de 2024, em entrevista ao Expresso, o antigo ministro já tinha assumido vontade de continuar no cargo de governador do Banco de Portugal. Nessa altura, mais concretamente em agosto, o Governo cortava eito: “Desfaçatez“. Posto isto, é já há muito uma evidência que o antigo ministro das Finanças não tem a confiança política do Executivo de Montenegro e a sua recondução foi sempre uma impossibilidade prática.

Depois de o tema da recondução ou não de Mário Centeno ter voltado à agenda política e mediática, Joaquim Miranda Sarmento limitou-se a dizer que a questão era extemporânea. Apesar da prudência do ministro das Finanças, o destino do governador está traçado há muito: o futuro de Centeno pode ter muitas incógnitas, mas essa não é uma delas.

Centeno revela que não será candidato presidencial. “Foi uma decisão minha, pessoal”, diz governador do Banco de Portugal

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