Como Brett Kavanaugh se tornou uma bomba-relógio para os republicanos /premium

26 Setembro 2018

A nomeação do juiz para o Supremo Tribunal parecia um decisão rotineira. Mas a uma denúncia de agressão sexual há 35 anos seguiu-se outra. E depois outra. Vão os republicanos deixá-lo cair?

Tudo terá acontecido em 1982, numa festa de adolescentes de um círculo privilegiado dos subúrbios de Bethesda, Maryland. Christine Blasey Ford tinha 15 anos e frequentava a Holton-Arms School, só para raparigas. Os seus verões eram passados com as colegas na piscina do Columbia Country Club, frequentado também por rapazes de colégios masculinos, como a Landon School ou a Georgetown Prep. Brett Kavanaugh, de 17 anos, era um deles — e o que fez, ou não, nesse ano de 1982 poderia ter pouca relevância pública, não fosse o facto de Kavanaugh ter sido nomeado por Donald Trump para o cargo de juiz do Supremo Tribunal, podendo dar aos conservadores uma maioria nesse órgão, o que não acontece há 50 anos.

Foi numa festa frequentada por estes adolescentes que a agressão terá ocorrido. Na sala de estar de uma casa de família, sem adultos presentes, os miúdos conviviam e bebiam algumas cervejas. Kavanaugh e o seu amigo Mark Judge terão exagerado na dose — o que não surpreende quem tiver lido o livro de memórias de Judge, “Wasted: Tales of a Gen-X Drunk”, no qual é descrito o clima de bebedeiras regulares que existia entre os colegas de secundário. Christine subiu ao segundo andar para ir à casa-de-banho, afastando-se, gradualmente, das gargalhadas dos colegas e da música que se ouvia bem alto. Foi nesse momento que, segundo conta, foi empurrada para dentro de um quarto e atirada para cima de uma cama.

De acordo com o relato de Ford, prestado ao Washington Post, isto foi o que aconteceu de seguida: Kavanaugh meteu-se em cima dela na cama, não a deixando levantar-se com o peso do corpo, e tentou tirar-lhe a roupa. Judge estava do outro lado do quarto. Os dois jovens, aparentemente bêbados, riam-se de “forma maníaca”. Christine gritou — e Kavanaugh tapou-lhe a boca com a mão. O amigo Judge saltou então para cima deles e foi aí que, no meio da confusão, Christine conseguiu libertar-se e trancar-se na casa-de-banho, onde ficou até os dois rapazes saírem do quarto.

Kavanaugh durante a sua primeira audiência perante o Comité Judicial do Senado. Em breve deverá ter uma nova audiência, esta inesperada (Chip Somodevilla/Getty Images)

A história, a provar-se, seria demolidora para as esperanças de Brett Kavanaugh, juiz do Tribunal da Relação de D.C., vir a ser confirmado para o Supremo. Sabendo da gravidade da acusação, os senadores do Comité Judicial, responsáveis pela confirmação do cargo, decidiram ouvir Ford antes de tomarem uma decisão, marcando a audiência para esta quinta-feira. Só que a denúncia de Ford acabaria por não ser a única: de nome e rosto expostos, Deborah Ramirez avançou com o relato do abuso sexual de que diz ter sido vítima por parte de Kavanaugh quando estava na faculdade. E, como não há duas sem três, esta quarta-feira, Julie Swetnick acusou o juiz de ter participado em festas regadas a álcool nas quais as raparigas eram violadas à vez, por uma fila de adolescentes. No meio de toda esta situação, conseguirá mesmo Kavanaugh chegar ao mais alto cargo do judiciário? Tic tac, tic tac. A bomba-relógio está a contar.

Christine Blasey Ford, a pioneira que recorreu às denúncias anónimas do Washington Post

Durante anos, Christine Ford nada disse sobre esta história. “Nem sequer vou contar isto a ninguém. Foi nada, não aconteceu, ele não me violou”, recordou sobre os seus pensamentos à altura. A primeira admissão do acontecimento ocorreu em 2012, numa sessão de psicoterapia de casal, perante o marido e a terapeuta — cujas notas foram apresentadas como prova ao Washington Post, embora o nome de Kavanaugh não esteja escrito nelas.

Em julho deste ano, ao saber que o alegado agressor era um dos nomes que circulava para o Supremo, Christine, uma respeitada professora da Universidade de Palo Alto, recorreu ao instrumento de denúncias anónimas do Washington Post para contar a sua história. Contudo, preferiu não se identificar, por receio do impacto que a denúncia teria na sua vida e na da sua família. Ao mesmo tempo, escreveu uma carta para a senadora democrata Dianne Feinstein, membro do Comité Judicial do Senado. Nela, Christine contava a história da alegada tentativa de agressão sexual de Kavanaugh — mas deixava claro que não queria que a sua identidade fosse revelada.

A versão de Ford: Kavanaugh meteu-se em cima dela na cama, não a deixando levantar-se com o peso do seu corpo, e tentou tirar-lhe a roupa. Judge estava do outro lado do quarto. Os dois jovens, aparentemente bêbados, riam-se de “forma maníaca”. Christine gritou — e Kavanaugh tapou-lhe a boca com a mão.

Contudo, a sua história acabou por vir a público na forma de uma denúncia sem rosto — e Ford não demorou a perceber que, mais cedo ou mais tarde, a sua identidade seria desvendada. No início do mês, Kavanaugh respondia negativamente, no Senado, à pergunta: “Desde que se tornou legalmente adulto, alguma vez pediu favores sexuais ou cometeu algum assédio ou agressão de natureza sexual?”. Uma semana mais tarde, a psicóloga decidia contar ao Washington Post, de gravador ligado, a agressão que diz ter ocorrido quando Kavanaugh ainda não era “legalmente adulto”. Com esta ação, a psicóloga ativou uma bomba-relógio que pode explodir nas mãos do juiz e na cara dos republicanos. E rapidamente surgiram mais e mais dados sobre este caso que resultam num amontoado de perplexidades.

Christine Blaisey Ford tem a seu favor o facto de já ter falado do caso antes à terapeuta e ao marido, mas não só: esta quarta-feira, a defesa da psicóloga anunciou que entregará ao Senado declarações de três outras pessoas que garantem ter sabido do caso antes de Kavanaugh ser nomeado por Donald Trump para o Supremo. A somar-se a estes testemunhos está um teste de polígrafo feito pelo FBI, a que Christine se submeteu por conselho da sua advogada, e no qual passou.

Contra si tem o facto da a única testemunha presente naquele quarto, Mark Judge, ser amigo de Kavanaugh e garantir que nada do que foi descrito por Ford aconteceu. Kavanaugh também entregou documentação que crê ajudar a ilibá-lo: calendários do ano de 1982 onde não consta nenhum registo de uma festa semelhante à descrita por Christine.

“Que as filhas deles nunca sejam tratadas assim” ou “tudo bons rapazes”? O que o livro de curso revela sobre Kavanaugh

No meio de tudo isto, os relatos sobre a postura de Kavanaugh durante todo o secundário são tudo menos unânimes. Amigos como Judge dizem que o juiz era “um aluno brilhante” que não fazia nada “de louco ou ilegal”. O próprio assume que estava focado apenas nos estudos e nos desportos. Mas há quem pinte um cenário bem diferente, sustentado em provas como o livro de curso da turma de Georgetown Prep. No seu texto no livro, Kavanaugh faz múltiplas referências veladas ao consumo de bebidas alcoólicas, desde “Malibu Fan Club” até aos “100 barris”.

Este último ter-se-á tratado de um desafio auto-imposto pelo grupo de amigos do juiz, que consistia em beber 100 barris de cerveja e gabarem-se disso, segundo revelou o próprio Mark Judge. No livro de memórias, Judge menciona de passagem um amigo chamado “Bart O’Kavanaugh” que teria bebido em demasia e vomitado no carro de alguém depois de uma festa.

O livro de curso da turma de 1983 contém ainda repetidas referências a uma misteriosa expressão — “Renate Alumnius”. De acordo com dois antigos colegas de turma de Kavanaugh, tal seria uma referência a Renate Schroeder, estudante numa outra escola mencionada frequentemente pelos rapazes de Georgetown Prep como uma conquista sexual. “Eles faltavam muito ao respeito à Renate, pelo menos verbalmente”, declarou o ex-aluno Sean Hagan ao New York Times. As histórias, ligadas ao comentário feito pelo próprio, em 2015, de que “o que acontece em Georgetown Prep fica em Georgetown Prep”, não batem certo com a descrição de bom e sossegado adolescente que Kavanaugh tem tentado passar.

Mas, por outro lado, há as testemunhas de caráter como a própria Renate Schroeder, que assinou uma carta juntamente com outras 64 mulheres a atestar o bom comportamento do juiz para com as mulheres. Claro que isso aconteceu antes de saber do uso da expressão “Renate Alumnius”. Ao Times, Schroeder comentou: “A insinuação é horrível, dolorosa e simplesmente falsa. Rezo para que as filhas deles nunca sejam tratadas desta forma.”

Perante estes relatos, surgiram dois tipos de reações por parte dos republicanos: em vez de acusar Christine de estar a mentir, vários conservadores sugeriram que o comportamento de Kavanaugh não foi assim tão reprovável ou alegaram que a psicóloga talvez esteja um pouco baralhada — como foi o caso do senador Orrin Hatch, que garante que Kavanaugh não esteve nessa festa — e que pode ter confundido Kavanaugh com outra pessoa. Um caso de identidade trocada, portanto. Ou, como perguntava uma colunista do Washington Post, não existirá por aí um sósia de Kavanaugh que tenha cometido o crime?

O senador republicano Orrin Hatch garante que Kavanaugh não esteve presente na festa onde Ford terá sido vítima de agressão sexual (Alex Wong/Getty Images)

O ativista conservador Ed Whelan foi ainda mais longe e tentou encontrar esse doppelgänger. Numa série de comentários no Twitter, o diretor do think thank Ethics and Public Policy Center vestiu a gabardina de investigador privado e encontrou uma possível moradia, onde a agressão a Christine pode ter acontecido, incluindo plantas da casa. Depois, publicou fotografia do jovem que lá morava à altura, por sinal colega de escola de Kavanaugh, para ilustrar o quão parecidos eram. Horas depois, os tweets seriam apagados (não sem antes serem apanhados por vários na Internet), com Whelan a assumir ter cometido “um erro indesculpável” ao tornar pública a identidade do antigo colega do juiz. Ford também reagiu, dizendo que conhecia bem o jovem em questão e que há “zero hipóteses” de os ter confundido. A tentativa de Whelan de cortar o fio certo da bomba saiu furada — e o relógio continuou a contar.

A maioria dos republicanos que seguiram a via de não questionar o testemunho de Christine, contudo, optaram por repetir a ideia de que boys will be boys e que tudo não passou de uma brincadeira parva da idade, sem qualquer reflexo na personalidade de Kavanaugh de hoje em dia. O antigo congressista republicano Joe Walsh, por exemplo, afirmou que “se a bitola estivesse em cada comportamento estúpido, mau ou embriagado que um menor tem no ensino secundário, então todos os políticos homens de Washington teriam de se demitir”. Também Ari Fleischer, antigo porta-voz de George W. Bush — Presidente para o qual Kavanaugh trabalhou como conselheiro na Casa Branca —, declarou que um erro na adolescência não deve servir para “negar chances a alguém mais tarde na vida”.

Kavanaugh com Donald Trump, que o nomeou como quinto juiz conservador do Supremo Tribunal, fazendo a balança pender a favor dos republicanos nesse órgão (Chip Somodevilla/Getty Images)

E — talvez o apoio mais relevante de todos — Donald Trump saiu do silêncio que muitos já estranhavam e declarou apoio incondicional ao seu nomeado, piscando o olho a uma conspiração orquestrada pelos democratas: “O juiz Brett Kavanaugh é um ótimo homem, com uma reputação impecável, que está a ser atacado por políticos radicais da esquerda que não querem respostas, querem destruir e atrasar [a nomeação]. Os factos não interessam”, tweetou.

Bebedeiras “agressivas”, uma sociedade secreta de nome vulgar e juras sobre virgindade. Deborah Ramirez deita gasolina no fogo

A acusação de Ford e tudo o que a rodeava já tinha feito abalar a confirmação de Kavanaugh, com a inclusão do testemunho da psicóloga e os pedidos dos democratas para que o FBI investigue o caso. Na noite de domingo, contudo, uma segunda denúncia tornaria o caso ainda mais bizarro: Deborah Ramirez, colega do juiz na Universidade de Yale, acusa-o de ter baixado as calças e pressionado o pénis contra o seu rosto. Tudo teria acontecido numa festa na residência universitária, com ambos alcoolizados.

A acusação foi divulgada num artigo da revista New Yorker, onde se fazem diferentes descrições da postura e do percurso de Kavanaugh durante a Universidade. “O comportamento que ela descreve é completamente desalinhado com o caráter do Brett”, declarou uma amiga dos tempos da faculdade, que diz estranhar como é que não soube do alegado incidente, tendo em conta que era amiga dos dois. Mas outros ex-colegas traçam um retrato diferente de Kavanaugh, como o antigo colega de quarto James Roche, amigo de Ramirez: “Ele bebia muito, até para os padrões da altura, e tornava-se muito agressivo e conflituoso quando bebia”, declarou. “Acredito que ele o seu círculo social são capazes das ações que a Debbie descreveu.”

Várias manifestações contra a nomeação de Kavanaugh têm-se repetido em Washington e também em Yale, a Universidade onde o juiz se formou (SAUL LOEB/AFP/Getty Images)

O “círculo social” a que Roche se refere inclui a sociedade secreta masculina Truth and Courage (Verdade e Coragem), informalmente conhecida pelos alunos como “Tit and Clit” (traduzível para português como “Tetas e Clítoris”). E também a fraternidade Delta Kappa Epsilon, conhecida por alguns comportamentos misóginos — em 2010, por exemplo, os membros desta fraternidade entoaram uma série de cânticos como “‘não’ significa ‘sim’, ‘sim’ significa [sexo] anal”. Não é claro se nos anos 1980, quando Kavanaugh frequentou Yale, os membros da DKE tinham o mesmo tipo de postura.

“Acredito que isto pode ter acontecido”, comentou à New Yorker uma colega de Ramirez e de Kavanaugh, que preferiu não ser identificada. “Eles estavam sempre de volta dela a dizer ‘a Debbie está aqui!’ e depois entravam naquela coisa tipo ‘Deus das Moscas’ com ela”, declarou, dizendo que Kavanaugh e os amigos rapazes gostavam de atormentar a porto-riquenha, que era tímida.

Na sequência da acusação de Ramirez, somada à de Ford, Kavanaugh passou ao contra-ataque. Numa entrevista à Fox News, voltou a negar todas as acusações. Sobre o perfil que tinha na juventude, admitiu que bebia pontualmente, mas assumiu-se como um jovem “focado nos estudos, no desporto e que ia à igreja todos os domingos”. E, por fim, soltou a afirmação sobre a sua vida sexual que crê deixar clara a sua inocência: “Não tive relações sexuais, nem nada que se assemelhe a isso, no liceu. Nem durante muitos anos a seguir a isso.”

Julie Swetnick e as “violações em grupo”: “Twilight Zone” ou a machadada final na nomeação?

Como não há duas sem três, depois de Ford e Ramirez surge uma terceira mulher — e esta não teve hesitações em partir a loiça e fazer a acusação mais grave de todas. Julie Swetnick garante que, durante o início dos anos 80, Kavanaugh e o amigo Mark Judge fizeram parte de um grupo de rapazes que embebedava raparigas propositadamente para as violar em grupo.

“Tenho uma memória muito presente de ver rapazes a fazerem fila à porta de quartos em muitas dessas festas, à espera da sua ‘vez’ com uma rapariga no quarto. Entre estes rapazes estavam Mark Judge e Brett Kavanaugh”, diz Swetnick num depoimento publicado no Twitter do seu advogado. “Por volta de 1982, tornei-me vítima dessas violações ‘em grupo’ ou ‘em fila’, onde Mark Judge e Brett Kavanaugh estiveram presentes”, afirma. Swetnick não especifica se terá sido violada por Kavanaugh ou se testemunhou uma violação por parte de Kavanaugh numa dessas festas, mas descreve ter visto uma série de comportamentos incorretos por parte de Kavanaugh com raparigas, assediando-as verbal e fisicamente, e garante saber de testemunhas que podem corroborar o seu relato.

Michael Avenatti, advogado da terceira mulher a acusar Kavanaugh, com Stormy Daniels, envolvida num processo contra Donald Trump (HECTOR RETAMAL/AFP/Getty Images)

A declaração é explosiva e foi rapidamente desmentida por Kavanaugh, que a classifica de “ridícula” e digna “da Twilight Zone”. “Não sei quem é esta pessoa e isto nunca aconteceu”, afirma. Em seu auxílio veio rapidamente o Presidente, que tweetou pouco depois não sobre Swetnick, mas sobre o seu advogado, Michael Avenatti — também defensor da atriz porno Stormy Daniels, que acusa Trump de ter tentado silenciá-la sobre a relação que mantiveram. “Ele só está à procura de atenção”, escreve sobre o advogado. “Um completo pelintra!”

No meio da tempestade, e incapaz de controlar todos os acontecimentos, Kavanaugh parece estar a preparar-se para rever ligeiramente a imagem imaculada que tem apresentado sobre a sua juventude: “Bebia cerveja com os meus amigos, sobretudo aos fins de semana. Às vezes, bebia demasiado. Em retrospetiva, disse e fiz coisas no secundário que agora me fazem estremecer”, dirá o juiz ao Comité Judicial esta quinta-feira, segundo o New York Times. Mas garantirá também que nunca fez “nada vagamente parecido” àquilo de que está a ser acusado por Christine.

Em vésperas das audições de Ford e Kavanaugh, a acusação de Swetnick tem tudo para baralhar e enlamear ainda mais este caso. Os democratas contestam todo o processo, com o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, a pedir que Kavanaugh se afaste da nomeação ou que esta seja interrompida para que o FBI possa investigar. Sejam as acusações verdade ou mentira, certo é que tornaram o simples processo de nomeação de um juiz para o Supremo num dos casos mais mediáticos da política recente norte-americana. A bomba-relógio continua a contar, imparável.  E, como resumiu o senador republicano Jeff Flake depois de ser conhecida a terceira acusação, qualquer decisão do Senado “ficará para sempre mergulhada em dúvida”.

Republicanos na corda bamba e os ecos do caso Anita Hill

Alguns republicanos — a começar pelo próprio Presidente — creem que estas acusações são falsas e são apenas táticas dilatórias para adiar a confirmação de Kavanaugh para o cargo de juiz do Supremo Tribunal, que estava marcada para a próxima segunda-feira. O motivo? As eleições intercalares de 6 de novembro.

Se Kavanaugh não for nomeado até lá e se os democratas recuperarem o controlo do Senado, Trump terá muitas dificuldades em conseguir nomear um juiz conservador para o Supremo. A maioria conservadora no tribunal de última instância, objetivo político dos republicanos que não é alcançado desde o New Deal, fica assim em risco. “Com os conservadores posicionados para conseguirem finalmente um quinto voto conservador [no Supremo], depois de 50 anos de tentativa e erro, estamos totalmente polarizados”, analisa a professora Sarah Binder, especialista no Congresso. “As eleições vindouras motivam claramente os republicanos para forçarem a confirmação de Kavanaugh antes de novembro.” “Ela que testemunhe, ou não, e VOTEM!”, escreveu o próprio Trump quando ainda só era conhecido o caso de Ford.

“Com os conservadores posicionados para conseguirem finalmente um quinto voto conservador [no Supremo], depois de 50 anos de tentativa e erro, estamos totalmente polarizados. As eleições vindouras motivam claramente os republicanos para forçarem a confirmação de Kavanaugh antes de novembro.”
Sarah Binder, académica especialista no Congresso

O problema é que nem todos os republicanos estão totalmente convencidos da inocência — ou pouca relevância dos atos — de Kavanaugh. No Senado há duas mulheres republicanas que ainda não revelaram a sua inclinação: Susan Collins, do Maine, e Lisa Murkowski, do Alaska. E até Jeff Flake, do Arizona, membro do Comité Judicial que estava inclinado para votar a favor, declarou que poderia mudar de ideias. “Se avançarem sem lhe dar [a Ford] qualquer oportunidade de ouvir o que ela tem a dizer, não me sinto confortável em votar ‘sim’”, declarou. “E não estou sozinho nisto.”

Flake também colocou os pontos nos is ao ressuscitar o fantasma de Anita Hill, que em 1991 acusou o juiz Clarence Thomas, nomeado para o Supremo Tribunal, de assédio sexual. As audições de Hill no Senado ficaram marcadas pelas declarações pouco empáticas de vários senadores para com a mulher em causa, perguntando se Hill tinha “complexo de mártir” e se não seria “uma mulher despeitada”, como recorda a New Yorker. “Os republicanos ficaram muito mal na fotografia durante as audições de Thomas quando interrogaram a Anita Hill e temos de ser muito melhores do que isso”, declarou Flake.

A própria Anita Hill aproveitou o momento para escrever sobre este caso, pedindo para que não sejam repetidos os erros de que diz ter sido vítima: “Não é possível repetir 1991, mas há maneiras de fazer as coisas melhor”, escreveu num artigo de opinião no New York Times, no qual pediu para que o processo de audiências não seja apressado.

Anita Hill na sua audiência perante o Senado em 1991, onde testemunhou sobre o alegado assédio sexual de que foi vítima por parte do juiz Clarence Thomas (JENNIFER LAW/AFP/Getty Images)

Se, em 1991 o caso ficou enredado nas implicações raciais — Thomas tornou-se no segundo juiz negro a chegar ao Supremo Tribunal —, o clima em 2018 é certamente mais vincado nas questões de género. Com a sombra do #MeToo a pairar sobre o Senado, as implicações deste caso têm cada vez mais peso, sobretudo quando se está à beira de uma eleição onde o eleitorado feminino pode ser decisivo.

“A Casa Branca está a caminhar na corda bomba. Eles não podem ignorar sumariamente estas alegações e alienar o Partido Republicano e as eleitoras independentes nas eleições intercalares. E também não podem abandonar um nomeado que eles e a sua base apoiam fortemente.” O resumo foi feito por Robert Jeffress, pastor evangélico apoiante de Trump que teria todo o gosto em ver um juiz conservador como Kavanaugh no Supremo.

Tudo redundará nas audiências desta quinta-feira, nas quais testemunharão Ford e Kavanaugh. Vão as outras duas mulheres ser ouvidas? O FBI será chamado a investigar? Ou tudo se precipitará numa rápida votação, cujo desfecho é imprevisível? Por agora, ninguém sabe. O juiz Kavanaugh, mais recente esperança dos conservadores para atingir um sonho de décadas, tropeçou na escada dourada até à cúpula do sistema judicial norte-americano; conseguirá pôr-se de pé e recomeçar ou será atirado de vez pelos degraus abaixo antes de chegar ao topo? O tempo continua a contar. Tic tac, tic tac.

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