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▲Nicolás Maduro e Xi Jinping

POOL/AFP via Getty Images

▲Nicolás Maduro e Xi Jinping

POOL/AFP via Getty Images

China não segura Venezuela e deve perder milhões em investimentos e petróleo. Mas pode tirar notas para Taiwan

China condenou e criticou EUA, mas deverá perder aliado na América Latina, assim como acesso ao petróleo venezuelano. Pequim pode alegar legitimidade para atacar Taiwan, mas contextos são diferentes.

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Horas antes de ser capturado pelas tropas de elite Delta Force a meio da noite no passado sábado, Nicolás Maduro reuniu-se com dirigentes da China. Em Caracas, o Presidente deposto da Venezuela encontrou-se com uma delegação liderada por Qiu Xiaoqi, o enviado especial chinês do líder Xi Jinping. O mandatário do regime de Pequim entregou mesmo uma estátua de um cavalo para representar o facto de em 2026 se iniciar, segundo o horóscopo chinês, o ano do cavalo. “É o ano do cavalo e vamos galopar rumo a uma união perfeita”, comentou Nicolás Maduro.

“Uma união perfeita”. Era assim que dirigentes venezuelanos e chineses descreviam a aliança entre os dois países. A China comprava milhares de barris de petróleo à Venezuela através dos empréstimos de milhões de dólares ao regime de Nicolás Maduro. Em termos geopolíticos, Pequim ganhava um aliado importante na América Latina, perto do rival Estados Unidos da América (EUA), ao passo que Caracas quebrava o isolamento internacional imposto pelas sanções do Ocidente com um parceiro que via como confiável.

A par da Rússia e do Irão, a China mantinha excelentes relações com o regime chavista e era um dos seus principais defensores na comunidade internacional. Por sua vez, a Venezuela sentia que a aliança com Pequim a protegia de ameaças externas, principalmente as oriundas de Washington. O governo de Nicolás Maduro obtinha ainda investimentos massivos chineses nas infraestruturas do país e não precisava de diminuir a repressão ou convocar eleições justas e livres para garantir esse apoio financeiro.

▲ Xi Jinping e Nicolás Maduro

LEO RAMIREZ/AFP/Getty Images

No passado sábado, essa frutífera aliança acabou, pelo menos nos moldes que vigoravam até então. Após decapitar a liderança do regime venezuelano, os EUA anunciaram que vão passar a controlar o setor petrolífero da Venezuela, o futuro político do país da América do Sul e demonstraram à força o regresso à doutrina Monroe: o Hemisfério Ocidental é uma zona exclusiva de influência de Washington, num desafio claro a Pequim e também a Moscovo.

A China condenou energicamente a captura de Nicolás Maduro, convocou uma reunião no Conselho de Segurança das Nações Unidas para debater o assunto e denunciou o “bullying” norte-americano em relação à Venezuela. Porém, o sempre cauteloso Partido Comunista Chinês ficou-se por aqui. O Presidente da China, Xi Jinping, limitou‑se a tecer críticas e fazer apelos pelo respeito da soberania dos Estados, mas evitou desafiar diretamente Donald Trump.

Tendo investido milhões de dólares na Venezuela e tendo gozado de um rentável negócio no setor petrolífero, é provável que Pequim acabe com prejuízos nos investimentos que fez ao longo dos anos em território venezuelano. Em paralelo, o regime chinês percebeu que a ordem internacional é cada vez mais baseada na força. Partindo desse pressuposto, a China pode ter tirado notas para invadir Taiwan — e pode ter animado o país a avançar com a operação militar contra a ilha que vê como sua.

epa12617613 People drive along a street in Taipei, Taiwan, 30 December 2025. China conducted live-fire drills in five designated maritime and airspace zones around Taiwan.  EPA/RITCHIE B. TONGO

▲ China poderá sentir-se encorajada para invadir Taiwan após ação militar nos EUA

RITCHIE B. TONGO/EPA

Petróleo em troca de empréstimos. Como começou a “união perfeita” entre China e Venezuela

Início dos anos 2000. O antigo Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, chefiava o país durante a revolução bolivariana. Apesar da retórica contra o “imperialismo norte-americano”, as empresas petrolíferas dos Estados Unidos continuavam a operar no país e a desempenhar um papel preponderante. Mas o regime venezuelano pretendia diversificar os laços económicos além dos EUA. E foi aí que surgiu a China, uma parceira ideal tanto pelo interesse económico mútuo como pela contestação à hegemonia de Washington.

Numa altura em que a China procurava garantir fornecimentos estáveis de petróleo fora de fronteiras para sustentar o rápido crescimento das suas indústrias, a Venezuela chavista foi uma opção natural. Os dois países chegaram a acordo: Pequim financiava a economia venezuelana com empréstimos milionários, enquanto Caracas cedia o petróleo e ganhava liquidez. Pelo meio, havia investimentos chineses em caminhos de ferro, centrais elétricas e infraestruturas vitais venezuelanas.

A aliança entre Caracas e Pequim também se fez do ponto de vista estratégico e militar. Hugo Chávez queria reduzir a dependência das empresas petrolíferas dos Estados Unidos — rescindindo os contratos com muitas delas — para ganhar autonomia e prosseguir a “revolução”, independentemente dos estados de espírito da Casa Branca. O regime chinês  ganhava um aliado no “quintal” geopolítico dos EUA, de onde podia acompanhar de perto as movimentações de Washington.

▲ Ex-Presidente venezuelano Hugo Chávez e ex-Presidente chinês Hu Jintao em 2004

STR/AFP/Getty Images

A parceria funcionou bastante bem e revelou-se proveitosa durante vários anos. Entre 2000 e 2014, a Venezuela converteu‑se num dos principais destinos dos empréstimos da China, como recorda a Fundação Andrés Bello. Foram assinados mais de 500 acordos, embora os detalhes de muitos deles não tenham sido revelados ao público. Os empréstimos chegaram aos 60 mil milhões de dólares (cerca de 51 mil milhões de euros) com Pequim a ficar com o petróleo como pagamento.

Depois da morte de Hugo Chávez em 2013 e da chegada ao poder de Nicolás Maduro, a situação económica da Venezuela piorou. O contexto internacional não ajudou: assistiu-se a uma queda acentuada do preço do petróleo em 2015, devido ao excesso de oferta. Ao mesmo tempo, a economia chinesa desacelerou, o que eram péssimas notícias para o regime chavista. Em 2015, os Estados Unidos aplicaram um pacote de sanções contra a Venezuela por causa da violação dos Direitos Humanos.

A Venezuela deixou de ter capacidade de pagar as dívidas à China, em parte porque o petróleo custava menos. A consequência? Pequim deixou de investir tanto na economia venezuelana e passou a concentrar‑se em renegociar a dívida já existente. O isolamento internacional de Caracas ia aumentando, devido à repressão interna — situação que se agravou após as acusações de fraude das eleições presidenciais de 2018 e quando Juan Guaidó se autoproclamou Presidente.

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▲ Entre 2000 e 2014, a Venezuela converteu‑se num dos principais destinos dos empréstimos da China

Bloomberg via Getty Images

Por essa altura, Donald Trump estava na presidência dos Estados Unidos: na altura, já tinha uma retórica bastante dura contra a Venezuela. Em 2019, os norte‑americanos deixaram praticamente de importar petróleo venezuelano como resultado das sanções aplicadas pela Casa Branca. A situação piorou ainda mais e foi agravada pela pandemia da Covid-19.

Guerra na Ucrânia revitalizou relação (mas nunca voltou a ser o que era)

A guerra na Ucrânia dividiu o mundo em blocos. A Rússia foi alvo de várias sanções internacionais, ficou isolada e procurou novas alianças: o regime venezuelano foi um deles. Num mundo mais hostil, a China voltou a fazer o mesmo e voltou a olhar para a Venezuela com outros olhos. Aprofundou a aliança e assinou, em 2023, uma “parceira estratégica para todas as situações” com Caracas — meses antes de Nicolás Maduro enfrentar as urnas.

Por esta altura, a Venezuela continuava a amortizar parte da dívida a Pequim. A China mantinha um forte interesse no petróleo venezuelano, mas mostrava‑se muito mais cautelosa em abrir novas linhas de crédito, preferindo proteger e gerir os investimentos que tinha feito no passado. Ainda assim, o regime chinês,  entre 2023 a 2025, era o responsável por 70 a 80% das exportações de petróleo da Venezuela.

O bloco anti-Ocidente também ia ganhando relevo: e a China olhava para a Venezuela cada vez mais sob o prisma do interesse geopolítico. Como escreve Antonio De La Cruz, membro do think tank Center for Strategic and International, o fortalecimento da aliança entre Pequim e Caracas “oferecia um aliado confiável” ao regime chinês: “A parceria beneficia a China na geopolítica, no equilíbrio de poder regional e nas organizações internacionais”.

Apesar de economicamente a aliança não estar tão forte como antes, a relação entre a China e a Venezuelana solidificou-se. Nicolás Maduro dizia que Xi Jinping era como se fosse “um irmão mais velho”. Na sequência das eleições presidenciais venezuelanas de 2024, Pequim voltou a apoiar o aliado e negou que tivesse havido fraude eleitoral. “A China felicita a Venezuela pelo sucesso das suas eleições presidenciais e felicita o Presidente Maduro pela sua reeleição”, reagiu o porta-voz da diplomacia chinesa, Lin Jian.

Sob forte pressão internacional, o reconhecimento da vitória de Nicolás Maduro em 2024 por parte da China conferiu-lhe uma certa legitimidade, em particular entre os países do Sul Global. A aliança continuou sólida durante o ano passado e tudo indicava que Caracas e Pequim manteriam o esquema que as beneficiava no futuro, mesmo com a China a evitar novos grandes empréstimos e a recorrer a redes opacas de transporte e intermediação para continuar a receber petróleo venezuelano sem se expor diretamente às sanções secundárias do Ocidente.

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▲ Bandeira venezuelana na Praça Tian'anmen

VCG via Getty Images

EUA decapitam liderança do regime venezuelano e China pode ter prejuízos económicos

A China ficou “profundamente chocada” com a operação militar norte-americana que depôs Nicolás Maduro, que aconteceu um dia depois de dirigentes chineses terem estado em Caracas. Pequim condenou o uso da força e apelou ao respeito pelo Direito Internacional, acusando os Estados Unidos de violarem as normas internacionais e de colocarem em risco a paz e a segurança na América Latina.

A retórica foi escalando ao longo dos últimos dias: Xi Jinping acusou mesmo os Estados Unidos de “bullying”. A China ia dando-se conta de que poderia mesmo perder um aliado na América Latina. Mas as repercussões não seriam apenas geopolíticas — seriam também económicas. De acordo com uma estimativa realizada pelo Financial Times, a Venezuela ainda deve 10 mil milhões de dólares (cerca de 8,5 mil milhões de euros) ao regime chinês.

“Os riscos estão a tornar-se crescentemente claros — Trump não deve devolver os ativos chineses na Venezuela. Ele não quer saber do Direito Internacional”, avisou ao Financial Times o professor de Relações Internacionais na Universidade de Renmin, Shi Yinhong. Na mesma linha, citado pela BBC, Eric Olander, editor-chefe do portal China-Global South Project, sublinhou que empresas chinesas na Venezuela “correm o risco de que os ativos ou sejam nacionalizados pelos venezuelanos, ou fiquem sob a direção dos Estados Unidos, ou até sejam marginalizados no meio do caos”.

"Os riscos estão a tornar-se crescentemente claros — Trump não deve devolver os ativos chineses na Venezuela. Ele não quer saber do Direito Internacional."
Professor de Relações Internacionais na Universidade de Renmin, Shi Yinhong

A Casa Branca já contribuiu para esse desfecho: pretende que a Venezuela corte relações com a China antes de permitir que volte a exportar o petróleo. Numa publicação da Truth Social, Donald Trump ainda foi mais claro nas suas intenções, afirmando que o dinheiro resultante da venda de petróleo será “controlado por ele” para “beneficiar o povo da Venezuela e dos Estados Unidos”. O Presidente norte-americano estimou que “as autoridades interinas na Venezuela vão entregar entre 30 a 50 milhões de barris de petróleo”. 

Ainda que pareça contraditório, Donald Trump também já mostrou disponibilidade dos EUA venderem  petróleo “a outros países”: “Estamos no negócio petrolífero”. As condições estipuladas durante a época chavista devem cair por terra para a China. Mas os prejuízos serão sobretudo económicos: o petróleo venezuelano representa apenas cerca de 4% das importações de crude da China, o que torna relativamente fácil para Pequim substituir esses barris por fornecimentos de outros mercados.

E Taiwan? Pode a China anexar o território?

Assim que o regime venezuelano foi decapitado, a pergunta impôs-se: será que a captura de Nicolás Maduro iria encorajar a China a invadir Taiwan? Pequim nunca escondeu que pretende reunificar — nem que seja através da força — a ilha que reivindica como parte do seu território. Existem alguns paralelismos nas duas situações, especialmente no facto de a operação militar dos EUA poder marcar um novo precedente em relação ao uso da força por potências mundiais.

epa11363068 A screen broadcasts the evening news about China conducting military drills around Taiwan, in Beijing, China, 23 May 2024. According to Chinese state media Xinhua, 'the Eastern Theater Command of the Chinese People's Liberation Army (PLA) started a two-day joint military drills surrounding the island of Taiwan on 23 May'. Taiwan's Defense Ministry stated on 23 May that China was engaging in 'irrational provocation' by encircling Taiwan with its ongoing military exercises, just days after President William Lai's inauguration.  EPA/WU HAO

▲ Exercícios militares contra Taiwan

WU HAO/EPA

O debate começou a surgir na China nas redes sociais. Citado pelo New York Times, um utilizador escreveu: “Se os Estados Unidos podem prender um Presidente de outro país, então a China pode absolutamente deter Lai Ching-te [o Presidente de Taiwan]”. A lógica é precisamente essa: se os EUA podem derrubar um regime, o que impede Pequim de não fazer o mesmo?

Mas as circunstâncias são bastante distintas. Em primeiro lugar, a China não encara Taiwan uma questão regulada sob o Direito Internacional. O regime chinês vê a ilha como parte do seu território — daí ser um assunto interno. Em declarações ao The Guardian, Shen Dingli, especialista de Relações Internacionais, sustenta essa visão: “As relações entre os dois lados do Estreito [de Taiwan] não são relações internacionais e não são regidas pelo Direito Internacional. A abordagem dos Estados Unidos em relação à Venezuela não tem qualquer relevância para as relações entre os dois lados do estreito”.

A China tem feito vários exercícios militares em redor de Taiwan, o que é visto como uma ameaça e demonstração de força. Existe, não obstante, uma data em que os Estados Unidos acreditam que Pequim terá capacidades para invadir a ilha e ser bem-sucedido: 2027. Ao passo que na Venezuela a operação militar foi mantida em segredo, os dirigentes chineses não escondem que desejam uma reunificação para breve.

"As relações entre os dois lados do Estreito [de Taiwan] não são relações internacionais e não regidas pelo Direito Internacional. A abordagem dos Estados Unidos em relação à Venezuela não tem qualquer relevância para as relações entre os dois lados do estreito."
Shen Dingli, especialista de Relações Internacionais

Até lá, as variáveis podem mudar, embora as tropas chinesas estejam a treinar para esse objetivo. Um dos fatores que pode inibir a China está na capacidade que os Estados Unidos e aliados (como o Japão ou a Coreia do Sul) têm para proteger Taiwan de uma invasão de Pequim. A invasão da Venezuela pode ter até um efeito dissuasor, como sinaliza o analista Jesse Marks, num artigo publicado na revista Foreign Policy: “A administração Trump demonstrou que vai agir rápida, decisivamente e sem constrangimentos legais se os seus interesses estiverem em risco. É uma informação que os estrategas de guerra chineses não podem ignorar”.

Independentemente disso, uma eventual operação militar em Taiwan também seria muito distinta do que aconteceu na Venezuela. Nicolás Maduro era um líder impopular com uma população a ser alvo de repressão — e a maioria a viver em precárias condições de vida. Mas a maioria da população de Taiwan não sente isso: muitos deles estão dispostos a defender a pátria e desejam manter-se independentes em relação à China continental. 

Num artigo no think tank Council On Foreign Relations, o analista David Sacks explicou que Pequim “precisaria de ter milhares de tropas na ilha, conquistar cidades e impor a lei marcial a 23 milhões de pessoas”. “Em última instância, a China enfrenta uma tarefa muito mais exigente do que aquela que os Estados Unidos enfrentaram na Venezuela”, continuou o especialista, acrescentando que a China “ainda não tem confiança de que pode ser bem-sucedida a um custo aceitável”.

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▲ Ação militar em Taiwan seria mais custosa do que a ação militar dos EUA na Venezuela

AFP via Getty Images

Ao mudar alguma coisa, a operação militar norte-americana na Venezuela concede uma certa legitimidade a uma eventual reunificação com Taiwan. Mas as parecenças ficam-se por aí. O regime chinês deverá estar agora mais preocupado com as eventuais perdas financeiras que possam resultar de um novo governo na Venezuela, assim como deverá lamentar a perda de um importante aliado na América Latina.

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