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Uma “reunião construtiva”, “produtiva” e “positiva”. Na cidade saudita de Jeddah, esta terça-feira, as negociações entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Ucrânia parecem ter chegado a bom porto, depois de as relações entre os dois países terem esfriado na sequência da discussão na Sala Oval. Kiev e Washington concordaram em implementar um cessar-fogo de trinta dias, estão prestes a finalizar o acordo da exploração das terras-raras e as autoridades ucranianas vão voltar a receber assistência militar e informações confidenciais norte-americanas.
O desfecho da reunião aparenta ser positivo para a Ucrânia. Os ucranianos conseguiram, pelo menos, recuperar alguma confiança perdida de Washington. Após a discussão, o Presidente Donald Trump lamentou que o seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, não estivesse verdadeiramente interessado na “paz”. Esta terça-feira, numa conferência de imprensa na Arábia Saudita, a perceção foi bastante diferente, segundo assinalou o conselheiro de Segurança Nacional. Mike Waltz destacou que “a delegação ucraniana deixou bem claro que partilha a visão do Presidente Trump”: “Partilham a sua determinação de parar a guerra e de parar a matança”.
De acordo com Marco Rubio, num argumento que foi repetido várias vezes, a “bola está agora do lado da Rússia”. O secretário de Estado adiantou que os EUA vão agora “fazer uma oferta” a Moscovo, que rejeitou há dias a proposta de cessar-fogo parcial apresentado por França e pelo Reino Unido. “Vamos dizer-lhes o que está em cima da mesa. A Ucrânia está pronta para parar os disparos e começar a falar e agora cabe-lhes a eles dizer que sim ou que não”, clarificou o chefe da diplomacia norte-americana, que espera que o Kremlin diga que “sim”.
▲ Conversa entre secretário de Estado, Marco Rubio, e o seu homólogo ucraniano, Andriy Yermak
O Presidente norte-americano reiterou essa ideia. Em declarações aos jornalistas na Casa Branca, Donald Trump disse esperar um “cessar-fogo nos próximos dias”, referindo que haverá uma “grande reunião com a Rússia nos próximos dias”. Mesmo assim, o chefe de Estado sublinhou que são “preciso dois para dançar o tango”, colocando pressão no lado russo.
Numa ronda de negociações que está a ser encarada na Europa como um “passo positivo”, a Ucrânia está pronta para assinar um acordo de cessar-fogo, alinhando-se, neste ponto, com a administração Trump. Assim, quais são os principais pontos deste possível acordo de paz?
Um cessar-fogo de 30 dias — que a Rússia tem de concordar
O comunicado conjunto entre Kiev e Washington refere que foi o lado norte-americano que propôs um “grande primeiro passo”: “Um cessar-fogo de 30 dias que parava os ataques de mísseis, drones e as bombas, não só no Mar Negro, como também em toda a linha da frente”. Esta proposta é, por isso, mais ambiciosa do que a feita pelos franceses e pelos britânicos, que contemplavam um cessar-fogo marítimo e aéreo.
Ficando os louros do lado norte-americano, a Ucrânia compromete-se a “aceitar esta proposta”, destacando que é um “passo positivo”. “Agora cabe aos Estados Unidos convencer a Rússia a fazer o mesmo. Se a Rússia aceita, o cessar-fogo terá lugar imediatamente”, lê-se no comunicado. O conselheiro da presidência ucraniana, Andriy Yermak, assinalou no X que “a coisa mais importante é proteger os interesses da Ucrânia”. “Uma paz justa é a chave para nós. Queremos uma paz duradoura.”
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A proposta norte-americana refere que, após se alcançar um acordo de cessar-fogo, vão “começar negociações imediatas para terminar com a guerra”. Segundo adiantou Marco Rubio, a finalidade é acabar com o conflito de “forma duradoura, sustentável e que atenda aos interesses [da Ucrânia], da sua segurança e da sua capacidade para prosperar como nação”.
A Rússia ainda não deu resposta a esta proposta. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo apenas se mostrou aberto a encetar contactos com representantes norte-americanos nos próximos dias. No comunicado conjunto assinado pelos ucranianos e pelos norte-americanos, há a indicação de que os “Estados Unidos vão comunicar à Rússia que a reciprocidade russa é a chave para alcançar a paz”.
Today in Jeddah, our meeting was a serious step forward. Both on the path to peace and in developing the strategic Ukraine-U.S. partnership. This is what a frank, open, and constructive dialogue brings. I thank my counterpart @SecRubio, NSA @michaelgwaltz, and our Saudi friends. pic.twitter.com/4dAx358bps
— Andrii Sybiha ???????? (@andrii_sybiha) March 11, 2025
Esta situação obriga, contudo, a Rússia a agir, como expõe o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, nas redes sociais. Recusando que se tratará de um “conflito congelado”, o diplomata sinalizou que este é um “passo que mostra quem está realmente interessado na paz” — e testa se Moscovo é capaz de ser flexível numa mesa de negociações.
As possíveis garantias de segurança à Ucrânia
Uma paz justa e duradoura. Esta é a mensagem que a diplomacia da Ucrânia tem propagado como os fatores mais importantes para terminar o conflito. Para isso, no entanto, necessitará de garantias de segurança, que tudo indica que será a Europa a concedê-las, embora se prolongue o apoio tácito norte-americano. Na reunião, segundo adiantou Volodymyr Zelensky, existiram “três pontos chave” que podem conceder mais clareza ao pós-conflito.
Sem falar em possíveis cedências territoriais — o tema mais quente de umas futuras negociações —, Volodymyr Zelensky preferiu focar nos pontos de encontro com os norte-americanos, nomeadamente as “medidas para fomentar a confiança” diplomática. Um deles consiste na “libertação de todos os prisioneiros de guerra e detidos — quer militares, quer civis”. O outro passa pelo “retorno das crianças ucranianas que foram levadas à força para a Rússia”.
I received a report from our delegation on their meeting with the American team in Saudi Arabia. The discussion lasted most of the day and was good and constructive—our teams were able to discuss many important details.
Our position remains absolutely clear: Ukraine has been… pic.twitter.com/7EZXTVA52C
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) March 11, 2025
Durante a reunião, as delegações abordaram estes assuntos, revela o comunicado. Além disso, segundo o discurso de Volodymyr Zelensky, os norte-americanos “entendem os argumentos” da Ucrânia e estão a “considerar as propostas” de Kiev. “Estou grato ao Presidente Trump pela conversa construtiva entre as nossas equipas”, elogiou ainda o Presidente ucraniano.
Independentemente do que vá acontecer no futuro, por agora, os Estados Unidos comprometeram-se igualmente a retomar a ajuda militar entregue à Ucrânia, voltando também a providenciar informações confidenciais a Kiev. Após a discussão na Sala Oval, a administração Trump ordenou a sua suspensão — e fez depender do sucesso desta reunião a continuidade do apoio prestado aos ucranianos.
De qualquer modo, não são conhecidas em concreto que cedências é que a Ucrânia poderá ter de fazer ao lado russo. Os EUA já deixaram claro que Kiev terá de conceder em certos pontos, mas, desta reunião, não foram tornadas públicas quais é que são. No comunicado, lê-se somente que “as duas delegações concordaram em nomear as equipas negociais e iniciar imediatamente as negociações rumo a uma paz duradoura que providencie a segurança da Ucrânia a longo prazo”.
▲ Reunião de negociações de paz em Jeddah
ANDRIY YERMAK TELEGRAM HANDOUT/EPA
O acordo da exploração das terras-raras
Era para ter sido assinado no final de fevereiro, mas a discussão na Sala Oval alterou os planos — e seria também uma espécie de garantia de segurança dos EUA. Segundo a lógica norte-americana, o acordo que prevê a exploração norte-americana de metais terras-raras em território ucraniano inibiria os russos de invadirem novamente a Ucrânia, dado que estariam a interferir diretamente nos negócios de Washington.
Mesmo após a discussão, nenhuma das partes atirou a toalha ao chão. Por um lado, Donald Trump pretende rentabilizar o apoio norte-americano entregue à Ucrânia nos últimos anos; por outro, Volodymyr Zelensky sabe que é uma importante ponte com a administração dos EUA — que é necessário não queimar.
No comunicado conjunto, as perspetivas para este acordo ser assinado parecem ser elevadas. “Os Presidentes dos dois países concordaram em concluir o mais cedo possível um acordo abrangente para desenvolver os recursos minerais críticos da Ucrânia, de modo a expandir a economia da Ucrânia e garantir a prosperidade e segurança da Ucrânia a longo prazo”, lê-se no documento.
O Presidente ucraniano poderá assinar o acordo da exploração das terras-raras na sua futura ida à Casa Branca, que foi anunciada esta terça-feira por Donald Trump. O líder norte-americano adiantou que vai convidar o homólogo ucraniano novamente, após a discussão na Sala Oval.
O papel da Europa — e os elogios dos líderes europeus
No comunicado, a Ucrânia quis deixar bem explícito que a sua delegação presente na reunião na Arábia Saudita “reiterou que os parceiros europeus devem estar envolvidos no processo de paz”. Os norte-americanos não se opuseram que este parágrafo estivesse no texto final, mas também não adiantaram que papel pode desempenhar a Europa em eventuais negociações.
De qualquer modo, os líderes europeus reagiram com satisfação ao rescaldo das negociações. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, saudaram as conversas entre os EUA e a Ucrânia, incluindo a proposta para um cessar-fogo e o levantamento da suspensão da ajuda norte-americana. “É um desenvolvimento positivo que pode ser um passo para uma paz abrangente, justa e duradoura para a Ucrânia.”
We welcome today’s news from Jeddah on the U.S.-Ukraine talks, including the proposal for a ceasefire agreement and the resumption of U.S. intelligence sharing and security assistance.
This is a positive development that can be a step towards a comprehensive, just and lasting…
— António Costa (@eucopresident) March 11, 2025
“A bola está do lado da Rússia”, declararam os dois líderes comunitários. De igual modo, o Presidente francês saudou o “progresso realizado nas discussões entre os EUA e a Ucrânia, em particular a ideia de um cessar-fogo de 30 dias”. Os parceiros europeus continuam “comprometidos”, garantiu Emmanuel Macron, para ajudar Kiev — e providenciar “garantias de segurança robustas”.
Também o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, celebrou o que adjetivou como um “avanço extraordinário”. “É um momento importante para a paz na Ucrânia”, definiu o líder britânico, que tem ajudado Volodymyr Zelensky a reatar as relações com Donald Trump. “Precisamos de redobrar os nossos esforços e ter uma paz duradoura o mais rapidamente possível”, insistiu, vincando uma das principais mensagens que sai deste encontro: “A bola está agora do lado russo”.